A cidade-estado de Jaú, por representar um pequeno estado dentro de outro, era cercada por um muro alto, com quatro ou cinco portões enormes de ferro e madeira, localizados ao longo de sua extensão circular. Sua função era separar as cidades de outrora que foram anexadas à Jaú, tornando-o assim, uma cidade-estado, servindo somente para fins de distinção de terras e, logo, não eram fiscalizados, nem proibidos de se atravessar.

Rumiko e Petruz encontravam-se no momento em frente à um desses portões. Diante deles, barrando-lhes o caminho, um homem quase oculto na escuridão da noite. Não confortável com a cena, Rumiko toma a frente de Petruz, inclinando-se educadamente para o homem de preto.

─ Konban wa! O senhor é o guardião deste portão?

─ Não! – ele responde após um longo tempo – Eu sou só um andarilho, como você.

─ Hun! Então, o senhor não se importa se passarmos?

─ Não me importo. Mas vocês vão ter que pagar se quiserem passar. São cinquenta bedinas por cabeça. Cem para os dois.

─ Que absurdo! – protesta Petruz – Vamos Rumi. Podemos fazer isso outra hora. Ele não pode dormir aqui.

─ Eu não aconselho fazer isso garoto – o estranho aproxima uns passos, revelando-se mais.

Usava uma máscara preta, daquelas de motoqueiro que cobrem toda a cabeça, deixando apenas os olhos visíveis, e roupas escuras, com ombreiras de alumínio também escurecidas e uma estranha espada presa num coldre às costas.

─ Um ninja? – Petruz questiona num sussurro.

─ Oh sugoi! O senhor sabe o que é um ninja, senhor Petruz?

─ Hã? Bom... Eu estou me baseando nas roupas que ele está usando. Estou enganado?

─ Iie! O senhor está absolutamente certo!

─ Silêncio! – resmunga o homem – Não tirem a atenção de mim. Por acaso sabem quem eu sou?

Rumiko e Petruz olham para o homem, mas não arriscam um palpite. Então ele diz cruzando os braços.

─ Eu sou Kido! Sou o Gennin mais forte desta região.

─ Um Gennin? – Rumiko coloca o dedo indicador no queixo – Existem clãs shinobi por aqui?

Por nunca ter ouvido a palavra e perceber que Rumiko sabia do que se tratava, Petruz decide se aprofundar:

─ O que é um gennin, Rumi?

─ É um lutador Ninja, responsável também pelas missões de espionagem.

─ Pensei que todo ninja fosse assim.

─ Nem todos. O gennin, por exemplo...

─ EI, EI, EI! – o homem bate o pé no chão – Prestem atenção no que eu digo, seus moleques.

Rumiko interrompe a explicação e, sorrindo ao seu modo sapeca, pede desculpas para o suposto ninja, que continua:

─ Eu vou deixar vocês passarem, e não precisam pagar, mas primeiro... – o homem aponta para a espada de bainha cinza clara nas mãos de Petruz – terão de me entregar essa shikomizue.

Petruz, que havia pedido para levar a espada de Rumiko, agora abraça a arma, no inútil intuito de protegê-la. Rumiko, por sua vez, responde alegremente que não tinha problema. Então ela abre sua bolsa e retira a outra shikomizue que levava.

─ Se é uma shikomizue que o senhor quer, eis uma aqui! Aquela já está muito usada, mas essa ainda está nova em folha. Ela é original e...

─ NÃO! – o ninja grita com fúria – eu quero aquela nas mãos do garoto.

Rumiko olha para trás e focaliza Petruz abraçado à sua arma de “estimação” e pergunta curiosa.

─ Doushitê?

─ Porque ela parece ser valiosa. Nenhuma shikomizue é feita com tanta perfeição nos dias de hoje. Essa arma deve ter sido feita por um forjador humano, usando métodos humanos. E não por uma máquina ou grupo de metalúrgicos bélicos.

