A Busca

44 Tiger Tornado


Anos atrás, quando Velasqueses ainda era o presidente do Brasil e logo após seus planos secretos serem descobertos e seus crimes expostos, os Honoráveis, conhecidos como os Donos do Mundo, decidiram por exonera-lo do cargo. Em adição à isso, toda a cúpula protetora do Senado se recusou a salvaguardar a vida do ex-presidente e proibiram qualquer vigilante ou segurança de cargo assinado com o governo à realizar tal função. Com o pescoço visado e sem a proteção jurídica do senado, ficou difícil para Velasqueses contratar alguém confiável e disposto à protegê-lo. Uma pessoa de bem poderia ganhar sua confiança, mostrar-se responsável e subitamente, ter um surto à qualquer hora e apunhala-lo pelas costas. Então, como melhor alternativa, Velasqueses deduziu que para se proteger de criminosos, ele precisaria de criminosos como guarda costas. Pessoas cuja lealdade pudesse ser comprada com dinheiro e fartura. Assim, conseguiu oito dos mais desprezíveis criminosos, cujas penas beirassem a prisão perpétua, e os convenceu de dar suas vidas por ele. Em troca, ofereceu a liberdade, boa vida e dinheiro fácil.

Também receberam treinamento. Não o suficiente para tornarem-se soldados, mas o bastante para cumprirem sua função de guarda costas, sendo meramente hábeis na arte de lutar e atentos ao terreno e perigos que os cerca. Por isso foram capazes de perceber um estranho se aproximando muito antes de decifrarem que era apenas uma mocinha vestida com trajes esdrúxulos. Não ficaram muito preocupados, mas ao perceberem-na portando algo semelhante à um bastão, os homens, incontinenti, tomaram posições para a defesa de seu chefe.

A menos de trinta metros do presidente, Rumiko vai diminuindo a velocidade até parar, ficando cara à cara com a barreira humana de oito guardas. O híbrido ficou pouco mais atrás, perto de Velasqueses, de braços cruzados e pose rígida. Com sua educação oriental, Rumiko curva-se em reverência e se pronuncia:

─ Senhores, quem está no comando desta equipe?

─ Eu sou o capitão da guarda – prontifica-se um dos homens, dando um passo à frente.

─ Esta que vos fala se chama Rumiko.

─ Não interessa quem você é! Está invadindo uma propriedade particular.

─ Rumiko sabe disso e pede desculpas. Ela também não tem muito tempo, por isso vai deixar as coisas claras logo de início.

A moça retira sua espada da bainha, segurando uma peça em cada mão. Isso faz com que os homens, por precaução, também se armem, ficando com suas lâminas expostas.

─ Rumiko está aqui para matar o presidente – ela revela.

─ Ora...? – o capitão ri para os companheiros.

Eles também caem na gargalhada e Rumiko os acompanha, rindo sem entender direito qual graça da situação. O híbrido não se manifesta. De braços cruzados, pose rígida e rosto sério, ele estava mais preocupado com a invasora, imaginando que fosse mais um desses loucos que vieram anteriormente, com essa mesma ideia de matar o presidente. Rumiko continua:

─ Saibam que Rumiko também tem motivos para matar cada um de vocês. Mas se os senhores derem passagem e não interferirem, Rumiko está disposta a deixa-los ir e nunca mais vai comentar com ninguém sobre esses motivos.

─ É mesmo? E quais seriam esses... "motivos"?

─ Rumiko sabe que são criminosos da pior estirpe. Conhece cada um de seus crimes e, de acordo com a lei decretada em 2.002 que apoia o estado de vendeta, os senhores são pessoas cujas mortes não causará abalo no controle legislativo e nem balanço nas decisões do poder judiciário do Estado.

Apreensivos, os guardas apagam seus sorrisos. Todos ali sabiam que cada um dos seus parceiros eram ex-condenados. Nenhum deles, porém, sabia o passado um do outro, então inventavam mentiras sobre si, dizendo-se autores de crimes leves ou bobos como roubo de carro e estelionato.

