A Busca

24 A Partida de Mozu


Notas iniciais
Enfim, a última parte da sala Himitsu. Peço desculpas por essa fase chata da história, mas ela é importante para eventos futuros. Boa leitura.

Em outro ponto, fora do dojo, mas ainda dentro do império Gen-Bu, a perigosa reunião do ichigou Kizuato já havia chegado ao fim. Os soldados da terceira divisão levantavam-se um a um, pesarosos e sentidos, mas irredutíveis em suas decisões; eles não concordavam com seu Ichigou e não queriam participar de seu plano, considerado por eles como ousado e, por que não dizer, suicida, já que nenhum deles queria ficar contra os soldados das outras divisões do Gen-Bu, que eram em maior número, e muito menos contra os temíveis capitães, Mozu e Nezuo.

Karras, enquanto guardava de volta na maleta de couro os papéis que usou para comprovar suas teorias, assistia com desesperança as tentativas de Kizuato em convencer seus companheiros a segui-lo.

As tentativas dele foram em vão e, em dez minutos, não havia mais ninguém ali além do padre, do Ichigou e de um último soldado, que estava encostado na janela, a qual se prontificou para ficar vigiando, e agora observava seu chefe de comando, abatido e entristecido como ele nunca havia visto.

─ Pensei que eles fossem fiéis a Rumiko – comenta o padre segurando a bolsa com as duas mãos, pendentes e juntas no meio do corpo.

─ E são... Só estão com medo. Quem não estaria? O Gen-Bu tem um exército rebelde, cujos capitães são dois dos espadachins mais assustadores do Japão. Pelo visto, vou ter que ir sozinho.

─ Sozinho?

─ Não posso desistir. Não agora.

─ Se você é o homem que Rumiko mais confiava, então eu acho que deve mesmo ir. Mas sozinho...

─ Ele não está sozinho – proclama o segundo soldado na sala, ressabiado e ainda olhando para a janela – Eu vou com você!

O ichigou e o padre olham juntos para o último participante da reunião. O homem era mais baixo e menos atlético que o soldado “número Um”. Magro, de cabelos altos com gel e com aparência de cansado, ele não passava a certeza de que queria ir. Havia dúvida em seu olhar, hesitação no modo de se portar. Ainda assim, manteve-se firme em sua decisão:

─ Pelo que entendi a missão se resume, primeiramente, em encontrar Rumiko–Teichou. Que risco pode haver nisso, não é?

─ Sim, mas, com certeza seremos considerados traidores. É melhor você ficar junto com os outros e escolher seu destino. Como eu expliquei antes, a Shushou nos deu permissão para irmos embora do dojo se acaso não quisermos servir ao novo líder.

─ Eu não tenho para onde ir. Quer dizer, eu tenho sim, mas meu lar pertence ao Gen-Bu. E também não tenho o desejo de servir à nenhum dos dois capitães, principalmente agora, que ouvi toda a história de vocês. Além do mais...

O soldado fica em silêncio, refletindo sobre alguma coisa. Não precisava ser um gênio para saber que, mesmo temendo o futuro, aquele homem queria fazer alguma coisa por Rumiko, porque tinha, assim com muitos ali, a sensação de que estavam lhe “devendo” um favor. Isso porque Rumiko, valendo-se de sua condição de capitã, ajudou quase todos os homens que estavam ao seu comando, não só em quesitos referentes ao Gen-Bu, como também em questões pessoais. Os soldados não comentavam entre si e Rumiko mantinha segredo sobre isso, porque para ela, o ato de ajudar seus comandados quando preciso era obrigação de um capitão. Tanto que ela nunca considerou suas ações como um favor a ser retribuído posteriormente.

Revendo o que ela fez por ele no passado, o soldado repete, agora mais decisivo:

─ Eu vou com você, Ichigou, segundo em comando da terceira divisão. E não me peça para desistir a não ser que você também desista.

