A Busca

26 Rota de Fuga


Notas iniciais
Um jogo de gato e rato entre Rumiko e Vargas.

Rumiko levantou-se, caminhou até o meio do quarto e ficou de costas para o ruivo, esperando qualquer que fosse seu questionamento ou comentário. Petruz entrelaçou os dedos, olhou para o chão e simplesmente perguntou:

─ É meio óbvio que tenha alguém no nosso encalço, considerando o que você fez, mas porque você acha que esse alguém está vindo para cá?

─ É um pressentimento, senhor Petruz. E Rumiko tem motivos para acreditar nesses pressentimentos. Não precisa correr, mas temos de nos preparar para sairmos já.

Petruz ficou em silêncio, ainda olhando para o chão. Rumiko volta-se para ele, com a face demonstrando tanta preocupação e pena de Petruz que ela parecia querer chorar. Sabia que ele não aceitaria facilmente aquela parca informação. E amaldiçoa o infortúnio. De início estava tudo bem, quando ninguém sabia quem eles eram ou para onde iam. Agora o caso era mais grave. “Tenho que protegê-lo” – pensa Rumiko mais uma vez antes de sugerir:

─ O senhor pode desistir agora. Se o senhor descer pelas escadas e sumir, poderá, assim, se safar.

─ Quer que eu vá com você? – ele pergunta, de modo a demonstrar seu aborrecimento.

─ Rumiko gostaria muito. Mas não pode colocar sua vida em risco, senhor.

─ Bom, então, não vamos nos arriscar e sair logo daqui.

─ Certo – a moça sorri com seu brilho natural – Mas teremos de fugir de um jeito mais ousado.

─ Ousado como?

Rumiko avisa que logo vai mostrar e pede para que Petruz arrume todos os pertences da dupla. Em seguida, ela dirige-se rapidamente até o banheiro, pega e encharca quatro papéis toalha na pia, vai até a mini cozinha e, com duas folhas de papel em cada mão, ergue a bandeja onde havia os pratos de comida e os passa embaixo e nas laterais do objeto, onde Petruz havia apoiado o polegar, limpando e deixando esses lugares completamente úmidos.

Terminado, ela volta para o quarto e, nisso, vê Petruz aproximando um vidro cor de rosa ao nariz.

─ Senhor Petruz, ESPERE! – ela grita, erguendo a mão, num inútil ato de impedi-lo a fazer aquilo.

Com o susto gerado pelo desespero de Rumiko e a súbita sensação pungente que lhe invadiu as vias nasais, o ruivo solta o frasco e agarra o nariz com as duas mãos. O recipiente cai no carpete e a moça, sem se importar nem por um segundo se o seu frasco havia ou não se danificado, corre até o Petruz e pega nas mãos do ruivo, as afastando do rosto.

─ Daijobu ka?

Quando Rumiko pediu à Petruz que guardasse as coisas, ele pegou a nécessaire de Rumiko e, por uma dispensável curiosidade, já que a nécessaire era transparente, a abriu para pegar um recipiente de vidro rosado. Deduziu que era o delicioso perfume que Rumiko usava e, num ato natural, quis saber qual era o odor puro do líquido e o levou às narinas.

─ O quê... O quê é isso? – quis saber Petruz, a voz meio fanhosa.

─ É essência concentrada de passiflora.

─ Passi-o-quê?

─ Passiflora. Uma flor cheirosa da América. A Flor de maracujá.

Petruz esfrega os olhos, que começaram à lacrimejar. Toda a extensão de seu nariz queimava e estava começando a ficar com coriza também. Rumiko o faz sentar-se na cama e erguer o rosto para o teto.

─ Gomen nasai. Rumiko devia tê-lo avisado antes sobre isso.

─ Não! Foi culpa minha. Não devia ter futricado em suas coisas.

─ Não coloque as coisas desse modo. Mesmo assim, esse seu ato vai lhe custar uma punição.

─ Punição?

─ Uhn! O senhor não vai poder sentir o cheiro de coisa alguma por, pelo menos, uma semana.

─ Uma semana? Como sabe?

Rumiko começa rir, enquanto acaricia as têmporas de Petruz, limpando-lhe as lágrimas com os polegares.

─ Rumiko sabe disso porque o senhor não foi o primeiro a cometer essa bobagem.

