A Busca

47 Encontro dos Olhos


Rumiko já cochilava por pouco mais de uma hora quando despertou subitamente. O rádio estava mudo. Isso porque Petruz, ao reparar sua companheira de olhos fechados, teve a decência de desliga-lo e deixar a mocinha dormir. Rumiko olha ao redor, observa a paisagem pelo vidro escurecido e percebe que já estavam na área campestre que desejavam chegar. Ela então pede para Petruz diminuir. O ruivo desacelera o veículo, conduzindo-o na velocidade necessária para passar despercebido e estabelecimentos, mas não rápido o suficiente para darem a impressão de estarem fugindo.

Eles rodaram nesse ritmo por alguns minutos mais até chegarem às áreas menos populosas de Jaú, a fim de evitar olhares curiosos. Afinal, estavam num cadillac presidencial. E era incomum ver o carro de um presidente trafegar sozinho, sem escolta, pelas ruas de terra dos campos e sítios de Jaú. Querendo ou não, aquele automóvel se converteria em tema de um assunto que seria comentado por horas, talvez dias.

A moça finalmente indica um local, uma área semelhante à um campo de futebol abandonado, com gramas já altas e muitas poças de água de chuva. O garoto estaciona o carro com atenção redobrada, por causa dos buracos. Em seguida, sai do veículo e estica o corpo numa espreguiçada demorada. Estava dirigindo há pouco mais de uma hora, mas estava tenso e nervoso, devido ao medo de que fossem parados pelo caminho.

Enquanto isso, Rumiko, ainda dentro do carro, pega sua bolsa no banco traseiro e retira uma pequena vasilha, vedada com uma sacola plástica na tampa para não vazar a água contida nela, misturada com um produto de extrema força de limpeza. Dentro dela, encharcado na solução aquosa, havia também um pano de limpeza de grande absorção.

Rumiko passa esse pano no volante, no câmbio, nos botões do rádio, no trinco da porta, no cinto de segurança e em todas as outras partes do automóvel em que viu Petruz pôr as mãos.

Lá fora, o rapaz olha ao redor e vê uma área montanhosa mais alta de um lado e, do outro lado do campo, pouco abaixo da área, um amontoado de casas comuns, bem afastadas uma das outras.

─ Parece que mesmo aqui nesse local ermo há moradores.

─ Se há moradores, então não é um lugar ermo, senhor Petruz – grita Rumiko de dentro do carro, continuando a limpeza.

─ É mesmo! Tem razão. Por que paramos num lugar assim?

─ Rumiko precisa se esconder por uns tempos.

─ Esconder?

─ Quando descobrirem o assassinato de Velasqueses, o que deve acontecer daqui a pouco, eles irão fazer um cerco em todo o Amazonas, começando por aqui em Jaú. Se Rumiko conseguir se esconder até que as buscas de Jaú cessem, então ela poderá sair com mais segurança dessa cidade.

─ E pra onde você vai depois de sair daqui?

─ Oiapoque. E de lá, Rumiko viajará para outros lugares que possibilitarão a saída do território de Vera Cruz.

Rumiko passa, por fim, o lenço no trinco da porta pelo lado de fora, último lugar que ela se recordava de ter visto Petruz tocar, e se afasta do veículo cautelosamente, observando o local com extrema atenção e à procura de testemunhas ou curiosos. Não encontrou nada de suspeito, então chama o garoto para acompanha-la, enquanto ainda olhava aqui e ali.

─ Não vai fazer nada com esse carro? – o ruivo pergunta.

─ Fazer o quê, por exemplo, senhor?

─ Sei lá... queimar,... jogar naquela lagoa suja ali em frente... Se não couber naquele lago, poderemos guia-lo até o Rio Negro, que não é muito longe daqui, se você não sabe.

─ Não vamos fazer nada com ele. Apenas deixe-o aí.

─ Você se esqueceu do que eu disse? Esse carro pode ser rastreado. E se acaso o localizarem?

─ Rumiko está contando com isso, senhor.

─ Como é?

─ Rumiko quer que esse veículo seja localizado, assim os perseguidores mais perigosos de Rumiko saberão onde a procurar.

─ Estranho. Por que quer ser localizada pelos...? Hei, espere um pouco...!

Petruz agarra a moça pelo ombro, fazendo-a ficar de frente para ele.

─ De que perseguidores você está falando? Quem, além da policia, você acha que está atrás de nós?

─ É só um mau pressentimento. Não tem nada a ver com o senhor, por isso não precisa se preocupar. Apenas diga, porque o senhor queria vir para este lado da cidade?

