A Busca
46 Cadillac Branco

A ideia de Petruz se resumia a pegar um dos carros encontrados no campo de golfe de Velasqueses para fugir mais rapidamente do local. De início, essa ideia foi relutada por Rumiko que, por interpretar aquele gesto como roubo, não achava muito certo. Petruz combateu, defendendo a tese de que eles não iriam ficar com o automóvel, só o usariam para sair do bairro. Vencida pela insistência do ruivo, a dupla foi até o estacionamento e lá, encontrou três dos carros usados pelos homens do presidente, todos com a chave na ignição, já que mais ninguém tinha permissão de entrar ali.
Um deles, pertencente ao presidente, era um Cadillac branco, modelo Coupe de Ville 1984, modificado, com teto conversível de cor preta e suspensão ajustável para terrenos irregulares. Petruz escolheu justamente aquele carro porque os vidros eram escuros, o motor era potente e, principalmente, porque a placa não era numerada de acordo com os códigos de trânsito feitos para carros civis. Assim, tal veículo era facilmente reconhecido e, desse modo, ignorado pelos guardas de trânsito, visto que possuía um status de imunidade em relação às regras do tráfego do Amazonas. E também porque era um belo carro e Petruz, já que podia escolher, não deixaria passar a chance de pilotar um Cadillac presidencial.
À essa altura eles já estavam longe do campo, transitando pelas ruas quase vazias da cidade em alta velocidade, sem se importar com radares ou semáforos fechados em ruas desertas.
─ Senhor Petruz... – Rumiko se espreme no macio e confortável banco – ...vai mais devagar.
─ Não se preocupa, Rumi. Eu sou um ótimo motorista. Está tudo sobre controle.
─ Tá bom, então. O senhor sabe para onde estamos indo?
─ Eu... Estou me dirigindo para o centro de Jaú. Mas podemos ir para qualquer lugar que você quiser com este carro.
─ Qualquer lugar?
─ Sim. Qualquer lugar! – replica Petruz sorrindo e acenando com a cabeça.
─ Qualquer lugar? – Rumiko pergunta com mais ênfase.
─ Bom... Quase! O estado do Amazonas, por ser a sede da política de Vera Cruz, é o que se recuperou mais rápido dos estragos feitos pelo fim do mundo, mas as estradas ainda estão muito ruins para trafegar com um carro como esse. Nós realmente não iríamos muito longe se não trocarmos por um veículo mais possante. Mas até onde tiver estrada dá pra ir.
─ E quanto aos policiais que fiscalizam o trânsito?
A pergunta de Rumiko não poderia ter mais fundamento. A cidade-estado de Jaú era um território reservado, principalmente à políticos, tanto de Vera Cruz quanto os que vinham de fora. Por isso, era comum ver policiais no lugar de guardas de trânsito ou mesmo soldados do exército brasileiro por todo o lado. Petruz, porém, pela primeira vez desde que encontrou Rumiko, sentia-se no controle da situação e sabia perfeitamente o que estava fazendo.
─ Este carro não pode ser parado pela polícia local. Sua placa tem impunidade contra qualquer delito. Mas isso não quer dizer que não possa ser rastreado e, se for classificado como veículo em fuga, os “verdinhos” do exército ou os policiais da DeadLuz podem nos parar.
─ Por isso o senhor está correndo?
─ Sim! Vamos ficar o mais distante possível do campo de Velasqueses e também dos olhos das autoridades antes que essa maravilha de Cadillac seja detectada.
─ Mas não poderemos sair do estado nesse carro – Rumiko faz uma afirmação, mas na intenção de obter uma resposta.
─ Até poderíamos, mas quando passássemos pelo pedágio, teríamos de ser fiscalizados e então eles nos barrariam.
Energizado pelo poder que o volante do carro presidencial lhe injetava e ainda emocionado com a vitória de Rumiko sobre um híbrido, considerado pelo ruivo como invencível, Petruz olha para a moça com um sorriso provocador e pergunta:
─ Mas se você quiser a gente pode tentar furar o bloqueio.
