A Busca
32 Tenkamusou
Klaus ergue a tampa do caixão com força, rapidez e brutalidade, arremessando-a à distância. E então, exclama estupefato:
─ Está vazio!
─ Sim – concorda Nezuo, momentos depois, tranquilamente.
─ O senhor sabia? Por isso me mandou abrir?
Nezuo faz um sim com a cabeça, embora não fizesse ideia de que o caixão pudesse estar vazio. À sua frente, o esquife de madeira, agora com a tampa removida, exibia um amontoado de areia queimada, do tipo usada para infertilizar um determinado campo de terra. Imaginando que alguma coisa poderia estar entre aquela pilha de terra, Nezuo inesperadamente chuta o caixão, fazendo-o virar. A areia se esparrama pelo quintal e nada mais é revelado, contrariando o que passou pela sua cabeça.
─ Que esperta, Egao-san – comenta Klaus – encheu o caixão de terra para fazer peso. Do contrário não deixariam passar pelo aeroporto.
─ Se o esquife chegou, significa que o restante do pessoal do Gen-Bu, que ficou em Vera Cruz também já veio.
─ Sim meu senhor. Quer que eu vá chama-los?
─ Se bem me lembro, dois deles ficaram com Rumiko quando Gengetsu caiu. Dois homens de Mozu. Traga um deles aqui. Já!
─ Sim, meu senhor.
Klaus sai apressado, visivelmente animado com os eventos que estavam para suceder e, em menos de quinze minutos, o soldado requerido era trazido à presença do novo dono do império Gen-Bu, encontrando-se com um Nezuo de pé, encostado numa das oito pilastras do salão principal, olhando para uma folha de papel em suas mãos.
Klaus fica na porta de entrada enquanto o soldado continua a caminhada, decidido e altivo. De frente para Nezuo, o soldado faz a respeitosa pose do Gen-Bu, dobrando uma das pernas, ajoelhando a outra e encostando o punho cerrado no peito direito.
─ Teichou! – ele exclama de cabeça baixa.
─ Onde está o corpo de Gengetsu? – questiona Nezuo sem rodeios.
─ Como disse, senhor?
Nezuo joga o papel ao chão, próximo do soldado, que o pega depois de ponderar um pouco. O papel, que na verdade era uma carta de recomendação, vinha em nome de Rumiko, e pedia para que o esquife fosse guardado na caverna do silêncio. O soldado leu a carta, mas não entendeu o que Nezuo insinuava.
─ Senhor, o que isso...?
─ O caixão estava vazio, soldado.
─ Isso é uma surpresa para mim também senhor. O que quer de mim?
─ Quero que me diga os movimentos por Rumiko. Vocês ficaram com ela durante todo o nosso processo de extradição. E permaneceram na ilha de Vera Cruz um tempo depois de nossa partida. Quero saber o que ela está aprontando. Para onde foi, o que foi fazer e coisas do tipo.
─ Não sei para onde ela foi, senhor. Mas o que ela quer fazer... bem... sei que vai parecer absurdo. Mas Rumiko está decidida a encontrar Oz, o feiticeiro.
Como o soldado não ouviu seu novo capitão e agora também novo líder do Gen-Bu o interromper, ele proferiu outra informação que ainda julgava ser absurda:
─ Ela pretende ressuscitar o mestre Gengetsu, senhor.
─ Certo... – Nezuo abaixa-se próximo do soldado – E para isso ela obviamente precisa manter o corpo do suserano intacto em algum lugar. Eu quero saber onde ele está. Conte-me seus movimentos, passo à passo.
O rapaz ergue os olhos e encara seu líder. Ele usava um de seus malditos capuzes de carrasco, feito de couro e que, apesar de não ter nada de mais, se tornava assustadora no rosto de Nezuo. Tinha a impressão de que ele podia ler-lhe os pensamentos. O rapaz volta os olhos ao chão, respondendo:
─ Ela pediu que nós enviássemos duas cartas para o Gen-Bu, que ela escreveu de próprio punho, depois pediu para a gente se encontrar em um lugar onde um enorme caixote estaria pronto e aguardando para ser liberado. Avisou que o caixão do dai-sensei estaria dentro. Nós só servimos de representantes.
