A Busca

25 Hotel Genevie


Notas iniciais
Longo capítulo. Desculpem.

Já eram pouco mais das 11 da manhã quando o detetive Vargas chegou aos portões do luxuoso hotel cinco estrelas de 22 andares, localizado no centro de Saltos, onde tinha um apartamento alugado em nome de sua corporação, a Força Nerak. Estava cansado demais por ter dormido pouco e irritado demais por causa da enorme dor em sua perna, que estava pior agora. Por isso, ansiava por um demorado banho de banheira, planejava deitar-se na cama e só levantar quando fosse se encontrar com Kaito lá pelas tantas da noite.

Quinze minutos depois, no seu vigésimo primeiro andar e já dentro da banheira, relaxando, ele já sentia as maravilhas de não possuir dor, graças ao milagroso medicamento misturado na água morna. Vargas passa para a segunda fase do banho e começa a massagear as duas pernas, conforme lhe foi ensinado por um índio, que ele conheceu em suas viagens de férias na floresta amazônica, e que também lhe indicou o medicamento o qual ele, uma vez por semana, deveria usar na hora de se banhar.

Terminado a massagem, o detetive se recosta na beirada da banheira e respira bem fundo, completamente satisfeito com o resultado final. Enquanto ficasse ali, deitado e sem colocar peso do corpo sobre a perna, ela não doeria nem um pouco. Podia sentir-se como antigamente. Não nos tempos de garoto, quando corria e jogava bola. Com a idade que tinha, não faria mais isso nem que estivesse com as duas pernas sãs. Mas poderia fazer longas caminhadas e alpinismos. Ele adorava alpinismo. Praticava sempre que podia.

Enquanto gozava das imagens de um passado recente, relaxando cada vez mais, seu celular toca. Ele atende forçando uma voz sonolenta, mas logo a endireita ao perceber quem ligava.

Era uma das secretárias da décima segunda delegacia de polícia da cidade de Saltos. E numa conversa sem muitas delongas, ela explica que tinha uma ligação a ser transferida, cujo assunto era referente ao caso Rudolf, do qual Vargas era um dos investigadores.

Vargas havia emitido um alerta, naquela manhã mesmo, informando que todas as delegacias de Saltos deveriam entrar em contato com todos os hotéis e motéis da região, se acaso alugassem um quarto à alguém parecido com o perfil raso da pessoa que ele estava procurando. No caso um rapaz ruivo. O perfil era simplório demais e Vargas não tinha como acrescentar mais detalhes, por isso pediu que o denunciante tivesse um pouco de bom senso antes de ligar para ele, declarando o que a pessoa em questão teria de estranho para que merecesse ser investigado.

Vargas diz para a moça dar o seu número de celular à essa pessoa e pedir para que ligasse diretamente para ele. Assim que a linha entre eles é desligada, Vargas recoloca o celular no banquinho e fica a observar o aparelho, ansioso. Dois toques bastaram para o detetive agarrar o aparelho e até mesmo ser o primeiro a falar.

─ Aqui é o Detetive Vargas.

─ Bom dia, detetive. Eu sou Francisco, funcionário do Genevie. Um hotel no bairro nobre de Germano na zona norte de Saltos.

─ Eu sei onde fica seu hotel, filho. Já me hospedei aí.

─ Mesmo? Que bom. Primeiramente é uma honra falar com o senhor. Soube que trabalha para a Força Nerak e... bom, o motivo de minha ligaç...

─ Estou ciente do motivo de sua ligação e imagino que seja porque deve ter alugado um quarto para um rapaz ruivo.

─ Isso mesmo.

─ E você deve saber que não temos apenas um rapaz ruivo no mundo. Nem no país, nem nesse estado ou nessa cidade. Pode até ser difícil encontrar mais de um ruivo em um único bairro, mas não é impossível.

─ Claro. Entendi, senhor. Mas eu estou a par das características que assistem em minha suspeita. O rapaz em questão não me disse o nome. Isso é comum hoje em dia, não precisamos dos nomes das pessoas para alugar um quarto por um dia. Mas ele queria que eu alugasse um quarto com os requisitos de clientes confidenciais.

