A Busca
20 A Sala Himitsu
Notas iniciais
Nesse exato momento, de volta ao Gen-Bu, Mozu caminhava ao lado de seu companheiro Nezu para o salão principal do pequeno Império com um único objetivo em mente; entrar na sala mais especial, proibida e enigmática de Gengetsu, conhecida como Himitsu. Os mistérios que acercavam essa sala eram muitos, por que todos aqueles que sabiam de sua existência afirmavam que Gengetsu guardava objetos muito mais importantes que dinheiro lá. Só que esse “muito mais” ninguém sabia exatamente o que era.
E para piorar o mistério, nessa sala só era permitida a entrada de Gengetsu. Nem mesmo Nezuo, o braço direito de Gengetsu e provável herdeiro do Gen-Bu, tinha o direito de entrar nela. Somente Rumiko, pouco depois de Gengetsu à trazê-la do Brasil, pode usufruir dos mistérios da Himitsu. Com o tempo, Nezuo aceitou e conviveu com isso, mas Mozu nunca engoliu tal ato. Considerava de uma ousadia sem tamanho por parte da menina e de um tremendo desrespeito por parte de Gengetsu. Mas agora que morreu, os capitães se viam livres para entrar nela e descobrir o que ele escondia com tanta cautela.
Passando no salão principal do dojo, o maior de todos, eles viram o acento do mestre supremo do império, agora vazio e, acima dele, o primeiro grande tesouro. Numa parede forrada com um belíssimo tapete vermelho de bordados amarelos, uma espada muito bonita, com bainha adornada e bem trabalhada, pendurada numa altura de cinco metros. Era a Izanami no Odachi, uma das três espadas que representavam o poderio e importância do Império Gen-Bu.
Os homens olham com grande cobiça para o objeto, mas um estranho sentimento os invade e eles entram num consenso de que nenhum deles deveria retirar aquela espada dali. Segundo as lendas, aquela espada pertencia à Izanami, uma grande deusa da criação e uma das divindades que ocupava o topo do panteão xintoísta. Eles não acreditavam muito em nenhuma das versões de criação do mundo, visto que cada religião tinha a sua. Mas tinham certo respeito pelas forças ocultas e, afora disso, era fato que aquela espada emanava uma energia incomum, que forçava qualquer um de bom senso a respeitá-la como o objeto sagrado que era.
Ao lado direito do acento principal, havia uma porta, pouco mais aos fundos, da mesma cor da parede e que geralmente ficava trancada. Nezuo, em posse da chave, a abre pela primeira vez sem o consentimento de Gengetsu.
A porta dava noutra longa sala de combates, maior e mais escura, que também servia de depósito de armas e finalmente, também ao fim dessa sala, um vão profundo, lembrando um enorme caixote fincado na parede, de dois metros e meio de altura por dois de largura e um e meio de profundidade. Era um tipo de elevador, que se movia de forma manual, através de uma engenhosa manivela de ferro.
O espaço dentro da cabina não era muito grande, afinal, foi feito para transporte de apenas um passageiro. Mesmo assim, os dois homenzarrões se esforçam e se espremem dentro do elevador. Nenhum deles queria ficar para descer depois, já que seria a primeira vez que veriam aquela sala desde que o dojo foi construído e por isso, ambos estavam muito curiosos e ansiosos.
Com muito esforço, Nezuo gira a manivela, fazendo a cabina descer lentamente. Levando pouco mais de seis minutos, eles chegam ao fundo e lá, os dois capitães são apresentados à um corredor escuro e profundo. O chão também se aprofundava à medida que se distanciava, numa ladeira que se perdia na escuridão, deixando à vista para se caminhar somente uma fina elevação de cimento ao centro. Ou seria uma ponte? Não dava para saber. O que se imaginava era que a sala Himitsu provavelmente estaria no fim dela.