Depositando mais confiança na atual autoridade de Petruz, Rumiko recosta-se melhor no banco e nega sua sede de aventura.
─ Iie! Não podemos mais fazer barulho por enquanto. Rumiko quer sair de Jaú, mas não poderemos fazer isso em silêncio e sem sermos notados. Podemos?
─ Não! A não ser que o presidente estivesse aqui conosco. Além do mais... – Petruz olha no relógio digital do rádio – ...só poderemos dirigir por duas horas.
─ Doushite?
─ O sistema de rastreio do seguro logo irá nos achar. Quando iso acontecer...
O ruivo aponta o polegar para trás, mostrando um aparelho telefônico ao lado da porta do passageiro traseiro que, provavelmente, era onde o presidente se sentava.
– ...aquele telefone irá tocar e, se o presidente não atender, o carro será travado via satélite.
─ Sugee! – exclama moça boquiaberta – O senhor é incrível!
Petruz percebe os olhos grandes e impressionados de Rumiko e, envergonhado, tenta disfarçar. Aquilo não era nada de mais. Seu pai, o governador Álvarez, obviamente sonhou em ser presidente do Brasil. Chegou a se candidatar e perdeu nas apurações, mas enquanto concorria, ele dizia à Petruz todas as mordomias, vantagens e precauções de seguança que receberia se conseguisse o cargo, e como seria a vida de um presidente da república do Brasil.
Rumiko junta as pontas dos dedos em frente ao rosto, pensando nas possibilidades que lhe restavam, e profere em seguida:
─ Então não vá para o centro, senhor. Vá para uma área rural, de preferência ao norte de Jaú, perto da linha férrea. Terá menos policiais ou soldados e, portanto, será mais fácil para nós evitarmos um encontro.
─ Entendido! – Petruz acelera mais o carro – Se segura!
Para melhorar sua sensação de "piloto de fuga", o ruivo liga o rádio do automóvel e sintoniza numa estação onde só passava músicas pesadas e agressivas de rock, todas americanas apesar de ser uma rádio local com locutores brasileiros. Rumiko não gostava muito de heavy metal. Na verdade, não gostava nem um pouco, porque não era acostumada com tal estilo de música. Boa parte de sua cultura musical gerou-se no Japão e lá, a importância que se dá para a música de outros países não é maior do que para a própria. Diferente do Brasil, onde maioria das rádios feita para jovens só dão atenção para músicas internacionais. Por isso, Rumiko que sempre gostou de música MPB, teve de aprender a aceitar as músicas japonesas também, mas só começou a gostar quando passou a entender uma palavra ou outra.
No caso do rock pesado, no entanto, não era só porque não compreendia o idioma, mas também porque ela sentia o ódio e violência apologética no jeito dos vocalistas gritarem no microfone, a ponto de se esgoelarem.
Mesmo assim, ela não reclamou do duvidoso gosto de Petruz. Na verdade, ela aceitava e até compreendia, pois ponderava que “se ele estava entendendo o que estão falando, tudo bem”.
Minutos depois, o garoto abaixa o volume do rádio e pergunta se Rumiko tinha algum lugar em especial para ir. O som baixo daquela gritaria soou como uma lírica aos seus ouvidos. Rumiko então fecha os olhos e aconchega mais a cabeça na lateral fofa do banco, questionando com sua voz melódica.
─ Sore wa doushite?
─ Bom… é que eu queria ir à um lugar. Fica ao norte de Jaú também.
─ É uma área campestre?
─ Sim! Muito. Não tem perigo.
─ E tem relação com o motivo do senhor ainda estar acompanhando Rumiko?
─ Tem... – o ruivo pensa em dizer o “verdadeiro” motivo de ainda estar com ela, mas não encontra coragem para tal – Tem sim.
─ Saa... daijobu desu! O senhor está na direção, pode ir aonde quiser.