─ Quer dizer que você também...? – Petruz ri, sem terminar a frase.

Rumiko assentiu, também rindo, pedindo para Petruz permanecer sentado e de cabeça erguida, para se recuperar. Em seguida, pega o recipiente do chão. Por sorte, a boca do vidrinho era vedada com uma borracha de furo minúsculo, que fazia um processo de escoamento semelhante à um conta-gotas. Por isso, o máximo que saiu do recipiente foram duas ou três gotas do produto.

Rumiko guarda o perfume e acelera os movimentos, jogando tudo o que era seu dentro da sua mochila saco. Passou uma última olhada pelo quarto, mas não reparou sua revista sobre alpinismo, dentre as revistas do hotel e deixada ali por Petruz minutos atrás, quando foi buscar o almoço. Na cabeça de Rumiko, o rapaz já tinha guardado a revista em sua mochila.

─ Como vamos sair? – questiona Petruz já se levantando e curioso sobre a fuga “ousada” que Rumiko havia mencionado.

A moça leva Petruz até as janelas e abre a mais próxima da escada de incêndio. Petruz não demora a perceber a loucura que a moça pretendia fazer.

─ Você está brincando, certo?

─ Rumiko não vê outro modo, senhor.

─ Por que não saímos pela porta da frente, como você me orientou a fazer?

─ Porque essa não é uma opção para Rumiko, senhor. Não na atual situação.

O ruivo olha para a escada. Não estava muito longe, ele calculou erroneamente uns dois ou três metros. O maior problema era o espaço que tinham para pegar distância. Eles deveriam sair pela janela e subir no parapeito que tinha pouco mais de um metro de comprimento e não devia ter nem quarenta centímetros de largura. Um salto naquelas condições deveria ser feito por propulsão. Petruz olha para baixo e a distância entre a janela e o solo pareceu afastar a escada ainda mais.

─ Rumiko... – ele mostrou-se hesitante – é uma queda de trinta metros.

─ Dezoito, senhor Petruz – corrige Rumiko.

─ Mesmo assim, é bem alto. Se a gente errar o salto...

─ Nós não vamos errar, senhor Petruz. Basta o senhor não olhar para baixo. Mantenha os olhos fixos na grade de proteção da escada.

Petruz reúne coragem dentro de si e tenta se convencer que não seria tão difícil pular àquela distância. Sentiu logo em seguida que não tentava se convencer e sim, se enganar. Nunca fizera nada na vida que fosse tão arriscado.

Enquanto pensava, ainda hesitante, a moça aproxima-se de suas costas e põe a mão em seu ombro, afastando-o suavemente, no intuito de pedir licença. Ela lhe mostra um de seus sorrisos mais maravilhosos e oferece uma alternativa.

─ Se o senhor achar que não vai conseguir, não tente. Rumiko não quer que o senhor se machuque. Saiba que foi maravilhoso conhecer o senhor e...

─ Eu também vou – diz Petruz sem se mover, antevendo e evitando o adeus. O único pensamento de se afastar de Rumiko era inaceitável.

─ Senhor Petruz...

─ Eu vou com você! Mas me deixe ir na frente. Me deixe ir primeiro.

Rumiko põe sua mochila saco no chão e espera que Petruz suba na janela e fique parcialmente do lado de fora, voltado para a escada. Ele olha para baixo e sente o corpo começar a pesar e a mente a se arrepender. No mesmo instante, Rumiko o avisa mais uma vez.

─ Não olhe para baixo, senhor. Não é para lá que o senhor vai pular.

─ Certo! – Petruz ergue o rosto e olha para frente, focalizando a escada de incêndio.

─ Isso, muito bem. Quando o senhor chegar lá, desça rapidamente e espere para pegar nossas mochilas. Rumiko as jogará naquela caçamba de lixo.

─ E-está bem.

O ruivo ergue-se devagar, com as mãos grudadas na parede ao lado, acima da janela. O vento frio no rosto, a coriza e olhos lacrimejantes causados pelo produto de perfumaria, só adicionariam mais dificuldade ao ato. Se a situação permitisse outras opções, ele jamais faria aquilo. No entanto, tinha que tentar porque, tão grande quanto o medo de errar e cair, era saber que, se não tentasse, não poderia mais ficar com Rumiko.

