A Busca
48 Os Smiths

Sentada sobre um dos grossos e frondosos galhos de uma das maiores árvores do extremo norte de Jaú, Flousey observava um mapa que mostrava os antigos e recentes becos e vielas da cidade. Ela tinha consciência de que, se a assassina de Lomar ainda estivesse por ali, não seria tola para se esconder em áreas populosas e comerciais. Mas se o fizesse, o lugar ideal seria na parte mais obscura dos bairros. Logo, o local em ela que estava, extenso e aberto, com muitos sítios e velhas fazendas, a estava fazendo perder tempo.
A nerakyana dobra o mapa em quatro partes, coloca-o de volta numa pequena bolsa, presa em um cinto em volta de sua cintura, e sobe para a parte mais alta da árvore. No topo, ela abre suas belas asas e olha ao redor do vasto campo, admirando e analisando a espaçosa paisagem daquela área específica de Jaú, dedicada unicamente ao plantio e criação de gado. O local era belo e digno de se viver, embora os comércios fossem localizados na cidade mais próxima. Talvez fosse por esse mesmo motivo que, abrangendo um campo de visão tão largo, Flousey não via uma pessoa sequer nas ruas e campos.
Ao girar um pouco o rosto para sua esquerda, a mulher alada percebeu, ao longe, alguém que parecia se esconder atrás de uma árvore. Estava realmente longe e Flousey não as via com perfeição, mas sabia, ou ao menos pensava, que eram duas pessoas. Um casal de adolescentes, que de alguma forma notaram a presença da nerakyana e agora se escondiam. Flousey sorri e, como se quisesse evitar que o casal a ouvisse, diz bem baixinho:
─ Essas crianças despudoradas.
Nesse momento, seu intercomunicador, posto ao ouvido, acionou um sinal de chamada. Flousey coloca o dedo no intercomunicador e aperta um pequeno botão sobre ele, exclamando em seguida.
─ Pode falar, Jay!
─ Flousey. Onde você está?
─ A julgar pelo mapa, estou na região norte de Jaú.
─ Encontrou algo suspeito?
─ No momento, só estou vendo um jovem casal de namorados se escondendo. Acho que estão fazendo o que não devem em meio ao campo aberto.
─ Consegue localizar o campo de golfe particular de Velasqueses?
─ Deixa eu ver... Sim, achei. Fica no centro da cidade.
─ Isso mesmo! Em quanto tempo você chega lá?
─ Acho que em cinco ou dez minutos. Por que?
─ Acabamos de receber a notícia de que Velasqueses foi morto nesse campo ainda há pouco. Você tem que ir imediatamente para aquele maldito campo de golfe.
─ Entendido! Já estou indo.
─ Ótimo! Maravilha! Te ligo daqui à pouco, então.
O sinal é cortado. Flousey joga seu peso para frente, fazendo o galho em que estava pender adiante, flexiona os joelhos e salta, esticando suas asas às laterais enquanto caía em direção ao solo. E depois de quase cinquenta metros em voo rasante ao gramado, ela ganha altitude e eleva-se aos céus, aumentando também sua velocidade.
A notícia da morte de Velasqueses chegou à Jay Lee por um dos contatos da incrível DeWars. Ele não queria ficar para trás, como aconteceu no caso de Lomar Armstrong, por isso, queria aproveitar que foram enviados apenas quatro soldados rasos da DeWars para o local, sem apoio de um capitão ou agente, e usou Flousey para conseguir qualquer informação em primeira mão.
─ Duas pessoas – ele sussurra para si – Duas pessoas importantes. Dois crimes na mesma semana. Na mesma cidade. Essa assassina tem coragem.
O rapaz vai até seu laptop e abre a foto da pessoa sorrindo, passeando numa feira, que ele tinha certeza de ser a suposta Rumiko.
─ Maldita! Nós vamos pegar você.
Mais uma vez, seu telefone fixo toca sobre a mesa, com a luz no botão que indicava ser outra de suas secretárias.
