A Busca
19 O Padre e o Detetive
Notas iniciais
Karras levou o Ichigou até um santuário de monges, não muito longe do Gen-Bu, porém não tão à vista. Lá, Karras procurou o responsável pelo local e encontrou um monge de cinza escuro, que os recebeu com um educado aceno de cabeça. E após uma rápida conversa, o monge os leva até um enorme aposento aonde eram guardados açúcar, arroz e outros mantimentos doados pela população local, e os deixou à sós.
O Ichigou senta-se no chão de madeira e o padre faz o mesmo, sentando-se pouco mais à sua frente.
─ Achei que você iria colocar uma cópia do Lótus aqui.
─ Eu já coloquei... há alguns anos atrás. Além do mais, eu já disse. Esse foi só um pretexto para sairmos do dojo sem sermos vistos de forma suspeita.
─ Muito bem.
O padre pega uns papéis que estavam na sua bolsa, onde fez algumas pequenas anotações e começa a explanar sua preocupação com o futuro do império Gen-Bu e também com Rumiko. Os papéis mostravam um golpe que ocorria em segundo plano, durante as conquistas de Gengetsu, cujas informações foram alimentadas por investigações pessoais do padre, com uma pequena ajuda dos não guerreiros do Gen-Bu, como os lavradores, empregados e professores. Também tinha alguns dados coletados de pessoas que foram supostamente “salvas” pelos capitães Mozu e Nezuo, em ações feitas sem o consentimento do líder do império, e as condições que lhes foram impostas para que conseguissem continuar a viver com sua devida liberdade.
E durante horas os dois conversaram, leram e discutiram calmamente todos os documentos trazidos por Karras. Foi uma conversa em que ambos pareciam pisar em ovos, com medo de dizer algo que colocasse sua confiança ou sanidade em julgamento.
Ao fim de todas as acusações e suspeitas, o padre chegou aonde o soldado queria; um assunto que dizia respeito à segurança de sua capitã. Ele explicou que Rumiko sempre foi uma pedra pontuda no sapato de Mozu, pois a moça protegia e zelava por Gengetsu como se fosse um cão de guarda. Portanto, ela deveria sumir. E como nunca conseguiu fazer com que ela desaparecesse de seu caminho, Mozu arquitetou outro plano, que pudesse ser posto em prática sem que Rumiko interferisse ou desconfiasse. E isso precisava ser feito antes de Gengetsu conseguir chegar à Líder do Mundo, por que após isso, ele seria inalcançável.
─ E agora ele voltou para o Gen-Bu, mas já anunciou sua partida – compreende o ichigou – Acha que ele vai atrás de Rumiko, padre?
─ Provavelmente não. Pelo menos não agora. Do contrário ele teria dado uma desculpa para ficar em Vera Cruz e esperado o momento certo para agir. Só que ele não fez isso, então, está tramando algo à distância. Entende o que quero dizer, Ichigou de Egao-san?
─ Claro padre. E entendo o que quer que eu faça. Partirei hoje mesmo para Vera Cruz e levarei o máximo de nossos homens conosco. – o soldado exprime um sorriso confiante – Vamos encontrar nossa capitã, padre. E vamos protegê-la.
─ Calma. Acho que agora você está pronto para ouvir aonde quero chegar e o que realmente quero que faça.
O Ichigou faz uma cara de confuso e finge se ajeitar no chão frio do depósito, gesticulando para o padre continuar. Karras retira outro punhado de papéis da maleta de couro, bem menor em número de páginas e entrega para o soldado. Depois, pegou uma folha de caderno onde havia algumas anotações que Gengetsu lhe entregou pessoalmente para que Karras pesquisasse se acaso se interessasse. E Karras, que além de padre, também é psiquiatra e admirador de lendas e folclores nas horas vagas, pesquisou a fundo tudo o que encontrou ali.
O Ichigou pegou a folha e viu que estavam escritas palavras que ele nunca havia visto antes, em espaços de várias linhas, e começa a lê-las em voz alta:
─ Golias, Híbridos,... Heraclíneos...? – o ichigou faz uma pausa e, como o padre não se manifesta, ele continua – Goboomas, Nichas, Elementais... e Devin.