Ele apoia o pé esquerdo bem atrás e se posiciona para salto. Maldita falta de espaço. A parede externa próxima de seu ombro também não ajudava. Ele fecha os olhos, prende a respiração e num movimento brusco, abre os olhos com fúria e se impulsiona, saltando o mais longe que pôde.

Um segundo depois, Rumiko tapa a boca com as duas mãos, para evitar gritar o nome do ruivo ao ver que ele quase não consegue alcançar a plataforma. Seus pés pisaram na beirada do piso de concreto da escada, mas foi só a ponta e, portanto, escorregaram. Suas mãos então, num desespero em busca de segurança, caçaram um lugar para se agarrar e conseguiram firmar-se entre uma das barras de aço da grade que serviam de apoio para o corrimão. Num esforço monstruoso, Petruz ergue seu corpo até alcançar o corrimão e, com a ajuda dos pés, ele alcança a beirada do piso e sobe, saltando para dentro da grade de proteção, onde cai sentado no piso de concreto. Estava exausto, não só pelo esforço como pela adrenalina que, desperdiçada de modo errado, lhe queimou todas as energias.

─ Daijobu ka? – sussurra Rumiko com força, com a cabeça para fora da janela.

Petruz não ouviu. Percebeu, contudo, a apreensão da moça. Ele respira mais alguns segundos e faz um sinal de positivo com a mão esquerda – “Nunca mais eu quero fazer isso na vida”. Só depois é que se levanta e começa a descer os degraus. Rumiko espera que ele chegue até a caçamba de lixo, pouco mais à direita do fim da escada, então pega a mochila de Petruz, deixando-a cair livremente sobre o repositório de lixo. Depois pega sua mochila saco, desata o nó do cordão para abri-la e retira as duas shikomizues. Só então é que ela a solta na caçamba.

Após se livrar de sua mochila, a moça acena com a mão em seguida, gesticulando para Petruz esperar ela descer. Rumiko entra no quarto, vai até as camas e dá uma ajeitada nos lençóis, sem intenção de arrumá-las. Queria que, entre o arrumado e o bagunçado, elas ficassem num meio termo para dar a impressão de que as camas foram pouco usadas. Nesse ínterim, ela sentiu o delicioso aroma da passiflora. E se ela estava sentindo, significava que o odor não estava vindo de seu próprio corpo.

Rumiko lembrou-se que Petruz deixou o vidro cair justo ali, no entremeio das camas, em cima do carpete, e numa rápida inspeção, viu duas marcas escuras de gotas nele, quase transparentes. Rumiko leva a mão à boca, empinando o nariz com o indicador e pensando. Se tivesse caído fora do carpete seria fácil de limpar e em pouco tempo o odor se dissiparia. Não teria tempo de lavar o carpete e também não poderia jogá-lo pela janela. Ele era grande, ocupando todo o espaço onde ficavam as camas. Não tinha jeito, ela deveria deixar como está.

Deixando isso de lado, Rumiko vai até a pia do banheiro, pega duas folha de papel toalha, encharca uma delas e dirige-se à porta de saída. Lá, pega na chave com o papel encharcado, esfrega sobre os dedos e depois a pega com o papel seco, enxuga o objeto e enfia na fechadura. Faz o mesmo processo de limpeza com a maçaneta. A de dentro e a de fora, depois fecha e tranca a porta. Daí pega todos os papéis usados, segura-os sob a torneira da pia do banheiro até que fiquem completamente encharcados. Era uma sorte a torneira ser de um sistema de sensor, onde só era preciso aproximar as mãos para dar ignição ao jato de água.

Nesse meio tempo, ela nota que o vidro do box ainda estava meio embaçada pelo vapor do banho quente que tomou outrora. A porta do banheiro ficou sempre fechada e a única janela do banheiro era completamente vedada. Rumiko ergue o rosto e vê no teto alto, um exaustor de ar no meio das duas lâmpadas fluorescentes. Ela se esqueceu de ligar o exaustor. Poderia fazer isso agora e deixa-lo ligado, para impedir que seus perseguidores soubessem que ela se banhou. Pensou, porém, em outra coisa. Com as mãos ainda molhadas, ela entra no box e desliza o dedo indicador ao lado de dentro do vidro, deixando anotado o desenho das letras “L” e “A”, separados por pontos – “Uma colher de chá” – ela diz para si mesma. Em seguida volta para a pia e termina o que estava fazendo.