Karras observa os dois homens se olharem fixamente, um tentando procurar um motivo para fazer o outro desistir, enquanto o outro pensava em um novo argumento para insistir. Se os dois fossem juntos seria melhor, mas Karras ainda acreditava que dois homens seria pouco, portanto o melhor mesmo era que desistissem. Então pensou em interferir naquela troca intensa de olhares e dizer sua opinião, mas antes de qualquer ação sua, o Ichigou tomou sua decisão:

─ Muito bem. Eu não vou desistir. E se você vai comigo, preciso contar com você.

─ Sim, meu capitão – o homem inclina-se em respeito.

─ E não me chame de capitão. Vamos viajar como duas pessoas comuns.

─ Sim. E podem contar comigo. Vocês dois.

─ Oh, não, filho... – o padre ergue as mãos, levantando a maleta – ...eu também vou sair daqui, de hoje para amanhã, mas não vou com vocês. Talvez até nos encontremos pelo mundo afora já que nossos objetivos são os mesmos, mas hoje não vamos para o mesmo lugar. Eu preciso passar em alguns lugares antes.

O soldado olha para o seu capitão, segundo em comando, depois vira-se para o padre e inclina-se em respeito.

─ Bom, então, nos vemos por aí padre. Boa sorte. Contamos com o senhor se acaso encontrar a Teichou antes de nós.

─ Sim. Darei o meu melhor. A propósito, soldado... qual a sua posição no grupo de Rumiko?

─ Sou o número Oito, senhor.

─ Oito? Hummm... isso seria... – o padre leva um tempo para traduzir para o japonês e o Ichigou responde em seu lugar.

─ Hachigou!

─ Hachigou... – o padre vira-se para o chefe de grupo – ...e Ichigou. Boa sorte à ambos.

─ Obrigado padre.

─ Que Deus os proteja – Karras os abençoa fazendo sobre eles o sinal da cruz – e pelo amor de Deus, tomem cuidado. Tomem muito cuidado.

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A frustração de não encontrarem o tão misterioso objeto no piso da Himitsu fez com que os capitães ficassem por muito tempo em absoluto silêncio. Por fim Nezuo, ainda muito aborrecido com os segredinhos de seu companheiro, deu um ultimato, declarando que Mozu, quando saísse daquela sala, não pisaria os pés ali novamente e, portanto, era bom ele sair daquele encontro já com sua parte do tesouro.

Sendo Nezuo o único portador da chave que dava acesso à sala de armas, e agora também o único dono da sala Himitsu, sua ordem poderia até ser contestada, mas não contrariada. Então, ao invés de sair e descansar para voltar no dia seguinte, eles decidiram dormir ali mesmo, na sala secreta. Seria uma noite desconfortável, já que não tinham o costume de dormir num chão empoeirado e frio, mas não era nada que incomodasse Nezuo e, para Mozu, o sacrifício valeria a pena.

Durante as horas que se seguiram, o traiçoeiro Mozu chegou a acordar e observar seu parceiro, roncando profundamente. Estava bêbado demais para acordar por instinto, porém ele, por sua vez, estava assustado demais para tentar alguma coisa. Então torna a adormecer, só voltando a acordar novamente quando já passava das seis da manhã.

Seu parceiro, sentado à frente, também já estava acordado e, num ritual bem diferente do habitual, bebia uma dose de sake no lugar do café da manhã. Mozu levanta-se e se espreguiça, depois fica um bom tempo olhando ao redor antes de retirar de dentro do casaco uma espécie de sacola artesanal de linho, bem resistente, dobrada em várias partes. Ele sabia de antemão que a sala era grande demais para conter apenas dinheiro, mas imaginou que haveria cédulas altas ali e não moedas e barras de ouro, por isso não trouxe uma sacola maior. Ou talvez, quem sabe, duas sacolas.

Nezuo também se espreguiça, sem se levantar, e diz para Mozu se apressar, explicando que quer sair logo dali e tomar um café de verdade. Mozu começa pegando as barras douradas e as moedas, somente as de ouro, e as acomoda no funcho da sacola. As poucas cédulas que encontrou, de 100 bedinas, valor mais alto que se encontra numa nota impressa, foram todas jogadas nos bolsos de sua blusa longa. Procurou também pedras preciosas que fossem fáceis de se trocar ou vender, portanto evitou de pegar objetos que tivessem a cara de “pertencerem à alguém”, como as coroas encrustadas e os objetos com forma de realeza, que ostentavam pedras preciosas como enfeite.