O soldado olha para o padre, ainda confuso com o que tinha nas mãos. O padre então começa:
─ O mestre Gengetsu disse que viu um mundo muito além do nosso e que, um dia, ele queria voltar para vê-lo mais uma vez e conhecê-lo à fundo. Eu descobri o que a maioria desses nomes significa e, a meu ver, são coisas que apareceram após o Fim do Mundo. São todos criaturas.
─ Criaturas...? Quer dizer, seres vivos?
─ É o que se afirma. E muitos deles não são nada inofensivos.
─ Que tipo de mundo... que lugar será que nosso mestre presenciou nesses dois anos de viagens?
─ Calma – o padre ri – Gengetsu não encontrou essas criaturas. Ele só ouviu boatos sobre elas. E embora nosso mestre tenha me dito que eles são tão reais quanto eu ou você, não dá pra saber ou afirmar que esses seres existem.
─ Nenhum deles existe? – questiona o soldado achando impossível que um homem como Gengetsu tenha ficado esquizofrênico ou algo do tipo e manteve isso em segredo.
─ Bom... A viagem de dois anos de Gengetsu foi dura e cansativa. Eu posso garantir que essas criaturas não passam de alucinações da cabeça de nosso mestre, causada pela exaustão ou algo que ele comeu ou bebeu no caminho. Eu rezo à Deus todos os dias e sei que ele não permitiria que tais criaturas existissem. Porém, como um homem religioso, eu acredito do fundo do coração que uma força poderosa e maravilhosa nos criou. A nós e ao nosso mundo. Desse modo eu consequentemente também acredito em coisas ruins. Em energias ruins. Tipo fantasmas, espíritos... – o padre abaixa a cabeça sem tirar os olhos do soldado e salienta – ...Demônios!
O soldado ichigou arregala os olhos, repetindo a palavra “demônios”, e Karras se satisfaz ao perceber que finalmente alcançou a atenção desejada.
─ Não gostaria que Rumiko se encontrasse com nenhum desses tipos. Isso não seria bom para o atual estado de espírito dela.
─ O que tem o estado de espírito da Shushou?
─ Rumiko amava Gengetsu, soldado. O amava como um pai. Era óbvio que ela não estava pronta para perdê-lo. E quando ele foi tirado dela de modo tão abrupto, Rumiko deve ter sofrido mais que qualquer um. Ela ficou tão vulnerável que acreditou nessas bobagens de contos de fadas, de Oz e um poder de ressuscitar os mortos. Só o Deus cristão tem esse poder e qualquer um que não acredite nisso está sendo insensato.
─ Padre... você está me pedindo...?
Karras balança a cabeça, afirmando. Percebeu que o homem à sua frente havia entendido seu desejo. O Ichigou balança as mãos, como se “apagasse” alguma coisa no ar e replica:
─ Olha só, padre, se entendi bem o que o senhor quer, eu devo dizer que não tenho permissão de interferir nas decisões de minha shushou. Não importa qual o seu papel no Gen-Bu, se o senhor é o padre, o professor de idiomas, o mestre de esgrima, ou um grande capitão da guarda. Eu devo respeito à todos vocês, mas só obedeço as ordens da Shushou Rumiko.
O padre suspira desapontado. Precisava convencer alguém a ajuda-lo em sua missão e o ichigou de Rumiko lhe pareceu a pessoa mais indicada. Mas ele era, além de fiel, um cabeça-dura, que não entendia a grandeza da situação. Karras faz uns minutos de silêncio até que descobre uma nova abordagem.
─ No que se diz respeito à religião, Rumiko é só uma ovelha desgarrada que ainda não encontrou seu caminho ou um bom pastor que a guiasse. Por isso essa opção de vida que ela escolheu agora pode ser uma escolha perigosa para sua alma. Como amigo de sua capitã, eu estou muito preocupado com Rumiko. Mas como padre, eu tenho motivos... digamos... “pessoais”, para não querer que ela continue com essa ideia de percorrer o mundo atrás de um mísero ser que faz parte do mundo imaginário de pessoas como Gengetsu.
─ Imaginário? – o soldado franze o cenho, visivelmente incomodado com a abordagem do padre em relação à Gengetsu Burashi.
