A Busca
21 Planos Futuros
Notas iniciais
Sentada abaixo de uma árvore ao topo de um morro gramado e usando suas roupas comuns, que ela gostava de chamar de roupas de “civil”, Rumiko mordiscava a parte traseira de um lápis preto enquanto olhava pensativa para um pedaço de papel. Ela mexe a cabeça num gesto afirmativo, concordando que o plano que acabara de elaborar em sua mente seria o mais aceitável, tira o lápis da boca, faz mais alguns rabiscos e gira o objeto entre os dedos delgados enquanto repete ao seu companheiro Petruz, sentado ao seu lado, que agora precisavam encontrar outros três grandes nomes de sua lista e apagar eles do mundo político.
Petruz, que olhava as pessoas transitarem despreocupadas numa rua bem abaixo do morro, apenas respirou ruidosamente e resmungou.
─ Eu sei. Você já disse isso antes, no restaurante, lembra?
─ Desculpe a redundância, senhor.
Petruz tentou dar uma espiada no quê Rumiko escrevia e a moça não se importou em deixa-lo ver. Porém o rapaz não entendeu nada, pois tudo o que viu de relance no papel foi um punhado de desenhos estranhos.
─ O que são esses rabiscos? Hieróglifos por acaso?
─ Iie! São katakanas. A escrita japonesa é dividida em três alfabetos distintos. Rumiko aprendeu a escrever duas delas.
─ E o quê você está escrevendo? Eu posso saber?
─ Mochiron! Agora que somos amigos, Rumiko não tem nada para esconder do senhor.
Percebendo logo em seguida que disse algo sem pensar, Rumiko olhou para Petruz com um rosto ansioso, e o questiona com uma voz mais macia que a de costume.
─ Nós somos amigos, não é?
─ Sim, claro. Somos sim.
Rumiko volta a sorrir, feliz e enternecida com a resposta do ruivo, então continua.
─ Rumiko só está fazendo uns cálculos. Existem cerca de dezoito pessoas com peso para ser líder do mundo, mas esses três que Rumiko pôs no topo da lista estão entre os cinco mais importantes. Baseando-se numa teoria, Rumiko os está colocando em ordem para saber qual deles nós deveremos atacar em seguida se acaso o plano inicial não funcionar. Ou seja, Rumiko já tem um palpite sobre os quatro próximos candidatos que deverão sumir do planeta se acaso eles insistirem em acelerar o ritmo e eleger o líder do mundo em menos de um ano. Mas isso só depois de nossos três homens caírem.
─ Aí seriam sete no total, então. E quem será nosso próximo alvo desses três primeiros nomes?
De acordo com os cálculos que fez, o primeiro nome da lista de Rumiko era o de Lomar Armstrong, chefe do conselho político britânico e também embaixador da Nova Inglaterra no Brasil. Como Rumiko e Petruz estavam no distrito federal, que não é mais Brasília e sim o Amazonas, não era muito difícil encontrar os pontos onde pessoas do meio político se reuniam. E para ajudar, Rumiko tinha consigo um mapa de Vera Cruz, que era desatualizado, mas continha os pontos necessários para ela localizar seus respectivos alvos. A moça retira tal mapa do bolso e o entrega a Petruz.
─ Dessa lista, o mais próximo de nós é o senhor Lomar Armstrong. Ele está na embaixada britânica, na cidade-estado de Jaú, e ficará lá até a próxima eleição do País. E olha só – a moça pisca um dos olhos, num gesto de felicidade, apontando o nome seguinte – Seis dos dezoito candidatos à líder estão aqui em Vera Cruz e que, desses seis, dois estão em nossa lista. Que sorte a nossa de que, não é?
─ É... – Petruz replica desanimado – é mesmo muita sorte a nossa. Diz de novo porque temos de mata-los.
─ Rumiko tem um ano para ressuscitar o mestre Gengetsu. Só que as eleições à Líder do mundo acontecerão já no ano que vem, por isso, Rumiko precisa de mais tempo. E quando dois ou três dos homens que anseiam ser Leviatãs sumirem da lista de candidatos, o mundo político vai voltar a ficar a bagunça que era três anos atrás. E vai levar um bom tempo, pelo menos um ou dois anos, até que o meio político desse país se ajeite novamente. Isso porque alguns dos indivíduos que vivem nesse meio seguem atualmente algumas ordens e decisões desses três nomes.