Nezuo continuava sentado, tomando saque diretamente do pequeno pote de barro, observando seu parceiro Mozu andar de um lado para outro, como um rato desnorteado de tanta felicidade por encontrar uma pilha de lixo, até que pergunta finalmente:

─ Vai levar seus homens?

─ Não todos! E pode pegar os que ficarem, se quiser. Não passam de marujos inúteis mesmo.

─ E Kizuato? – questiona Nezuo com um sorriso malicioso, já adivinhando a resposta.

─ Estava pensando nele. E nos outros membros da terceira divisão, também. Você não vai precisar de todos eles, mesmo.

─ Como pode saber? Agora que Gengetsu se foi, é bem capaz que seus inimigos sintam-se engrandecidos e queiram invadir o dojo. Por isso, eu posso precisar de toda a força possível.

─ Kizuato eu vou levar! – frisa Mozu irredutível – Pra compensar, você pode ficar com dez de meus homens no lugar dele.

─ Humm... Vai levar quase todo o ouro do Gen-Bu, os homens de Rumiko, os dois ichigou; Malakai e Kizuato... O que realmente pretende fazer? Se candidatar à Leviatã por acaso?

Mozu se levanta e pega uma adaga de bainha enfeitada.

─ Isso é um sonho grande demais pra mim. Existe um lugar aonde minha perícia com a espada vai me tornar um homem famoso. Logo meu verdadeiro sonho se tornará realidade.

─ E precisa de dois ichigou para isso?

─ Eu não preciso de ninguém! – Mozu exclama exasperado – Só vou levar os homens de Egao para ensinar à eles quem é que manda. Eles têm que aprender uma lição e o momento é agora, que eles não têm mais a saia de Egao para se enfiarem debaixo. Concorda comigo?

─ Não sei. Concordo que os homens da terceira divisão não iam muito com a sua cara. Mas eu nunca tive problemas com nenhum deles. São soldados habilidosos e confiáveis. Mais confiáveis que alguns de meus próprios homens.

“E muito mais confiáveis que você” – Nezuo pensou em dizer, mas apenas sorri ao pensar nisso. Ele cruza os braços e vira seu rosto para a parede ao fundo, olhando novamente para o enorme e estranho espelho de armação dourada, de vidro negro e vazio como o espaço. E mais uma vez teve a sensação de ouvir seu subconsciente lhe advertir: “vocês vão se arrepender...”.

Logo, a voz de seu subconsciente ganha um rosto. O rosto de uma mocinha sapeca, de pele rosada e face sorridente, que emanava uma energia vibrante. E com essa imagem na cabeça, Nezuo abaixa a cabeça para desviar o olhar do espelho e decide perguntar.

─ E quanto a Rumiko?

─ O que é que tem? – retruca Mozu com certo tom de fúria na voz.

─ Acha que ela vai conseguir ressuscitar o nosso mestre?

─ Claro que não, Nezuo! Esse tal de Oz não existe. E mesmo que existisse, não acho que seja possível reviver os mortos.

─ Do jeito que o mundo está hoje... eu não me espantaria se ela conseguisse.

─ Merda! Você está falando igual ao Dai-Sensei. Por acaso a atmosfera dessa sala está afetando sua cabeça também?

Nezuo ergue a cabeça para comentar sobre umas histórias assombrosas que ouviu, mas ao ver Mozu pegando mais moedas de ouro do tesouro de Gengetsu, ele berra enfurecido.

─ Hei, você vai levar tudo? Nós concordamos em dividir meio a meio.

─ Sim, mas, pelo que eu sei... O certo seria que, quando Gengetsu morresse, deveríamos dividir seu império entre os três capitães, ou seja, você, eu e Egao. Como você vai ficar com o Gen-Bu, eu estou levando a minha parte e a de Egao.