Sentiu um desejo quase incontrolável de responder à altura. Um homem que acredita em anjos de um suposto paraíso e demônios de um hipotético inferno não deveria zombar da crença de outras pessoas. E apesar de que aquela conversa de agora realmente pareceu não passar de delírios, ele jamais ousaria dizer que seu dai-sensei estaria imaginando coisas. O Ichigou abaixa a cabeça para não argumentar com o padre e, nisso, nota que Karras lhe empurra um pacote grosso, no formato de uma carta. Antes de perguntar o que era, o padre se adianta:
─ Essas são algumas de minhas economias. Pouco mais da metade delas.
O Ichigou coloca o gordo envelope sobre o punhado de papéis próximo de si. Pensou em não aceitar, pois ele próprio tinha algum dinheiro. Mas como iria ele e todos os soldados de Egao que pudesse levar, todo aquele montante ainda seria pouco. E ele iria precisar do máximo de dinheiro possível.
O padre espera o Ichigou terminar de arrumar os objetos e diz com a mão no peito.
─ O restante eu vou usar para uma viagem pessoal, que terá o mesmo tema da sua viagem. Isto é, se você concordar em me ajudar a fazer o que é melhor para Rumiko.
O ichigou já havia percebido quais eram as intenções do padre. Mas para confirmar, Karras esclareceu finalmente:
─ Faça-a desistir, soldado.
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O detetive Vargas tomava um café puro e amargo na cantina do hospital e já estava terminando seu croissant quando o homem que esperava cruzou a porta. Ele esticou o braço para o alto, indicando onde ele estava e tomou, de um gole só, o restante daquele café horrível.
Pereira senta-se em frente à ele, com um pouco de dificuldade devido às dores nas costas e sendo acompanhado pela velha e rabugenta enfermeira-chefe, que trazia em sua mão direita uma sacola de plástico com o emblema do hospital. O enfermo coloca na mesa um copo de plástico transparente, com água gaseificada, e se ajeita melhor na cadeira. E enquanto arranca o lacre do copo plástico, Vargas esboça um sorriso e um aceno de cabeça, cumprimentando a velha mulher de modo debochado. Ele adorava saber que era um inconveniente para pessoas mal humoradas.
─ Obrigado, Rose – diz Pereira assim que se ajeita na cadeira e põe a sacola de plástico sobre o colo.
─ Então seu nome é Rose? – Vargas dá um sorrisinho – precisamos almoçar juntos qualquer dia.
─ Prefiro me enforcar – retruca a velha senhora, retirando-se abruptamente.
─ Ela não é um amor? – comenta o detetive, voltando-se para Pereira, que não responde.
Vargas retira um gravador pequeno do bolso e coloca-o sobre a mesa, perguntando:
─ Já viu sua esposa?
─ Ainda não, detetive.
─ Então porque quer falar comigo tão cedo? Achei que nosso encontro estava marcado para, no mínimo, a semana que vem.
─ Como eu disse, já estou pronto para dar meu parecer. Já me sinto bem melhor e sei que não vou me lembrar de nada mais do que estou me lembrando agora. Quero me livrar logo desse fardo.
─ Muito bem. – Vargas liga o gravador – estou ouvindo. E gravando.
Após um demorado gole de água, Pereira começa a contar tudo o que viu e sentiu naquele fatídico dia, desde o início de sua jornada de trabalho até o momento em que estava no palanque com Rudolf. Queria dar um testemunho longo e recheado, para chegar com estilo na parte que deu origem ao evento que provavelmente seria o mais falado e importante daquela semana. Vargas já havia percebido a enrolação de Pereira e já estava para xingar quando o homem ergueu os braços e fez um gesto para imitar uma explosão.
─ Um estouro? – Vargas volta a relaxar na cadeira.
─ Sim! Ocorreu primeiro na multidão. E depois outro e outro e outro, todos no meio do pessoal que assistia à palestra. Então uma fumaça branca e tão espessa quanto uma nuvem subiu e rapidamente tomou o local. Logo depois, um objeto é lançado no palco e lá também aconteceu um estouro parecido, com uma fumaça semelhante dominando o palco.
Vargas coçou o queixo. O depoimento de Pereira era parecido com o do outro soldado, que perdeu o braço. Decidiu, porém, deixar que o homem continuasse. Talvez ele fosse mais longe ou mais fundo que seu colega de trabalho.
─ Então ela surgiu – Pereira junta e abre as mãos, tentando imitar uma aparição – ...como uma fera que surge da escuridão, e segurando seu sabre como o deus do trovão empunha sua adaga, atacou o 1º soldado de frente.
