A Busca

18 Um Casal de Adolescentes


Notas iniciais
Mais um capítulo com o detetive Vargas

Vargas havia captado a frequência de rádio da polícia, informando que quatro corpos foram encontrados num quarto de hotel vagabundo, porém caro, em um dos bairros pobres da cidade Saltos. Como ele estava por perto, e atendendo seu desejo simples e incontrolável de investigar, partiu para o local e chegara antes dos policiais. Por isso teve de esperar por quase meia hora do lado de fora, sendo nesse meio tempo quase derrubado por um garoto que saiu às pressas, até que a perícia saísse do local do crime para que ele, assim, pudesse subir junto com os homens da delegacia local. Antes de subir, ele se aproxima de um rapaz jovem, que estava debruçado no balcão com a cara de alguém que estava alheio ao que acontecia ao redor, e faz a sua entrada:

─ Sou o detetive Vargas, da divisão de homicídios. Quero falar com o responsável pelo estabelecimento.

─ Uau... A Homicídios? Por que enviaram alguém da homicídios?

─ Não sabe o que aconteceu, filho? Quatro pessoas estão mortas lá em cima.

─ Sim, eu soube. E você deve saber que, se tratando desse local, eu não tenho nada a declarar à ninguém da polícia. Nem mesmo para detetives.

─ Eu sou especial.

─ Você quer dizer que os defuntos são especiais.

─ O que quer dizer?

─ Essa não é a primeira vez que alguém é morto por aqui. E nunca chamaram a homicídios antes.

─ Bom, seu patrão está?

─ Sim! Está em sua sala, com o pessoal da perícia.

─ Preciso falar com ele, mas não agora.

─ Vou avisá-lo.

Vargas sobe até o 2º andar e caminha até o quarto do ocorrido. Ele pede licença para os policiais, que guardavam o quarto para que o local do crime não fosse alterado. Mostrou seu distintivo e teve permissão imediata. Examinou os cadáveres como se fosse um perito no assunto, mas não tocou em nada e nem fez pergunta alguma para os três técnicos da perícia que ainda estavam no local.

Vargas ficou sabendo pelo seu rádio especial, o qual capta todos os chamados da frequência da polícia, que os quatro sujeitos ali foram mortos por golpes de uma arma cortante. Foi isso que atiçou sua curiosidade, já que ele foi enviado por seus superiores para investigar o assassinato do prefeito Rudolf, morto de forma semelhante. Só que dessa vez havia uma coisa diferente. Algo que ele não conseguia definir ainda o que era.

Graças ao desenho oficial no seu distintivo, Vargas poderia, salvo em algumas exceções, entrar em quaisquer cenas criminais, fazer as perguntas que achasse necessário e até dar ordens aos policiais locais, caso fosse preciso. Mesmo assim, fez mais um tempo dentro do quarto, apenas acompanhando o trabalho da perícia e observado atentamente o local. Só veio a fazer uma pergunta para o homem que lhe pareceu ser o mais responsável do grupo de três homens ali presentes, quando eles demonstraram que iriam sair.

─ Já sabe o quê são?

─ Sim senhor. Mas ainda não posso fornecer os nomes. Sinto muito.

─ Não quero saber dos nomes. Quero saber “o quê” são. Estou num caso parecido e por isso procuro semelhanças.

O homem da perícia observa o detetive por pelo menos um minuto antes de dizer com firmeza.

─ Matadores.

─ Matadores?

─ Na verdade ladrões e usuários de drogas e que, nesse caso, foram contratados para matar.

─ E foram contratadas para matar quem?

─ Ainda estamos averiguando, senhor. Com licença.

─ Hunf – Vargas cruza os braços e encosta-se na parede.

Havia uma lei entre os donos das cadeias de hotéis baratos, que lhes protegia de denunciar o abrigo de criminosos. Vargas reconhecia que era uma lei justa, visto que ninguém queria ser um informante da polícia, pois se a mesma falhasse em prender o criminoso, ele poderia retornar para se vingar. E havia muitos casos em que a lei até capturava o meliante, mas a lei de Vera Cruz ainda mantinha a bobagem de só prender um criminoso quando pego em flagrante. E esse maldito voto de confiança entre os donos de estabelecimentos dificultava muito o trabalho da polícia, porque o trabalho da polícia era prender e não manter preso. Essa segunda parte ficava por conta da justiça de Vera Cruz, que sempre foi mais benevolente com criminosos do que com pessoas de bem.

