A Busca
45 Acusma

Já era notório que os Híbridos representavam uma nova classe de vida, levemente superior à qualquer outra. Não eram animais, e apesar de também não serem exatamente humanos, eles possuíam atributos de ambos, que se auxiliavam e trabalhavam em conjunto. Isso lhes dava certa vantagem, a qual obviamente era vista como um perigo pelos olhos humanos. Na época em que ficaram reconhecidos, há muitos anos atrás, havia pouquíssimos no mundo, quase raros e, portanto, fáceis de controlar. A preocupação veio quando se suspeitou que eles poderiam se reproduzir entre si, de humanos e com humanos, gerando outros Híbridos que herdaríam as características dos pais. Isso se comprovou e, com o tempo, o número de Híbridos cresceu. Não tanto para ameaçar a raça humana, mas o suficiente para fazer um grande estrago se acaso se unissem e se revoltassem.
Para evitar isso, uma gama de políticos com poderes legislativos suficientes para criar leis das mais idiotas que desejassem, inventaram uma lei de escala global, que era aceita sem problemas por todos partidos políticos ou classes de direitos civis, a qual tratava os híbridos como se fosse uma forma de vida bem inferior à classe humana.
A lei da “Pirâmide do Respeito”, ou PdR para simplificar, da qual todo Híbrido deveria ter conhecimento, colocava todos os Híbridos numa categoria de existência desumana, deixando-os quase que na mesma categoria de um animal selvagem comum, dando aos humanos o direito de dominar ou mesmo ferir um Híbrido se acaso se sentissem ameaçados. A lei também não permitia que eles fossem alfabetizados, não tinham direito à um trabalho normal se acaso já houvesse um humano de olho nessa mesma vaga de emprego e proibia um humano de andar na companhia de um Híbrido se não fosse numa relação de “dono e posse”.
Por esses e outros motivos, muitas dessas criaturas eram obrigadas a trabalhar com atividades relacionadas com esforço excessivo ou perigoso, como guarda-costas por exemplo. Campo esse, aliás, onde eles eram bem vindos, pois sempre se destacavam, já que um híbrido era naturalmente mais forte e mais hábil que um ser humano comum de mesmas proporções físicas.
Só que, como eles precisariam portar armas de corte, tornando-os ainda mais perigosos, foi se criada uma emenda dentro da lei da PdR, a qual dizia que um híbrido não poderia andar armado sem consentimento de um humano que atuasse como seu “dono”. Assim sendo, para essas criaturas andarem com armas, precisariam de um porte escrito e assinado especialmente para eles, além de receberem no braço esquerdo, na altura do ombro, uma injeção que embutia um tipo de rastreador. Uma identidade eletrônica que, quando solicitada uma ordem de rastreio, emitia sinais dizendo aonde o usuário se encontrava. Dentro desse contexto, é seguro dizer que os governos de quase todos os países tenham um controle exato de onde estão todos os seus Híbridos perigosos e armados. Claro que havia muitos outros por aí que não receberam esse chip. Mas esses se esforçavam para viver de serviços comuns e simples.
Não viviam tão bem quanto Gigo, que apesar da vida sofrida e humilhante, ao menos tinha uma moradia, comida e água. E é por isso que ele agora dava tudo de si para proteger Velasqueses, fazendo inclusive, uso de seu golpe mais secreto.
Petruz fecha os olhos instintivamente, sem coragem para ver o que aconteceu, só abrindo quando Gigo, após a execução de seu golpe, derrapa pouco mais à frente, no intuito de parar. O híbrido ereta o corpo e olha para trás, focalizando o local onde deveria ter cortado Rumiko ao meio ou ao menos parte dela. Tal fato não aconteceu, pois a moça se jogou para o chão, ao lado oposto ao golpe. O híbrido franze o cenho peludo, se perguntando:
─ Ela... se esquivou? Mas como?
Pouco mais atrás, no local do encontrão, Rumiko se levantava devagar, olhando para seu inimigo com sua arma em punho, também sussurrando para si mesma.
─ Sugoi! Rumiko quase não pode ver.
─ HEI! – o híbrido grita para ela – como você fez isso?
─ Gomen Nasai! Vamos tentar de novo. Um pouco mais devagar, está bem?