─ Errado! Quando Gengetsu morresse, tudo o que ele tem seria meu e somente meu. Estou sendo generoso ao deixar você levar 70 % do tesouro monetário do Gen-Bu. Mas se você continuar com essa usura eu vou ter que reconsiderar.

Mozu põe uma das mãos na cintura, resmungando algo incompreensível, e olha distraído para todos os lados da sala, observando os escudos e adagas cravejadas de pequenas pedras preciosas. É quando se recorda de um item raríssimo, então questiona seu companheiro:

─ Onde está aquela espada mágica? Aquela que o mestre sempre carregava junto com a sua Tachi Makaze.

─ Hum? – Nezuo olha ao redor, procurando – Está se referindo àquela Aikuchi.(1) que soltava faíscas de eletricidade?

─ Sim. Onde ela está?

─ É engraçado você me perguntar isso. Pensei que você já a tinha pegado.

─ Não. Não está comigo. E se não está com nenhum de nós, então ela ficou em Vera Cruz, junto com a Makaze. Que bom! Vou mandar um dos meus homens ir busca-la depois que eu partir.

─ A Makaze não está em Vera Cruz. Não mais, pois Rumiko disse que a guardaria num lugar seguro.

─ Aquela merdinha intrometida. Mas eu já devia saber. Gengetsu adorava aquela espada, então não é surpresa que Egao faria de tudo para possuí-la como arma.

─ Idiota. A Makaze é maior que Rumiko. Ela não ficou com a espada para uso. Ela a escondeu em algum lugar até seu dono voltar.

─ “Até seu dono voltar”? – Mozu bufa um risada – Ainda está preocupado com a ressurreição de Gengetsu?

Nezuo vira o rosto para encarar o companheiro, sem nada responder.

─ Se for... – segue Mozu – ...saiba que, de acordo com os documentos assinados por Egao, o corpo do Dai-Sensei deve chegar amanhã ou depois de amanhã. Quando chegar, faça o que você achar melhor para acalmar os seus nervos.

─ O que está insinuando?

Mozu ergue a mão, com os dedos retorcidos, como se fosse uma garra, e explica com furor no olhar:

─ Queime-o. Desmembre-o. Jogue-o aos crocodilos que Gengetsu tanto adorava. O Dai-Sensei não vai poder voltar à um corpo que não existe, concorda comigo?

Desta vez foi Nezuo a cair numa gargalhada devassa, embora que sonorizava bem sua falta de vontade de rir.

─ Pensei que eu era o único a estar ficando louco aqui – diz ele – Esquece o que falei. Só estou cansado e com fome. Vou melhorar assim que sairmos daqui.

─ Menos mal. É bom mesmo sairmos daqui, já que tudo nesta sala parece fazer você lembrar-se de Egao. Isso meio que me irrita.

─ O que quer que eu diga? – Nezuo caminha cambaleante até a porta – Não sou obrigado a gostar dela, mas não posso negar que ela fez parte de minha vida. E da sua também.

─ É... – Mozu coloca uma das mãos sobre o corpo, local onde, abaixo das roupas, os documentos secretos de Rumiko estavam escondidos, e sussurra –...e logo ela não vai fazer parte da vida de mais ninguém.

─ O que disse? – grita Nezuo ao fundo, já do lado de fora da sala.

─ Nada! Eu não disse nada.

Mozu junta as mãos à frente do corpo, disfarçando sua ironia. Estava tão animado por ter descoberto aqueles papéis secretos que, por causa de sua afobação descontrolada, ele mal conseguia se conter. Não iria mostra-lo à ninguém desinteressante, mas queria dividir sua descoberta com qualquer um que soubesse apreciar o tesouro que tinha em mãos. E uma pena que não poderia ser Nezuo. Os dois gostavam desse tipo de assunto, tinham interesse nos segredos dos estilos marciais dos outros, mas Mozu queria alguém que, tal como ele, odiasse Rumiko do fundo do coração. E ele tinha dificuldade em saber o que exatamente seu parceiro pensava ou sentia em relação à Egao.