Depois de quase quarenta minutos apenas olhando e pensando, Vargas decidiu descer e falar novamente com o rapaz no balcão. Para sua sorte, havia um outro homem lá, também atrás do balcão. Baixo, branco, gordo e calvo, ele tinha tudo para ser quem Vargas estava esperando encontrar.

─ Creio que os homens da perícia já o deixaram em paz. – diz o detetive encostando sua bengala num cesto de lixo alto e laminado.

─ Quem é o senhor?

─ Esse é o detetive da homicídios – responde o garoto, apontando para Vargas.

─ Isso mesmo. – este conclui.

─ Não sabia que tinha uma divisão de homicídios aqui em Saltos.

─ E não tem. Suponho que o senhor é o dono desse estabelecimento – Vargas estende a mão, gesticulando querer cumprimentar o homem.

─ Sim – responde o homem pegando na mão de Vargas – Meu nome é Paulo.

─ Bom dia, senhor Paulo. Não vou lhe tomar nem metade do tempo que o pessoal da perícia criminal provavelmente lhe tomou. Por isso vou direto ao assunto. Os cadáveres que estão lá em cima foram contratados para matar alguém que se hospedou naquele quarto. Quero que me diga quem foi e pronto, perguntarei só mais duas ou três coisas e lhe deixarei em paz.

─ O senhor diz que é especial, mas também deve ser novo no ramo. Qualquer autoridade sabe como as cadeias de hotéis atuam hoje em dia. Assassinatos feitos por forasteiros são comuns, assim como é comum que hospedemos assassinos e, portanto, temos uma política de sigilo que compartilhamos com nossos clientes.

─ Acho que o senhor não entendeu. Quando eu digo que sou especial, não é porque eu tenho uma deficiência numa das pernas e ando de bengala – Vargas tira seu distintivo e mostra para o homem calvo, frisando – É porque eu sou especial de verdade.

Paulo vê a espada alada, desenhada em alto relevo sobre uma estrela de cinco pontas em relevo aprofundado, todos sobre um escudo dourado.

─ Meu Deus... – o homem empalidece – ...é tão sério assim?

─ Bom, isso eu ainda não sei. Mas se for, vou ter de dizer aos meus superiores que o senhor está obstruindo o meu trabalho.

─ Depressa! – diz Paulo, chamando o rapaz que servia de balconista, gesticulando para ele se aproximar.

Vargas guarda seu distintivo. Não esperava que um mísero dono de um motel vagabundo como aquele fosse reconhecê-lo, mas ficou feliz que isso aconteceu. Isso facilitava o trabalho.

O rapaz termina de atender um dos clientes que estava de saída e se aproxima da dupla. Seu chefe foi claro:

─ Conte tudo o que aconteceu até agora para este homem. Tudo o que viu e ouviu.

─ Mas eu já falei para o senhor, chefe.

─ Mas agora a situação é outra. Conte vamos.

─ Bom senhor...?

─ Vargas!

─ Senhor Vargas. Desde que cheguei hoje, de madrugada, não vi nada de mais acontecer. Então, pelo visto, os quatro homens já estavam mortos antes de eu entrar.

─ Nós não perguntamos o nome, nem a profissão, nem qualquer outro documento para os nossos clientes – continua Paulo – Por isso não há registros de quem entra e quem sai.

─ E como controlam os lucros do local?

─ O controle dos quartos é feito como o aluguel de fitas vhs. Entregamos a chave à um cliente e registramos essa chave como “quarto alugado” até que a mesma seja devolvida.

─ E quando cheguei – retorna o rapaz – a chave do quarto aonde aconteceu as mortes já estava aqui.

─ Então... – Vargas põe a mão no queixo – ...o assassino matou os quatro homens em um local diferente e os levou até aquele quarto?

─ Impossível! Não há sinais de arrombamento.