─ Cartas? Para quem eram essas cartas?
─ Uma era para o ichigou dela, o senhor Kizuato. A outra era para aquele sacerdote... – o soldado bate o dedo indicador no chão, tentando lembrar o nome.
─ O padre Karras? – questiona-lhe Nezuo.
O soldado assente, quase suando de medo. Nezuo, imediatamente, ergue-se e olha para Klaus. Este dá de ombros e já informa:
─ Nem adianta, senhor. Nenhum desses dois idiotas está mais no dojo. Nem nas proximidades.
─ Quero que me informe quando Karras voltar.
─ Claro senhor.
─ Fique calado sobre isso – diz Nezuo, dirigindo-se ao soldado, prostrado à sua frente – não diga à ninguém sobre as intenções de Rumiko. Se perguntarem, diga que ela está morta. Entendeu?
─ Sim, meu senhor.
─ Agora vai.
O soldado faz uma mesura, levanta-se e caminha na direção da saída. Quando some de suas vistas, Nezuo retira seu capuz e solta uma baforada cansada. Klaus, que mantinha os olhos, ora para dentro, ora para fora do salão, só se aproximou de seu capitão depois que teve certeza do desaparecimento total do soldado.
─ Senhor? Quer que eu o faça falar?
─ Não. Deixa isso para lá. Agora tenho outros planos. Só me deixe sozinho, para pensar no que fazer.
─ Como quiser, meu senhor. Com sua licença.
Também com uma mesura, Klaus se retira, deixando o novo dai-sensei sozinho no salão principal. O que se passava na cabeça de Nezuo era bem reconfortante. Se Rumiko não enviou o corpo de Gengetsu para o Gen-Bu, significava obviamente que ela o deixou em Vera Cruz. Poderia até já ter feito algum funeral ou coisa do tipo e inventou essa história de Oz para ocultar seu verdadeiro intento. Por outro lado, se ela acreditasse mesmo nessa bobagem de ressuscitar os mortos e tenha mesmo partido atrás de um personagem fictício da história, então o corpo de Gengetsu foi realmente guardado. Se for isso, com certeza estava sem a proteção necessária já que não passava de um cadáver.
Assim sendo, bastava Nezuo enviar alguém para Vera Cruz. Alguém que não foi da primeira vez para evitar transtornos com a polícia federal brasileira. Alguém hábil e inteligente para coletar informações e, se preciso, tomar uma ação necessária. Só que aí apareceu uma dúvida: Para aonde foram os soldados de Rumiko? Principalmente seu ichigou, admiravelmente habilidoso e irritantemente fiel? A carta de Rumiko enviada à ele poderia estar pedindo-lhe justamente isso, que fosse à Vera Cruz para tomar conta do corpo do sensei. Era um plano brilhante, até porque, seus comandados não foram para as terras brasileiras da última vez. Então ainda tinham passe livre.
─ É preciso encontra-los – diz Nezuo, caminhando em direção da saída.
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Katou coloca o punho fechado na boca e segura um arroto e respira fundo, imaginando que as explicações, dadas pelo seu avô e que agora ele deveria repassar ao seu superior, seria difícil para Vargas engolir. Mesmo assim, ele inicia devagar, evitando que seu superior não perca o rumo de seus esclarecimentos:
─ Bem... usando as palavras de meu avô, se o senhor observar nas fotos das duas ocorrências, verá que em todas as fotos há a mesma... – Katou pausa por dois segundos – a mesma "paixão".
─ Paixão? A paixão de matar?