─ O que isso significa?

─ Um quarto com esses requisitos protege o cliente até de uma intervenção da polícia. Ele disse que queria alugar um quarto assim, mas desistiu na última hora.

─ Humm... – Vargas coloca a mão no queixo – Ainda assim... não vejo nada de suspeito nisso.

─ Não sou especialista no assunto, mas posso assegurar que ele parecia estar fugindo. Ele estava com uma mochila enorme nas costas. Acho que daqui ele iria acampar ou, no mínimo, sair da cidade ou viajar, sei lá.

Vargas retorce os lábios. Esse fato representava um problema. Se esse suspeito fosse quem Vargas está procurando, essa seria uma chance de ouro, tanto para pegá-lo quanto para ele escapar, pois o perímetro que foi dado aos poderes e cuidados de Vargas se limitava à cidade de Saltos. Fora dali, ele não mandaria mais nas delegacias ou hotéis sem a aprovação de seu chefe.

─ Isso é mal... – ele diz baixinho, tentando decidir o que fazer.

Através da porta aberta do banheiro, Vargas olha para o relógio, pendurado na parede ao lado de fora, na sala de estar. Faltava 5 minutos para o meio dia. Como bom detetive que ele era, o certo seria investigar. Mas a bem da verdade, Vargas não queria sair de casa novamente tão cedo, então fingiu ter interesse.

─ Quanto tempo ele vai ficar aí?

─ Eles pagaram por uma estadia até amanhã de manhã.

─ “Eles”? Quem são “Eles”?

─ Oh, esqueci de dizer? O ruivo está acompanhado de uma moça.

─ Uma moça? – que coincidência inesperada, reflete o detetive, se interessando de verdade – Ela era jovem?

─ Hã? Sim. Deve ter dentre quinze e dezoito anos. Era bem educada.

─ Baixinha e de pele rosada?

─ Era clarinha e baixinha, sim. Cerca de um metro e meio ou pouco mais.

─ Então não era uma prostituta – sussurra Vargas, questionando em seguida – Diga-me, senhor Francisco, esse rapaz ruivo estava com alguma coisa nas mãos? Um bastão ou algo do tipo?

─ Sim... Ele segurava um bastão. Prateado se não me engano. Mas não o segurava para andar. Na verdade, ele o segurava de modo bem agressivo, tipo um porrete ou algo assim.

Vargas sentiu seu corpo gelar dentro da água morna da banheira. As coincidências eram demais para não ser o casal de adolescentes do motel anterior.

─ Continue com o bom serviço e aja naturalmente. Já que eles pagaram por um quarto até amanhã, faça o possível para mantê-los no hotel. Chegarei aí tão logo consiga resolver alguns pequenos impedimentos.

─ Sim, senhor. Sem problema

O detetive desliga o celular e disca outro número enquanto sai da banheira e pega uma toalha, pendurada em um gancho nas paredes azulejadas do banheiro. O atendimento é imediato.

─ 1ª Delegacia de Germano, bom dia.

─ Telefonista, eu sou detetive estou envolvido num caso que não posso revelar. Recebi uma denúncia, cuja pista recente me indicou seu bairro. Quero que deixe dois policiais avisados e prontos para auxílio numa possível operação.

─ Só podemos liberar homens com permissão de nosso delegado, senhor. E isso precisa ser feito antecipadamente. Vou passar seu pedido à ele e deixa-lo a par da situação.

─ Isso vai demorar. E eu tenho autorização para fazer um pedido dessa importância. O meu nome é Damião Vargas, sou detetive da Força Nerak.

A palavra “Nerak” pareceu fazer a mulher engasgar.

─ Um... Um momento senhor.