Por outro lado, Rumiko também poderia estar mentindo. O fato de os guarda-costas de Velasqueses serem ex-condenados não era segredo de estado. Nisso, o capitão exibe um sorriso amarelo e cruza os braços.

─ Está falando besteiras. E é melhor nos entregar essa faquinha e sair daqui antes que a obriguemos.

Rumiko suspira de modo aborrecido e ergue o braço esquerdo, apontando o dedo para um dos homens, acusando-o.

─ Estripador de prostitutas – e levando o dedo para outro homem, aparentemente o mais novo de todos – Um enfermeiro que abusava de pacientes em coma induzido.

Os dois homens indicados ficaram mudos e de olhos esbugalhados. Há tanto tempo escondiam seu passado que não pensaram em como se defender das acusações. A moça recolhe o braço, com o dedo ainda pronto à apontar para mais alguém e debocha do capitão:

─ Rumiko não está blefando. Quer que ela continue?

Sentindo o peso do olhar de seus parceiros, o homem apontado como um assassino estripador grita desesperado e parte cegamente sobre a inimiga, na intenção de silenciá-la. Sozinho e descontrolado, ele a ataca como um verdadeiro amador e não vê quando a moça se esquiva do golpe. Ele ajeita rapidamente o corpo, volta num novo ataque, e nisso, recebe um corte rápido e preciso, que o faz cambalear, caindo de lado na grama. Levando uma mão ao peito, ele sente o sangue quente escorrer entre os dedos e nota a sombra da moça preparando outro golpe. Então, não vê ou sente mais nada.

Rumiko puxa de volta sua espada, retirando-a do corpo de sua primeira vítima.

─ Como veem, Rumiko não está aqui para brincar. Por isso, senhores, se me derem licença, Rumiko vai fazer o trabalho dela. Os senhores podem ir.

Rumiko guarda sua espada e já tencionava passar por entre os guardas quando o capitão, num surto, ri insanamente, erguendo e girando o dedo indicador. Em resposta ao gesto, seus homens novamente se prontificam e se preparam para o combate.

─ É muita ousadia – profere o capitão – Homens! Vamos nos divertir.

Quebrando a formação, dois outros guardas correm na direção da moça, enfurecidos. Nenhum dos dois era o tal “enfermeiro abusador” que Rumiko indicou, mas eles precisavam silenciá-la antes que todos os segredos fossem revelados. Ao invés de se proteger ou afastar, Rumiko corre e salta sobre esses homens, desembainhando sua espada no ar e, num movimento sequenciado, derruba os dois quase ao mesmo tempo. Um deles cai vivo, com metade do rosto e pescoço cortados, e tenta se erguer, mas tomba em seguida, vindo a morrer segundos depois. Era uma espada pequena, de lâmina reta e aparentemente frágil, mas é a habilidade que conta. E o capitão percebia que a inimiga era muito mais habilidosa que cada um de seus comandados. Eles teriam de atacá-la juntos.

Com uma rápida corrida, Rumiko evita um confronto com o capitão, vai em direção aos guardas restantes, que de tão apavorados não viram jeito de ataca-la e no desespero, lhe deram passagem. Rumiko aproveita o descuido e se aproxima do presidente num deslize, no intuito de finalizar o que veio fazer, prentendendo cuidar dos homens depois. Entretanto, antes de alcança-lo, tem seu caminho barrado pelo híbrido, que se põe entre ela e Velasqueses. Rumiko derrapa abruptamente pelo campo gramado, parando a menos de dois metros da criatura.

Era um Híbrido da classe felina. O rosto coberto de pelos finos e claros, olhos afiados e orelhas saltadas. Rumiko sorri com simpatia para ele e se joga para trás, correndo de volta para o grupo de seguranças. Naquele breve encontro com o híbrido, Rumiko sentiu que ele seria um páreo duro. E assumiu que não seria seguro enfrentar aquela criatura sem antes ter certeza de que fosse o único adversário.

Com seu instinto naturalmente mais aguçado, o híbrido também sentiu algo em Rumiko, diferente de todos os inimigos anteriores, que ousaram atentar contra a vida do presidente. O híbrido coloca a mão no cabo de sua espada e profere:

─ Meu senhor... Eu vou...