─ A paixão de lutar. É difícil para um não praticante de artes marciais entender, mas acontece e não é raro, de algumas pessoas se apaixonarem pelo ato de pelejar. E pessoas assim não se importam muito se vão ganhar ou perder, contanto que consigam satisfazer o desejo que seu coração tem de lutar. No caso de um espadachim real, isso é de fato bem difícil de entender, porque nesse meio de combate, a derrota pode significar a morte.
O detetive retorce o rosto numa feição incrédula e Katou alivia o comentário.
─ Perceba que eu não estou falando de brigar em bares ou em portas de escola. Estou falando do prazer de lutar, encontrado dentro da beleza que há na arte de combate em si.
─ Você tem razão Kato, eu não entendo. Pra mim, briga é briga. Não importa se você é um delinquente juvenil, um bêbado encrenqueiro ou membro de uma gangue. Mas, se seu avô acha que os autores desses dois atos são a mesma pessoa e que essa pessoa tem paixão por cortar pessoas... e levando em consideração o alto grau de fatalidade com o qual os indivíduos do motel foram atingidos, porque que ele deixou os homens do prefeito vivos?
Katou olhou para seu avô. O velho continuava encarando o detetive com seus olhos finos e enrugados, com largas bolsas caindo sobre a bochecha. Aquela pergunta já havia sido feita ao velho pelo seu neto e ele já a tinha respondido com toda convicção. Convicção essa que Katou também se valeu ao responder Vargas:
─ O suspeito atacou os guardas do prefeito sem o uso de Sakki.
─ Sa... Quê?
─ Sakki. Existe um campo de estudo na esgrima da velha escola, coisa da época das guerras medievais, que ensina a filosofia e o misticismo que há além das técnicas e movimentos.
─ Continue.
─ Bem... é dito e sabido por qualquer praticante profundo de artes marciais, que um espadachim, seja ele um guerreiro honrado ou um mero matador, emana três tipos de energias distintas. O Ken-Ki, que, resumindo, é a energia de um guerreiro e serve como uma fonte de presença. O Tou-Ki, uma energia de combate, que normalmente revela o nível de perícia e força da pessoa que a emana. E o Sakki que é uma energia liberada quando a pessoa tem intenção de matar. Esta última energia não foi utilizada em nenhum dos homens de Rudolf.
─ Você está me dizendo que, mesmo diante dos riscos, esse assassino deixou os homens do prefeito vivos... de propósito?
─ Bem... Trocando em miúdos, foi exatamente o que meu avô disse.
O detetive encara avô e neto por um momento, e leva as mãos ao rosto, esfregando-as lentamente sobre toda a face. Deu vontade de fumar, mas ele respeitou o ambiente em que estava e segurou o desejo. Depois, abaixou os braços, depositando-os na mesa e remoendo-se pensativo.
Vargas respira fundo, irritado e ainda absorto em pensamentos. O caso deveria ser simples. Qualquer um com coragem para matar um homem do meio político tem dois destinos, ou é encontrado no mesmo dia ou, no caso mais comum, desaparece do mapa. Por isso Vargas considerava uma sorte e um azar eles terem rastreado os culpados tão rápido, escondidos no hotel Genevie, apesar de os suspeitos terem conseguido fugir antes da polícia chegar. E agora, esses “temperos” adicionados ao caso aos poucos mostrava que Vargas estava certo. O assassino não era só um profissional, como também tinha princípios.
─ Senhor Vargas?
─ Desculpe Kato. Acho que vou embora. Esse maldito assassino ruivo está me dando dor de cabeça.
─ Não – resmunga o velho goro, mexendo a cabeça devagar – Ianque, não. Nihon-jin.
Vargas ergue os olhos para o velho japonês, depois encara Katou desconfiado. Este prontamente se explica:
─ Desculpe senhor. Como disse, meu avô entende algumas palavras de português. Ele deve ter associado a palavra ruivo com ianque. Ou seja, um americano.
─ E ele acha que o assassino é japonês? – questiona Vargas inclinando-se para frente, reacendendo sua atenção.