Petruz solta um suspiro e começa a andar na frente, sendo acompanhado pela moça logo em seguida. Ele não gostava quando ela fugia do assunto, mas preferia mais quando ela fazia isso do que quando simplesmente se calava. Por mais uma vez, o ruivo teve a dolorosa sensação de que, se os inimigos que viriam dali em diante fossem mais perigosos, tal qual a moça frisou, então ele iria atrapalhar. Embora que, após presenciar a batalha do impressionante Gigo, Petruz já não acreditava que houvesse ainda alguém que fosse páreo para Rumiko.

Ele aperta com força a alça de sua mochila sobre os ombros e explica, meio cabisbaixo e ainda chateado:

─ Você me disse... Me disse que sabia por que eu queria ir até o limite do estado com você.

─ Rumiko imaginou que fosse por causa de seu tio.

─ É isso mesmo.

─ Umm. Mas ele não mora por aqui, certo?

─ Não, mas é nessa área da cidade. Se você não tivesse acordado, eu teria nos levado até lá.

─ Rumiko quis parar por aqui porque...

─ Eu sei, eu sei. Tem uma parada de trem há poucas centenas de metros daqui. Quando o carro for rastreado, os seus perseguidores vão imaginar que você pegou o trem. Até nisso você pensou.

─ Gomen nasai.

─ Mas isso é bom. Se realmente pegarmos um trem agora, chegaremos na casa de meu tio na hora do almoço.

─ O senhor pode ir, mas Rumiko não vai com o senhor.

─ E porque não? Rumiko, ele é o único tio que eu tenho, já que meu pai só tinha um irmão e minha mãe era filha única. A gente pode ir para lá juntos.

─ Dame ne! Rumiko não quer que o senhor envolva mais ninguém de sua família com ela.

─ Tem certeza disso?

─ Tenho sim senhor Petruz. Domo Arigato!

─ Bom, já que é assim... então vamos procurar um lugar para ficarmos.

Desta vez foi a moça que se posicionou à frente de Petruz e pousou sua mão no peito dele, fazendo-o parar por um momento. Ela balança a cabeça lentamente em sinal negativo.

─ Dame yo! O senhor vai se encontrar com seu tio. Rumiko vai até uma daquelas casas para ver se encontra um lugar para ficar.

─ Não posso mais ficar com você?

─ Já que o senhor tem opção, acho que é melhor nos separarmos. Rumiko sente que as coisas logo vão ficar mais difíceis e é melhor não estarmos juntos quando isso acontecer.

─ Tá bom, entendi. Tudo bem. Posso pelo menos ir até lá com você? Sabe, para saber se você vai conseguir um lugar para ficar?

─ Mochiron!

Petruz acomoda sua mochila nas costas e caminha pensativo e quieto. A sensação de saber que ele e Rumiko iriam se separar sempre foi estranha e ruim. E agora que o momento finalmente chegou, essa estranha dor emocional estava insuportável, sufocante.

Eles caminham por vários minutos, com Rumiko ignorando as primeiras casas que viram. Caminhando um pouco mais, os jovens descem uma pequena colina abaixo do campo, onde encontram uma casa bonita e bem chamativa. Mais uma vez, Rumiko pede para o garoto acompanha-la um pouco mais e então se afastam dessa casa.

As três moradias seguintes, todas bem afastadas por causa dos vastos terrenos vazios, também não agradaram Rumiko. Na quarta ela gostou da aparência, tentou negociar uma estadia, mas foi quase expulsa pelas mulheres da casa.

Ela pesquisa por mais três residências, se apega por mais uma, porém, ao pedir nessa casa por abrigo, também não obtém sucesso. Rumiko sorriu, a fim de animar Petruz a continuar, e que parecia estar ficando com pena dela, o que definitivamente não era necessário.

Enquanto seguiam para as próximas casas à frente, ela exclamou olhando para o alto:

─ Senhor Petruz, o senhor é incrível.

─ Hum? Eu? E por quê?

─ O modo como nos trouxe até aqui. Dirigindo rápido e sem problemas. Foi impressionante.

─ Isso não foi nada Rumi. Muita gente sabe dirigir.

─ Rumiko não sabe dirigir, senhor Petruz.

─ Dá para se aprender a dirigir em dias. Você, do jeito que é, poderia aprender em horas.

─ Será? Rumiko levou dez anos para saber o que sabe na arte da esgrima.

─ Esgrimar deve ser mais difícil que dirigir.

─ “Esgrimir”, senhor Petruz – a moça deixa escapar um riso, mas logo se arrepende, com medo de que Petruz ficasse emburrado de novo.

O que não vem a acontecer, porque o ruivo estava muito entristecido para da atenção a uma simples correção.