─ Esse lugar está me matando – Nezuo puxa a gola da camisa para aliviar o pescoço – Se já pegou tudo o que queria, vamos sair daqui.

─ O que vai fazer com o restante das coisas que não são dinheiro, como os quadros, os artefatos de argila e aquele espelho horroroso? Não pode deixa-los aí para sempre.

─ Por enquanto vão ficar onde estão. Quando eu tiver um tempo vou retirar todo o dinheiro que você fez o favor de deixar lá e abandonar este lugar para sempre.

Nezuo pensa em deixar a Himitsu aberta para aproveitar a luminosidade na ponte. Tinha a sensação de que, se acaso fechasse a porta, as luzes se apagariam. Contudo, recordou-se que elas foram acesas com um contato de chave de força então ousou arriscar. E ao fechar a pesada porta de aço e girar a potente fechadura em barra, percebeu que as luzes permaneciam acesas. Então não era assim que Gengetsu fazia. De algum modo, ele apagava as luzes antes de sair daquele porão. Mas Nezuo decidiu pensar sobre isso depois. Bem depois.

Após alguns problemas de locomoção, incluindo a dificuldade que tiveram no elevador, os capitães finalmente chegam ao andar superior e caminham em direção da saída. E chegando no portão principal do Dojo, Nezuo recosta-se na batente da porta, exausto e zonzo, enquanto Mozu continua a caminhada até o meio do corredor formado de pessoas que se preparavam para a despedida, tal qual foram avisados na noite anterior.

Ainda nos degraus da entrada do dojo, Mozu olhou para os homens por alto, como se procurasse por alguém em especial, depois resmunga para um dos soldados de seu grupo, que estava mais próximo dele.

─ Onde estão os homens da terceira divisão?

─ Eles já se foram senhor. Tinham permissão para partir do dojo se assim desejassem.

─ Permissão? Quem lhes deu permissão? – Mozu procura seu Ichigou, o único que tinha o direito e a obrigação de se reportar aos capitães quando algo assim acontecia.

Não viu precisão de chama-lo, pois o homem se aproximou logo em seguida, ajoelhando-se.

─ Senhor! – ele diz com reverência, estendendo um pedaço de papel.

─ Que história é essa? – o capitão pega o pedaço de papel e observa com desgosto ao ler.

Era o pedaço original da carta que foi enviada à Kizuato, recortada exatamente na parte que interessava aos capitães. Mozu vê o nome de Rumiko, assinado logo abaixo de uma dispensa oficial de seus homens, e o carimbo feito por Gengetsu para cada capitão, que autenticava e interpretava seus desejos e decisões como ordens. Mozu abaixa os braços:

─ Então aqueles covardes se foram? Quando foi isso?

─ Foi esta madrugada, meu senhor. Pouco antes do amanhecer.

─ Hunf! Então eles não devem estar muito longe. Considerem os homens de Rumiko como traidores. Como última ordem minha, quero que vasculhem todo o Japão, encontrem, prendam e, se preciso, matem esses insolentes.

─ Sim, meu capitão.

Mozu faz um gesto para que seu ichigou fique de pé e lhe passa uma ordem direta:

─ Eu quero que venha comigo, mas antes, escolha quinze de nossos melhores homens e peça para eles reunirem as armas e objetos que precisaremos e nos encontrem daqui à algumas horas no porto ao leste. Diga-lhes que nós os esperaremos em um dos hotéis do porto. Vamos partir hoje à tarde.

─ Sim meu senhor. Farei isso agora mesmo.

─ E mais uma coisa.