─ Desse país? Quer dizer que só o Brasil..., quer dizer, só Vera Cruz é que vai perder com isso?
─ Iie! Vera Cruz é um dos países que sustenta o mundo. Se tirarmos a ordem política de Vera cruz dos eixos, os outros grandes países terão de esperar pelo menos mais um ano antes de escolherem o líder do mundo. Lomar, por exemplo, não é brasileiro. E se ele subir ao trono de Leviatã, ele representará a Nova Inglaterra e não Vera Cruz, mas comandará todo o planeta.
─ É como no Vaticano, que escolhe um Papa para o mundo todo, mas ele próprio não perde sua nacionalidade.
─ Sôo! Rumiko não pretende impedir que um Líder seja eleito, e sim atrasar a sua escolha.
─ Entendi. Para que seu mestre já esteja de volta e seja o Líder Supremo. Agora, pode me explicar porque precisamos de um líder poderoso assim? O mundo já é uma bagunça com um chefe de estado em cada país.
─ Mas é por isso que inventaram essa ideia de líder do mundo. Os chefes de estado das grandes nações não vão deixar de existir, contudo, terão seus poderes diminuídos e alguém para obedecer antes de começar uma guerra ou se aliar à uma grande potência para esmagar outra menor.
─ Humm... A princípio a ideia parece boa.
─ A princípio todas as ideias parecem – resmunga Rumiko ressabiada.
Petruz sorri ao sentir que Rumiko pensa como ele. Que essa ideia de líder do mundo tanto pode dar certo como pode ser prejudicial. O problema é que, se for prejudicial, será em escala global e, pelo visto, as pessoas responsáveis por esse plano não pensaram por esse lado.
─ Ainda acho absurda essa ideia de criar um Líder para o mundo – retruca o ruivo – quem foi que pensou nessa bobagem?
Rumiko ajeita a pesada bolsa nas costas e começa a contar o que sabe com entusiasmo:
─ A ideia não é original. Ela foi baseada em um livro chamado Leviatã(1), que defendia a tese de um líder supremo. Segundo o livro, os humanos não são capazes de conviver entre si e, com o tempo, se autodestruiriam através de guerras e conflitos sem nexo. E um Líder do Mundo com poder de sancionar ou vetar uma guerra seria perfeito para evitar o fim da humanidade. Quando um dos Honoráveis leu esse livro, percebeu que, nesse mundo pós-apocalíptico em que vivemos, cheio de conflitos internos e lutas pelo poder, o único jeito de tentar organizar as coisas era transformar o mundo todo numa única nação, estabelecer um Líder e recriar o Leviatã do livro.
─ Uma única nação... Um único Rei... para todo o mundo.
Petruz começa a refletir. Essa loucura de o mundo ser governado por um único homem que decidisse o destino do globo e que eliminasse qualquer ameaça, oposição ou desrespeito ao seu partido já foi tentada antes, em escala pouco menor, porém assombrosamente perigosa, por alguém que o mundo todo temeu. O poder de ter todo o planeta na palma da mão inevitavelmente subiria à cabeça desse homem, seja ele quem fosse, tornando-o, não uma líder, mas sim, um ditador.
─ É meio assustador – Petruz estremece.
─ É sim. Muito! – Rumiko olha para Petruz e, ciente de que era filho de um judeu, quase conseguia adivinhar o que ele pensava, então o encoraja – Por isso nós precisamos torcer para que nenhum déspota maníaco se sente nesse trono.
─ É...
No caminho eles passam por uma praça ladeada com ruas estreitas de mão única. Rumiko pede para Petruz esperar um pouco e senta-se em um dos bancos de madeira gradada. Petruz põe as mãos no bolso e observa a moça retirar o gorro, deixando seus cabelos caírem soltos e livres sobre as costas, abrir sua bolsa cilíndrica e colocar o esdrúxulo chapéu dentro dela. Em seguida, a mocinha passa os dedos das duas mãos nas franjas frontais, separando-as da frente dos olhos e, por fim, pega seus cabelos na altura da nuca, puxa-os para frente e começa a fazer sua tradicional trança única.
─ Está muito quente para ficar de chapéu – diz ela cruzando as pernas e olhando para cima, na tentativa de mudar de assunto – Será que vai chover ainda hoje?
─ Talvez não... – o Ruivo senta-se ao seu lado e enquanto espera a moça terminar – Mas me diga... esse nome Leviatã, você sabia que ele vem das escrituras sagradas?