─ Obrigado Rumiko. Vamos lá!
Petruz volta a aumentar o volume do rádio, ainda deduzindo que Rumiko estivesse gostando, ou que pelo menos não estava se importando, e segue cantarolando junto com a música americana que tocava. “Como alguém pode gostar dessa barulheira?”, pensava Rumiko, apertando mais os olhos e se encolhendo no banco.
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Na corporação Nerak, Flousey mal chegara à porta de entrada e já foi intimada a comparecer na sala de seu irmão terrestre, que também era o diretor geral da Força. Sem demora, Flousey sai apressada pelos corredores, passando por todos no caminho, falando um “oi” aqui e ali ou acenando a cabeça com um sorriso singelo, porém sem tempo de cumprimentar ninguém apropriadamente. Chegando ao elevador, encontrou com outros funcionários que também aguardavam a cabine, e que não entraram, não por falta de espaço, mas em respeito à sua chefe. Normalmente a nerakyana vinha voando e, portanto, entrava direto pelas aberturas dos andares superiores. Mas quando aparecia nos andares de baixo, o protocolo da empresa dizia que ninguém deveria acompanha-la, seja nos elevadores ou escadas de incêndio. Flousey acena com a cabeça, agradecendo à todos, entra na cabine sozinha e vai, enfim, ao local onde Jay Lee a aguardava.
Chegando à sala do diretor, ela vê dois outros homens bem vestidos, de terno e gravata, sentados nas confortáveis cadeiras postadas ali para as visitas importantes. Eram o representante da secretaria de segurança e um homem enviado pelas relações públicas. Eles se levantam em educação e respeito por Flousey, que pede para eles se sentarem. Jay Lee, contudo, avisa que eles já estão de saída.
Não era bem uma verdade, por isso as visitas ali se entreolham confusas, mas concordam. Os assuntos que tinham com Jason Lee já tinham sido debatidos e se chegado numa conclusão há algum tempo. Desde então, só estavam jogando conversa fora, visivelmente entediados e, com isso, enchendo a paciência do diretor. E agora que a nerakyana chegou, um brilho de alegria e alívio se mostrou na face dos homens. Era quem eles esperavam ver.
Flousey era uma criatura impressionante. Alta, de cabelos morenos e meio cacheados e de olhos verdes esmeralda únicos. Dona de um corpo perfeitamente equilibrado entre músculos e curvas e um par de asas plumosas, belas e brancas como algodão. Sua forma chamava a atenção de qualquer um pela T.V. Mas ao vivo era sempre um espetáculo à parte. Uma criatura admirável, que chegava a ser injusto pertencer à apenas uma pessoa. À apenas uma organização. Apenas um país. E embora ela já estivesse na Terra há muitos anos, não era todo dia que se via a Nerakyana tão de perto. Por isso um dos homens, ao passar por ela, interrompe a caminhada por uns segundos para admira-la e conversar com ela, coisa que não era muito possível normalmente, nem permitido no mundo afora.
Flousey em toda a sua educação, dá a atenção necessária para ambos os homens, respondendo perguntas despretensiosas com seu jeito humilde de ser. Gostava disso, porque sentia que era vista como uma pessoa normal, mas teve de se despedir rapidamente porque seu irmão já lhe olhava feio, impaciente com sua conversa desnecessária. Ela se aproxima da mesa e fica de pé, olhando para o diretor. Jay Lee lança seu olhar de emburrado para os homens de terno e gravata logo atrás e estes saem de cena. Só então é que o diretor desfaz a pose rígida que tentava passar de bom capitão e resmunga:
─ Finalmente se foram.
─ Quem eram eles?
─ Ninguém especial. Estavam aqui para uma reunião, cujo assunto terminou há mais de uma hora.
─ Nossa. E o que ainda faziam aqui?
─ Jogavam conversa fora, enchendo meu saco e esperando você chegar. Eles queriam te ver.