Petruz suspira de admiração. Era incrível saber que existiam pessoas com poder de diferenciar duas armas parecidas apenas com o olhar. Havia notado que o peso entre as shikomizues eram diferentes, mas parece que essa não é a única diferença.

Rumiko guarda sua shikomizue comum e admite:

─ É bem observador senhor Kido. Mas Rumiko não pode dar-lhe a Shiko Mizu no Ryu.

─ Ooh, então ela tem até nome? É mais valiosa do que imaginei. E eu vou ficar com essa espada, com seu dinheiro e, se continuarem a rebater – Kido retira sua espada da bainha às costas – levarei suas vidas comigo também.

─ Ainda assim, teremos que recusar, certo senhor Petruz?

O rapaz não responde. As pessoas do mundo atual resolviam tudo na violência, portanto ele já imaginava o que iria acontecer se acaso negassem a “oferta” do homem de preto. Rumiko também sabia que, se aquela situação não fosse resolvida com conversa, só seria com luta. E pelo visto, conversar não deu muito certo. Então, ela aproxima-se devagar de Petruz e pede sua espada, fazendo um sinal com os finos dedos.

─ Não podemos simplesmente fugir? – sussurra Petruz.

─ Iie! Estamos cercados!

─ O quê? – Petruz olha ao redor, mas não via nada além de entulhos e árvores mergulhadas na escuridão – Cercados?

─ Daijobu desu yo! – tranquiliza Rumiko, voltando-se para o homem de preto.

Kido ajeita a máscara e dá sua tréplica final com certa irritação:

─ Mas como são burros. Vocês não estão numa boa posição.

Subitamente, quatro outros homens de preto surgem aos quatro flancos da dupla, cada um portando o mesmo tipo de espada que Kido usava. Era uma espada pequena, menor que a shikomizue, porém, com folha de lâmina mais larga. Rumiko nem se abala. O motivo de ela ter tentado negociar com Kido desde o inicio era exatamente porque já sabia que estavam encurralados. Se estivesse sozinha, usaria de sua agilidade e escaparia, atravessaria o portão e fugiria sem problema algum. Mas a segurança de Petruz vinha sempre em primeiro lugar.

─ Rumi... – Petruz fica de costas para a moça – o que faremos?

─ Apenas não se mova senhor Petruz. Fique exatamente onde está.

Após tais palavras, um dos homens ao redor faz um movimento brusco, berrando:

─ Ora! Quanta coragem! VAMOS!

Os quatro homens avançam de uma vez, desordenados, porém ameaçadores, todos de arma em punho, enquanto Kido apenas observava à distância. Ao primeiro movimento de agressão dos inimigos, Petruz fecha os olhos instintivamente, mas assim como Rumiko lhe havia frisado, ele não se move. Pelo espaço de míseros segundos, gritos de guerra, movimentação brusca de ar e um som parecido com o de tecido e carne sendo rasgada e socada se faz até que, pouco depois, Rumiko exclama com sua voz angelical.

─ Pronto, senhor. Pode abrir os olhos.

─ Hã...? – Petruz abre seus olhos lentamente, um após o outro.

Ao redor deles, os 4 homens de preto já estavam caídos no chão, feridos ou talvez mortos, não importava muito. O que importava era saber que estavam fora de combate. Petruz não acreditou no que via porque, como ele achava que eram ninjas e como a televisão, responsável por alimentar boa parte de sua cultura, exaltava o poder desses mascarados de forma exagerada, ele imaginou que aqueles homens dariam um certo trabalho para Rumiko.

Mas não precisaria ser um gênio para saber o que ocorreu ali. Aqueles quatro meliantes não eram ninjas coisa nenhuma. Eram no máximo um bando de jovens ladrões e arruaceiros, que se aproveitavam dessa nova moda de “Lei do Aço” para esconder suas identidades com roupas orientais e aprontar um pouco de arruaça. Kido era provavelmente o idealizador do bando, portanto era o chefe e único que tinha algum conhecimento sobre ninjutsu e as informações que a acercava, por isso falou com tanta propriedade sobre shikomizues e gennins.