─ Senhor diretor. Alguém do laboratório quer falar com o senhor.
─ Pode passar.
─ Alô, diretor? – uma voz masculina vem na sequência – aqui é Bruce.
─ Olá doutor Bruce. O que tem pra mim?
─ Tenho uma notícia boa e outra mais ou menos.
─ Primeiro a boa, porque eu estou cansado de notícias ruins.
─ A boa é que eu já retirei a impressão digital daquela faca japonesa que me mandou.
─ Que ótimo. E a outra notícia?
─ Eu já passei a impressão para o papel e fiz todo o procedimento de busca. Mas nosso banco de dados não possui tal impressão. Vamos precisar de ajuda internacional.
“Mas tudo sobre Gengetsu já veio de uma entidade internacional” – pondera Jay Lee. Um pacote completo sobre o caso de foi enviado à Nerak pela CIA. E se a impressão encontrada na adaga fosse de Rumiko, era impossível que o pessoal da CIA não tivesse enviado uma foto ou documento junto, já que eles pesquisavam sobre tudo e sobre todos.
Jay Lee tem um pressentimento horrível, então ordena.
─ Traga os documentos da impressão para cá. Agora!
─ Sim senhor!
O homem desliga o telefone e Jay Lee volta para o laptop enquanto resmunga:
─ Se aqueles miseráveis da CIA estão por trás do anonimato de Rumiko, nós temos um problema. Ainda bem que temos um rosto da assassina. Se enviarmos a fotografia e uma cópia da impressão digital para a DeWars, os palhaços da CIA terão de nos dar mais informações.
No centro da cidade, mais especificamente no campo de golfe particular, uma multidão observava o trabalho dos grupos policiais das divisões criminais. Os soldados da DeWars já estavam lá há mais de meia hora e, pela posição a qual sua corporação pertencia, tiveram toda a liberdade e o conforto para fazerem seu trabalho sem serem incomodados ou questionados. Agora eles simplesmente observam o trabalho das forças policiais “normais”.
Alguns minutos se passam e logo a multidão de curiosos entra em euforia, gritando e assoviando. Os soldados da DeWars procuram o saber o porquê e veem, vindo do céu, o motivo de tanta algazarra.
─ Ah! – suspira um deles, dizendo com desdém – “ela” chegou!
Flousey pousa perto dos policiais locais e pede informações ao responsável sobre o ocorrido. O soldado no comando fica em posição de sentido para a nerakyana, depois comenta:
─ Parece que foi o mesmo assassino. Mas desta vez foi um golpe na garganta. A cabeça do presidente não foi decepada, mas a perícia concluiu que ele morreu em questão de segundos.
─ O assassino sabe como usar uma “faca” – retruca um outro soldado, às costas de Flousey.
─ O que quer dizer? – Flousey se vira para o outro soldado.
─ O corte foi feito de uma forma cirúrgica impressionante. Não dá para saber ao certo, mas pelo dano na jugular, tem-se a impressão de que o corte foi feito de modo rápido, preciso e sem dor.
─ Sem dor?
─ Sim! O presidente não sofreu um corte no pescoço para impedir que ele gritasse. Ele sofreu tal corte por que era uma maneira rápida e eficaz de matá-lo, sem faze-lo sofrer.
─ Hmm...! Onde está o corpo do presidente?
─ No carro fúnebre, Flousey. Você quer vê-lo?
─ Não! Acho que não será preciso.
O comunicador da Nerakyana toca novamente:
─ Pode falar, Jay!
─ Já está no local?
─ Sim! Cheguei agora.
─ Dez minutos, exatamente como você disse. E então? O que descobriu?
─ Nada ainda. O presidente foi morto com um golpe cortante na garganta.
─ E os seus seguranças? Caio sempre levava um pequeno grupo de guarda-costas para esse campo.