─ Anh... não acho que seja isso o que ele quis dizer, senhor.
─ Pergunte à ele.
Katou nem argumenta. Já tinha percebido que Vargas considerava importante toda e qualquer palavra saída da boca de seu avô. A pergunta é feita e a resposta vem rápida e sem dúvidas. De face incrédula, Katou pergunta outra coisa, ainda em japonês e Vargas deduz que ele pediu mais informações, porque a segunda resposta do velho demorou a acabar. Falando vagarosamente e mexendo apenas o pescoço, com leves acenos de cabeça, o homem idoso terminou suas explicações balançando a cabeça negativamente e de modo tão firme, que o detetive quase adivinhou o que ele demorou tanto pra dizer: o velho realmente achava que o assassino era japonês.
─ E então? – questiona Vargas cruzando os braços – Quero saber tintim por tintim, cada palavra que seu avô lhe disse.
─ Bom... em primeiro lugar, o senhor estava certo. Meu avô não acha que o assassino seja um americano e sim um japonês. Ou pelo menos alguém treinado por um japonês.
─ Humm... – Vargas acena com a cabeça, orgulhoso de si. Seu senso de dedução ainda funciona apesar da idade.
─ Em segundo lugar, eu perguntei à ele o porquê de ele achar isso. Mas sua resposta não foi muito imparcial. Ele acha que só um esgrimista japonês é capaz de tais façanhas com uma shikomizue. Nisso eu discordo, porque há excelentes espadachins no mundo todo.
─ Pois diga à ele que o nosso homem tem cabelos ruivos e que disso não há dúvida! Portanto ele pode estar enganado.
─ Isso é irrelevante, senhor. Ele pode ser um assassino japonês de cabelos tingidos de ruivo.
─ Isso sim seria irrelevante, senhor Kato. Não quero parecer preconceituoso, mas um japonês é sempre um japonês, seja de cabelos pretos, loiros, ruivos ou azuis. Se nosso homem fosse um asiático, acredito que nossas fontes já nos teriam dado essa informação.
─ Tem razão – Katou volta-se para o longevo senhor e explica a situação.
Em poucos minutos, durante uma conversa que soou como um desabafo, o rosto do jovem asiático mudou de uma face curiosa para uma nervosa, como se censurasse seu avô pelo que havia acabado de falar.
─ Meu avô não sabe o que dizer sobre isso – retorna Katou ao idioma do Brasil.
─ Ele falou bastante coisa para alguém que “não sabe o que dizer”. O que foi que ele disse?
─ Senhor, acho que meu avô já contribuiu com o que ele podia. Meu intuito em pedir suas opiniões era somente no caso dos golpes de espada. Tudo o mais que ele puder dizer não passará de especulação e de especulação nós já estamos bem servidos.
─ Senhor Kato, não enrola. O que seu avô disse?
Kato solta um suspiro cansado e diz uma palavra em japonês.
─ Tenkamusou.
Vargas abre mais os olhos, deixando claro sua falta de entendimento.
─ Tenkamusou – repete Katou – Meu avô acha que esse... “ianque”... ele deve ter sido treinado por um tenkamusou ou pode inclusive ser o próprio.
─ E o que vem a ser isso?
─ Um tenkamusou é um nome antigo, uma palavra não mais usada e que mesmo na era dos samurais já era raramente ouvida. Não tem tradução exata para o português mas pode ser entendido como “o mais forte”. Hoje em dia usa-se a palavra tenkamusou para um tipo de espírito, que se apossa de um indivíduo, dando-lhe habilidades de combate que, normalemnte, não seria possível.
Vargas ergue uma sobrancelha, incrédulo. E Katou, desconfortado com o que acabara de dizer, espera ouvir seu superior rir de sua cara. Entretanto, ainda sério, o detetive pergunta:
─ E o que isso tem a ver com o caso? Ele acha que esse ianque está possuído?