─ De olhos fechados, o senhor perde toda a diversão – adiciona Rumiko, virando o rosto lentamente e fitando o último inimigo – Certo, senhor Kido?

Igualmente pasmo com a cena que presenciou, Kido vê nos olhos de Rumiko que agora era a vez dele de experimentar o aço da espada que tanto desejou. E sem pensar em mais nada, o homem dá as costas para a dupla e foge, desesperado e assustado, temendo que Rumiko o perseguisse. A moça apenas o observa fugir, sem entender exatamente o porquê. Embora tivesse sim o desejo de enfrenta-lo, afinal era o único que lhe pareceu valer a pena, ela não tinha nenhuma intenção de ir atrás dele.

Rumiko embainha a sua shikomizue e ergue a arma na direção de Petruz.

─ Ainda quer carrega-la senhor Petruz?

─ Hã...? Oh, sim, sim. Claro! Se não tiver problema.

─ Iie! Não tem problema algum.

Petruz pega a shikomizue de Rumiko, mas fica com a estranha sensação de que ainda estavam em perigo. Ele olha para os confins da escuridão, nos dois lados do muro e na direção para onde o tal de Kido correu.

─ Que sorte a nossa, não é, senhor? – Rumiko corta a preocupação do garoto – Nós não perdemos nem a Shiko Mizu no Ryu, nem tivemos de pagar pedágio.

─ É. Foi bom você tê-los matado.

─ Ow! Rumiko não os matou, senhor. Só os colocou para dormir.

─ Umm... – Petruz sorri – melhor ainda. Mas eu não chamaria isso de sorte. Não tínhamos o dever de pagar nada para esses imbecis, de qualquer forma.

─ Humm, o senhor pode te razão. Vamos, temos muito que andar ainda.

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A madrugada seguinte veio fria e impiedosa. Petruz bocejava a quase toda hora, sem se atrever a dormir, já que estava à mais de quatro metros de altura, sobre o grosso galho de uma árvore altíssima, localizada em um dos maiores campos de golfe particulares do estado. Ao seu lado, sua companheira sempre alerta, mantinha a vigia. Ora olhava para Petruz, com medo de que ele adormecesse e caísse, ora olhava em sua pequena luneta retrátil, focalizando uma área gramada, vasta, escura e, por enquanto, vazia.

Sem ter o que dizer para puxar assunto, Petruz questiona novamente sobre um assunto que veio falando a madrugada quase toda, só que desta vez com um tom rústico na voz.

─ Pagamos um moeda e meia de ouro para entrar. Isso não foi muito?

A moça suspira aborrecida. Havia escutado Petruz se queixar desde que entraram naquela área reservada. Ela conhecia um bom lugar para ficar de tocaia no campo de seu alvo, mas para entrar foi preciso pagar uma quantia que havia sido acertada em uma moeda de ouro. Só que no momento do encontro, o guarda de vigia resolveu renegociar e aumentou o preço em mais uma moeda de ouro, sendo duas no total. Rumiko já deduzia que o preço fosse mudar, só não imaginava que seria tanto, por isso só tinha trazido uma moeda de ouro e algumas notas de bedinas. Por sorte, tinha trazido também a sua espada Wakizashi, arma a qual ela usaria na missão, e que ficou com o soldado como parte do pagamento.

No momento ela estava apenas com sua inseparável espada de estimação, sua luneta de longo alcance, uma sacola onde havia trazido alguns lanches para passar a madrugada e seu companheiro resmungão. Todo o restante dos itens foi escondido em outro lugar, seguro e bem longe dali.

─ Ora senhor Petruz – ela responde com sua voz aveludada – O quê o senhor esperava?

─ Sei lá. Uma luta, quem sabe? Eu não acho que aquele homem seria páreo pra você.

─ Para quê brigar se podemos evitar um combate, senhor Petruz?

─ Mas porque você quis evitar um combate justo agora? Essa é nossa última missão não é?