Depois de muito andar e visitar residências, Rumiko viu um enorme jardim florido e de mato um tanto alto. No meio dele, um casarão de tijolos marrons e telhas cinza. Era a mais afastada e isolada de todas e, embora fosse enorme e possuir a aparência de uma pequena mansão, era uma das mais humildes. A sensação de aconchego, que era despertada somente diante de lugares modestos ou simples, mais uma vez invade Rumiko e ela pensou em novamente tentar negociar uma estadia.

O quintal atrás da casa era bem grande e cercado. Havia pequenos pastos cercados para vacas ou cabras, e áreas para porcos, todos vazios, e as matas ao redor davam à residência uma típica aparência de morada rural. Era velha, quase caindo aos pedaços, o celeiro juntamente com os estábulos também vazios estavam esburacados e a porta de entrada da casa era feita à mão, num trabalho artesanal de madeira e palhas secas. Apesar da aparência caipira e pobretona, os jovens repararam que a casa possuía luz elétrica e água encanada.

Rumiko chegou no portão da cerca, que estava trancado mas dava para abri-lo facilmente por fora, e chama por alguém que pudesse atende-la. Um homem branco, com aparência de uns 40 anos, barba rasa e corpo magro, chega na porta de casa e Rumiko, acenando com a mão, diz em voz alta:

─ Poderia nos dar um minuto, senhor?

─ O que vocês estão vendendo? – retruca o homem também em voz alta, andando só o suficiente para ouvi-los.

─ Não estamos vendendo nada senhor. Queremos um lugar para ficar.

─ Podemos pagar – completa Petruz.

O homem começa a se aproximar da cerca, que ficava à mais de vinte metros da porta de entrada da casa. Nesse meio tempo, Petruz diz para Rumiko deixar que ele falasse.

─ Vocês estão brincando, não é? – pergunta o homem à distância – Tem algumas pensões na estação seguinte.

─ É uma situação especial, senhor. – explica o ruivo – Nós estamos atrás de um lugar para passarmos alguns dias e poderemos pagar. Temos algum dinheiro.

─ Quantos dias?

─ Assevero que uns três dias devem bastar – intervém Rumiko.

O homem olha bem para as roupas de Rumiko que, aos olhos dos ocidentais, eram estranhas, engraçadas, “bufantes”,... enfim, fora do comum.

─ Não temos um quarto decente para alugar.

─ Qualquer lugar serve, senhor. Até mesmo aquele estábulo, se o senhor permitir.

─ Hãnn....! – o homem coça as barbas rasas e depois responde destravando o portão – tudo bem, vamos conversar lá dentro.

─ Espere um pouco, senhor! – exclama a moça, interrompendo a ação do homem abrir o portão.

Petruz olha para ela com uma cara feia, tentando dizer alguma coisa com expressões faciais. Mesmo percebendo isso, Rumiko se volta para o homem e explica.

─ Alguns delitos graves foram cometidos por mim há uns dias atrás, portanto logo estarei sendo procurada pela polícia dessa parte da cidade-estado.

Petruz vira o rosto para o outro lado, para não ver a próxima cara do homem, que provavelmente seria de assustado ou de irritado. Rumiko disse a mesma coisa nas últimas casas que visitou e que as pessoas lhe concederam um pouco de atenção. E isso resultou em xingamentos e ofensas, além de expulsão e ameaças de que iriam chamar a polícia local. Outros simplesmente fugiram e trancaram suas portas. Por isso, para evitar problemas, Petruz disse-lhe que não falasse sobre seus crimes passados. Rumiko até que concordou com a cabeça, mas a verdade era que ela não gostaria de ficar na casa de alguém sem que o dono soubesse quem ela era na realidade.

O homem ponderou por um bom tempo, sem dizer e nem fazer nada, até que:

─ Bom... isso será um obstáculo para minha esposa. Mas se vocês vão pagar então acho que a gente ainda pode negociar. Mas e ele? – o homem mexe o rosto, como se apontasse para Petruz com os beiços – Ele também é um foragido?

─ Bom, Na verdade não. Eu...

Petruz já havia ensaiado uma resposta para essa pergunta, mas Rumiko não o deixa pô-la em prática.

─ Ele é um refém, senhor.

─ Refém? – questiona o homem.

─ Refém? – Petruz o acompanha em seguida.

─ Sim! Era preciso fugir de carro para chegar até aqui. E já que ele é o único de nós que sabe dirigir, pedi para esse senhor me ajudar. Ele não tem nada a ver com o que foi feito por mim, não é sequer um cúmplice, portanto é inocente.