Vargas solta um ruidoso suspiro para deixar a moça ciente de sua irritação e acelerar ao máximo as coisas. Agora que deu seu nome completo, os trâmites seriam os seguintes; um telefonema seria feito à Força Nerak e um pedido para confirmação de funcionário seria expedido, para saber se algum detetive com o nome de Damião Vargas trabalhava no local e qual seria seu número de contato. Só após tudo isso é que ele dariam a ordem à delegacia, de que eles deveriam apoiar Vargas em tudo o que fosse possível.

Dito e feito, a telefonista volta ao telefone dizendo os procedimentos que deveriam ser executados antes de retornar a ligação. Também levaria tempo e sobre isso, Vargas nada poderia fazer, então decidiu usar esse tempo de espera para fazer algo mais frutífero. Ele desliga o celular e começa a se secar mais apropriadamente, pega umas peças de roupas num baú aos pés da cama, veste-se rapidamente e arma-se com sua pistola de longa data; uma .40 que adquiriu tão logo se formou detetive na academia de polícia de Saltos, muitos anos atrás. Por fim, pega seu celular novamente e disca para um dos poucos números guardados na memória do aparelho.

─ Bom dia, detetive ─ diz a voz do outro lado.

─ Kato. Estou à um passo de um possível e provável suspeito do caso Rudolf. Vou no encalço dele daqui a pouco e estou ligando para te deixar avisado e pronto para que vá para lá também.

─ Sim, senhor.

─ Mais tarde eu vou te ligar novamente e lhe passar o endereço do local. Você já está em casa?

─ Estou indo para lá, senhor.

─ Ótimo! Aguarde lá, então.

Vargas torna a olhar no relógio de parede. Meio dia e vinte minutos. Ele senta-se no sofá de couro branco e liga a t.v para se distrair enquanto espera a maldita ligação da delegacia de Germano.

Nesse meio tempo, a emissora que assistia exibiu um vídeo durante um intervalo comercial que, na opinião de Vargas, era um dos mais tristes dos últimos tempos. A gravação mostrava várias crianças de famílias e classes diferentes, dos quatro aos dez anos de idade, chorando e pedindo pelo retorno dos pais. A intenção era reforçar e reanimar as buscas e investigações sobre um caso recente de sequestro ou desaparecimento, onde cerca de mais de duzentos homens simplesmente sumiu do mapa.

Esse caso já tinha pouco mais de duas semanas e era considerado um dos mais misteriosos dos últimos anos na Ilha de Vera Cruz, pois todos os homens eram funcionários de uma fábrica metalúrgica multinacional. Foi apelidado de “Lanternas Perdidas”, tendo em vista que a metalúrgica fabricava, dentre outras coisas, lanternas portáteis de vários tamanhos para varias ocasiões.

A fábrica foi vasculhada de cima à baixo, seus superiores interrogados, seus papéis revirados e nada. Chegaram à conclusão lógica de que a metalúrgica não tinha nada a ver com o caso e não sabia de nada. O presidente da empresa, aliás, até se ofereceu para ajudar no que fosse preciso, pois as suspeitas de seu envolvimento no caso estava manchando o nome da empresa.

Vargas tinha muito interesse no caso das Lanternas Perdidas desde o primeiro dia do fato, porque seria um ótimo jeito de se aposentar. Ótimo não, perfeito! Mas aí apareceu o caso do assassinato do prefeito Rudolf e os mistérios que o envolve, e a responsabilidade do mesmo foi passado à Vargas simplesmente pelo fato de ele ser cidadão de Saltos.

Embora nascesse ali, Vargas não vivia mais em Saltos. Hoje em dia ele só volta àquela cidade uma única vez por ano, para passar alguns dias de repouso. Tempo que ele usa para visitar o túmulo de sua esposa, coisa que ele ainda não fez desde que chegou. Mas fora isso, não havia outro motivo para voltar à viver naquela cidade. Por isso Vargas acreditava que foi muito azar Rudolf ser assassinato justamente na semana em que ele passaria um tempo ali, naquela saudosa cidade.