─ Devagar? Acha que eu estou brincando? – o híbrido ergue para a horizontal o braço que empunhava sua espada – Eu já estou farto de você, idiota.
Rumiko sorri, mordendo a ponta da língua, caminha até o local em que havia deixado cair sua bainha, guarda a shikomizue e volta para o local anterior, ajeita suas franjas, tirando-as da testa e só então pede para Gigo continuar. Rangendo os dentes, o híbrido começa a bater novamente a ponta de seu pé direito no chão, com fez da primeira vez.
Rumiko observa atentamente a perna do híbrido, que se movimentava batendo o pé no chão. Julgou ser como um passo de dança e, se fosse isso, tinha que haver um padrão. Logo, tinha de haver algo que entregasse um erro, que significaria o ponto fraco daquela técnica elevada. “Num combate de espadas, a morte sempre assiste de camarote”, seu mestre Gengetsu lhe dizia, “Se dois guerreiros estiverem lutando para satisfazê-la, raramente existirá uma segunda chance com o mesmo inimigo. Mas se houver, a obrigação de vencer é de ambos”.
O flashback foi inútil. Rumiko sobreviveu à primeira investida do Tiger Tornado, mas não conseguiu ver nada que a ajudasse a quebrar o golpe. Passou por um problema parecido com outro híbrido que enfrentou no passado e, naquela vez, ela perdeu. Uma segunda chance com um híbrido era rara, uma terceira era impossível. Ela tinha de mergulhar no golpe de Gigo mais uma vez e tentar, à todo custo, derrota-lo.
De repente, Gigo sai no mesmo arranque de antes, correndo rápido como um leopardo e uivando como um lobo, mudando de direção pouco antes de alcançar Rumiko e correndo em volta dela.
─ Não foram as mesmas – Rumiko sussurra, se referindo ao número de vezes que o híbrido bateu o pé no chão –Então não é um golpe “carregado”. Ele pode partir no momento que lhe convir.
Gigo se aproxima pela direita de Rumiko e ganha suas costas enquanto o som do uivo chama sua atenção para olhar para frente, deixando-o, assim, invisível. Rumiko faz de tudo para acompanhar seus movimentos:
─ Sugoi yo! – ela cochicha – Ele é como o Eitoman (1). Só mesmo um híbrido para conseguir isso.
Súbito, à sua frente, a ponta da espada de Gigo aparece do nada, se aproximando como uma flecha e tentando acertar-lhe a lateral esquerda do rosto. Rumiko pende a cabeça para a direita e o golpe passa raspando, sem a acertar, fazendo-a escutar o zunido e sentir a brisa da ponta da espada. Ela abaixa sua arma, expressando um rosto mais sereno. Teve a impressão de perceber algo e, se sua hipótese estivesse correta, uma parte do golpe já tinha sido descoberta. Faltava agora descobrir a essência do ataque.
Enquanto pensava nisso, Rumiko ergue rapidamente sua bainha, protegendo-se de um ataque que veio logo em seguida. A moça olha para o local onde a tentativa de agressão se refugiou e, em seguida, dá atenção total ao som do uivo assassino, que soa como um animal faminto às suas costas. Ela não se volta. Ao invés disso, ergue novamente sua espada e a posiciona, desta vez, ao lado esquerdo do corpo. Um ataque deveria vir dali, mas ele não acontece. A moça então ouve o som de passos corridos passarem à sua frente ao mesmo tempo em que o uivo insinuava se afastar para longe. No momento seguinte, vê as marcas das rápidas pisadas no chão, agora com a grama amassadas e folhas picadas esvoaçando-se e lentamente voltando ao lugar.
─ É isso mesmo! – diz a moça, mergulhando em pensamentos – Uma técnica de distração sensorial. Rumiko precisa quebrá-la. Mas como?
Petruz que estava de fora do “campo de ataque” criado por Gigo, via os movimentos do híbrido com mais clareza, embora que ainda o visse se movimentar acima do que seus olhos acreditavam.
Ele percebeu que Rumiko ficou imóvel, apenas defendendo dos ataques que ela via se aproximar. Não ouvia o sinistro som do apito de Gigo rodeá-lo com o mesmo efeito que fazia em Rumiko, por isso não entendia por que a moça não conseguia encontrá-lo. Mas sabia de uma coisa, ficar parada não era a coisa certa a se fazer, pois Gigo chegou muitas vezes às costas da moça. Se ele quisesse, poderia cortar o pescoço dela à qualquer momento.