─ A janela está um caco.

─ A janela não foi tocada, senhor. – Paulo cruza os braços emburrado – Pode estar ruim, mas garanto que ninguém entrou por ali. Até porque, aquele quarto se situa no segundo andar e as escadas de incêndio são internas.

─ Está querendo me dizer alguma coisa?

Paulo olha para seu funcionário e faz um sim com a cabeça. O rapaz então explana:

─ A perícia descobriu o que você provavelmente vai descobrir também, então... O assassino alugou aquele quarto, foi atacado durante a noite e, após se livrar dos malfeitores, fez uma troca de quartos.

─ Troca de quartos? Ele poderia simplesmente ter ido embora.

O rapaz fica em silêncio. Depois sacode a cabeça para os lados, negando. Ele estava tão preso às regras do seu local de trabalho que tinha medo de dar com a língua nos dentes. Mas como seu patrão estava ali, apoiando seu depoimento, ele decidiu falar.

─ Os homens foram mortos antes de meu turno. Isso quer dizer que a pessoa que fica antes do meu horário deveria ter visto ou ouvido alguma coisa. Mas ele disse que não ouviu. Essas armas, essas... essas espadas e foices e arcos... são armas muito silenciosas. Portanto, após o ocorrido, meu colega de trabalho garante que ninguém abandonou o hotel até a minha chegada. E depois que cheguei, as primeiras pessoas a irem embora foram na base das seis da manhã.

Vargas percebeu aonde o rapaz queria chegar, por isso fez uma face séria, quase brava, e avisou:

─ Rapaz, preste muita atenção no que vai me dizer agora, porque se preciso, eu posso prendê-lo por obstrução da justiça.

─ O senhor pode?

─ Sim! – reitera Paulo, também com a face séria – Esse homem, em particular, pode.

O balconista respira fundo, relembra as cenas de tudo o que se passou nessa manhã e revela.

─ Aquele quarto... onde aconteceram os crimes... foi alugado por um casal de adolescentes.

─ Um casal... de adolescentes?

Vargas apoia-se no balcão com um dos cotovelos e enfia a outra mão no bolso, apalpa o maço de cigarros, mas desiste de tirar e acender um, então diz apoiando o outro cotovelo no balcão.

─ Fale-me mais sobre esses... adolescentes.

─ Bom... eram dois... um casal. A moça parecia bem nova apesar da profissão que exercia.

─ Profissão?

─ Ela era uma mulher da vida.

Vargas ergue uma sobrancelha e o rapaz retifica.

─ Era uma garota de programa. Uma vadia. Uma prostituta. Apesar de que ela se vestia bem mal para uma prostituta. Eu diria até que de um modo bem estranho.

─ Estranho como?

─ Estava de jaqueta masculina, embora não estivesse tão frio. Usava uma saia esquisita e tinha um gorro na cabeça. Mas ela não é importante. Era o rapaz que era esquisito de verdade.

─ Justifique.

─ Bom, ele estava bem vestido pela manhã, quando saiu. Mas meu colega da noite disse que ele chegou parecendo um “mendingo”.

─ Mendigo – corrige Paulo, notando que o rapaz puxou demais um segundo “n” que não deveria sequer existir na palavra. Um balconista, homem ou mulher, não pode cometer erros de linguagem, é o que ele pensava.

Vargas retira um pequeno bloco de anotações e escreve as recentes informações, para o caso de precisar depois. Então questiona.

─ Não havia nenhuma roupa de mendigo no quarto, havia?

─ Não. É por isso que acho estranho. Ele deve ter levado consigo na sacola de uma loja de roupas que tinha nas mãos.

─ Lembra-se de que loja era?

─ Desculpe. Já me perguntaram isso também, mas eu realmente não lembro.

─ Tudo bem. Lembra-se como era esse garoto?

─ Era ruivo. Olhos claros. Devia ter uns dezesseis ou dezoito anos. E parecia uma caveira, com covas profundas no rosto.

─ Se ele parecia um mendigo e estava tão magro assim, é capaz de que ele era mesmo um mendigo e, se a moça era mesmo uma prostituta como você diz, então, aconteceu alguma coisa a mais nessa noite que você ou seu colega de profissão não estão me contando.