─ Um momento – Flousey se vira para o policial – onde estão os corpos dos guarda-costas? Vocês encontraram algum?
─ Sim! Havia sete corpos espalhados por aqui. Todos com cortes fatais e, segundo o pessoal da perícia, todos armados com espadas.
─ Oi, Jay – Flousey volta a falar ao comunicador – Estão todos mortos. Todos os sete.
─ Sete? Havia sete cadáveres?
─ Sim. Oito com o do presidente.
─ Está errado!
─ Como disse?
─ Tem alguma coisa errada, Flousey. Por causa de seu passado, Velasqueses tinha dificuldade para conseguir alguém honesto que aceitasse trabalhar para ele. No entanto, tenho informações de que quando voltou para Vera Cruz, ele possuía um grupo de oito guarda-costas.
─ Oito? – Flousey olha para o policial que lhe deu a informação sobre os corpos, depois olha ao redor – Está faltando um.
─ Exato! – intervém um dos soldados da DeWars, se aproximando por trás.
─ Está faltando um soldado. O mais forte deles. O maior responsável por Velasqueses ter durado tanto tempo.
─ O mais forte deles?
─ O nome dele é Gigo. Foi ele quem ligou para a polícia, avisando sobre o crime. Ele não estava aqui quando chegamos, mas não deve ser difícil de encontra-lo. Afinal, ele é de um tipo bem exótico.
─ O que quer dizer?
─ Gigo é um híbrido, senhora Flousey. E como tal, se ele trabalhava como guarda-costas, deve ter licença de protetor especial. Por isso, só precisamos pegar uma cópia dessa licença em qualquer instituição que trabalha com isso e usa-la para localizá-lo através do chip de rastreio.
─ Ouviu isso Jay? – Flousey diz ao comunicador.
─ Já estou pesquisando – responde a voz de Jay.
─ Isso não será preciso – retruca o soldado – Um dos nossos homens já foi até a mansão do presidente para ver se encontra algo.
─ Obrigado! – Flousey sorri para o soldado da DeWars e completa – Mas quanto mais pessoas ajudar, mais rápido os resultados aparecem.
─ De fato – o homem vira o rosto de lado.
As frases e conselhos de Flousey se assemelhavam muito com aquelas dadas pelos superiores da DeWars, mas nem todo o soldado da corporação gostava de receber ordens ou lições de alguém que não fazia parte do grupo, considerado por eles como supremo e inquestionável.
Flousey caminha entre o campo, olhando as marcas feitas pela batalha ocorrida há poucas horas, com o soldado da DeWars a acompanhando. Ela se abaixa numa marca de derrapagem e passa a mão na grama, numa parte movida com o deslize de um calçado, impossível de se identificar.
─ Ela não deixa nenhuma pista – replica o homem atrás dela.
─ Não mesmo. Cada singelo passo que ela dá é estudado com antecipação.
Flousey ergue-se e comenta distraída.
─ Qual era a parte animal desse guarda-costas híbrido?
─ Não tenho certeza, mas acho que era felino.
─ Felino... – Flousey levanta o rosto ao céu – por isso disse que era o mais forte deles?
─ Na verdade eu me referia à sua raça. Entre os homens de Velasqueses, esse tal Gigo, por ser um híbrido, era naturalmente o mais forte deles.
─ Oh, sim! Entendi...!
─ Não queria assustar os policiais, por isso não disse antes. Mas não é qualquer ser humano que consegue derrubar um híbrido. Eu...! Com licença Flousey.
O soldado pega seu celular no bolso, o qual estava em modo silencioso. Após algumas curtas palavras, o homem desliga o contato e sorri:
─ Tenho duas informações que acho importantes.
─ Sim? – Flousey fica de frente para o soldado.
─ O presidente já tinha cópias da licença de Gigo. Ele era um político desprezível, mas trabalhava direito. A outra informação é que o carro do presidente não se encontra na sua residência.
─ E o que isso tem a ver com o caso?