Quando tal cena se sucedeu mais uma vez, ele gritou:
─ RUMI, CUIDADO!
A moça olha pouco atrás e, com um rosto afetuoso, ela focaliza o seu companheiro desesperado. E o ruivo, envergonhado por demonstrar sua preocupação, completa dizendo baixo o suficiente para ela não ouvir:
─ Você pode morrer! Toma cuidado!
Rumiko manteve os olhos em Petruz, ignorando o híbrido que corria e uivava furiosamente ao seu redor. Ela sabia que a qualquer momento seria acertada e ferida, talvez até morta, mas até isso acontecer, tinha de deixar Petruz confiante e despreocupado à ponto de ele não temer ser a próxima vítima.
Foi nesse instante, nesse átimo de segundo, enquanto ainda focaliva o ruivo, Rumiko vê Gigo passar a sua frente. E ao vê-lo, a moça teve um súbito momento de iluminação.
─ Gigo-san! – ela diz em voz alta, para que o híbrido a ouvisse – Rumiko já sabe como derrota-lo.
A moça já não dava mais atenção onde o uivo a chamava. Percebeu há pouco que isso fazia parte do golpe e levou mais de um minuto durante a segunda execução do Tiger Tornado para descobrir como descartar esse obstáculo. O que ela não sabia até então era como parar Gigo, pois ele era rápido o suficiente para transformar qualquer ataque da moça em uma guarda aberta. Daí o motivo de ela ficar na defensiva. Mas ao ver Gigo passar como um raio à sua frente, seu instinto de sobrevivência lhe mostrou algo que poderia ser usado contra seu inimigo.
Gigo travou a corrida numa parada súbita, arrancando grama do chão e sendo acertado logo em seguida pela lufada de vento criada por ele, fazendo seus curtos cabelos esvoaçarem. Ele retira o estranho apito da boca e aspira o ar, exasperado. Não devia estar tão cansado para já estar sem fôlego, por isso precisava, mais do que nunca, acabar com aquela batalha.
A moça, que estava de costas para o local onde o híbrido parou, vira-se para ele, lança lhe um olhar calmo e despreocupado e prepara-se para executar seu possível último golpe. “O uivo é uma parte” – cogita Rumiko – “A alta velocidade é a outra parte. Rumiko só tinha de saber como os dois eram importantes para o atuarem juntos”. A moça encosta a bainha à esquerda da cintura, segurando-a firmemente, posiciona a mão direita acima do cabo, sem encostar e, encurva-se, prepara seu golpe final.
─ Hã? – Petruz espreme os olhos para tentar entender a cena – O quê ela ...? O que ela vai fazer?
─ Um Iaido (2)? – murmura o híbrido, imaginando que Rumiko tinha ficado louca ou desesperada para usar tal técnica como último refúgio.
Petruz não sabia o nome do golpe, tampouco havia visto Rumiko fazê-lo antes, mas deduziu que seria um ataque em que a moça precisaria sacar a espada no momento certo. Ficou preocupado porque Rumiko havia lhe dito antes que a shikomizue, por não ter uma lâmina curva, era uma espada ruim para a realização de golpes desse tipo. E ao reparar o hibrido colocar o objeto na boca e desaparecer novamente num veloz vulto corredor, Petruz aperta os punhos e faz a única coisa que lhe resta; torcer para que Rumiko saiba o que está fazendo.
Rumiko tentava, embora que de forma dificultosa, acompanhar apenas com os olhos os movimentos e as direções para onde seu adversário corria, sem desmanchar sua posição de ataque. Gigo conhecia a posição dela. Sabia que sairia defeituosa e mal executada por causa da arma que usava e, ainda por cima, não acreditava que Rumiko fosse rápida o bastante para desembainhar a arma antes de ele a cortar. Ela estava tramando alguma coisa e, seja lá o que fosse, Gigo não podia mais esperar. Era seu 3º Tiger Tornado e ele tinha que terminar rápido, pois seu fôlego estava acabando e logo, sua principal fraqueza estaria à mostra.