─ Não! – protesta Velasqueses – Você vai ficar exatamente aqui.

De volta ao grupo de guarda-costas, Rumiko retifica com um sorriso esperançoso:

─ Senhores! A proposta inicial ainda está de pé. Rumiko lhes dará mais um tempo para pensar em desistir.

A moça apoia sua shikomizue no chão, equilibrando-a pela ponta do dedo indicador, e olha para o homem que ela julgou ser o capitão, esperando sua decisão. Ficou claro que o Híbrido era superior à todos ali, por isso, ela pensou em liberar os homens de um confronto desnecessário. Seu desejo era que eles trocassem de lugar com o Híbrido e, se isso acontecesse e ela conseguisse derrotar o Bestial e matar Velasqueses, talvez não precisasse se preocupar em enfrentar aqueles guardas. Em muitos casos os “peões” desistiam quando o “Rei” cai.

─ Acha que vamos desistir? – retruca o capitão – É louca por acaso?

Retirando seu sorriso simplório, Rumiko retoma sua posição e continua:

─ Senhores, pensem bem. Se deixarem Rumiko levar somente a vida do presidente...

Num gesto de fúria, o chefe da guarda atira sua bainha sobre Rumiko, que ela esquiva sem problemas. Em seguida, ele manda ela se calar e levanta sua espada para o céu, depois aponta para a moça, ordenando:

─ Homens! Vamos cortar as pernas e os braços dessa metida. Mas deixem-me cortar essa língua grande que ela tem.

Os outros respondem a ordem com um grito de concordância e começam a avançar ameaçadores e com suas armas em punho. Rumiko suspira desanimada:

─ Por que Rumiko ainda insiste?

A moça salta para trás e vai se afastando de costas à passos largos e rápidos, pretendendo sair da roda que tencionava se formar ao seu redor. Subitamente, ela interrompe o recuo, inclina-se, e se joga no meio de seus inimigos de modo desenfreado e despreocupado, iniciando seus movimentos de ataque e suas esquivas magníficas. O primeiro a cair foi o presunçoso do capitão. Os outros, que não tinham mais como recuar ou fugir, brandiam suas armas com fúria descontrolada. Dois minutos foi o tempo para que todos os guardas se encontrassem estirados ao chão.

Livre da primeira linha de defesa, Rumiko caminha decidida em direção ao presidente, ficando novamente de frente para o híbrido, que ainda estava de braços cruzados e com sua superioridade selvagem aflorando.

─ Muito bom – ele diz enquanto retira sua espada com bainha e tudo, presa à sua cintura – Você é um pouco lenta. Mas é suficientemente rápida para matar sete franguinhos sem se sujar de sangue. Merece uns parabéns.

─ Domo Arigatô!

O híbrido solta a capa presa aos ombros e desembainha sua espada de tamanho médio e de origem ocidental.

─ Só que agora é a minha vez e eu não sou um franguinho.

Rumiko não se movia. Ela observava o híbrido dos pés à cabeça. Os olhos grandes, arregalados e brilhantes, o sorriso de uma alegria estonteante. Estava hipnotizada, profundamente admirada, diante da selvagem e formosa criatura.

─ Ei, fedelha! – o híbrido lhe acorda de sua divagação – Ouviu o que eu disse?

─ Hai! – a moça sacode a cabeça e sorri normalmente – O senhor disse que Rumiko é lenta igual à sete frangos sujos de sangue.

─ O quê...? Não... Não foi nada disso!

─ Oh, esqueci de me apresentar. Meu nome...

─ É Rumiko, eu sei. Eu ouvi quando você se apresentou aos meus companheiros.

─ Sugoi. Mesmo de tão longe o senhor conseguiu...

─ Calem-se! – grita Velasqueses ao fundo – Mate logo essa fedelha, Gigo.

─ Gigo... – repete Rumiko com um amável tom sonoro – É um prazer conhece-lo, senhor Gigo.

─ Se... "Senhor"?