─ Bem... isso é um pouco inusitado. Ele vai ficar aqui também?

─ Iie! – Rumiko balança a cabeça negativamente – ele já vai embora. Para a casa de um tio, não é isso, senhor?

─ Hã...sim. É isso mesmo.

─ Então tudo bem – retruca o homem – se você for liberta-lo, então poderemos negociar.

─ Sim senhor, obrigado. Espere só um momento. Voltarei daqui dez minutos.

Rumiko pega na mão de Petruz e o puxa de volta para a estrada de terra logo atrás, que cruzava aquele vasto campo. Dali, começa a caminhar em direção da área florestal, à direita, enquanto sussurra:

─ Não pegue o veículo do presidente Velasqueses, senhor. Tente encontrar um outro método de locomoção, como o trem que citou anteriormente.

─ Sim, claro! Eu nem pensei em entrar naquele carro de novo.

─ Que bom. O senhor vai ficar bem, não vai? Sabe onde seu tio mora?

─ Sei sim. E mesmo que tenha se mudado, não vai ser difícil de encontra-lo.

─ Que bom, que bom. Isso é muito bom.

Logo que ficam fora do alcance de visão da casa, Rumiko guia o rapaz para dentro de um bosque, que dava início à uma profunda área florestal, subindo mais adiante em outra elevação de terras arborizadas. Ela se posiciona na frente de Petruz e revela seu plano.

─ Se Rumiko conseguir ficar, permanecerei aqui por três dias no máximo. Nem mais, nem menos. Partirei sem falta na manhã do quarto dia.

─ Será muita sorte se conseguir ficar. Eu falei para você ficar de boca fechada quanto aos seus delitos.

─ Rumiko tem muita sorte, senhor Petruz.

─ Pode ser, mas... como sabe que aquele homem não vai entrega-la?

─ Rumiko não sabe. Terá de confiar naquele senhor.

Petruz tira a mochila do ombro esquerdo e a troca de lado.

─ Então..., quando passar estes três dias, você vai partir?

─ Hai! Rumiko partirá para o Amapá e depois dará um jeito de sair do país. A partir daí o senhor nunca mais irá vê-la, então...

Rumiko pega sua bolsinha em forma de filhote de panda, que continha ainda muitas moedas de ouro e algumas notas altas de Bedina enroladas em canudo, e retira uma parte de seu dinheiro. Com um sorriso triste e desapontado, ela estende a mão para Petruz, com duas moedas de ouro e quatrocentas bedinas em notas de cem.

─ Se o seu tio está nesta região, isso deve dar para sua passagem e despesas da viagem, além de manter o senhor bem por alguns meses. Rumiko gostaria de poder lhe dar mais, mas ela não sabe quanto o senhor daquela casa irá cobrar. Rumiko promete que, quando nos encontrarmos de novo, irá recompensá-lo melhor por tudo o que o senhor fez por ela.

Petruz pega o dinheiro e disfarça virando para trás, enquanto limpa os olhos lacrimejados. Temia que Rumiko não entendesse porque ele estava triste a ponto de querer chorar. Depois ele se volta para a moça, forçando um sorriso.

─ Bom. Então eu... – o garoto vai erguendo o braço devagar, na intenção de se despedir de Rumiko com um aperto de mãos – ...eu acho que é aqui que a gente se separa. Por isso, adeus.

A moça olha para a mão de Petruz, e antes de qualquer gesto ou movimento, ela quis saber.

─ O senhor não vai mesmo esquecer Rumiko?

─ Feh! – ele sorri de verdade desta vez – Mesmo que eu quisesse, não acho que conseguiria.

─ Então Rumiko pode voltar aqui um dia, só para visitar o senhor?

─ Estarei esperando.

A moça acena com a cabeça e se aproxima de Petruz, tirando suavemente a mão dele de seu caminho e indo de encontro ao garoto, abraçando-o fortemente.

─ Arigato... Honto ni arigato.

Petruz se atreve a também envolver Rumiko em seus braços, abrangendo o corpo magro e aparentemente frágil da moça. E por mais de um minuto, respeitando o silêncio um do outro e sentindo o suave som dos arbustos sendo acariciados pela brisa da manhã, os dois saboreiam aquele momento, que foi especial para ambos.

Súbito, Rumiko aperta o corpo de Petruz com mais força, o puxa para trás e o gira, jogando-o de encontro à uma árvore, de modo que ele não se machucasse ou fizesse barulho. O garoto olha para a moça, que apoiou as mãos no tronco da árvore atrás dele, ladeando sua cabeça e observando ferozmente de soslaio, como se o protegesse de algo que viria da direção em que ela focalizava.