Gigo continuou correndo ao redor de Rumiko, alternando suas direções com seu corpo leve e ágil e suas pernas fortes e habilidosas, sempre fingindo ataques quando na verdade só estava tentando roubar sua atenção para outro lugar. E ao perceber que a moça não mais era distraída pelo uivo transmitido pelo seu apito, ele respirou fundo, soprou o apito com mais força e tentou seu ataque direto.
A investida deveria ser curta, decidida e mortal, então ele rugiu ferozmente e deslizou como se estivesse sobre rodas, aplicando mais uma vez o movimento final de seu Tiger Tornado. A intenção como sempre era pegar o tronco, pouco abaixo dos ombros e num golpe circular. Assim, se a moça se esquivasse novamente, para qualquer lado que fosse, a lâmina do hibrido a pegaria, nem que fosse de raspão.
Só que desta vez, Rumiko não se esquivou. Ela esperou até o momento propício e, quando admitiu ser o momento, virou-se de frente para o inimigo enquanto realizava um movimento varrido, como previsto, porém sem desembainhar a shikomizue. Rápido o suficiente para pôr a bainha na posição preterida, a fim de poder segurar a arma com a firmeza desejada em ambos os pulsos, usando assim, sua arma com obstáculo para o vulto que se jogou contra ela. Nisso, um ganido de dor, semelhante ao de um cão quando ferido, ressoa no ar ao mesmo tempo em que Gigo rodopia no ar, tomba de lado e vai sendo arrastado no chão gramado do campo, auxiliado pela força de sua corrida. Sua espada cai pouco mais à frente.
Rumiko permaneceu imóvel, as pernas abertas, uma dobrada adiante e a outra esticada para trás, firmando ao solo seu corpo bastante inclinado e a cabeça abaixada, olhando para o chão. Quando a agitação termina, ela apluma o corpo devagar e sacode um dos braços, livrando-se da dor do encontrão. E já ciente de que seu inimigo estava fora de combate, ela lhe diz ainda de costas para o Híbrido:
─ Rumiko assevera que nosso duelo chegou ao fim.
Gigo se esforça para se levantar, porém, tudo o que consegue no momento foi ficar numa posição encurvada. Ele rasteja até sua espada, a empunha e tenta novamente se levantar, mas logo após vomitar pura saliva, ele decide soltá-la e coloca mão no lado esquerdo de seu tronco, sobre a ferida feita pela moça. Não parecia um corte profundo. E não era. Mesmo porque não foi a lâmina que ali bateu e sim a bainha. Ainda assim, a dor era intensa, a ponto de fazê-lo sentir como se tivesse sido trespassado.
Rumiko aproximou-se do híbrido, com sua arma em punho dentro da bainha, e este lhe revela gemendo:
─ Você... está certa. A luta acabou, mas...Se quer matar o presidente... Então mate-me primeiro. Não posso permitir que faça isso enquanto eu viver.
A moça pega a espada de Gigo e a arremessa, o mais longe que lhe foi possível. Então, apontando sua arma ainda na bainha para Gigo, ela lhe diz:
─ Rumiko não sabe o que o senhor ouviu sobre Velasqueses e nem o que ele lhe disse para o senhor lhe ser tão fiel, mas acredite, tudo de ruim que o senhor for ouvir de hoje em diante é verdade. Por isso, acompanhe os telejornais.
Nisso, Rumiko olha para o presidente Velasqueses, espremendo-se contra o muro de tanto medo, e diz com desdém:
─ Agora, se o senhor der a licença, Rumiko tem um assunto impreterível.
─ E... Espere! – o híbrido tenta agarrá-la, mas não consegue.
A moça começa a caminhar lentamente até o muro onde Velasqueses estava encostado e petrificado de medo, sem sentir suas pernas para poder fazê-las correr. “Pôrra!” – Ele pensa, suando e tremendo – “Aquele idiota perdeu”. Então, fechando os olhos, ele grita desesperado.
─ Gigo! Venha me salvar, sua aberração imprestável.
A moça se posiciona em frente ao presidente e o observa por vários segundos, com seu rosto de menina e seu sorriso apagado.
─ O senhor nunca mais vai falar com um híbrido desse jeito.
─ O...? O que você quer? Quem enviou você?
De olhos vazios e incompassíveis, que não demonstravam ódio ou qualquer outro sentimento de desprezo, a moça observava uma pupila e outra do presidente, como se procurasse por algum motivo para mata-lo ou, se possível, deixá-lo vivo. A shikomizue dentro da bainha em sua mão esquerda. A mão direita largada livremente, sem a menor intenção de se mover. Então, com sua voz angelical, ela diz suavemente:
─ Senhor Presidente...