─ Espere um pouco. Você disse “Ela”? Pensei que o agressor fosse um homem.
─ Sim... – Pereira pareceu hesitar – ...sim. Sim! Era homem! Na verdade um jovem e habilidoso rapaz, que se movia como um raio. Estou usando “Ela” no sentido de “pessoa” ou “criatura”, para criar uma linguagem perifrástica. Vocês detetives não gostam de falar assim?
─ Eu não! Na verdade, eu odeio circunlóquios, se você quer saber. E Thor, o deus do trovão, usava um martelo, não uma adaga.
─ Vocês detetives são tão espertos.
─ Continue por favor.
Pereira segue o depoimento, dizendo que logo após isso, ele foi derrubado do palco e não viu mais nada. Vargas questionou sobre o rosto do suspeito, mas Pereira respondeu não lembrar, talvez por causa do efeito da fumaça que invadiu o palco. Então o detetive veio com uma pergunta que travou o enfermo:
─ Pode me dizer se ele era ruivo ou se estava sujo?
─ Ruivo? – Pereira encara o detetive com um olhar curioso. “De onde tirou essa informação?” era pergunta que lhe veio à cabeça, mas ele decide negar – Não... Não saberia dizer.
─ Por que eu acho que está me escondendo alguma coisa?
─ Porque eu sinto que meu cérebro está escondendo alguma coisa de mim também – responde Pereira, na esperança de que o detetive aceitasse que ele se referia aos possíveis efeitos colaterais do gás que inalou naquele dia.
Vargas cruzou os braços e se recostou na cadeira. O depoimento era idêntico ao do outro soldado de frente, com o qual já havia conversado. Mas havia alguma coisa no ar. Seu faro de detetive lhe dava certeza disso. Pereira também sentia que o detetive estava desconfiado e fez o possível para se manter calmo. Contou-lhe realmente tudo o que lhe veio à cabeça, mas ocultou a parte da conversa que ouviu entre seu patrão e seu suposto assassino. Sabia que isso não ajudaria Vargas na sua busca pelo assassino e, portanto não entendia porque se segurava.
Mas o que mais lhe causava estranheza era porque que ele não queria dizer a verdade totalmente. Que o assassino era na verdade uma mulher. Uma moça. Usava uma trança única, tinha pele rosada, uma voz doce, portava uma “espada-bastão” e vestia-se como um samurai.
Imaginava que logo Vargas iria descobrir tudo isso, pois ele parecia ser daquele tipo de detetive que não largava o osso. Então, antes do detetive vir com perguntas mais capciosas e o fizesse cair em contradição, o que seria um perigo para ele, pois Vargas tinha o poder de prendê-lo, Pereira decidiu abortar o mesmo caso de outro ponto de vista.
─ Tem mais uma coisa, detetive.
─ Estou ouvindo.
─ Eu não queria falar sobre isso, afinal, se trata de meu patrão, o qual eu jurei proteger.
Vargas ergue as grossas sobrancelhas, mas nada questiona. Pereira então, pega a sacola de plástico, retira uma cópia imprimida de um antigo jornal que encontrou na internet e coloca sobre a mesa. O detetive pega os papéis, vê a coluna jornalística que ele mesmo escreveu e dá uma rápida lida no início de cada dois ou três parágrafos da primeira página, para trazer à mente uma ideia de tudo o que foi escrito.
Era o caso Inspiração de Amaro, do Orfanato Saint Exupéry, onde ocorreram experiências médicas com crianças e adolescentes, cujos verdadeiros culpados nunca foram condenados por falta de provas. Eles conversam sobre o caso, agora com Vargas respondendo algumas perguntas simples de Pereira, até que chega o momento em que o enfermo revela que sabia quem era o verdadeiro culpado pelos crimes.
─ Meu patrão, o prefeito Rudolf. Ele é, ou melhor, foi o dono e responsável pela construção daquela ala médica. Por isso ele foi assassinado.
─ Tem provas disso, filho?
─ Provas não. Mas tenho um tipo de confissão.
─ Escute só, senhor Pereira – Vargas joga o documento sobre a mesa – desde o início que eu desconfio que você sabe mais do que qualquer outro. Por isso o escolhi para ficar no seu pé.
─ Do que está falando?