O jornal volta ao ar e uma lista de matérias sobre os fatos mais recentes é exibida, para atualizar os espectadores. E ao ver que o canal de jornalismo não falou nada de muito profundo ao assunto do prefeito Rudolf, além do fato de que ele foi assassinado e de que a polícia está trabalhando no caso, Vargas salienta:

─ Pelo menos estão respeitando a privacidade da minha investigação.

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Voltando um pouco no tempo, exatamente às 11:30 da manhã, no bairro de Germano, em um dos quartos do hotel Genevie, Petruz observava curioso o ato de Rumiko erguer as barras da calça de moletom que trajava e retirar um par de tornozeleiras, que cobriam um terço de sua canela e davam uma volta por baixo da planta de seu pé. O ruivo já tinha reparado ela fazer algo do tipo antes, mas na ocasião, não possuía ainda intimidade para perguntar. Ainda não se achava íntimo o bastante, mas agora estava curioso demais para deixar passar.

─ O que é isso? – pergunta ele apontando um dos objetos.

─ Tornozeleiras de peso – diz Rumiko simplesmente, colocando os objetos ao lado das sapatilhas vermelhas.

─ Como é? – Petruz se inclina e pega uma delas, e deduz que, juntas, deveriam somar uns dois ou três quilos – Por que você usa esses pesos nos pés?

A moça se vira para Petruz com seu olhar enigmático. Que resposta ele gostaria de ouvir? Ela não sabia para quê mais uma tornozeleira de peso serviria, a não ser para aumentar o peso, então exibe um sorriso envergonhado e complementa:

─ Rumiko é muito leve, senhor. Por isso as usa para aumentar o peso.

Ela nota que Petruz pareceu ainda não entender, então abana as mãos, no intuito de fazê-lo esquecer. Se quisesse aprofundar mais aquele rumo de conversa, bastaria dizer à Petruz que ela também usa uma espécie de espartilho no tronco do corpo, mais pesado que o normal, que também tem como única utilidade a função de aumentar seu peso.

Porém, o tempo que passará ao lado do ruivo é curto e ela não gostaria de desperdiça-lo falando sobre suas trivialidades e bobagens pessoais, por isso deu a entender que queria encerrar o assunto e inicia uma outra conversa:

─ Senhor Petruz, enquanto esperamos até o almoço, Rumiko vai tomar um banho. Antes porém, gostaria de lhe pedir um favor.

─ Claro!

─ Quero que informe Rumiko, se acaso ouvir qualquer coisa sobre o caso do prefeito Rudolf.

─ O prefeito Rudolf? – “ah é, ele foi assassinado”, lembra uma voz na cabeça de Petruz – Sim, claro Rumiko. Pode deixar.

─ Arigatou!

A moça abre sua bolsa, retira uma camisa branca, perfeitamente dobrada, e pega os apetrechos de sempre quando vai se banhar. Já Petruz gruda o olhar na t.v. Ele odiava telejornais e programas empenhados em fofocar da vida pessoal de famosos. Ficou, portanto, vendo as matérias com um segundo foco de atenção, com os pensamentos voltados para outras coisas.

Pouco tempo depois entrou o intervalo comercial. Sem ter o que fazer pelos próximos quatro ou cinco minutos de propaganda, Petruz pensa nas revistas que Rumiko lhe mostrou um tempo atrás. Lembrou-se que tinha algo que ele queria comentar com Rumiko à respeito do que lera em uma daquelas revistas mas, de pronto, não se recordava o que era. Quem sabe se ele as folheasse, suas recordações talvez viessem à tona.

Ele apanha a enorme e pesada mochila cilíndrica de Rumiko e procura pelas revistas, que ficavam num compartimento ao lado de fora da bolsa, fechados por um zíper fino. Retirando e averiguando as três revistas, uma sobre Oz, outra sobre alpinismo e a última sobre pedras preciosas, Petruz se recorda de súbito que a informação que queria debater com Rumiko foi vista naquela sobre alpinismo. Ele guarda as outras duas revistas e reinicia a procura para se lembrar do assunto.