Um segundo depois e a espada já estava na mão do braço direito de Rumiko, desembainhada e esticada em posição de saque. Com a cabeça virada para a sua esquerda, de olhos esbugalhados, Caio Velasqueses manteve a consciência por tempo suficiente para ver um filete de sangue riscar a lateral do muro atrás de si. Não sentiu nada além de uma leve fisgada no pescoço. Em seguida, a visão escurece, a consciência se apaga, e o homem cai de joelhos, tombando em seguida para o lado esquerdo.
Rumiko vira o rosto para trás devagar e focaliza Petruz ao longe, que vinha em sua direção, trazendo a pequena bolsa que ambos levaram para o campo.
─ E aí? Missão cumprida?
─ Hai! Ninmu kanryou.
─ Então vamos embora daqui.
─ Só um minuto.
Gigo abre mais os olhos as ver Rumiko e seu companheiro tornarem a se aproximar. Chegou sua hora de morrer. Acaso se esforçasse, poderia reunir forças para fugir, mas não sentia desejo de fazer isso agora que fracassou em seu objetivo. Na verdade, estava conformado com o que lhe aguardava. Só que o gesto seguinte de Rumiko, o de ela entregar sua Shikomizue para Petruz, deixou o Híbrido sem entender o que ela planejava.
Rumiko abaixa-se diante dele, ainda sentado ao chão.
─ Rumiko imagina que o senhor tenha como se comunicar daqui. Um telefone ou algo parecido?
─ O que... está pretendendo?
─ Descanse um pouco mais e, quando puder se mover, Rumiko quer que o senhor ligue para a polícia e relate o que aconteceu. Peça uma ambulância também.
O hibrido observa a mocinha sorridente, ainda confuso e desconfiado.
─ Por quê? – ele pergunta.
─ Hun? Ora, porque o senhor pode precisar de cuidados médicos. Se a mochila de Rumiko estivesse aqui, ela...
─ Não eu... eu quero dizer... Você não vai me matar?
─ Iie! – Rumiko focaliza o híbrido com um sorriso confortante.
Petruz também fica admirado com a decisão da moça. Ver Rumiko ter tanto trabalho em vencer alguém e, agora que conseguiu, saber que ela não vai mata-lo, era algo estranho para ele. Não que fosse ruim, mas era de fato estranho. “No lugar dela, acho que eu não hesitaria”, julga o ruivo.
─ Por... Por que não? – quis saber o Híbrido.
A moça põe-se de pé e acaricia as franjas frontais, arrumando-as. Em seguida, olha para Petruz e pede um momento de privacidade. Quando o rapaz se afasta, deixando-os mais à vontade, Rumiko retorna para o Híbrido:
─ Rumiko quer lutar contra o senhor de novo.
─ O quê? Por que isso?
─ O senhor não se divertiu?
─ Bom... Um pouco... Mas nossa luta...
─ Nossa luta não foi 100% satisfatória para nenhum de nós, senhor. Aquela história que Rumiko lhe contou de “estar respirando errado”... Rumiko só disse aquilo por respeito à sua decisão de lutar até o fim. Se Rumiko perdesse a luta e morresse, o segredo de sua saúde ficaria entre nós.
Gigo vira as pupilas de lado, pensando; “Ela sabe que estou doente... como percebeu?”.
─ Por isso Rumiko acha que um segundo confronto seria bom para ambos. Não hoje. Em algum dia no futuro. E até lá, vê se o senhor melhora.
O híbrido permanece olhando de lado, sem dizer nada. Sua atenção só foi tomada com a frase seguinte da moça.
─ E não precisa ser um combate até a morte – a moça pisca um dos olhos – Rumiko não gostaria disso.
─ Acho que eu... também não iria querer isso.
─ Que bom. Nós estamos indo então, senhor Gigo.
Rumiko espera uma saudação final, mas Gigo não lhe diz nada. Então a moça caminha em direção de Petruz e os dois começam a se afastar devagar. Foi quando o Híbrido gritou.
─ Espere!
Petruz parou e virou-se para observar Gigo, mas Rumiko permanece de costas até que o híbrido lhe questione.