Com os papéis quase desmanchando nas mãos, ela os leva até a privada e dá descarga, pressionando o botão com o cotovelo. Só aí é que vai até a janela para fugir. Mas antes, retira a camiseta para usar nas mãos, aproxima-se da outra janela e também a deixa escancarada.

Vestindo-se novamente, ela volta para a primeira janela, pega as espadas, uma em cada mão sobe no parapeito, usando as armas os antebraços como apoio. Estava com pesos das tornozeleiras nos pés, do espartilho cravejado de chumbo no corpo e agora, segurando firmemente as espadas, uma em cada punho, tinha também pesos em suas duas mãos.

─ Até que enfim – diz Petruz abaixo, de braços cruzados por causa do frio.

O ruivo observa Rumiko se posicionar, levando a perna direita para trás, dobrando o joelho da perna esquerda, à frente, e inclinando o tronco para baixo, como uma gata pronta para avançar. E o que vê em seguida lhe é impressionante.

Com um único movimento, Rumiko salta do parapeito, usando a potência da perna esquerda como propulsor. De pernas abertas e completamente esticadas perpendicularmente e os braços jogados atrás, numa demonstração clara de um passo de dança artística, ela cobre facilmente a distância entre a janela e a escada, pisa com o pé direito entre o vão das grades numa perfeição milimétrica e, ao mesmo tempo em que a inércia do salto joga seu corpo para frente, ela ergue a perna esquerda lateralmente à altura dos ombros, usando a dobra do joelho para laçar o corrimão e se puxar para dentro da escada. Tudo isso sem precisar usar as mãos que, como dito, estavam ocupadas portando as shikomizues. “E obrigada, professora de balé” – ela murmura. Já Petruz ficou boquiaberto. A tarefa que ele quase desistiu de fazer e por pouco não conseguiu, Rumiko fez como se fosse brincadeira.

A moça desce em saltos e deslizes, vencendo vários degraus ao mesmo tempo, e alcança o rapaz em segundos. Ela pede sua mochila com um gesto de mãos e acomoda as espadas dentro dela, joga-a pelo ombro esquerdo, pega no pulso de Petruz e, num leve e carinhoso puxão e um aceno de cabeça, diz simplesmente.

─ Ikemasho!

Em minutos depois, eles atravessam uma rua de barro, com extremo cuidado e atenção ao que acontecia ao redor. Rumiko levou Petruz até um vasto terreno adiante, sempre caminhando em linha reta e no máximo de velocidade que podiam sem chamar atenção. No caminho, uma alta cerca de madeira pintada de branco, com três divisões horizontais, sem espaço entre elas. Eles a saltaram e se depararam com um relevo de terra, se erguendo aos poucos. Cruzando o relevo, os jovens enfrentaram capins altos e plantas espinhosas que separavam uma área capinada de uma floresta na área mais elevada do morro.

─ Rumiko, tem uma trilha ali ao lado – diz Petruz incomodado com os pinicões nos braços, feitos pelas plantas.

─ Rumiko viu, senhor. Mas não quer perder o foco de vista.

─ Que foco?

A moça continua a exploração em silêncio, quase engatinhando na terra e abrindo caminho entre as plantas que insistiam em lhe arranhar, sem ferir, os braços e rosto. Petruz seguia atrás, também mantendo-se abaixado. Quando chegam à floresta, Rumiko solta sua mochila no chão gramado, retira uma de suas shikomizues e corta dois galhos grossos e folheados de alguns arbustos mais ao fundo. Então retorna para o ponto onde estava sua mochila, coloca os galhos deitados no chão, um de frente para o outro, e senta-se atrás deles, usando-os como proteção.

─ O que está fazendo?

─ Uma trincheira.

─ Uma...? – Petruz nota que ainda estava de pé e senta-se ao lado de Rumiko – uma trincheira?

─ Hai!

Rumiko pega no fundo de sua mochila um objeto cilíndrico e metálico. Ela segura nas duas extremidades e gira com as duas mãos ao mesmo tempo, porém para lados opostos. Em seguida ela puxa o objeto, também com as duas mãos e em lados opostos, e ele dobra de tamanho.