─ Mas isso é tudo! É verdade!

─ Bom, isso não ajuda muito, então tente se lembrar de mais alguma coisa. Focalize seus pensamentos nesse garoto. Nesse... mendigo, que você achou tão estranho.

O rapaz fecha os olhos e coloca a mão no rosto forçando seu cérebro a trabalhar. Ele queria evitar falar do dinheiro que recebeu da moça naquela manhã, porque, em seu julgamento, ele sabia ou pensava que o ruivo era o assassino e que foi o tal ruivo que pediu para a pobre prostituta fazer aquele acordo com o balconista da vez, que no caso, foi ele. Além do mais, o detetive Vargas ou o seu chefe, o proprietário Paulo, ainda ali do seu lado, poderiam entender aquilo de forma errada, tomar-lhe o dinheiro e ainda acusa-lo de cúmplice. Foi quando lhe veio à cabeça mais uma informação bizarra que lhe foi dita pelo seu parceiro de trabalho.

─ Lembrei de uma coisa! – bafora o balconista num ato súbito.

─ Calma! Estou ouvindo.

─ Meu colega comentou que esse rapaz, apesar de ele estar imundo quando chegou aqui, usava uma roupa de samurai por cima de seus trapos Uma roupa que estava limpinha.

─ Uma roupa de samurai?

─ Sim... aquelas... aquelas blusas de golas grossas e mangas longas. Do tipo que muito jovens idiotas usam hoje em dia para se exibir. Eu imagino que ele usava por cima de sua roupa, porque elas poderiam estar sujas, não só de terra, mas de sangue. Sangue de uma possível batalha. Quem sabe a batalha que levou um fim aos quatro homens lá em cima.

“Que bobagem” – é o que pensa Vargas. E o dono do motel, Paulo, passa a mão no rosto de modo grosseiro, provavelmente pensando a mesma coisa. Se o rapaz chegou sujo de sangue, isso não justificava que o sangue em suas roupas era das pessoas mortas dentro do quarto, porque essas pessoas foram mortas depois que o tal ruivo chegou e subiu para o aposento. Vargas quase ofende a estupidez do rapazinho, mas decide jogar mais uma carta.

─ Ele tinha alguma coisa nas mãos? Como uma espada ou, sei lá.

─ Meu colega disse que ele estava com um bastão quando chegou, mas que o segurava como se fosse uma arma. Ou seja, ele não usava para se apoiar, portanto não era um aleijado ou algo assim... sem ofensas, é claro.

Vargas olha para a sua bengala, depois sorri do desconforto do rapaz.

─ Mas ele não estava com nada nas mãos quando saiu – completa o balconista – exceto a sacola.

Nesse momento, uma imagem do quarto surge na cabeça de Vargas. E o que ele achou estranho, mas que no momento não sabia explicar, agora se revela com mais clareza.

─ A espada... esse bastão, poderia estar dentro da sacola.

─ Acho que não. A sacola não era tão grande.

─ Talvez não fosse grande para levar uma espada inteira.

O balconista e o dono do motel se entreolham. Depois encaram o detetive, que explica sua linha de raciocínio:

─ Encontrei uma lâmina de espada quebrada no quarto. Aparentemente ela se partiu em duas ou mais partes durante a luta. Mas a parte mais importante, que era onde se segura a espada e onde, obviamente, estariam as impressões digitais do assassino, não está no local.

─ A perícia não falou ou perguntou nada sobre isso.

─ Não. E é isso que me preocupa.

─ O que quer dizer?

─ Nada! – o detetive dá as costas – Eu gostaria muito de conversar com esse empregado que fica aqui no turno da noite. Quero o endereço dele.

O rapaz olha para o seu chefe e ele faz um sim com a cabeça.

─ Tudo bem, senhor. Só um minuto.

O balconista escreve o endereço completo nas costas de um dos cartões do motel e, ainda receoso, entrega ao detetive, que o pega quase sem se virar.

─ Obrigado até agora.

Vargas começa a se afastar, de modo decidido. Não pretendia perder mais tempo ali, com pessoas que pareciam não dar importância ao assassinato de outros, mesmo que fossem criminosos.