─ Como... Como derrotou meu Tiger Tornado?
Rumiko ergue a cabeça para o céu, fecha os olhos e delicia-se com a suave brisa do campo que lhe acaricia as franjas da face. Nezuo sempre lhe dizia que é estupidez contar para o perdedor da luta como foi que você o derrotou. Principalmente quando esse inimigo sai vivo do confronto, pois ele provavelmente pode lhe reencontrar no futuro e querer uma revanche. Rumiko anotou na memória todas as dicas de Nezuo, que para todos os efeitos, foi seu primeiro mestre de esgrima antes de Gengetsu, mas ela dificilmente as seguia por considera-las mesquinhas, arrogantes ou desnecessárias. Ela vira-se para Gigo e vai explicando enquanto se aproxima:
─ Esse seu golpe... o “taiga tornado”... o senhor disse que viu três pessoas fazerem ele ao mesmo tempo, para obter um único resultado. Agora deixe Rumiko adivinhar; eles eram ninjas, que atacaram o senhor usando esse golpe, mas que devido à sua força e sua velocidade, o senhor os derrotou.
─ Como... Como sabe?
─ É um golpe sacana, com perdão da palavra. E golpes sacanas só são utilizados por ninjas e trapaceiros. É verdade que o fato do senhor conseguir realiza-lo sozinho o tornou digno de um golpe de mestre. Mas ainda assim, é um jutsu ninja. E tal qual a maioria dos jutsu pertencentes à ninjas, ele não passa de um truque. E como todos os truques ninjas, ele tem um segredo, que se descoberto, o torna passível de quebra.
─ Qual é o segredo? – questiona Petruz, ciente de que não tinha mais perigo e interessado no rumo daquela conversa.
─ O efeito acusma(3) – explana Rumiko, olhando de soslaio para Petruz.
O hibrido demonstra uma face completamente surpresa por ouvir da boca de uma menina tão jovem uma palavra que só ouviu uma vez na vida. Já Petruz nunca tinha ouvido falar.
─ Rumiko não conseguia localizá-lo porque o apito uivante indicava um lugar em que o senhor Gigo não estava, então os olhos e ouvidos de Rumiko não entravam em anuência e isso o tornava invisível. Quando Rumiko descobriu que estava sendo dominada pelo efeito acusma, só precisou ignorá-lo para quebrar o Taiga Tornado.
─ Mas e aí? – torna Petruz de olhos brilhantes – Ignorar o som do apito... isso não explica como você fez para derrota-lo.
─ A maioria dos golpes elevados que abusam da velocidade possui um defeito. Com o senhor Gigo não foi diferente – a moça volta-se para Gigo – Na velocidade em que o senhor alcança quando corre, não pode erguer demais a espada, pois, se o fizer perderá o equilíbrio. Também não pode abaixa-la muito, porque o contato com o solo irá revelar ao adversário a sua posição, que é brilhantemente oculta pelo efeito acusma. O defeito do golpe entra exatamente nesse ponto, já que o senhor precisa executá-lo mantendo a lâmina da espada na horizontal. O golpe é bastante efetivo contra pessoas altas ou de bastante massa corpórea, mas tudo o que uma pessoa da estatura de Rumiko precisa fazer é se abaixar e contra-atacar no exato momento de seu golpe, que terá quase sempre a mesma elevação.
─ Entendi – Gigo sorri entristecido – minha velocidade é a minha melhor arma, mas como meus movimentos de defesa ficam limitados, ela também foi o que me derrotou. Achei que só a força e a velocidade fossem suficientes para derrotar qualquer um.
─ A força é o resultado da massa versus velocidade. Assim, sua velocidade ajuda a aumentar a força do ataque, mas também o peso de seu corpo e, portanto, qualquer contra golpe dado no momento certo pode ser fatal. Rumiko usou a bainha da shiko-mizu-no-ryuu, que é inquebrável, como um obstáculo para o senhor se esbarrar. Mas se tivesse usado uma espada de lâmina curva e adicionasse força e perícia no contragolpe que lhe deu, o senhor provavelmente teria quebrado o braço de Rumiko, mas em contrapartida...
─ Eu teria sido cortado ao meio – deduz Gigo apertando a rasa ferida, que lhe doía muito.