─ Por quê?
─ Porque será, né? – Lee aponta a mão espalmada para Flousey, demonstrando sua impaciência em conversar logo com ela – Agora vamos, sente-se, por favor!
A nerakyana senta-se em frente da mesa de Jay Lee, numa cadeira apropriada, já preparada para ela e seu par de asas, e sem muita cerimônia, joga sobre a mesa alguns papéis enviados pelo rei da Inglaterra. Ainda de pé, o diretor questiona:
─ O que é isso?
Flousey apenas aponta para os papéis, também com a mão espalmada, gesticulando para que seu irmão os pegasse. Jay Lee retorce os lábios de raiva e pega os documentos com agressividade. Quase riu ao ler o assunto que ali se tratava. Era uma carta de compromisso. Se Jay Lee assinasse, teria de cumprir com as exigências do documento, o qual exigia que a corporação Nerak, acaso prendesse a assassina de Lomar, deveria entrega-la para julgamento britânico. Também dizia que, se por caso a Nerak a enviasse a criminosa à força policial “DeWars”, a qual o rei Henrique sabia que tinham uma espécie de pacto, Jay Lee teria de cumprir outras exigências. Dentre elas, como fator principal e maior fonte de riso do diretor, era entregar Flousey às forças armadas britânicas como soldado de auxílio e combate, cuja principal tarefa seria, mesmo nos momentos de paz, servir de guarda-costas pessoal e exclusivo do rei. Jay lê o restante do documento com mediana pressa antes de se sentar e rir sacudindo a cabeça negativamente.
─ Mas como é insistente. Se esse “reizinho” pensa que eu vou te entregar assim, de mão beijada, só porque um inglês morreu em nosso país, ele deve estar totalmente louco.
─ Então você não vai assinar o documento?
─ É claro que eu não vou assinar. Ele não é o primeiro pedir isso. À mim e ao nosso falecido pai. Não sei quanto tempo vive um nerakyano, mas enquanto eu viver, não vou te entregar a ninguém.
─ Que bom. Não gostaria de ser babá de uma única pessoa, mesmo ela sendo tão importante quanto um rei.
─ Além do mais, Rumiko é nosso caso, mas se ela for japonesa, como o nome sugere, então não temos muita culpa sobre o acontecido. São os federais da fronteira do país que devem levar a culpa.
─ Quem é Rumiko?
─ É o que pretendo descobrir. Por isso te chamei aqui.
─ Pensei que tinha me chamado de volta porque queria falar do caso Burashi.
─ Isso também. Lembra-se quando Gengetsu, por interesse em ser o líder do mundo, ameaçou e matou muitos dos que se opuseram à ele?
─ Na verdade Jay, as pessoas que ele matou não eram opositores ao seu plano de eleição, mas sim inimigos em potencial de seu ponto de vista. Como nós também fomos.
─ Isso não muda o fato de que pessoas boas morreram.
─ Pessoas morreram com certeza – Flousey não inclui a palavra “boas” porque veio a saber, tempos depois, do passado sujo de muitas daqueles que foram mortos por ordem de Gengetsu.
Jay pede um copo de café pelo interfone e pergunta se Flousey quer alguma coisa. A nerakyana nega com a cabeça e salienta:
─ Vamos direto ao assunto, Jay. O que você quer saber?
─ Você sabe que muitos dos assassinatos de Gengetsu não foram causados por ele, mas sim por seus subordinados.
─ Exatamente! Os mais comentados foram cometidos por Nezuo e... – Flousey cruza os braços e olha para o teto, tentando lembrar os nomes –...Mozuo e Nezuo.
─ Eu já pesquisei o paradeiro deles para pedir um possível depoimento. Não estão mais aqui em Vera Cruz.
─ Não mesmo. Eles até foram capturados, mas como os dois tinham imunidade culposa (1), não poderiam ficar presos aqui em Vera Cruz nem mesmo após a morte de Gengetsu. Tinham de ser presos no Japão. Então a justiça teve de libertá-los.