O velho Goro resmunga alguma coisa, que Vargas, mesmo sabendo que não entenderia nada, dá total atenção, ignorando o jovem Kaito. Assim que termina de falar, o detetive interroga o companheiro com os olhos e ele simplesmente repete o que o velho disse, traduzindo em seguida.
─ “Uma vez a cada cem anos, o assassino perfeito retorna, e tornando vermelha sua espada, há de sorver a vida do inimigo”.
─ Pareceu mais legal em japonês. Mas ainda não respondeu minha pergunta. Se esse é um espírito japonês então... o que o ruivo tem a ver com isso?
─ Bem, um espírito tenkamusou vai possuindo as pessoas ao nascer. Segundo meu avô, um Tenkamusou pode possuir qualquer pessoa, à qualquer era do tempo, em qualquer canto do mundo.
─ Então a cada cem anos, em algum canto do mundo, ouve-se falar desse fantasma?
─ Não é bem assim, pois há um outro lado. Um tenkamusou só escolhe recém-nascidos para possuir e, portanto, ele pode não saber se essa pessoa será um espadachim no futuro. Uma pessoa com o espírito de um tenkamusou é, num resumo, uma pessoa com uma fácil e poderosa aptidão para o manejo de uma arma branca, mas isso só vai acontecer se ele quiser seguir esse caminho. Pessoas de séculos diferentes podem ter esbarrado num indivíduo em posse desse espírito, mas na forma de um vendedor de pipocas ou de um motorista de taxi.
─ Eu...
Nesse momento, o celular de Vargas começa a tocar. Ele ergue a mão aberta para o colega a frente e faz sinal para ele esperar enquanto levanta-se com dificuldade e atende o aparelho.
─ Senhor Vargas? – diz uma voz masculina assim que nota que quem atendeu não disse nada.
─ Sou eu mesmo.
─ Eu sou do laboratório de perícias criminais. Disseram para ligar para o senhor quando já tivéssemos o resultado sobre o objeto que matou o prefeito Rudolf.
─ E vocês já têm? – “normalmente isso leva semanas aqui em Vera Cruz”, pensa Vargas.
─ Sim, nós dedicamos todo o nosso esforço e trabalhamos o mais rápido que pudemos em cima disso.
─ Que ótimo! E qual é o resultado?
─ Antes de mais nada eu quero explicar que essas espadas distribuídas para pessoas cuja função é de proteger alguém, são de uso exclusivo dessas pessoas.
─ Eu sei disso. São como na época das armas de fogo, em que cada soldado deveria ter sua pistola.
─ Quero lembra-lo também que, por causa do acabamento do cabo, com vincos e entradas minúsculas, ter uma noção exata de quem é a impressão digital marcada em tal superfície se torna uma tarefa um pouco mais difícil do que encontra-la numa superfície plana, tipo um espelho ou um azulejo por exemplo. O trabalho num objeto assim se torna difícil, mas não impossível.
─ Acompanho seu raciocínio.
─ Maravilha. Então o senhor deve saber também que quem portava essa arma na ocasião era um dos guardas do prefeito Rudolf.
─ Sim. O que isso tem a ver?
─ Só há uma impressão digital no objeto. Nós já a rastreamos, comparamos e confirmamos; é a do soldado em questão, dono da espada.
─ Impossível!
─ Não mesmo. Conseguimos inclusive localizar, isolar e identificar uma impressão mais antiga ou sobposta. E ninguém além do dono dessa arma a usou nos últimos três meses.
─ Não pode ser...
─ Sim, pode. Das duas uma: ou o assassino do prefeito foi o seu próprio guarda, ou esse suposto assassino que o senhor está procurando não tem impressão digital. E isso, sim, seria impossível.
Vargas fica um momento em silêncio, pensando, pensando... até que decide.
─ Quero que envie essa espada para análise na minha unidade, a Força NERAK.
─ Tudo bem. Será feito imediatamente.
─ Obrigado – Vargas desliga o celular – Não queria envolver a Força nisso, mas estou começando a ficar com um mau pressentimento.