─ De certa forma. O próximo alvo de Rumiko não se encontra aqui em Vera Cruz.

─ Viu só? Como ainda é madrugada, ninguém viria ajudar aquele homem e ele não teria nos roubado.

─ Ele não nos roubou, senhor Petruz. Nós fizemos um trato. E ele cumpriu a parte dele, afinal, nós conseguimos entrar no campo, não é?

─ Isso é verdade. Falando nisso, como conseguiu convencer ele à aceitar o trato logo de início? Não deve ter sido só o dinheiro.

─ Pessoas fazem coisas absurdas por dinheiro. Mas o senhor tem razão. Rumiko contou à ele uma pequena história sobre o homem que ele estava arriscando a vida para proteger. Por sorte, ele já suspeitava de uma coisa ou outra sobre seu chefe.

─ Que história?

─ Humm... é melhor o senhor não saber. É tão grave que é considerado segredo de estado. Não que isso impeça Rumiko de lhe contar, mas saber disso não vai lhe trazer nada de bom.

─ Tudo bem. Mas e se... Se aquele guarda nos trair? E se ele entrou em contato com o presidente avisando para ele não aparecer? Ou pior, e se ele chamar a polícia?

─ Rumiko não acha que ele vai fazer isso, senhor.

─ Como é que você sabe?

─ Rumiko não sabe, mas temos de confiar nele. Temos de confiar nas pessoas.

─ Você é muito ingênua. Se tivesse derrubado ele, teríamos essa preocupação a menos.

─ Isso é um fato. Mas ainda assim, Rumiko vai tentar evitar todas as lutas que puder, para ganhar tempo.

Petruz balança a cabeça, censurando-a. Ele era acostumado a assistir filmes de ação hollywoodianos, daqueles tipos em que os mocinhos eram quase sempre policiais ou agentes especiais, andavam sempre à paisana e resolviam tudo na base da pancadaria. Por isso, não conseguia entender o ponto de vista de Rumiko. Imaginava que, se fosse tão forte quanto Rumiko, ele também iria agir como seus heróis da televisão. Era isso que ele queria enfiar na cabeça da moça. E mais uma vez insiste:

─ Olha só! Você perdeu sua espada curta. Se tivesse sido mais firme...!

O garoto deixa o final vago para a moça interpretar como quiser, mas Rumiko simplesmente solta um suspiro de desapontamento e, em seguida, volta a sorrir.

─ É verdade... Mas veja bem, senhor Petruz. Compramos a vida de um homem com uma wakizashi, uma moeda de ouro e algumas quantias de dinheiro.

─ Será que a nossa vida vale tanto?

─ A vida do senhor não tem preço. Nunca se esqueça disso, senhor Petruz.

Sem ter como rebater, o garoto abre um bocejo longo, depois abaixa a cabeça e começa a pensar em alguma coisa diferente para perguntar. Porém, não conseguiu pensar em nada e, nisso o tempo foi passando mais devagar.

Silenciosa, Rumiko continuava a observar a parte do enorme campo de golfe que dava acesso à uma entrada e uma saída. Ela tinha de ver sua próxima vítima assim que chegasse, logo mais ao amanhecer, e acabar rapidamente com o serviço. Assim, poderia levar Petruz dali o quanto antes a fim de que o rapaz pudesse descansar. A moça já virou a noite acordada por várias vezes e se recordava bem que, no começo, ela também se sentia exausta. E não queria que Petruz passasse pelo mesmo sofrimento.

Petruz coça os olhos cansados, notando que sua exaustão estava preocupando Rumiko. Queria xingar o seu sono e seu cansaço por causa disso. Nesse ínterim, ele pega a shikomizue que estava em seu colo e a desembainha para observar o fio. Não entendia nada de espadas. Mas lembrou-se da única diferença que sentiu quando pegou as duas shikomizues da moça ao mesmo tempo, então murmurou:

─ Eu posso perguntar uma coisa Rumi?