─ E acha que eles voltariam para o Japão mesmo sabendo dos riscos?
─ Que riscos? A imunidade culposa os impedia de serem presos aqui, por isso, eles e seus homens foram expulsos e proibidos de voltarem. Mas no Japão eles eram vistos como soldados de Gengetsu, o qual era um tipo de herói aos olhos do povo japonês. Se voltarem para lá, não serão presos com certeza.
Flousey puxa uma de suas finas e longas mechas de cabelo, de cor branca, que sobressaem ao topo e ao meio de sua testa. E enquanto mexia nelas, Jay Lee profere com a mão no queixo:
─ Marisa acha que o assassino é alguém que tinha relação com Gengetsu.
─ É mesmo? E por que nossa comandante acha isso?
─ Ela tem suas teorias. São bem interessantes por sinal. Mas minha pergunta é: você viu mais alguém, além de Mozuo e Nezuo, quando esteve no território de Gengetsu?
─ Gengetsu era muito respeitado pelos seus homens. Havia alguns deles no lugar onde eu o conheci. E havia muitos outros no vilarejo improvisado que ele fez aqui em Vera Cruz e usou de base, lugar onde nós nos enfrentamos.
─ E mulheres? Você viu alguma?
─ Sim, mas poucas. Eu inclusive fui recebida por uma na primeira vez em que me encontrei com Gengetsu. Era bem educada, devo acrescentar.
─ Você se lembra do nome ou do rosto?
─ O nome não porque ela não me disse. Mas do rosto eu tenho uma vaga lembrança.
─ Acha que se ver as fotos que eu consegui, você se recorda dela?
─ Certamente! Você as tem aí?
O diretor liga seu laptop e abre uma pasta com várias fichas criminais, depois abre um outro diretório, criado por ele, onde havia reunido fotos de muitas cúmplices femininas dos crimes de Gengetsu. Ele fez questão de passar todo seu tempo livre, procurando e separando os homens das mulheres, para assim filtrar melhor suas futuras buscas e encontrar a tal Rumiko entre elas. Ao fim, gira e empurra o aparelho para junto de sua irmã.
Flousey olha as fotos, passando-as uma à uma sem pressa, até que diz:
─ É essa aqui! Essa foi a moça que me atendeu no vilarejo.
Lee pega seu laptop de volta e olha para a foto exibida na tela. Era uma moça com um meio sorriso, de cabelos negros e lisos. De pele branca e de estatura média. Estava segurando um pote de argila, enquanto entregava com a outra mão uma quantia de dinheiro a um vendedor de frutas. Era uma típica foto de espião, provavelmente tirada por um dos homens da CIA quando se viu necessitada à entrar no caso para dar uma ajuda.
Isso ocorreu porque, quando Gengetsu foi considerado uma ameaça em ascensão, uma organização secreta abaixo da DeWars, que também contribuía com a Força Nerak, recebeu ordens da Agencia americana para colher dados sobre todos aqueles que contribuíam com Gengetsu. Até mesmo os simples faxineiros foram caçados e interrogados sobre a desculpa de que aquilo era apenas uma “investigação de rotina”, no intuito de descobrir quais eram os grandes planos de Gengetsu. Não conseguiram arrancar nada, nem mesmo dos mais baixos “funcionários” do Gen-Bu, mas todas as informações, como dados, fotos e perfis, foram guardados em um portentoso servidor da rede, numa das três torres eletrônicas mais seguras do mundo, cujo acesso era restrito à bem poucos usuários.
Depois que o grande plano de Gengetsu veio à tona, resultou-se num insucesso e ele veio a morrer em combate, esse projeto foi abandonado, mas os dados e as fotos tiradas até então foram enviadas para a entidade que ficou à cargo do caso, que era a corporação Nerak, para que fossem arquivadas e fechadas como “caso encerrado”.