O lugar era frio, pouco convidativo e os capitães se entreolham desconfiados antes de tomarem coragem para prosseguir. Nunca lhes foi dito o que havia naquela sala, nem por Gengetsu, nem por Rumiko. Tudo o que sabiam lhes foi informado por Yuen Shun, um habilidoso guerreiro e ex-capitão do Gen-Bu. E ele só disse que ali se guardava uma parte considerável de toda a fortuna do Gen-Bu e os maiores segredos do homem chamado Gengetsu Burashi, daí o nome da sala ser Himitsu, que significa segredo ou secreto.
─ E agora? – Nezuo olha para o parceiro – Shun por acaso lhe falou sobre esse corredor?
─ Não. Ele me disse que o elevador dava direto na sala.
─ Bom... se ele também nunca veio até aqui, não tinha como saber. Vamos em frente, então.
Após alguns passos adiante, entrando completamente no túnel e perdendo totalmente a visão na escuridão, Nezuo, que com o braço esticado se apoiava nas paredes para não cair da ponte, nota um objeto preso nas laterais do úmido e estreito corredor. Tateando melhor, ele deduziu que era uma espécie de lampião de parede, daqueles usados em tempos medievais para alimentar a iluminação de um calabouço ou castelos antigos. Nezuo não perdeu tempo procurando um interruptor, porque imaginou que seriam lampiões movidos à gás ou querosene.
Firmando-se ao lado de Mozu, Nezu explica seu intento e ambos caminham ao mesmo tempo e lado à lado, tateando as paredes para saber se haveria alguma curva, objeto ou armadilha que precisassem evitar, tentando também não pisar fora da passarela que se seguia ao centro do escuro corredor.
E assim foram até que chegaram noutra porta, feita de aço e pintada com uma tinta mal cheirosa e brilhante, que a impedia de enferrujar naquele lugar úmido e frio. Ela também estava trancada, mas não à chave. No meio da porta, onde uma depressão profunda e redonda se formava, havia uma espécie de trava manual, com duas pontas emborrachadas, que se alojava perfeitamente dentro da cavidade circular. Ela precisaria ser girada para que enormes ferrolhos de aço, nos lado esquerdo e acima, fossem recolhidos e, assim, destravar a porta. Foi projetada para ser movida por um único homem, já que estava numa posição em que duas pessoas juntas atrapalhariam uma à outra.
Nezuo era o mais forte dos dois, não só em técnica de luta, como também em força física. E é ele que toma a dianteira, pega com solidez nas duas extremidades da trava e se posiciona para girar. Uma força descomunal é usada para mover apenas um centímetro da trava. “Que tipo de monstro ele era?”, pensa Nezuo sentindo as veias do pescoço começarem a doer de tanto esforço.
Depois de conseguir mover por dez centímetros, a trava cede de vez, e o restante do percurso do ferrolho é movido mais facilmente. Nezuo descansa um pouco antes de começar a puxar a porta, que também não era fácil de mover. Nesse momento, Mozu o ajuda e ambos são, enfim, apresentados à Himitsu, ou melhor dizendo, ao denso e escuro espaço que deveria ser tal sala.
Ainda na entrada, os capitães tateiam as paredes perto deles e encontram uma alavanca à um metro do chão, do tipo usado para ligar um gerador de força. Nezuo, com todo o seu tamanho, abaixa-se, pega na alavanca com dois dedos e a puxa devagar, ainda receoso com o que poderia acontecer por estarem no local mais secreto e misterioso do Gen-Bu.
Ouve-se o barulho de um pequeno gerador de energia, movido à querosene e escondido em algum canto da sala, provavelmente no teto ou nas paredes, e que não podia ser ouvido na parte superior do dojo. Quando o gerador alcança sua potência máxima, as luzes, localizadas uma em cada quina do teto, se acendem em ordem aleatória.
Então, de cara com os pertences da sala, os capitães esbugalham os olhos diante do que viram.
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Emiliano Katou fechava a porta de seu Citroën prateado quando seu celular tocou pela segunda vez naquela manhã. E desta vez não era a secretária da corporação a qual trabalhava e sim o próprio pedinte do favor que o fez ir até ali, na cidade de Saltos, e que ele atendia com prazer.