─ Por favor, senhor – a moça se alivia ao ouvir a voz ainda lúcida do ruivo.

─ Bom. Essa espada... é do mesmo tipo da outra que está lá na sua bolsa?

─ Yô! Ambas são Shikomizue.

─ É que... pode parecer estranho mas,... elas têm pesos diferentes ou é impressão minha?

─ Elas possuem pesos diferentes com certeza. Não é sempre que se fazem duas espadas com exatamente os mesmos miligramas de peso, mas a Shiko Mizu no Ryu é bem mais pesada que qualquer outra shikomizue que o senhor segurar. Seu peso é quase superior ao de uma Katana.

─ Katana? O que é isso?

─ É o modelo de espada que foi imortalizada pelo verdadeiro samurai. É considerada a melhor espada do Japão.

─ Você já pegou numa destas? Uma Katana original?

─ Mochiron! Tínhamos muitas no Gen-Bu. Como eram feitas pelos amigos ferreiros de meu Sensei, todas eram... “Originais”, se é que o senhor me permite colocar deste modo.

─ Ela é melhor que a sua shikomizue?

─ A shikomizue é uma espada ruim, senhor Petruz. Por ser menor e mais leve, ela é mais prática, mas se quebra com facilidade. Não é o caso da minha Shiko Mizu no Ryu, que é inquebrável, mas como todas as outras, sua lâmina não é curva, o que dificulta o corte e faz com que alguns golpes elevados de desembainho sejam quase impossíveis de se realizar. A Katana por outro lado, é perfeita para quase tudo e em todos os sentidos.

─ E por que você não trouxe do Japão uma Katana original ao invés dessa porcaria de shikomizue?

─ É porque...

Rumiko pusa as mãos com a luneta sobre o colo e olha para Petruz com um rosto belo e saudoso.

─ Essa Shikomizue é um presente. Foi dado à Rumiko pessoalmente pelo meu mestre.

Petruz engole seco. Ele já sabia que aquela arma era o bem mais precioso de Rumiko. Só não sabia exatamente o porquê e não queria ficar sabendo daquele jeito. O garoto torna a abaixar a cabeça, e sente-se meio tonto ao notar a altura em que estavam. A densidade escura da madrugada já estava esvaindo e já dava pra ver o chão perfeitamente. Petruz se acomoda melhor sobre o tronco, temendo cair se acaso fizesse um movimento descuidado.

Como filho de político rico vivendo numa cidade grande, ele nunca havia subido em uma árvore antes na vida, por isso se sentia meio inseguro. Para estar ali agora, quase cinco metros acima do solo, Rumiko o havia ajudado a subir e, não fosse por ela, jamais teria conseguido. A habilidade da moça para este fim foi outra coisa que lhe chamou a atenção e ele queria falar a respeito, mas depois da gafe que cometeu, temeu que isso fosse interpretado como bajulação.

Vários minutos se passam desde então, e quando o rapaz finalmente notou os primeiros raios de sol no horizonte leste serem lançados ao céu, ele bocejou uma última vez e resmungou:

─ Caramba Rumi, já está amanhecendo.

─ Sim senhor Petruz. E parece que lá vem o nosso alvo.

Rumiko se posiciona melhor sobre o galho de árvore e observa pela luneta com mais atenção.

─ Eeto... Ah! É ele mesmo. Vindo jogar seu golfe matutino, como sempre faz duas vezes por semana. Que bom que ele é pontual.

─ Você sabe mesmo da vida de Caio, hein?

─ Rumiko fez a lição de casa. E lá está o nosso obstáculo, vindo logo atrás. São oito homens ao todo, também de roupas sociais. Todos parecem portar Katanas.

─ Oito policiais? Você acha que dá conta?

─ Não são policiais, senhor Petruz, portanto, não são treinados. Velasqueses não tem o direito de usar homens do governo como escolta. Até porque ninguém iria querer trabalhar para ele depois do que fez com o país.

─ Caramba. Deve ter sido algo realemente terrível. Mas então o que são seus seguranças?