No banheiro, dentro do box, Rumiko já havia enrolado e prendido sua trança no topo da cabeça, e agora deixava as águas quentes do chuveiro lhe banhar dos ombros para baixo. A água estava deliciosamente quente naquela tarde fria, formando vapores que em pouco tempo embranqueceram os vidros azulados do box.

Vinte minutos depois, ela já estava satisfeita e pronta. Ao sair do banheiro e ir até a área de dormir, ela encontra-se com Petruz sobre uma das camas, folheando uma de suas revistas com bastante interesse. Rumiko se posiciona no meio das camas, pisando no carpete macio e esverdeado que forrava toda área entre os móveis e apoia-se na cabeceira da outra cama logo atrás para secar os pés.

─ Peguei essa revista em sua bolsa – o ruivo ergue e mostra a capa – Espero que não se importe.

─ Claro que Rumiko não se importa.

─ Que bom. Eu descobri uma coisa que você deve ter deixado escapar.

─ Hooon... – a moça apruma-se, curiosa – Rumiko está ouvindo.

O ruivo sorri, passando as páginas da revista rapidamente. Estranhamente adorava quando Rumiko dizia aquilo.

─ Olha só – Petruz mostra a página e as linhas onde leu as informações que iniciariam sua tese e explica – Você disse que não sabia onde encontrar o templo de Ophis. Mas aqui explica exatamente em que local ele se encontra. Deixa eu ler pra você que o nome é meio...

─ Herodotus – Rumiko solta sua trança, presa ao topo da cabeça – uma montanha na Grande Alexandria, formada com o auxílio dos desastres do fim do mundo.

─ Então você...?

─ Rumiko leu essa revista da primeira das vogais ao último dos pontos finais, senhor Petruz. E o paradeiro do templo de Ophis é o único motivo de Rumiko tê-la comprado então não teria como Rumiko deixar escapar uma informação assim.

─ Ué? Você disse que não sabia onde Oz se encontrava.

─ Rumiko não sabe. A revista diz que Herodotus é o local onde o templo deveria estar, mas esse ele não está lá. Essa informação é antiga então, obviamente, isso já foi averiguado.

─ Que esquisito.

─ Contudo, não existe prova de que ele esteja em outro lugar que não em Herodotus.

─ Ei, eu ainda não entendi.

Rumiko faz um sinal para o ruivo esperar, guarda sua toalha dentro de um saco plástico, destinado à isso, e inclinando-se perto de Petruz com um sorriso estranho, abre mais seus grandes olhos.

─ Senhor Petruz, o senhor já ouviu falar em Edgar Cayce?

─ N-não! – Petruz se afasta automaticamente, acanhado com o envolvente perfume da moça – Nunca ouvi esse nome antes.

─ Ele foi um homem que vaticinou coisas que já aconteceram. Como o Fim do Mundo, por exemplo, em que ele disse que uma força misteriosa provocaria uma mudança no equilíbrio do planeta e seu eixo se deslocaria, o que causaria os terremotos e deslizamentos, erupções vulcânicas e avalanches. Falou que as terras quentes, frias e semitropicais se aqueceriam por causa dos deslocamentos dos polos, e nessas terras nasceriam musgos, fungos. Interpretamos isso como novos tipos de microrganismos. Disse também que uma nova terra apareceria. Por “nova terra”, ele quis dizer uma nova ilha. Entende o que Rumiko quer dizer?

─ A Ala Negra? E por microrganismos você quer dizer...? Está falando do vírus D4?

A moça sorri brilhosa, quase batendo palmas. Petruz era receptivo. Percebeu que ele estava meio assustado com sua abordagem, mas era receptivo. Ela nunca tivera a oportunidade de falar daquele sujeito com alguém antes. O próprio Gengetsu, que sempre a ouvia calado, gostava de deixar claro sua opinião sobre os profetas e os messias da vida. “Um bando de charlatães” – ele dizia.