─ Uma luneta – reconhece Petruz.

─ Uhn! – assente Rumiko, deitando de bruços na grama, apoiando o tronco com os cotovelos.

Ela alisa e arruma os cabelos de sua franja com o polegar, posicionando algumas mechas atrás das orelhas e leva a luneta ao olho direito, sussurrando.

─ Fique deitado, por favor, senhor Petruz.

─ Ah claro, desculpe.

─ Não se desculpe por isso.

Petruz deita-se na grama, ao lado direito de Rumiko.

─ O que está olhando? – ele quis saber.

─ O quarto em que estávamos.

─ O quarto?

Depois de alguns minutos, incomodado pelo frio, não só do solo como também das brisas que vinham de tempos em tempos do fundo da floresta, Petruz se contorceu um pouco para pegar sua enorme mochila e retirar uma blusa de moletom azul escuro. Fez com tanto cuidado que Rumiko, sem tirar a atenção da luneta e já imaginando o sofrimento de Petruz para se vestir, lhe confortou dizendo:

─ Pode se agasalhar, senhor. Vamos ficar aqui por um tempo.

O ruivo senta-se, rapidamente se veste e volta a se deitar na grama.

─ Não está com frio? – ele questiona.

─ Sim. Mas Rumiko se veste depois. Agora Rumiko não pode perder o foco.

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A tão esperada ligação para Vargas só veio acontecer após as 13hs15, tirando-o de seus devaneios e sonolência, fazendo-o atender ao telefone num sobressalto.

─ Senhor Damião?

─ Me chame de Vargas – retruca o detetive com rispidez.

Ele gostava de provocar Katou por causa de seu nome italiano, mas também não aceitava muito bem seu próprio nome.

─ Muito bem, senhor Vargas. Sou o delegado Maurício da 1ª delegacia do bairro de Germano. Eu quero informar que seu pedido foi aceito. Existe mesmo um Damião Vargas na Nerak.

─ Não me diga. Não sei se te avisaram, mas eu preciso urgentemente de dois homens para uma possível missão de detenção de indivíduos.

─ Certo... Tudo bem.

─ Peça para seus homens me pegarem no terminal de ônibus Germano. Estarei na lanchonete esperando e irei ao encontro deles assim que os vir. Apresentarei minhas credenciais.

─ Claro!

Vargas desliga o celular, vai até o telefone de sua suíte e liga para a recepção, providenciando um táxi com urgência.

O terminal de ônibus não era muito longe e, de táxi, Vargas chegou lá em menos de vinte minutos. Porém, já eram mais de 14hs15 quando ele, finalmente, avistou os policiais que o escoltariam até o hotel Genevie. O detetive aproxima-se dos policiais, demonstra sua irritação pelo atraso e mostra seu distintivo da corporação. E os policiais, ao vê-lo, batem continência.

─ Qual a natureza da operação, senhor? – pergunta um dos policiais, com toda a pinta de um tira americano, de bigodes grossos e óculos com armações enormes e lentes escuras.

Vargas observa o rapaz dos pés à cabeça, sem fazer comentário algum ao seu estilo de se portar ou se ataviar, e responde sua pergunta sem olhá-lo no rosto.

─ Vamos interceptar um suspeito de um crime. Se ele for o responsável, é considerado perigoso e preciso saber se vocês estão prontos.

─ Claro senhor.

─ Pode contar conosco, senhor – completa o outro, com mais jeito de policial comum.

─ Então vamos.

O trio caminha até a viatura policial, estacionada ao lado de fora do terminal. Dentro do veículo, Vargas liga novamente para Katou e pede para ele seguir para o edifício Genevie. E em pouco mais de vinte minutos, eles estavam lá.

Vargas passa pelo saguão principal e vai direto para a recepção, do modo mais rápido que sua perna defeituosa lhe permitiu, apresentou o distintivo para o balconista, e perguntou sobre um tal de Francisco.

─ Sou eu mesmo senhor – diz ele destravando em seguida uma porta e saindo para receber o detetive.

─ Não precisa sair filho – retruca o detetive – apenas nos diga o número do quarto, a situação atual e nós cuidamos do resto.