─ Onde você está? – questiona a voz do outro lado do aparelho.
─ Bom dia, senhor Vargas. Estou em frente ao Saint Martin Hospital. Que nome estranho para um nosocômio aqui no Brasil, não é?
─ Um o quê...? Ah, deixa pra lá. Acabei de sair daí. Quer que eu volte para auxiliá-lo em algo?
─ Não. Não será preciso. Prefiro fazer meu trabalho sozinho.
─ Parece familiar. Recebeu as fotos que lhe enviei do quádruplo homicídio?
─ Sim. Estão no meu carro. Onde nos encontraremos?
─ Que tal um jantar? Acho que terei um dia cheio hoje e só vou ter tempo à noite.
─ Pra mim parece ótimo.
─ À tarde então eu ligo novamente e digo o nome do restaurante.
Katou concorda, fazendo um som anasalado e desliga o celular. Ao entrar no hospital ele vai até o balcão de informações na sala de recepção e procura pelo médico chefe, responsável pelo caso do prefeito Rudolf. A atendente pede para ele esperar e sai de cena, voltando minutos depois, acompanhada de uma mulher vestida de enfermeira. Já de idade, com um corpo roliço que não satisfazia a imaginação dos adolescentes quando ouvia a palavra “enfermeira”, ela se aproxima com um andar meio rude e uma cara de quem já estava sem paciência para receber as pessoas. Isso porque ainda era manhã.
─ Posso ajuda-lo, senhor?
Katou olha o crachá da mulher, pendurado no peito esquerdo do seu uniforme e sorri ajeitando os elegantes óculos. Ele já havia sido advertido pelo detetive sobre o temperamento daquela mulher e sabia que ela iria intervir no seu trabalho.
─ Senhora Rose – ele exibe um sorriso galanteador – É um prazer conhecê-la. O detetive Vargas me falou de você.
─ Detetive Vargas, puf! – repete a mulher com desdém, fungando o nariz – Você conhece aquele rançoso?
─ Digamos que eu e ele trabalhamos para o mesmo chefe – Katou retira sua carteira e mostra um brasão, exatamente igual ao de Vargas, porém de um tamanho menor e prateado ao invés de dourado.
─ Emiliano Ka... Katou. – lê a mulher na carteira do homem e depois, com uma face engraçada, pergunta – “Emiliano”?
─ É estranho eu sei, mas não culpe a mim. Culpe meus pais.
─ Um momento “Emiliano” – replica a velha num tom de deboche.
Katou odiava seu primeiro nome. Foi escolhido por seu pai, que desde a adolescência, quando ainda morava no Japão, adorava filmes que abordavam o tema da máfia italiana. Quando teve seu primeiro e único filho, ele já tinha imigrado para o Brasil, então não teve dificuldades de colocar um nome que soasse parecido com o dos italianos.
Depois de quase vinte minutos de uma espera irritante, a enfermeira Rose surge no fundo do extenso e iluminado corredor, seguida por um homem de avental médico. De bigode grosso e cabelos grisalhos, meio calvo no centro superior da cabeça, corpo grande e fora de forma. Ele cumprimenta Katou com um aperto de mãos e diz firmemente:
─ Bom dia, senhor Emiliano. Sou o doutor Danilo, chefe da equipe médica que cuidou de toda tropa do prefeito Rudolf e responsável pelo diagnóstico em grupo de todos os envolvidos no caso.
─ Bom dia. E me chame apenas de Katou, por favor.
Katou, como de costume, analisou rapidamente o homem. O crachá em seu peito, bem mais adornado que os demais vistos ali, comprovavam com tudo o que ele disse. E mais, estava claro que ele era, não só o chefe de operação, como também médico chefe de todo o hospital.
─ Que bom – Katou escorrega os dedos nos cabelos – Tenho uns favores a lhe pedir em nome do detetive Vargas e de minha corporação.
─ Você também é da Nerak?