Longe dali, ao perceber que o evento principal daquela peleja estava para começar, Petruz guarda a luneta de Rumiko e começa a descer da árvore. Devagar, com medo e com dificuldade. Até que, a pouco mais de dois metros do chão, sua mão agarra uma lasca que escapa do caule e ele despenca, caindo de costas no solo. O garoto se levanta resmungando de dor e agradecendo pelo campo ser gramado e macio. Ele olha para cima, focalizando o galho onde antes se sentava.

─ Caramba! Ainda me custa acreditar que ela pulou lá de cima. Bom...

Petruz pega rapidamente as coisas que caíram ao chão e corre em direção ao campo de batalha. Precisava alcançar sua companheira. Ela agora iria enfrentar um Bestial. Um Híbrido. De tão curioso, Petruz já tinha até decorado as informações à respeito.

Com aparência animal e ao mesmo tempo antropomórfica, possuindo particularidades extraordinárias e complexa biologia, os Híbridos eram uma obra grandiosa da natureza. O mundo comum tomou conhecimento dos híbridos somente após o acidente climático e, por causa disso, foram considerados como extraterrestres ou, pelo menos, como uma causa posterior ao fato. Eram como uma nova raça de vida, que nasceu devido ao acidente com o planeta. Petruz sabia de tudo isso, mas nunca vira um híbrido sequer pela televisão, portanto não acreditava em sua existência. E agora, tinha a oportunidade de presenciar um espécime desses com seus próprios olhos.

A luta já havia começado quando Petruz chegou. O rapaz acomoda-se à uma distância segura, próximo de uma árvore menor e tenta acompanhar toda a ação. Assim como Rumiko, Petruz ficou maravilhado com a criatura. Não era um animal, tampouco um ser humano. Era praticamente um monstro felino, inclusive com cauda e orelhas peludas, mas que andava em pé e falava como gente. E lutava como um demônio.

Os olhos não treinados de Petruz quase não conseguiam acompanhar os rápidos movimentos de ataque e defesa protagonizados por ambos os lutadores, poucos metros à frente. Mas notou que o híbrido, apesar da força e rapidez, atacava com bem mais controle que qualquer outro dos oito homens.

A moça por sua vez, lutava do mesmo jeito de sempre quando enfrentava um inimigo de nível mais elevado. Ela o estudava enquanto se defendia e atacava de modo rápido e direto, para também observar a defesa do adversário. Então, à cada defesa do inimigo, Rumiko procurava uma abertura ou ponto fraco. Ainda sem sucesso, infelizmente.

Em dado momento, o híbrido trava a espada da moça num encontro de lâminas e usa sua força incomum para tentar derruba-la. Rumiko percebe as intenções de imediato e se afasta à pulinhos rápidos, despreocupadamente, ganhando distância e voltando a se posicionar. O híbrido ficou espantando. O modo como Rumiko quebrou seu ataque foi incomum. Ela simplesmente diminuiu sua força à zero de resistência e nisso o ataque forçado do híbrido ficou inútil. Foi uma burrice tremenda, pois ele poderia aproveitar e decepar o braço da menina. Mas por outro lado, isso só aconteceria se ele tivesse previsto o movimento, o que não foi o caso.

Rumiko finca sua shikomizue no chão gramado por um momento, arrumando com a mão esquerda as grossas franjas que lhe caíam nos olhos. E enquanto apertava os dedos da mão direita, estalando-os, ela diz tranquilamente:

─ Rumiko espera que o senhor esteja se divertindo.

─ Sim, estou me divertindo muito.

─ Yokatta! Isso é o mais importante.

Ato contínuo, moça agarra sua espada e avança, veloz e decidida, tentando acabar de vez com aquela luta. O híbrido solta um grito deguerra, preparando-se para receber o ataque.

Tal qual Petruz, o presidente, do outro lado da batalha e encostado em um muro baixo, também não entendia direito o que estava acontecendo. Ele suava frio, inquieto, pois aquela batalha já havia demorado demais. Velasqueses estava acostumado a ver todos os inimigos de seu guarda costas híbrido caírem em menos de um minuto. E quase três minutos depois ao início daquela contenda, Rumiko ainda estava de pé. Ainda era uma ameaça.