─ Pressentimento sobre o quê? – quis saber Katou.
Vargas explica resumidamente o que se passou na conversa e Katou exibe um sorriso sarcástico.
─ Senhor Vargas – diz o perito balançando a mão – essa sua dúvida é incompreensível. O assassino poderia muito bem ter usado luvas na hora do crime.
─ É. Pode ser que sim, mas... Mas acho que, se esse fosse o caso, nós também estaríamos sabendo e, por isso, eu não quero trabalhar com essa hipótese.
─ Por que não?
─ Durante o interrogatório que fiz em Pereira, ele não me disse nada sobre o assassino estar de luvas. E também, se ele estivesse de luvas no segundo ato de homicídio, então por que deu um sumiço no cabo da espada que empunhou? Tem alguma coisa muito errada nessa sequência de ato.
Vargas olha no relógio de pulso e solta um longo e cansado suspiro.
─ Já está ficando tarde. Vamos rever o caso do início, mas não hoje. Vou para o meu apartamento descansar.
─ Mas, senhor...
─ Eu sei. A gente chegou bem perto do assassino hoje, não foi? Mas se não conseguimos pegá-lo, significa que ainda não é a hora. Pode parecer bobagem um detetive dizer isso, mas eu acredito em destino. Avise seu avô que já estou indo e passe-lhe meus agradecimentos e minhas despedidas.
Katou inclina-se próximo de seu avô, repassa o pedido de Vargas. O velho acena com a cabeça por duas vezes. Enquanto isso, o detetive liga para a companhia de rádio táxi, solicitando um carro nas proximidades. Só então Vargas sai da biblioteca, sendo seguido por Katou. No portão, o perito oferece:
─ O senhor não quer que eu o leve até em casa? Só vai levar um minuto até eu pegar o carro.
─ Não precisa, senhor Kato. Eu já solicitei um taxi. Aconselho-o a descansar também. Em dois dias retomaremos esse caso e pressinto que teremos muito o que pesquisar.
─ Certo senhor, mas... Dois dias?
─ Estou de olho em toda a cidade de Saltos, senhor Kato. Não se preocupe, o ruivo está acostumado a se hospedar em hotéis, portanto, ele não vai dormir ou comer sem que eu saiba. Até mais.
Vargas cruza o portão e espera a sua carona. Katou também saiu e decidiu ficar por ali até que o veículo chegasse. Nesse meio tempo, Vargas, completamente em silêncio, acendeu um cigarro. Não queria falar mais nada a respeito do caso e não queria conversar sobre outras bobagens. Katou respeitou o silêncio de seu chefe até que viu um táxi cruzando uma avenida abaixo e entrando na rua que passava em frente à sua casa. Vargas também vê o veículo se aproximar e só então agradece.
─ Obrigado pelo jantar, senhor Katou. Foi uma bela noite. Mas não espere me ver tão cedo por aqui de novo.
─ Sei disso – Katou ri, mas logo fica sério novamente.
Quando o carro parou e Vargas deu seu primeiro passo, o perito deu um brusco avanço.
─ Senhor Vargas!
─ Sim?
─ Bom, é que... Nada! Tenha uma boa noite.
Vargas olha para seu parceiro, quase adivinhando seus pensamentos. Katou sonhava em trabalhar para Nerak, mas não tinha coragem de pedir um auxílio. E esse caso do prefeito Rudolf iria ser de grande ajuda para sua imagem, por isso a pressa em resolvê-lo e o desespero por ter de esperar dois dias.
Vargas abre a porta do táxi, entra e abaixa o vidro, questionando:
– Diga senhor Kato. Você sabe como eu fiquei assim, manco de uma perna?
─ Não senhor.
─ Bom... um dia eu conto.
Katou ajeita os óculos e coloca as mãos no bolso enquanto observa seu superior fechar o vidro e dar sinal para o motorista partir. Logo, o taxi desaparece na escuridão da noite.
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