─ Apesar de seus acertos, todo o profeta erra. Alguns inclusive nunca acertam. E dentre os muitos erros do senhor Edgar, ele disse que havia uma biblioteca secreta, a biblioteca de Atlântida, escondida abaixo da Esfinge, no Egito – Rumiko vira-se, ficando de costas para Petruz – Contudo, muito tempo depois, foram feitas algumas buscas e comprovaram que não tinha nada lá. Na época, só isso bastou para tirar toda a credibilidade de profeta do senhor Edgar.

─ E você acha que ele estava certo? Acha que tem uma biblioteca embaixo da Esfinge?

─ Iie! Não existe uma biblioteca de Atlântida. – Rumiko vira um pouco o rosto e olha para o ruivo com o canto dos olhos – Não mais. E o melhor jeito de mostrar que uma pessoa está errada, é provando que ela está errada.

A moça encerra suas explicações. Petruz olha de lado, observando o livro sobre a cama, aberto na página onde havia uma foto da montanha conhecida como Herodotus. Havia entendido onde ela queria chegar, mas ao perguntar o que Rumiko iria fazer, ela explicou:

─ Dizem que Ophis não está em Herodotus. Contudo, Rumiko vai exatamente para lá, porque tem um palpite, que muita gente também deve ter tido, mas que... deixou... escapar.

O som da voz de Rumiko diminui ao passo que ela olha para a t.v. Estranhando seu gesto, Petruz faz o mesmo, e vê que a televisão anunciava o início dos resumos jornalísticos, com todas as mais importantes notícias do país e do mundo. Rumiko mostra mais interesse pela tela do que pela conversa que pleiteava, então sobe na cama, sentando-se na parte alta, encostada à cabeceira, e foca-se nas imagens exibidas na televisão.

Respeitando a atenção de Rumiko, o ruivo também manteve os olhos fixos na tela por muitos minutos, até que repara, com alívio, que o relógio acima da estante marcava pouco mais de meio dia.

─ Bom! Vamos almoçar? – ele questiona num salto, já calçando os tênis.

─ Hai... – Rumiko responde sem se mover da cama – Faz um favor para Rumiko, senhor Petruz. Trás o nosso almoço para cá, por favor.

─ Bom... claro, claro. Sei que não quer perder o jornal. Se o recepcionista deixar, eu...

─ Diga à ele que sua companheira não está se sentindo bem e negue qualquer intervenção médica que ele queira oferecer. Se mesmo assim ele não deixar, a gente desce e almoça em outro lugar.

─ Certo.

O ruivo sai pela porta, sendo acompanhado pelos olhos grandes do rostinho sorridente de Rumiko. Assim que escuta os passos do rapaz se afastarem no corredor, Rumiko desfaz o sorriso e observa a t.v. com aparente preocupação.

─ Que estranho... – ela caça o controle remoto ao seu lado e passeia pelos canais, procurando outra emissora especializada em tragédias e catástrofes.

Rumiko aguardava ansiosa pelo meio dia, porque era o horário em que se iniciava, praticamente em todos os canais com teor jornalístico de qualidade, uma grade de programação com os mais importantes eventos do dia e da semana. E entre uma matéria sem importância e outra, Rumiko passeou entre os canais jornalísticos, esperando encontrar uma chamada para a notícia de Rudolf, e procurou até que Petruz voltasse com as refeições. Ela deixa a sintonia da T.V no melhor e mais respeitado canal em matéria jornalística do horário e passa uma olhada rápida em seu companheiro.

Vê que ele trazia uma bandeja enorme, com uma tampa de vidro ou acrílico transparente. Notou com certo alívio as duas mãos do ruivo na parte de baixo da bandeja, com os polegares dobrando nas laterais. Ela o acompanha com os olhos até que Petruz coloca o objeto sobre a cama de Rumiko, de frente aos pés dela e, antes de qualquer outro ato, a moça lhe questiona:

─ O senhor abriu a bandeja no caminho?

─ Hã? Não, claro que não. Mas pela fome que estou isso não vai demorar.

─ Vamos esperar até às 13hs00 antes de almoçarmos, senhor.

─ O quê? Rumiko, até lá a comida já esfriou.

─ Por favor, senhor Petruz. Só mais uma hora. Nem isso.