─ Sou... – Katou retira a carteira novamente e lhe mostra o distintivo.
─ Bom e em que posso ajudá-lo, senhor Katou?
─ Tem tempo para mim, doutor? É particular.
─ Claro. Venha comigo, por favor.
Danilo leva o convidado até sua sala, onde sabia que não seria incomodado, e pede para o convidado se acomodar enquanto senta-se na aconchegante poltrona de couro atrás de sua mesa de madeira vernizada e bem enfeitada. Sobre o móvel, via-se fotos de seus filhos pequenos, automóveis de brinquedo feitos de metal e ferro, miniaturas da torre Eiffel e do relógio Big Ben, e uma minúscula boneca de enfeite, daquelas feitas de plástico duro, com cabelos de fios de nylon, ereta e ataviada com um par de asas móveis às costas, de tamanho desproporcional à sua estatura.
─ Em que posso ajuda-lo, senhor Katou? – repete o doutor Danilo, ajeitando a miniatura da boneca alada, justamente a peça que parecia mais roubar toda a atenção de Katou.
─ Gostei dessa “garage-kit” – Katou ergue os olhos para o doutor.
─ Presente de minha filha.
─ Devo dizer que as asas dela... as da “Original”... Elas não são tão grandes.
─ E eu devo dizer que, se é amigo de Vargas, eu já tive uma conversa com ele por telefone e lhe falei que não sei de nada.
─ Não se preocupe. Minha função também é obter umas respostas, mas eu abordo o tema por um prisma em que Vargas não é capacitado.
─ Pois bem. – o doutor termina de posicionar a boneca, ergue a mão direita e gesticula, chamando o visitante para iniciar a conversa.
─ Primeiramente eu gostaria de uma cópia das fotos de todos os pacientes que foram atingidos pelos ataques do agressor durante o assassinato.
─ Foram apenas dois.
─ Muito bem, vou querer as cópias mesmo assim.
─ Tudo bem. E o que mais?
─ Vou querer também o laudo médico do caso.
─ Só um minuto.
Enquanto o doutor Danilo procurava as fotos nos arquivos correspondentes, guardados em uma das muitas gavetas em sua sala, atrás de sua poltrona, Katou virou a boneca para sua direção, observando-a de frente com mais atenção. Embora trabalhasse na mesma empresa que Flousey, ele nunca a viu pessoalmente, mas como praticamente todos os habitantes do planeta, ele já a vira pela televisão. Aquela bonequinha era uma singela homenagem, que de tão simplória e amorosa, fez o perito esboçar um sorriso.
Danilo fecha a gaveta, coloca as fotos na mesa e volta para o armário, procurando o laudo médico assinado por ele.
─ O que você faz exatamente, senhor Katou?
─ Sou um especialista.
─ Especialista em quê?
─ Em um assunto que você, desculpe a arrogância, provavelmente não compreenderia.
─ Deve ser algo extremamente complicado, então.
─ Nem tanto – Katou pega as fotos na mesa e começa a inspecioná-las – na verdade é bem simples, mas pessoas como você não estão preparadas para entender.
─ Aqui está! – exclama o médico, dando os papéis diretamente nas mãos de seu convidado.
Katou coloca os papéis na mesa e continua a observar todas as fotografias com cuidado. Por sorte havia muitas fotos das mesmas feridas, em ângulos diferentes e todas estavam perfeitas. Embora que em preto e branco, todas elas mostravam os cortes em dois estágios; o de forma limpa, sem sujeira e sem sangue, afinal, tratava-se de partes de um documento médico. E o modo como chegaram, sujos e sangrentos, do mesmo jeito em que se é visto em documentos criminais ou jornalísticos.
─ Foi você quem tirou essas fotos? – questiona Katou com um meio sorriso.
─ Foi sim. Estão ruins?
─ Não, não. Estão ótimas! Você devia pensar em ser fotógrafo.
─ Ser fotógrafo não salva vidas.
─ Não. Não mesmo.
Katou pega os escritos sobre a mesa e começa a ler lentamente.