─ Ee! – Rumiko aquiesceu, sem demonstrar arrogância – O leviatã usado como referência pelo autor do livro Leviatã é baseado num monstro da mitologia cristã. Rumiko ouviu dizer que ele é descrito no livro bíblico como o maior dos monstros aquáticos(2) e que foi criado por Deus para matar outro monstro.
─ Caramba! Você sabe até sobre isso?
─ Hun! Um padre, conhecido de Rumiko, falou sobre esse assunto certa vez.
Ao terminar sua trança, muitos minutos depois, Rumiko se levanta, chama Petruz com um aceno de cabeça e ambos recomeçam a caminhada. Nesse ínterim, Rumiko olhava atentamente ao redor, procurando por algo durante a caminhada, até que parou em frente à uma rua de entrada, e aponta para um terminal de ônibus públicos, bem mais adiante, descendo uma ladeira de concreto, escondida atrás de prédios e casarões.
─ Lá está, senhor Petruz. A rodoviária pública. Ainda vai ficar com Rumiko?
─ O que quer dizer?
─ O próximo passo de Rumiko será pegar um ônibus, ir até a estação de trem de Saltos, viajar até Jaú, encontrar o senhor Lomar e... – Rumiko faz uma breve pausa para respirar –...E assassiná-lo.
─ Sim... Sim eu sei. Sabe que, dizendo assim, soa muito assustador?
─ É para ser assustador, mesmo. Então, o que o senhor pretende fazer? Ir com Rumiko até lá pode ser muito mais perigoso do que foi com o vice-prefeito daqui de Saltos.
O garoto fica pensativo por um tempo, mas logo toma a dianteira e diz:
─ Eu vou com você. Vou ficar com você para o que der e vier, afinal, eu era apenas um vagabundo de rua faminto e maltrapilho antes de te conhecer. E você gastou uma boa grana comigo. Eu sei que a missão é perigosa, mas eu estou te devendo uns favores.
─ Senhor Petruz... O senhor não me deve...
─ Além do mais – Petruz levanta a mão e aponta para a mocinha, fazendo-a se calar – eu já vi você lutar, portanto não tenho medo de entrar numa nova aventura. Se você não se importar, eu quero ir com você.
─ Hai! Arigatai, senhor Petruz – a moça se inclina em reverência – Rumiko jamais se incomodaria com sua presença.
─ Que bom. Agora vamos indo antes que eu mude de ideia.
─ Rumiko já tem uma outra ideia em mente, senhor. O trem que vamos pegar na estação ferroviária é um que cruza toda a cidade de Saltos e vai até Jaú. Por isso, ele só parte pela manhã e retorna à noite. Quando chegarmos, será bem provável de que não haverá nenhum carro ferroviário por lá à essa altura da manhã. Então Rumiko achou que seria uma boa ideia a gente se hospedar aqui perto e só partir amanhã cedo.
─ Umm... Tudo bem, você é que sabe.
Os dois jovens vão então em direção ao terminal de ônibus e, assim que encontram um lugar para se hospedarem, se aproximam sem hesitar. Rumiko entrega seu ursinho panda para Petruz e diz para ele pagar a estadia quando chegasse o momento. Em vista do que estava para fazer, seria bom fingirem ser um casal e que o homem tomasse as decisões com relação ao dinheiro, é o que ela pensa.
Cento e vinte bedinas era o valor cobrado pelo quarto se acaso decidissem ficar ali durante o dia inteiro, dormirem e irem embora no dia seguinte. Bem mais barato que o quarto do motel anterior e o lugar desta vez parecia ser mais limpo. Mas Petruz só julgaria o local em quesito de comparação quando entrassem no quarto.
Rumiko notou que havia um pequeno restaurante no salão principal do andar térreo, separado por uma parede com porta de duas folhas, e com outras portas de entradas e saídas no estabelecimento. Então ela dirigiu-se ao balconista, um homem bem sorridente, de rosto bonito e trajando uniforme típico de servente.
─ Senhor... Aquele é um restaurante público?
─ Sim, senhorita. Ele faz parte do hotel e, como tal, dá preferência aos nossos clientes, mas pode ser usufruído por qualquer um, desde que haja mesas.
Rumiko debruça-se sobre o balcão, que por causa de sua baixa estatura, pegava quase na altura de seu queixo, então sussurra para o atendente:
─ E os senhores adotam a lei de privacidade dos hoteleiros?