No caminho para fora do motel ele se pôs a pensar. O modelo da espada quebrada é muito semelhante à um bastão quando embainhada. Disso Vargas sabia. E por isso estava preocupado, porque não conseguia encaixar as peças do quebra-cabeça que ele mesmo havia criado em sua mente. Ele queria que o assassino daqueles homens fosse o mesmo que matou o prefeito, porque isso significaria que o culpado ainda estaria por perto. Mas o modus operandi usado nos dois casos era diferente.

Quando está completamente fora do motel, ele pensa em ligar para o seu chefe e pedir que sua corporação ficasse responsável em descobrir e analisar a impressão digital que provavelmente seria encontrada na espada que matou Rudolf. Deveria ter milhões de impressões digitais nos móveis do motel, por isso ele descarta a necessidade de um técnico ali, pois precisaria também da parte da espada que sumiu. E as outras armas estavam caídas de um jeito que um policial experiente nem precisaria fazer testes para saber que o assassino não tocou nelas. Contudo, se tivesse sorte, ou azar, dependendo do ponto de vista, o tal assassino poderia atacar novamente. Daí era só comparar as impressões, descobrir o dono delas e agilizar a busca.

Mas ainda tinha uma coisa na cena do crime que incomodava o detetive. E sem mais resistir, ele pega seu celular e disca um número confidencial. Quando alguém atende, a voz é de mulher, que o trata com a educação e a pronúncia de uma secretária. Vargas diz sem delongas.

─ Aqui é Vargas. Houve um quádruplo homicídio num motel ao sul de Saltos. Preciso que Kato venha para cá imediatamente fazer uma investigação de comparação.

─ Sim senhor. Já vou transferir a mensagem.

─ Peça para ele me ligar antes para pegar as coordenadas. E quero que ele passe primeiro no hospital Saint Martin. É meio longe daqui e eu preciso das respostas até o fim da tarde de hoje, por isso ele precisa partir já.

─ Sim senhor.

Vargas enfia a mão no bolso, guardando o celular e procurando o maço de cigarros. É quando sente o seu celular vibrar. Ele olha no visor de cristal líquido e não reconhece o número, porém, como dava seu número de celular para todos que encontrava nas cenas de crimes, decide atender. E como de costume nas ligações que não conhece, ele não diz nada. Então uma pessoa começa a falar.

─ Alô? Detetive Vargas?

A voz não era estranha.

─ Sim, sou eu.

─ Quero falar sobre meu depoimento.

─ Depoimento? – Vargas pensa por um minuto e associa a voz ao seu dono – Ah, sim... Bom dia senhor Pereira. Passei a noite praticamente toda acordado, por isso ainda estou meio que dormindo. O que me conta de novo?

─ Eu já estou pronto para falar o que sei.

─ E eu já eu estou indo pra aí!

Dentro do motel, Paulo coloca a mão no rosto, tapando os olhos e respirando fundo, demonstrando seu cansaço. Profundamente preocupado, ele vai até um dos filtros e bebe dois copos d’agua seguidos. Ao voltar para o balcão ele avisa que vai estar no escritório se acaso mais alguém viesse a perguntar sobre seu paradeiro.

─ Claro chefe.

O rapaz observa seu patrão se afastar, mas não o deixa sumir de sua vista antes de saciar sua maior dúvida:

─ Senhor Paulo!

─ Sim?

─ Eu... achei que a lei dos hoteleiros nos protegia das ameaças da polícia. Pensei que nossa maior preocupação fosse os criminosos que damos abrigos e nossa principal lei era a do silêncio.

─ E é! Não temos obrigação de dar informações que possam pôr nossa segurança em risco para aqueles que não nos protegem. Mas não se preocupe rapaz. Você não fez nada de errado.

─ Certo, mas... o que quero saber é; porque deu tanta informação para aquele detetive policial? Foi só porque ele é da homicídios?

Aquele homem não é da polícia. Nem é da Homicídios. – Paulo abaixa a cabeça, olhando para o balconista de esguelha.

─ Ele trabalha para a Força Nerak.