─ Disse que haviam sido dois, mas aqui no laudo constam três agredidos.
─ O terceiro sofreu um ataque no rosto. Quebrou o nariz, mas nada sério. Uma certa regra do hospital diz que não devemos fotografar o rosto de nossos pacientes a não ser em situações necessárias.
─ Que tipo de situações?
─ Situações de ferimentos sérios e graves. Usamos as fotos para ensinar novos alunos e interinos que ainda não viram algo parecido, para saber como agir quando toparem em ferimentos assim. Ser um enfermeiro não é só pegar o termômetro e tirar temperatura.
─ Claro.
Um longo momento de silêncio se segue até que Katou termine sua leitura. Ele coloca os papéis sobre a mesa e ajeita os óculos, questionando.
─ Os guardas do prefeito e os pacientes que estavam assistindo foram diagnosticados com um forte ataque de madorna e narcose incontrolável. Causados pelo quê exatamente?
─ Me envergonho em dizer que ainda não tenho certeza. A primeira resposta que obtive, e que ainda não passei adiante, é que eles foram envenenados por um fungo conhecido como Amanita muscaria. Os sintomas são exatamente os mesmos e os vestígios encontrados na corrente sanguínea de alguns pacientes também o lembram.
─ Amanita... Muscaria?
─ O “Agário das Moscas”. Um cogumelo venenoso que causa sonolência e até loucura. Mas como disse, ainda estou pesquisando, apesar de que tudo indique que realmente foi algo vegetal, pois os corpos dos espectadores e dos soldados não reagiram de forma equivalente a uma infecção de um componente químico e sim de algo natural, provavelmente uma raiz exótica ou uma flor ainda não catalogada. Dizem que após a tragédia do milênio, há muitas novas pelo mundo.
─ Foi o que ouvi também. Mas já que os sintomas são tão parecidos, por que o senhor acha que o agário das moscas não foi exatamente o método usado para envenenar os soldados?
─ Porque o amanita muscaria precisa ser ingerido para causar danos assim. E seu efeito se inicia somente após quinze ou vinte minutos depois que ele é ingerido. Eu acho que seria muita coincidência que dezenas de pessoas tivessem a loucura de experimentar ao mesmo tempo um cogumelo venenoso só para saber que efeito ele causaria. E acho ainda mais difícil que essas mesmas pessoas estivessem todas na mesma hora e no mesmo local quinze minutos depois. E numa palestra política? Se fosse um jogo de futebol ou uma atração beneficente quem sabe?
O doutor faz uma pausa, esperando um comentário qualquer de Katou sobre sua elocução. “Ser detetive não é tão difícil, se tudo o que fazem é perguntar e deduzir”. Katou, no entanto, fica em silêncio, tentando imaginar varias cenas que se assemelhassem ou se encaixassem àquela descrita pelo doutor; a de dezenas de pessoas devorando um cogumelo em algum tipo de loja ou barraca e indo todas para o mesmo lugar. Ele era, apesar de tudo, um aspirante à detetive, então, precisava pensar numa resposta que englobasse todo o caso. Nenhum tipo de imagem ou dedução, porém, satisfaz Katou.
─ Seja o que for que os derrubou – prossegue o doutor – ...é tão forte que apagou a memória das pessoas durante a inalação. Tudo o que elas se lembram é de estarem na palestra do prefeito e, depois disso, de acordarem aqui. E isso não é um sintoma conhecido pelo amanita muscaria.
─ Certo. Bom, acho que é só isso, doutor. Desculpe pelo incômodo.
─ Quê? Só isso? Não quer dar uma olhada nos pacientes e entrevistar alguns deles?
─ Não. Na verdade, para realizar meu trabalho, eu só precisaria das fotos mesmo. Onde posso tirar uma cópia dessas fotografias? Preciso leva-las comigo.
─ Fique com essas. Eu tenho os negativos.
─ Obrigado doutor.