Mozu passa-lhe mais algumas ordens, em tom de voz baixo para impossibilitar que outros escutem. O seu ichigou assente com a cabeça e se vai. Mozu endireita o corpo e, com certa dificuldade por causa do peso em suas mãos, passa entre os soldados das duas divisões, prostrados perante ele. Sentia que a sacola, mesmo sendo tão resistente, logo se partiria, por isso a arrastou com cuidado e sumiu portão afora, indo para um edícula localizada ali perto, ainda dentro do terreno do Gen-Bu, onde esperaria seu ichigou retornar. Dez minutos depois, enquanto ainda descansava já dentro da edícula, Mozu, vendo-se completamente sozinho, sentado em um banco no fundo da parede, pega um aparelho celular e liga para um número não salvo em sua agenda eletrônica.

─ E então – começa Mozu – como foi o serviço? Deu tudo certo?

─ Sim senhor – uma voz conhecida responde do outro lado – Recebi um telefonema anteontem à tarde dos rapazes. Eles me disseram que iriam cumprir a missão na madrugada de ontem, isso no horário de Brasília.

─ Quer dizer que, a essa altura, eles já cumpriram a missão. Eles já retornaram a ligação relatando o término do trabalho?

─ Anh... Não senhor. Ainda não.

─ Então eles fracassaram e já devem estar fora de ação. Eu assumo daqui por diante.

─ Mas meu senhor. Não acho que meus homens fr...

Mozu desliga o celular antes que seu contato termine a frase e arremessa o aparelho de encontro à parede. Estava irritado porque admitia que a culpa era sua. Devia ter esperado o momento certo para mandar alguém mais competente ou, quem sabe, ter cuidado pessoalmente do caso quando teve chance.

Ele apoia os cotovelos sobre os joelhos e repousa o queixo nos punhos, completamente absorto em pensamentos. Mais dez minutos e seu ichigou aparece, trazendo os itens requeridos secretamente pelo seu capitão; uma a sacola, dois sacos de couro pretos com zíper em sua abertura e uma bolsa enorme e marrom com detalhes amarelos, contendo alguns objetos importantes para a viagem que viria.

Mozu pede para Malakai fechar a porta da edícula e logo em seguida, começa a separar as cédulas e as barras e moedas de ouro e prata, colocando o montante em um dos sacos. Depois fecha o zíper, coloca o embrulho dentro de uma sacola e começa a fazer o mesmo com o outro montante, só que desta vez, ele retira uma pasta de arquivos de dentro das roupas e coloca no fundo da segunda sacola.

─ Para onde vamos exatamente? – quis saber Malakai.

─ Vamos para um lugarzinho perdido do mundo, meu ichigou. Chamado Ilha Del Rey. Fica no Panamá. Ou melhor, no lugar que assim se chamava antes do Fim do Mundo.

─ Espere. Vamos voltar para a América de novo? Pensei que odiasse aquele continente.

─ De fato. Mas é de lá que meu desejo vai se inicializar. É, por ironia, bem perto do país onde Gengetsu bateu as botas.

─ E foi onde a teichou Rumiko morreu também.

─ Egao... Ela ainda não morreu.

─ Mas o senhor disse...

─ Eu sei o que disse! Mas acredite, foi melhor para os mancebos da 3ª divisão acreditarem que ela está morta. Eles precisavam de um capitão de verdade.

─ E o senhor seria perfeito. É uma pena que todos aqueles idiotas foram embora.

─ Sim...Uma pena mesmo – a imagem de Kizuato vêm a cabeça do capitão. Ele queria muito ter o 3º ichigou consigo nessa viagem.

─ Já que a teichou ainda está viva, quem sabe não nos encontremos com ela algum dia.

─ Isso seria bom... – Mozu exibe um sorriso misterioso, lembrando-se do documento secreto sobre Rumiko, agora na sua bolsa – Isso seria muito bom.

Notas finais
1 – Aikuchi = É um termo usado para uma espada sem Tsuba (guarda para as mãos, que fica entre a lâmina e o cabo). Este modelo era mais fácil de esconder, mas não era muito atraente aos olhos dos samurais ou guarda-costas. Ficaram populares entre mulheres (para proteção) e membros da Yakuza. * Relembrando: Makaze é o nome da espada de Gengetsu. Ela é uma Tachi, ou seja, uma espada parecida com a katana, só que de lâmina mais longa.