─ Bom, encontramos dois automóveis aqui, estacionados na entrada do campo, ambos com sua chave no contato, mas o carro do presidente também não estava entre eles. E ele só podia sair de casa se fosse em seu carro, por causa da placa fornecida pelo senado.
─ Quer dizer que...?
O homem vira as costas e acena com a mão, gesticulando que iria embora, enquanto dizia:
─ A assassina fugiu no carro do presidente. Sabe o que temos de fazer agora não é?
Todos os carros do senado, desde o do vice-prefeito de uma pequena e pacata cidade até o presidente supremo da câmara dos deputados, eram rastreados por um serviço de seguro especial, que trabalhava unicamente para o poder legislativo.
Nem mesmo o poderoso Gengetsu poderia ter comprado esse serviço. Por isso, se a assassina ainda estiver dentro do carro do prefeito, ela será localizada com 100% de precisão.
─ JAY! – Flousey grita no comunicador – Cancele a busca por Gigo e entre em contato com o serviço de seguro automobilístico do senado.
─ O quê? Por quê?
─ Quero que peça para eles travarem o carro do presidente Velasqueses. Imediatamente.
─ Travar? Não sei se podemos...
─ Eu assumo a responsabilidade. Peça para travar e rastrear o carro, depois me diga onde ele se encontra. Eu estarei no ar.
Flousey desliga o comunicador, abaixa-se e salta, ganhando o céu facilmente, em meio à uma nova onda de aplausos e gritos de euforia. Jay Lee ficou olhando para o aparelho celular. Dificilmente o diretor da Nerak via sua irmã alienígena tão decidida, a ponto de invadir e quebrar protocolos que precisariam de autorização da secretaria pública do estado. Normalmente era o contrário que acontecia.
Ele não sabia o motivo, mas se Flousey estava tão decidida, o mínimo que Jay Lee deveria fazer era ele mesmo assumir a responsabilidade. O diretor joga o celular de lado e abre uma página de busca da web em seu laptop, procurando o número de contato do tal seguro automobilístico.
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Roberto já estava voltando para dentro de casa quando viu ao longe a mocinha de outrora se aproximar correndo. Ele fica imóvel por um momento, esperando ela chegar até seu cercado, e nota que agora estava sozinha.
A moça vai até o portão e se inclina, pedindo desculpas pela demora.
─ Onde está o garoto? – questiona o homem com um rosto rígido.
─ Hun? Ele foi embora, senhor. Não era isso o que queria?
─ Ahn... sim. Mais ou menos. Venha, pode entrar.
Rumiko destrava o pequeno e frágil portão e entra, colocando sua bolsa nas costas e seguindo o homem até a porta de entrada do casarão. Lá dentro, o teto era alto e mal acabado. Havia alguns pequenos buracos no telhado. As paredes eram escuras por causa da umidade e o local onde se situava a cozinha era frio e meio triste. Eles tinham poucos móveis, sendo que alguns eram, em sua maioria de madeira, feitos pelo próprio dono da casa. Mas tinha luz elétrica e água encanada, apesar de tudo.
Rumiko deu uma boa olhada ao redor com seus olhos grandes e disse admirada:
─ O senhor tem uma bela casa.
─ Hunf! Não precisa me enganar. Sei que deve ter achado o lugar um chiqueiro.
─ Não é de minha autoridade julgar sua casa. Afinal, será no celeiro que vossa visita irá dormir, não é?
─ Hã... Bem. O celeiro não tem teto. Acho que você pode ficar por aqui em algum lugar.
─ O senhor tem certeza?
─ Vamos ver...!
Enquanto caminhavam pela enorme casa, Rumiko notou uma porta que dava para fora, numa área com vista para o quintal, onde um senhor de idade bem avançada, encontrava-se sentado numa cadeira de rodas velha e acabada. A moça parou por um momento e ficou observando a cena, até que Roberto chamou sua atenção.
─ Hei! Mocinha. Venha!