─ Você foi o único dos guardas a não adormecer pelo efeito do gás. Foi o que ficou de frente com o assassino, de tal maneira que sofreu ferimentos sérios, mas não fatais. Foi quem chamou a polícia e as ambulâncias informando a situação. É provavelmente o único a ter feito a ligação entre o assassinato do prefeito com seus crimes passados e essa minha matéria, de alguns anos atrás.
─ Eu não disse que fiz a ligação entre...
─ O senhor pegou um jornal qualquer na internet que tem minha assinatura como o autor do artigo, que fala justamente do único motivo pelo qual alguém iria querer que o prefeito Rudolf, um homem visto como bondoso e altruísta, fosse morto.
─ O que isso tem a ver com...
─ Eu quero – Vargas ergue a mão direita fazendo o homem se calar – Eu quero que o senhor me diga o que você e o assassino conversaram.
─ Por que o senhor acha que eu e o assassino tivemos uma conversa?
─ Porque se o senhor tem uma confissão de Rudolf, ele com certeza não lhe fez de pura e espontânea vontade.
─ Detetive...?
─ As pessoas tem medo de morrer, senhor Pereira. Principalmente políticos e ricos empresários, que ficam indiferentes ao ver pessoas morrerem, mas pagam altos salários à pessoas como o senhor para morrerem no lugar delas.
Pereira respira fundo, tentando se acalmar novamente. A conversa tinha saído do seu controle, pois não era assim que ele pretendia manipular o rumo das informações. Vargas era mesmo um detetive sério, que não se valia da profissão por causa dos poderes que seu famoso distintivo lhe fornecia.
─ Eu não conversei com o assassino – responde Pereira finalmente – eu ouvi uma conversa entre ele e o prefeito. Uma conversa que me fez pensar sobre o assunto por horas até ter acesso à um computador e fazer uma pesquisa.
─ Conte-me o que ouviu.
─ Claro.
─ E desta vez – Vargas pisca um dos olhos – você pode usar de linguagem perifrástica.
Pereira acena com a cabeça e conta tudo o que ouviu daquela conversa reveladora. Tudo o que pensou e sentiu durante as longas horas que passou diante de um computador, pesquisando, buscando, descobrindo. Declarou que alguns conhecidos seus tinham parentes que foram vítimas das experiências do orfanato, daí sua curiosidade em saber mais à respeito, mas não disse que ele mesmo perdeu um sobrinho.
Ficou claro para Vargas como e o porquê de o homem ter feito a ligação. Rudolf foi morto pelo crime de cativeiro e assassinato de dezenas de crianças nos anos de 2.001 e 2.002. Pouca coisa foi ouvida por Pereira durante o crime, devido à correria e gritaria do momento. Então ele teve de juntar pedaços e formar um quebra cabeças, que foi completo com o que encontrou na net.
Demonstrando-se satisfeito por hora, Vargas levantou-se apoiando em sua bengala e resmungou:
─ Tenho outros assuntos marcados para essa manhã. Por isso tenho que ir agora.
─ Ainda vai me interrogar futuramente?
─ Provavelmente não! Já tenho o que preciso para continuar no caso. Mas tenho uma última pergunta – Vargas ergue o gravador e deixa claro de que já o desligou – ...e essa é informal e pessoal.
─ Pode falar.
─ Você culpa o assassino pelo que ele fez?
─ O quê?
─ Não estou falando dos seus ferimentos, mas sim... por ele ter matado seu patrão. Você acha que ele deve pagar por ter matado Rudolf?
Pereira engole seco, tentando imaginar que tipo de reposta o detetive queria ouvir. O certo seria dizer que sim, que o assassino deveria ser preso e, a julgar pelo status da pessoa que ele matou, deveria pegar prisão perpétua ou mesmo pena de morte. Mas isso seria o “policial” falando. Pereira gostaria de falar como “cidadão”. Como o pai, a mãe, o tio, ou qualquer outro parente que leu e reconheceu um dos nomes daquela lista fúnebre do jornal online da DeWars.
Vargas, no entanto, não espera muito para saber a opinião do enfermo. Ele já havia percebido que Pereira estava defendendo o assassino desde que começaram aquela conversa. Isso era perigoso, além de ser um crime. Poderia condená-lo por cúmplice de assassinato e poderia fazer isso já. Mas ao invés disso, Vargas simplesmente sorri e diz:
─ Imaginei que não. Tenha um bom dia, senhor Pereira.
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