─ É isso mesmo. Rumiko deseja que o senhor corrija ou aperfeiçoe esse defeito no futuro, para que, assim, nós possamos lutar de novo como se fosse a primeira vez.
─ Estou honrado. Mas será que mereço...? – o híbrido olha para o chão – Sou um híbrido guerreiro que não conseguiu nem cumprir a missão de proteger o humano que o contratou. Sei que somos inferiores à vocês em espécie, mas temos força e habilidade, por isso temos a obrigação de fazer nosso trabalho direito.
─ Acha que é inferior à Rumiko só porque perdeu?
─ Sou inferior à você por causa da pirâmide do respeito.
Ao ouvir as palavras “Pirâmide do Respeito”, o sorriso de Rumiko, tal qual uma pessoa que ouve uma piada de mau gosto ou ofensiva, instantaneamente se apaga, dando-lhe um ar sério que não lhe combinava. Ela se abaixa novamente, põe a mão na testa peluda de Gigo, que subitamente se cala com o gesto de carinho.
─ O nome do senhor é Gigo, certo? Ouça senhor Gigo, tenho uma coisa à dizer sobre essa “pirâmide de preconceito”...
A moça aproxima os lábios da orelha pontuda do híbrido e sussurra-lhe algo que faz os olhos de Gigo adquirirem um brilho emocional inexplicável para Petruz. Depois que volta a se erguer, ela continua:
─ A gente vai lutar de novo, se o senhor quiser. Se não quiser, pelo menos diga que, quando isso terminar, nos veremos novamente.
Gigo balança a cabeça uma vez, afirmando que havia entendido.
─ Ei, Rumi – Petruz olha para todos os lados do campo, já incomodado o tempo perdido e temeroso com a chegada das autoridades – acho que é hora de irmos embora daqui.
─ Sim, vamos! Senhor Gigo foi uma honra conhece-lo e um prazer lutar contra o senhor. Mas agora precisamos ir. O senhor vai ficar bem?
─ Hnf! Era só o que faltava agora. Receber a compaixão do inimigo. Eu vou ficar bem, se é o que lhe preocupa. Esse arranhão não vai me matar.
Rumiko fecha os olhos e se inclina numa respeitosa mesura nipônica.
─ Hai! Dewa sayonara!
─ Só mais uma coisa... Se eu for ligar para a polícia e eles me encontrarem consciente, eu terei de dizer o seu nome para contar o que aconteceu.
─ Meu nome é Rumiko – a moça mostra-lhe os dentes num largo sorriso.
Os dois jovens saem correndo pelo campo, na intenção de fugir e Gigo se deita na grama.
─ Eu... Eu sei – ele afirma com um sorriso – Não foi nesse sentido que eu quis dizer.
O local acertado em seu tronco, pouco abaixo de seu peito, ainda doía muito, mas não era letal. A dor era mais interna, provavelmente as costelas inferiors deveriam estar doendo com a pancada que sofreu ao correr de encontro para a tática de Rumiko. Realmente, nada sério demais ou ruim o suficiente para matar um híbrido como ele.
O mais estranho era a sensação que experimentava. Todos aqueles que trabalhavam com ele estavam mortos, inclusive a pessoa que devia proteger. Mas seu coração estava estranhamente mais leve e motivado à continuar vivendo. Gigo vira o rosto e observa a silhueta dos dois invasores sumindo entre as parcas árvores do campo. Logo em seguida, ele fecha os olhos. Queria cochilar um pouco, cerca de dez ou vinte minutos antes de fazer a ligação.
─ O que você sussurrou no ouvido dele? – quis saber Petruz no caminho.
─ Foi um... Um desejo! Rumiko até lhe contaria, mas o senhor vai ter de esperar porque esse desejo só vai se realizar quando Rumiko ressuscitar o senhor Gengetsu.
─ Humm... Então faça isso rápido, porque a curiosidade vai me matar.
─ Hai! Rumiko vai ressuscitá-lo o mais rápido possível.
─ É mas, para isso, precisamos sair daqui o mais rápido p...?
Antes de pronunciar a palavra “possível”, Petruz viu algo que o fez desacelerar da corrida até parar. Rumiko parou adiante e o questionou:
─ O que foi senhor? Já está cansado?
─ Não, mas... – Petruz ergue a mão, apontando o que via – ...eu tenho uma ideia para nos tirarmos mais rápido daqui.
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