O homem chega até outro local que também dava para fora e Rumiko, ao alcança-lo, vê que era uma espécie de área de lavanderia. Com dois tanques de roupas comuns e uma máquina de lavar. Em um dos tanques, via-se uma mulher, de idade quase tão visível quanto à de Roberto, lavando peças de roupa. Ela se vira para o homem e pergunta de modo grosso.
─ Quem é essa menina?
Rumiko toma a dianteira, se inclina ao estilo japonês e, com toda a sua educação, responde.
─ Esse senhor ofereceu a gentileza de me abrigar durante três dias, mas disse que precisaria falar com a senhora também.
─ Oh...! – a mulher se afasta um pouco, em meio à palavras tão gentis, e Rumiko continua.
─ A intenção não é causar-lhes nenhum problema. Se a senhora concordar, ficarei muito agradecida. Do contrário, pedirei licença para me retirar.
─ Bom eu... eu acho que está tudo bem... certo querido?
A moça olha para Roberto e ele assente com a cabeça, espantado com a rápida mudança de humor de sua esposa.
─ Bom – ele responde – nós ainda vamos negociar. Essa moça tem um segredo que você precisa saber.
─ Segredo?
Alguns minutos depois, os três estavam na cozinha, em volta da mesa. Roberto serviu um prato com bolachas doces de leite e um suco para a visita.
─ Desculpe não termos nada melhor no momento. É que controlamos as refeições.
─ Oh, por favor, senhor – Rumiko pega o copo de suco – Está tudo perfeitamente bem.
─ Certo. Bom, então vamos lá. Conte-nos o seu propósito.
Rumiko come algumas bolachas e toma um pouco de suco, depois une as mãos sobre a mesa e começa:
─ Meu nome é Rumiko. Tenho uma tarefa a cumprir longe daqui, mas no momento não posso sair do estado, então preciso ficar hospedada em algum lugar seguro por pelo menos três dias.
Rumiko pega sua pequena bolsa em forma de ursinho e retira duas moedas de ouro, e as coloca sobre a mesa, continuando.
─ Claro que Rumiko não pretende ficar aqui de graça. Ela pode pagar no máximo duas moedas de ouro, pois pretende sair do país e isso será dispendioso.
─ D-Duas moedas? – a mulher se mostra boquiaberta – é muito dinheiro... não é querido?
─ Com certeza... – Roberto também se mostrou espantado – como simples fazendeiro, isso é muito mais do que eu ganho por mês.
─ Vamos deixar você ficar – a mulher se mostra animada – Vamos deixar, não é Roberto? Ela pode ficar.
─ Um momento, minha senhora – Rumiko levanta a mão, interrompendo o entusiasmo da mulher diante do brilho do ouro – O motivo de Rumiko estar pagando tanto é que ela precisa de um lugar não só para ficar, mas também para se esconder.
─ Hã... esconder...?
─ Hai! Rumiko cometeu alguns crimes de assassinato e...
─ Assassinato? – a mulher suspira assustada, aproximando-se e se agarrando ao seu marido.
Os homicídios em alguns lugares de Vera Cruz eram tão frequentes que algumas pessoas já tinham se acostumado e aprendido a se defender ou conviver. Mas para um mero casal de fazendeiros acostumados à vida mansa do campo, isso ainda era muito assustador.
Rumiko ergue as mãos espalmadas.
─ Oh por favor, calma. Rumiko não vai fazer mal à vocês. É uma promessa.
─ Está tudo bem, querida – Roberto faz sua mulher voltar a se sentar – está tudo bem.
O homem olha para mocinha à sua frente, servindo-se de mais algumas bolachas e pergunta.
─ Os crimes que você cometeu... foram graves?
─ Hai! Por isso Rumiko está implorando para ficar aqui por alguns tempos. Rumiko promete fazer o possível para não deixar que vocês se prejudiquem com a presença dela.
─ Bom... – o homem olha novamente para as duas moedas de ouro – Tudo bem.