“Preciso sumir daqui” – pensa Velasqueses, sentindo o suor escorrer e imaginando o pior – “Vou aproveitar um momento de distração e sumir”.

No campo, seu soldado híbrido tenta uma última investida e desfere um ataque grande, encurralando Rumiko e tentando travar sua espada mais uma vez. Esperava que ela usasse a mesma artimanha anterior para sair de sua trava de espadas, assim ele acabaria de vez com aquela luta. Só que, ao defender a investida do Híbrido, Rumiko faz outro movimento inesperado. Jogando seu peso para o lado esquerdo de seu adversário, ela lhe força a tentar acerta-la, como saída para se defender de um possível contragolpe.

Gigo não vê outra altenativa e tenta acerta-la com um ataque horizontal. Nisso, Rumiko gira o corpo, encosta uma das mãos no chão e fica rente ao solo. A espada do híbrido passa por cima sem acertar em nada e Rumiko, numa varrida mortal, tenciona lhe acertar as pernas. Com sua agilidade sobre humana, o híbrido consegue saltar alta e belamente, retorcendo-se em pleno ar, e o golpe de Rumiko também é dado em vão. Rumiko acompanha o movimento de queda de seu inimigo e avança sobre o ele milésimos antes de que tocasse no solo. Ela lhe aplica um golpe transversal de cima para baixo, que o híbrido defende com maestria, mas perde um pouco do equilíbrio e se afasta por uns passos.

Antes de qualquer outra investida, Gigo estende uma mão espalmada para Rumiko, dando-lhe sinal para que segurasse a luta. E ela, instantaneamente, interrompe seu avanço, confusa com o gesto. Então o híbrido inclina o corpo, apoiando as mãos nos joelhos, fecha os olhos e começa a resfolegar.

─ O senhor está respirando errado – Rumiko põe as mãos na cintura – Por isso fica sem fôlego e seus ataques perdem efeito e potência.

O híbrido abre os olhos e observa Rumiko de esguelha. A moça continua:

─ Provavelmente, o senhor deve estar acostumado à acabar com seus adversários em questão de segundos, então, não dá tempo de se cansar. Assim, respira de modo errado quando ataca e quando se movimenta de modo defensivo, liberando mais energia que o necessário.

O Híbrido ri e torna a abaixar a cabeça, aproveitando-se do sermão de Rumiko para tomar mais fôlego. Petruz, que estava pouco atrás das costas de sua companheira, aproximou-se mais um pouco, caminhando de lado, e observou bem o rosto de Rumiko. Mesmo à distância, ele viu que ela realmente não estava sequer ofegante após aquela intensa batalha.

A moça percebeu que Petruz saiu do lugar e caminhou alguns passos para o lado onde o garoto estava, ficando novamente à sua frente e, consequentemente, de costas para ele. Foi então que Petruz percebeu que Rumiko estava ficando entre ele e o híbrido de modo proposital. Rumiko sabia que Gigo era rápido o bastante para, se quisesse, atacar e ferir, ou talvez até matar Petruz, sem que ela tivesse tempo de alcança-lo e impedi-lo. Por isso, ela tinha de usar seu corpo magrelo e sua habilidade com a espada para proteger o ruivo.

─ Era só o que faltava – resmunga o híbrido, erguendo-se já descansado – Receber aulas do inimigo.

─ Isso não é uma aula senhor. É só um aviso. Se o senhor continuar atacando Rumiko tão desesperadamente, com certeza vai perder.

O ex-presidente, pouco mais atrás, ainda ansiava em fugir. Sabia que se corresse, mesmo com seu corpo gordo e pesado, ele teria a proteção de seu “animal humano”, e talvez conseguisse alcançar o seu carro, estacionado na portaria do seu campo. Mas não podia arriscar. Percebeu que Rumiko, vez ou outra, voltava suas atenções para ele. E isso lhe congelava as pernas. Ela provavelmente desconfiava de suas intensões. E cansado daquele clima sufocante, Velasqueses fecha os olhos e balbucia em voz alta.

─ Gi... Gigo... Mate essa menina de uma vez! É uma ordem! O que está esperando?