Petruz pensa em dizer que está morrendo de fome. E realmente estava, mas ainda não entendia o porquê da moça estar agindo daquele jeito. Parecia estar desconfiada desde que chegaram naquele quarto de hotel. Seja o que fosse que a incomodava, ele sentia que deveria ouvi-la. E obedecê-la.

─ Está bem. Vamos esperar.

A moça lança um sorriso à Petruz, agradece e diz para ele colocar a bandeja na mini cozinha sem tocar na tampa. O ruivo não discute. Ele leva a bandeja até o local indicado e coloca-a sobre armarinho vazio, da mesma altura da pia, encostado à uma parede fina de gesso. E recebendo forças, sabe-se lá de onde, para resistir àquele aroma apetitoso, ele afasta-se definitivamente da bandeja e volta para o quarto de dormir. A moça continuava séria, focada. E Petruz não ousou tirá-la daquele transe.

Ele senta-se na outra cama e também volta-se para a televisão. E assim se mantém em silêncio, suportando aquela chatice jornalística e aguardando o relógio digital no pequeno rack marcar a tão esperada 13hs00min.

Nesse meio tempo, o jornal televisivo mostra a aguardada matéria sobre Rudolf. Petruz nota Rumiko se posicionar melhor, puxando as pernas e apoiando-se nos tornozelos, redobrando a atenção e a seriedade. A moça realmente estava ansiosa em saber o que seria dito sobre a morte de Rudolf.

Só que não ficou nada satisfeita ao ver uma chamada rápida, de menos de um minuto, mostrando imagens em movimento do prefeito em outros eventos que nada tinham a ver com aquele do dia em que foi atacado. E sobre sua morte, falaram somente o óbvio; o prefeito Rudolf foi assassinado. O suspeito ainda não foi encontrado. O crime está sendo investigado. E pronto! Não mostraram filmagens do local do crime. Não mostraram as pessoas envolvidas. Não entrevistaram nenhuma das pessoas que estavam assistindo a palestra política no dia do acontecido. Sequer perguntaram a opinião de algum especialista em homicídios ou jornalista criminalista.

─ Uma mixórdia de matéria – declara Petruz num deboche, sem se virar para Rumiko.

─ De fato – ela concorda.

─ Era isso que você queria ver? Podemos comer agora?

Rumiko olha para Petruz sem expressão alguma. O ruivo só pensava em se alimentar e com razão, já se passava da hora do almoço o corpo dele ainda não estava suficientemente forte para se acostumar à alguns atrasos. Rumiko se levanta da cama, recoloca as tornozeleiras de peso, calça rapidamente as sapatilhas e começa a guardar suas coisas.

─ O que está fazendo? – quis saber Petruz.

Rumiko continuou, olhando aqui e ali, pegando seus petrechos e arrumando na bolsa. A moça só parou quando Petruz lhe pegou no cotovelo, refazendo a pergunta com mais afinco.

Rumiko então sentou-se na cama. Não poderia assustar Petruz ainda, mas precisava protegê-lo. Essa era a primeira regra, proteger Petruz. Aquela adorável tranquilidade que ele transmitia precisava continuar, mesmo que para isso, nesses primeiros dias, eles precisassem fugir.

Rumiko recupera o controle de suas emoções enquanto avalia a situação. Ainda tinha alguns minutos antes das 13:00 horas.

─ Senhor Petruz... – ela volta seus grandes os olhos para o ruivo – o senhor ainda quer continuar com Rumiko?

─ Hã? Claro que sim. Já falamos sobre isso, não é?

─ Sim, mas... A situação agora mudou um pouco de figura.

─ Droga Rumiko – Petruz fala baixinho, sentando-se ao seu lado – O que está acontecendo? Me diga, por favor.

Rumiko observa os olhos apreensivos do rapaz, disposto e pronto a ouvir qualquer que fosse a preocupação dela. Então inspira e segura o ar, olhando de lado e revelando:

─ Não estamos seguros aqui. Nós precisamos ir.