─ Isso depende – o homem apaga o sorriso, mostrando-se mais receoso.
─ Depende do que, senhor?
─ Depende de quem está atrás de vocês e se estão dispostos à pagar o preço adicional.
─ Não tem ninguém atrás da gente – proclama Petruz com um tom de voz mais alto, indiscreto para aquele tipo de conversa.
A moça põe uma mão no ombro de Petruz, fazendo-o se acalmar, e depois encara o balconista com serenidade:
─ Qual a relação entre o preço adicional e a identidade de quem está perseguindo o pedinte por privacidade?
─ Bom, nós mantemos segredo sobre nossos clientes, caso eles desejem, por um adicional na diária de oitenta bedinas.
─ Ficariam duzentas bedinas, então?
─ Esse é o preço, senhorita. Se vocês aceitarem, nenhuma informação será dada sobre vocês quando se forem. Nem à outro cliente ou mesmo para a polícia. Mas se estiverem na mira de detetives particulares de forças especiais, seremos obrigados a fornecer informações. Claro que, enquanto vocês estiverem dentro de nosso estabelecimento, ficarão seguros.
─ Nós só queremos ficar no anonimato por hoje.
─ Hum... Tudo bem! – o balconista abre um formulário no computador com os requisitos de clientes confidenciais – Vão querer uma estadia dentro dos termos da privacidade, então?
─ Bom... Parece um bom lugar – Rumiko pisca um dos olhos para Petruz, num gesto que havia pré-combinado, dando permissão para ele pagar a estadia, mas antes esclarece – E não precisa ser dentro dos termos de privacidade.
─ Claro – o atendente apaga a ficha do computador e redige uma nova – são cento e vinte bedinas.
O condomínio tinha seis andares. A chave dada aos recém-chegados ficava no terceiro aposento do primeiro andar. E Petruz, ao entrar no quarto, abre a boca de admiração. O local era limpo, espaçoso, iluminado e arejado. O quarto tinha duas camas grandes de solteiro, uma mini cozinha, uma estante com televisão e um rádio relógio, e um banheiro com box que separava a área do chuveiro. Nas paredes da ala do dormitório, duas janelas de modelo antigo, bem conservadas, e que davam para o ar livre, com uma paisagem final de um belo bosque num terreno que se elevava adiante.
─ É... – Petruz joga sua mochila no chão, admirado –...valeu cada centavo. Mas por que não quis pagar por nossa privacidade?
Rumiko lança um olhar preocupado para Petruz antes de caminhar desconfiada até as janelas. Seu instinto inquieto e aguçado de pantera só relaxa quando ela percebe, após uma rápida visualização, que as janelas eram próximas da escada de incêndio externa. Seria fácil fugir por ali, caso fosse necessário.
Ela se afasta da janela, vai até uma das camas e lá solta sua mochila-saco. No meio das camas, um criado-mudo com um abajur em cima e, no vão abaixo, revistas da rotina do hotel, jornais do dia, que eram trocados diariamente pelos empregados do local, e o controle remoto da televisão. Rumiko apanha o jornal, senta-se na cama, pega o controle e liga o aparelho televisivo, baixando o volume que invadiu o quarto com violência, e vai mudando de canais, até deixar num específico e, por fim, largar o controle.
Petruz senta-se na cama ao lado e de frente para a moça, e ao olhar para a t.v. o ruivo reconhece o canal. Pertencia ao grupo de canais pagos das t.v.s por assinatura, mas que hoje é transmitido em sinal aberto, cuja principal grade de programação eram notícias jornalísticas ou policiais o dia inteiro, reprisando e atualizando as matérias a cada programa que se iniciava.
─ Você gosta de assistir jornais?
─ Rumiko prefere desenhos animados – diz ela sem sorrir – Mas no momento, Rumiko quer ver como anda o mundo no dia de hoje.
─ E você vai ficar aí sentada até quando?
─ Gomen. Fique à vontade para ir ou fazer o que quiser senhor – a moça remexe os pés, tirando as sapatilhas com os calcanhares e deitando-se na cama – Rumiko não pretende sair daqui até ter certeza de uma coisa.
─ Ter certeza do que?
A moça o observava com uma face séria e preocupada, depois volta o rosto para a televisão e responde simplesmente.
─ Certeza de saber se estamos seguros.
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