─ É uma adversária de respeito, senhor – Gigo sorri para Rumiko, mostrando-lhe a admiração seleta que existe entre inimigos.

─ Que se dane! Eu sou seu chefe! É à mim que você deve respeitar.

Rumiko corresponde o sorriso de Gigo e se prepara. Sentia uma grande pena que, devido às circunstâncias, eles tivessem que se enfrentar numa luta até a morte. Dentre todos ali, aquele soldado Híbrido era o único que Rumiko não tinha absolutamente nada contra. Já Gigo não se sentia assim. Rumiko era perigosa e estava ali para matar seu chefe. Ele não poderia se dar ao luxo de perder. Então, ele respira profundamente, explanando na sequência:

─ Bom... Tomei consciência de que não vou derrotá-la com golpes comuns. Por isso, terei de usar o meu melhor “golpe elevado”.

Gradualmente, Rumiko molda sua face sorridente para um rosto preocupado. O golpe elevado de um espadachim era, em sua maioria, um golpe forte e polido, sendo assim pouco utilizado, pois era guardado para ser usado em caso de desespero. Ou quando se deseja acabar de vez com a luta difícil como aquela.

Rumiko vira o rosto para trás, localiza Petruz, escondido atrás de uma pequena e plana rocha próxima dali, e lhe lança um olhar que dizia para ele se afastar ou se esconder num lugar mais seguro. Ela implorou mentalmente para que Petruz entendesse o que ela queria, mas o ruivo, completamente inexperiente no assunto, ficou imóvel.

Sem sucesso, Rumiko volta seu olhar para o inimigo e começa a caminhar para o lado oposto de Petruz. Gigo já havia notado a presença de Petruz em meio às árvores. Restava à Rumiko torcer que o híbrido não tentasse nada contra o garoto. Por isso, arriscou chamar a atenção de Gigo para um campo mais aberto e, consequentemente, mais distante de ruivo. Sorriu satisfeita quando Gigo começou a segui-la.

─ Golpe elevado, é? – a moça atiça – E ele é forte?

─ Você já vai ver.

O híbrido interrompe a caminhada e começa a bater o pé direito no chão, erguendo sua espada de lado e deixando a lâmina na horizontal. Com a outra mão, ele pega algo pequeno no bolso da calça, parecido com um bastão de bambu. Então continua:

─ Quando estive no Japão, eu vi três guerreiros realizarem esse ataque juntos. Descobri como funciona o golpe e percebi que, graças a minha condição, eu posso realiza-lo sozinho. Então o batizei de Tiger Tornado.

─ “Taiga...” Tornado...?

O híbrido coloca o objeto na boca, cujas duas pontas saíam pelos cantos laterais dos lábios e começa a soprar. De início, nada é ouvido. Súbito, Gigo sai em disparada e passa ao lado de Rumiko numa velocidade impressionante. Um som contínuo de um uivo canino se manifesta logo em seguida e Rumiko, segurando firme sua Shikomizue, volta-se para trás e procurando o inimigo. Mas não encontra.

─ Nani?

Ela gira completamente o corpo, localiza o adversário e o acompanha com os olhos, mas em uma nova investida do híbrido, ao chegar perto dela e fazer uma rápida esquiva, Rumiko novamente o perde de vista. O som do uivo vindo em seguida lhe diz de onde o inimigo viria. A moça dá dois passos rápidos para frente, girando o corpo e tentando evitar o ataque que, ao que indicava, ameaçava suas costas.

Apoiado pelo som, seu sentido lógico guia seus olhos para uma direção do campo aberto onde o híbrido deveria estar vindo com seu ataque. Mas ela não o via e, nisso, em seu flanco esquerdo, Gigo se aproximou como um raio, agora com sua arma preparada e pronta para cortar sua adversária.

─ N... Nani kore? – espanta-se a moça mais uma vez, sem tempo para dar nem mais um passo para trás e ainda de guarda aberta para o flanco esquerdo.

Foi quando Gigo, próximo o bastante para provocar, sussurra-lhe com uma voz que parecia vir de outro mundo:

─ Morra!