Katou levanta-se, aperta a mão de Danilo e sai simplesmente. Não tinha mais nada a fazer ali, mas tinha um trabalho a realizar e que estava louco para começar. Ele anda apressado pelos corredores, vai até o seu carro e senta-se, cansado e ansioso. Abre o porta-luvas, pega as fotos do quádruplo homicídio enviadas por Vargas e põe-se a estudar e comparar as fotos entre os dois casos, uma por uma, alternadamente.
Apesar de não esclarecer o motivo, Vargas disse à Katou que gostaria muito que o assassino dos dois casos fosse o mesmo. Por isso o chamou. Como ele mesmo havia dito sobre si, Katou era realmente um especialista. Sua função era descobrir um elo ou concordância em crimes e assassinatos que fossem cometidos pela lei do aço, ou seja, ele devia achar um paralelo entre dois cortes, feridas ou marcas, para saber se foram feitos pela mesma pessoa ou, em casos mais absurdos, pela mesma arma cortante.
Porém, embora que a experiência de seu trabalho lhe desse o poder de ver algo intrigante nas fotos, Katou não sentia que havia alguma ligação entre elas que determinasse uma pista única. Ele não tinha o mesmo faro de detetive de Vargas, e mesmo que forçasse seu discernimento à trabalhar de um jeito fora do padrão, ele não acreditava que aqueles dois crimes fossem obras de um mesmo assassino. Na verdade, tinha certeza de que eram pessoas diferentes, pois os cortes eram diferentes. Contudo ele admitia, havia algo de familiar nas duas feridas. Para ele, estava claro que eram dois criminosos diferentes, se passando pela mesma pessoa.
Tinha já uma certa facilidade e intimidade com o assunto, pois aprendeu essa habilidade de seu pai. Melhor dizendo, não foi uma habilidade e sim uma herança profissional. Seu pai lecionava kendô na academia do pai dele, o respeitado professor Goro Katou, que também é um instrutor de tal esporte, além de um grande especialista em movimentos marciais e seus efeitos, e é um potente entendedor da filosofia da arte da espada.
Katou não se interessava em aprender esgrima japonesa, mas como a maioria dos jovens, ele adorava espadas e era fascinado por suas histórias fantasiosas, então decidiu aprender com seu avô os segredos ocultos do objeto. Agora, aos trinta anos, com uma inegável ajuda de Vargas, Katou finalmente conseguiu um emprego que satisfizesse seu desejo: trabalhar, embora que de freelance, como técnico criminal especializado em casos voltados à armas brancas, para a Força Nerak, a maior corporação voltada à defesa civil da Ilha de Vera Cruz.
Era um bom trabalho. O salário era bom demais para tão pouco serviço. E nos raros casos em que era requisitado, ele precisava dar o melhor de si. Só que o melhor dele naquele caso talvez não fosse o suficiente para agradar Vargas que, querendo ou não, foi a pessoa que lhe conseguiu aquele emprego.
Mas Katou era um homem que acreditava no destino e sorri ao perceber a grande sorte que tinha em mãos. “Preciso da ajuda de um mestre”, pensa ele momentos antes de pegar seu celular e ligar para seu chefe.
─ Sou eu – ele diz assim que Vargas atende e, como de costume, permanece na linha sem dizer nada.
─ Sim, senhor Kato?
─ É “Katou”. Nasalize mais o final de meu nome.
─ Prefere que eu lhe chame de Emiliano?
─ “Kato” está bom.
─ Descobriu alguma coisa?
─ Nada ainda, mas você tem razão em ficar desconfiado. Tem algo de errado nessas fotos que não é fácil de compreender. Mas eu tenho minha opinião.
─ Por isso chamei você ao invés dos imbecis da perícia criminal.
─ Tive a ideia de jantarmos em minha casa, o que você acha?
─ Por quê?
─ Porque eu gostaria de uma segunda opinião. E eu conheço alguém perfeito que, por coincidência, está passando uns dias lá em casa.
─ Humm. Por mim tudo bem. E qual será o cardápio, Emiliano?
─ Comida italiana.
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