─ Rumi...? O que você...?

Rumiko coloca uma das mãos na boca de Petruz, tampando-a e, com a outra, ela encosta o dedo indicador em seus próprios lábios, fazendo gesto para que Petruz ficasse quieto. Assim que o garoto assente com a cabeça, Rumiko tira a mão de sua boca e aponta para um local distante à sua direita, atrás e após a árvore onde eles estavam.

Petruz virou a cabeça tão devagar quanto o movimento de apontar das mãos de Rumiko. Mas em meio ao mar de árvores que se apresentavam, no infindável terreno que descia e subia bem mais adiante, ele não viu nada. O rapaz se volta para Rumiko e faz um sinal com os ombros, como se tentasse perguntar o que foi sem precisar falar.

Rumiko puxa Petruz suavemente para frente e novamente faz o sinal, apontando com seu indicador, o horizonte à direita, que dava para um arvoredo no topo de um terreno iniciado em solo baixo e subindo a colina pouco mais atrás. A moça estava com os olhos semicerrados, sem o tradicional sorriso, e parecia estar ao mesmo tempo preocupada e concentrada. Ela via alguma coisa. Alguma coisa que os olhos destreinados de Petruz não conseguiam ver.

De repente, na parte mais alta daquela densa floresta, no fim do morro, uma criatura de tamanho e forma de um ser humano adulto, se ergueu por entre os galhos daquele mar verde de folhas, e alcançou o topo de uma das árvores mais altas. E de lá, ficou de pé.

Em seguida, a tal criatura abriu para os lados duas asas, brancas e majestosas, e que ficaram ainda mais evidentes ao serem banhadas pelos raios de sol da manhã. Então, ficou imóvel, olhando ao redor, como se estudasse o local.

Os olhos de Petruz se arregalaram de um modo que jamais fizera antes. Ele sente seu coração acelerar ao mesmo tempo em que profere um nome, que quase não sai por causa da falta de som em sua voz.

─ F-Flou... Flousey!

─ Yô! – replica a moça sem se abalar, segurando os ombros de Petruz para evita-lo de se mover desnecessariamente – O mau pressentimento de Rumiko se confirmou. Ela já está atrás de Rumiko.

─ Atrás de você?

─ Hai! Rumiko sabia que não iria demorar, mas também não pensou que seria tão rápido.

─ Rumiko, do que está falando? Flousey também é uma inimiga?

─ E em potencial. Quando tiraram o senhor Vargas do caso de Lomar, ao invés de deixa-lo para unidades policiais melhor armadas, uma organização defesa da nação o assumiu. Essa organização é a Força Nerak.

─ Quer dizer então que agora é Flousey que está caçando você?

─ É possível.

Petruz observa a mulher alada e calcula mentalmente a distância entre eles e a grande árvore onde a criatura repousava. Descendo o morro e subindo-o mais adiante, e levando em consideração os matos, lagoas, arbustos e raízes da mata, fora possíveis encontros com cobras e onças do local, a mulher devia estar há duas horas ou mais de caminhada. Mas para alguém como Flousey, bastava alguns bater de asas e ela estaria ali, diante deles, em menos de cinco minutos.

─ Meu Deus, Rumiko. E agora?

─ Não se preocupe senhor – a voz da moça continuava sussurrante, apesar do espaço que havia entre eles e a mulher alada – Isso, de certa forma, é muito bom. Rumiko tem uns assuntos à resolver com a Nerakyana.

─ A- Assuntos? Quer dizer... duelos e essas coisas?

─ Hai! Rumiko não está pronta para enfrenta-la ainda. Mas se ela nos vir e vier aqui, será bem vinda à provar do aço de minha shikomizue.

─ Você está louca? – replica Petruz num tom mais alto e preocupado na voz.

Novamente, Rumiko tapa a boca de Petruz. Tarde demais desta vez, pois repentinamente, a mulher alada, que parecia cabisbaixa e pensativa, ergueu mais a cabeça e, num gesto de procurar alguma coisa, olhou exatamente para o local onde eles estavam. E desse modo ficou, contemplando o lugar com uma atenção maior, como se soubesse que eles estavam ali escondidos. Como se os visse.

Tanto que Petruz, apavorado, balbucia:

─ E-Ela... Ela nos viu...! Desculpa Rumi...

─ Shhh... Está tudo bem, senhor Petruz.

Rumiko abraça o corpo de Petruz e observa Flousey com seus olhos afiados. Depois, busca com os dedos o cabo de sua espada para, enfim, exprimir um sorriso desafiador e incitar:

─ Deixa-a vir. Vai ser divertido.