─ Ladrões... Estupradores... Assassinos... Dentre outros criminosos. Não importa muito. O estranho é que são apenas oito. Tem alguma coisa errada.

Rumiko morde os lábios inferiores e observa cada um dos seguranças, tentando ver se algum deles portava armas de fogo. De todos os alvos de sua lista, apenas Velasqueses mantinha a função como presidente. Embora o conselho dos três poderes de Vera Cruz não estivesse mais sob suas ordens, seu período como presidente ainda não tinha terminado, por isso, ele ainda era importante no que diz respeito ao quadro político do país. Como dito, a moça tinha conhecimento de que os guarda-costas de Velasqueses eram criminosos, pagos de seu próprio bolso para protegê-lo e, tendo sua cabeça à prêmio devido o que fez no passado, Rumiko não esperava menos de dez ou quinze guerreiros o escoltando.

Quando o terceiro dos guarda-costas entra em foco de sua luneta, Rumiko abre a boca e solta um ar de espanto, demonstrando uma face assustada. Percebendo isso, Petruz olha para o campo. Estava muito longe e ele não via os alvos com perfeição, então questiona:

─ Ei Rumi? O que foi?

Rumiko abaixa a luneta, ainda de face admirada:

─ É um híbrido, senhor Petruz. Velasqueses tem um híbrido como guarda costas.

A moça abaixa a cabeça pensativa. Suas grossas franjas cobrem-lhe os olhos por um longo momento até que, numa explosão de euforia e um sorriso desafiador britando na face, Rumiko gira a luneta entre os dedos e a fecha, entregando-a para Petruz. O ruivo logo se apavora com aquela atitude, visivelmente temerária.

─ Es-espere um pouco. Você parece que gostou da notícia.

─ Mochiron! Isso explica porque o presidente não tem medo de sair às ruas com tão poucos homens.

─ Mas Rumiko, aquilo é um bestial. Você sabe a força que esses “muta-humanos” tem? Eles são fortes pra caramba!

─ Rumiko sabe disso, senhor. Não é a primeira vez que Rumiko vê um.

─ Pra mim é! – Petruz abre a luneta retrátil e tenta ver a criatura – Você... já enfrentou algum deles antes?

─ Hai. Uma vez, há pouco tempo atrás.

─ E você venceu?

─ Dame yo! Rumiko levou uma surra tão grande que até hoje dói só de lembrar.

A moça pega a espada das mãos de Petruz enquanto o ruivo ainda tenta argumentar.

─ E vai enfrenta-lo mesmo assim?

─ Bom... Não viemos aqui à toa, não é?

─ Não é isso! O que eu quero dizer é...é... Droga, Rumiko! Você não tem medo de morrer? Está indo enfrentar um híbrido com a cara limpa! E sozinha!

Rumiko franze uma das sobrancelhas, se mostrando confusa com o argumento de Petruz e pergunta:

─ E o que isso tem a ver com ter medo de morrer, senhor?

Petruz olha para os lados, tentando buscar forças para dizer que estava preocupado com a moça, enquanto remoía-se de raiva por não ter coragem de ir junto. Seus segundos de silêncio foram o suficiente para Rumiko decidir partir, então ela fica de pé e, em seguida inclina-se um pouco, dobrando os joelhos, fazendo menção de que iria saltar. Petruz arregala seus olhos e pergunta boquiaberto.

─ Vai pular daqui?

A moça mostra-lhe seus brancos dentes num largo sorriso e se deixa cair, gritando.

─ Espere aí em cima, senhor Petruz.

Cinco metros em uma queda livre de quase dois segundos e Rumiko alcança o solo. Ela cai em pé, flexiona os joelhos com o impacto e rola pra frente, disparando em seguida numa corrida em linha reta ao local de onde havia avistado o presidente. Petruz leva luneta retrátil mais uma vez aos olhos e acompanha o avanço de Rumiko, ainda assustado com a coragem de sua companheira.

─ É mais louca do que esperta – ele comenta.