Ele observa sua esposa, que se manteve quieta até então, e pergunta o que ela achava. As duas moedas de oura seriam de grande ajuda para aquela família que possuía um terreno enorme e um campo vasto e fértil, mas que ainda assim era pobre.
─ Sim! – a mulher responde cabisbaixa – Você... pode ficar.
Rumiko volta a sorrir e abaixa a cabeça, quase encostando a testa na mesa.
─ Domo Arigato!
O homem se levanta e apoia as mãos sobre a mesa.
─ Bom, já que tudo se resolveu, vamos nos apresentar direito. Essa é Sofia, minha esposa.
Rumiko inclina a cabeça mais uma vez, apresentando-se à mulher mais formalmente. A senhora sorri meio sem jeito. Ainda estava incomodada com a presença da moça, agora que sabia que era uma assassina.
─ E eu sou Roberto – continua o homem – Roberto Smith.
─ Aahh... E quem é aquele senhor que Rumiko viu ainda a pouco, do lado de fora?
─ É o meu pai. Ele já está muito velho e rabugento e por isso tudo o que faz é ver televisão e olhar o quintal. Se você for ficar aqui, eu gostaria que você evitasse aborrecê-lo.
─ Sim senhor.
─ Ótimo – Roberto se vira para sua esposa – Querida, mostre um quarto para nossa hóspede.
─ Sim, claro.
A moça se levanta, pede licença para Roberto e acompanha a mulher até uma outra área do casarão.
─ A casa de vocês é enorme – exclama Rumiko, de olhos bem abertos.
─ É sim! Foi construída pelo pai e o avô de Roberto, há muito tempo atrás. O pai de Roberto já tem pouco mais de cem anos e ajudou o pai dele a construir essa mansão quando ainda tinha seus vinte anos.
─ Caramba! Então é um tesouro de família.
─ É por isso que Roberto não quer vender a casa e ir embora. Ele prefere morrer aqui a saber que a vendeu para alguém que possivelmente transformaria esse pequeno sítio em mais um comércio.
─ Como se chama o pai do senhor Roberto?
─ Pode chamá-lo apenas de Smith. Apesar de que é melhor mesmo você não aborrecê-lo, porque ele não irá dizer à você nada além de broncas. Ele é mesmo muito rabugento. Mas deve ser por causa da idade.
A mulher olha para o rosto liso e rosado de Rumiko e revela:
─ Sabia que ele é um herói de guerra?
─ Herói de guerra?
─ Sim. Já faz anos que ele está numa cadeira de rodas, mas não é por causa da idade. Ele sofreu um acidente na última guerra que lutou e acabou perdendo os movimentos das pernas.
─ Que pena!
─ Mas não diga à Roberto que eu te contei isso. Só estou te avisando para você não ligar muito no caso de receber uma ofensa do velhote.
─ Isso não vai aborrecer Rumiko, senhora. Não se preocupe quanto à isso.
─ Você fala engraçado – a mulher ri pela primeira vez – Fala bonitinho, mas é engraçado o modo como se refere a si mesma.
─ Bonitinho?
Sofia mostra um quarto vazio, com uma janela e apenas uma estante vazia no canto.
─ Esse quarto está bom para você?
─ Hai! Está ótimo, senhora.
─ Depois eu peço para meu marido lhe trazer uma cama. Temos duas lá no sótão.
─ Oh, por favor, senhora. Não precisa se incomodar com isso. Consiga apenas um largo tapete ou acolchoado para forrar o piso, por favor.
─ Sim, claro. Eu já volto.
Rumiko coloca sua bolsa no chão e respira fundo. Depois vai até a janela e a abre, sendo apresentada à mais um pedaço do vasto quintal de Roberto. A moça olha para o céu claro e diz baixinho, mas de modo à querer que alguém lhe ouvisse. Alguém especial.
─ Espero que o senhor Petruz esteja bem.
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