Lee rastreia toda a informação necessária sobre a moça sorridente da foto indicada por Flousey e, quando todos os dados são agrupados, ele a separa dos outros suspeitos e prepara um documento de correio eletrônico para ser enviado aos computadores da DeWars. Mas antes, sua irmã faz um comentário:
─ Só que o nome não bate, Jay. O nome de nossa suspeita é “Rumiko”, certo? E o nome dessa moça não é sequer japonês.
─ É verdade. Eu já pensei nisso também e não consegui imaginar uma explicação.
─ Não tem nenhuma foto identificada como Rumiko no arquivo?
─ Não nesse pacote que recebemos. Até encontrei uma pasta com esse nome, mas estava vazia. Não dei muito crédito, já que todos os arquivos de todos os integrantes do Gen-Bu estavam desorganizados. E por isso precisava de você aqui. Para reconhecer um rosto.
─ Mas, por mais bagunçada que esteja, encontrar uma pasta vazia num pacote fechado de documentos é meio...
─ Eu sei, é estranho. Talvez Rumiko nem exista. Digo, não com esse nome.
─ Ou talvez até exista, mas o nome “Rumiko” não seja seu nome verdadeiro. Talvez seja um codinome.
─ Você acha?
─ Eu lembro vagamente de que todos os soldados rasos de Gengetsu eram chamados por números ao invés de nomes. As mulheres eu não sei dizer, mas, se estas fotografias estivessem com seus nomes verdadeiros, eles provavelmente estariam completos, com nome e sobrenome, não é verdade?
Nesse momento Jay tem um súbito estalo na consciência. O argumento de Flousey foi de encontro à outra informação que ele ainda não entendia; Por qual motivo um assassino ousado a ponto de matar um embaixador daria o próprio nome para alguém antes de mata-lo? Isso realmente não faria sentido. Outra coisa curiosa é que Marisa já previa isso. Ela também achava, à princípio, que o nome Rumiko era uma forma de ocultar a identidade verdadeira da assassina.
─ Claro! Como não pensei nisso antes? – Jay bate na mesa com força, emocionado – Vou ligar para a DeWars agora mesmo e pedir para eles nos ajudarem rastrear essa pessoa. Agora que temos um rosto, não existe um banco de dados melhor que o da corporação DeWars para encontrar o dono dele.
─ Concordo. Afinal, eles podem acessar as três mais completas torres de dados pessoais do mundo.
─ Exatamente!
─ Mas para tanto, eles irão precisar do Phelios, que está em órbita, já que se encontra na base principal.
─ Deixe essa parte com Marisa. Eu só preciso mandar a imagem desta foto para o laptop dela, que ela dá seu jeito. E quanto à você...
Jay Lee faz uma cópia impressa da fotografia e entrega à sua irmã.
─ Quero que vá para Jaú e veja se encontra essa moça. Qualquer informação dada pela DeWars, eu vou te avisar pelo rádio, por isso, em nome de Deus, pra onde você for, leve seu comunicador.
─ Tudo bem – a nerakyana levanta-se da cadeira e abre suas belas asas, preparando-as para pô-las em funcionamento – Estou indo.
─ E vê se me trás essa moça viva. Pode ser ferida, sem braços e sem pernas, mas viva. Capiche?
─ Capiche, meu capitão – Flousey responde num deboche.
Em seguida, caminha até uma porta feita exclusivamente à ela, cuja qual dava numa linda sacada ao ar livre e de lá, Flousey alça vôo e desaparece nos céus.
Jay Lee liga prontamente para a seção de telefonia da DeWars, localizada ali na Amazônia, e assim que é atendido, ele diz animado e efusivo:
─ Aqui é o diretor da Força Nerak. Ligue-me com Marisa, por favor. É urgente!
Quase um minuto de espera depois e a voz feminina, porém firme de Marisa se pronuncia:
─ Sim, senhor Lee? Marisa falando.
─ Comandante... Creio que encontrei a nossa assassina.
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