─ Sim senhor – o rapaz volta para dentro do balcão, abre um quadro na parede atrás da recepção, pega uma chave e retorna rapidamente, entregando a chave nas mãos de Vargas e dizendo com uma ansiedade incontrolável – apartamento três, aqui no primeiro andar. Posso ir com vocês?

─ Claro – replica Vargas – foi você quem fez a denúncia. Será melhor que venha porque poderá dividir a responsabilidade, caso o suspeito não seja quem procuro. Mas você fica bem atrás.

─ Sim senhor.

Vargas afasta-se do balcão e olha mais um pouco o local ao redor. Vê o restaurante público, que embora fosse acoplado ao hotel, era afastado da ala da recepção, separado por uma parede que possuía apenas uma porta de acesso de duas folhas, o que impedia uma visão ampla de um local para o outro. Talvez pelo fato do restaurante ser público e o hotel, reservado para os que tinham condições de pagar por algo além de uma refeição. Ainda de olho no restaurante, Vargas pergunta desconfiado:

─ Eles ainda não desceram para almoçar?

─ Mais ou menos, senhor. O rapaz desceu, pediu a preparação de dois pratos, depois voltou aqui e perguntou se poderiam comer no quarto porque a moça não estava se sentindo bem. Isso não é permitido, pois temos salas especiais para os clientes do hotel que querem ter um almoço mais reservado, mas como o senhor me pediu para mantê-los aqui à todo custo, eu autorizei.

─ Certo. Muito bem. E quanto tempo faz isso?

─ Em torno do meio dia, senhor. Foi quando começaram a servir o almoço.

─ Então já tem... – Vargas consulta o relógio no pulso – Já tem mais de duas horas?

─ Sim. Ele subiu com o almoço pouco antes da uma da tarde.

─ É muito tempo – estranha Vargas, olhando para a escada que dava no andar superior, imaginando que a qualquer momento o rapaz ruivo apareceria por ali.

Nisso, ele nota o elevador. Eram duas cabines, com suas portas de aço pintadas com um G enorme, representando o nome do hotel. Seria muita coincidência os suspeitos descerem por um dos elevadores no mesmo minuto em que Vargas subisse em outro ao piso superior. Mas como a paranoia de um detetive é vista como um dom necessário, ele engloba essa possibilidade também.

─ Chame os dois elevadores aqui para o térreo – Vargas diz aos policiais.

Enquanto os homens vão até os elevadores, Vargas volta-se para o balconista.

─ Existe algum modo de eles saírem sem serem vistos? Quero dizer, sem ser por ali pelo saguão principal?

O rapaz reflete por alguns instantes.

─ Tem a escada de incêndio externa. Coincidentemente, fica ao lado das janelas do quarto que eles alugaram. Mas é meio afastada. O outro jeito é descer pela escada interna comum que dá aqui, na recepção.

─ A de incêndio dá aonde?

─ Saindo na porta à direita, tem um beco, que ainda é parte do terreno da casa enorme ao lado e, portanto, é usado como uma espécie de depósito de lixo pelo hotel. Claro, com a permissão dos donos da casa vizinha. Mas para fugir por essa escada, seria preciso passar por uma porta corta-fogo que fica trancada eletronicamente. O único jeito de abri-la é soando o alarme de incêndio.

─ Certo.

Vargas espera os seus auxiliares retornarem, manda Francisco travar os elevadores no andar, depois aponta para o policial menos ativo e pede para ele dar a volta no hotel e vigiar a escada de incêndio em questão. O detetive não gostava do tipo valentão do policial bigodudo, mas na atual situação, ele seria mais útil. O outro policial então sai imediatamente.

Se só havia essas duas rotas de fuga e esses três meios de desencontro, Vargas não precisava mais se preocupar. O suspeito estava lá em cima e não teria por onde escapar. Tudo o que ele tinha de fazer agora era esperar pelo momento em que o policial chegasse ao local proposto. Aguardado cinco minutos, Vargas devolve a chave ao balconista Francisco e ordena:

─ Okay. Vamos subir!

Notas finais
Ikemasho pode ser traduzido como "Vamos", indicando que duas ou mais pessoas vão ao mesmo lugar. Diferente de Ikuzo, que tem significado semelhante, mas é interpretado como palavra de apoio ou convite para iniciar uma atividade em conjunto.