A Busca
33 Luxúria
Rumiko e Petruz jantaram dois preparados de cachorro-quente e refrigerante numa barraca de esquina e se acomodaram num beco, com mais ou menos dez metros de profundidade por cinco de largura, que era usado como um pequeno depósito de lixo. Foi o primeiro de seis becos que Rumiko encontrou e que não havia nenhum mendigo se declarando “dono” do lugar. O chão duro e frio seria uma grande decadência se comparado ao último lugar onde quase passaram a noite. Porém, enquanto estivessem ali em Saltos, eles não tinham escolha.
─ Desculpe por isso, senhor Petruz – lamenta Rumiko sentando-se de frente para o ruivo.
─ Você quer parar com isso? Eu já disse que estou acostumado à esse tipo de coisa.
─ É que é meio difícil aceitar que o senhor está comendo cachorro-quente e dormindo ao relento quando se tem dinheiro no bolso.
─ Realmente. Mas isso é o de menos. Poderia ser bem pior. A gente poderia nem ter dinheiro para comer.
─ Hum... – Rumiko puxa as pernas, abraça os joelhos e esconde o rosto neles – O senhor tem toda razão. Oyasuminasai.
─ Ah, sim... – Petruz encolhe-se – Boa noite para você também.
O ruivo agasalhe-se mais, colocando uma blusa de zíper por cima da que já usava e também tenta dormir.
Rumiko permaneceu imóvel, com o rosto afundado nos joelhos dobrados, até que ouviu o som mais pesado da respiração de Petruz. Foi só então que ela ergueu o rosto, engatinhou até o ruivo e verificou se ele estava realmente dormindo. Quando comprovado, ela foi para a saída do beco vigiar o movimento.
─ Só mais algumas horas, Rumiko – diz ela para si mesma, bafejando as mãos em concha para aquecê-las.
Foi difícil manter-se acordada enquanto fingia dormir, porque na verdade ela sentia o peso do sono. Mas precisava ficar alerta por mais algumas horas. Ainda não tinha descoberto como foi que aqueles homens do Genevie conseguiram encontra-la tão rápido, mas se aconteceu, significava que ela havia deixado marcas ou migalhas para trás. Rumiko pensou nesse assunto por muito tempo, sem chegar à conclusão alguma. Então, decidiu que não poderia se dar ao luxo de descansar e ser capturada enquanto dormia. Não enquanto tivesse Petruz para manter a salvo.
Quando a madrugada chegou, o movimento nas ruas, tanto de carros como de pedestres, diminuiu bastante e, agora com menos atividade para se focar, o sono começou a pesar em Rumiko com mais intensidade. No intuito de permanecer alerta, ela balançou a cabeça para os lados e deu tapas nas bochechas para despertar. Já estava em seu limite. Não havia dormido direito por quase três dias antes de chegar a Saltos e, desde que chegou, não teve sequer uma noite de sono tranquila. Mas precisava se manter acordada até entrarem no trem, de onde poderia controlar as paradas e as pessoas com as quais deveria tomar cuidado ou dar maior atenção. Aí sim, poderia dormir.
A moça levanta-se, coloca as mãos nas costas e inclina o corpo para trás, contorcendo-se. E espremendo os olhos e focalizando um relógio digital enorme, localizado na praça adiante, ela repara que ainda não eram nem duas da manhã.
Ao dar outra conferida em Petruz, Rumiko deduziu que o garoto devia estar exausto, ou realmente já acostumado com a vida nas ruas, porque dormia profundamente.
─ Kawaisou ni – ela sussurra com um sorriso entristecido, ainda aflita com o fato de ele estar dormindo ao relento e acreditar que era por culpa dela.
Em seguida, volta a saída do beco, e torna a fazer vigia, onde se esforçou ao máximo para ficar atenta, com pequenas “pescadas” hora ou outra. A moça sorri ao ver, depois de muitas horas, os primeiros raios de sol. Mais uma noite perdida. Mas pelo menos ainda estavam a salvo.
Rumiko decidiu esperar por mais uma hora até que resolvesse acordar Petruz e, nesse meio tempo, foi procurar uma panificadora ou algo do tipo para providenciar um café da manhã. Não aconteceu nada durante a noite, então não achou que fosse possível acontecer alguma coisa agora que amanheceu.
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Japão. Em algum lugar de Hokkaido.
Um homem de terno marrom, membro dos soldados de Gengetsu, a serviço do capitão Mozu, se preparava para partir numa viagem com uma suspeita quantia em dinheiro. Ele certificou-se de que não estava deixando nenhuma suspeita para trás, acatando todas as ordens que lhe foram dadas por seu capitão. Também se preocupou em se despedir de Nezuo usando escusas esfarrapadas, mas de fundamento pouco duvidoso.
Ao terminar os preparativos, pegar o embrulho de pano com o dinheiro e sair pela porta de seu quarto, ele vê pela janela o vulto de dois homens se aproximando sorrateiros. Protegidos pelo sereno da noite que chegava, aquela dupla observava sua casa de longe, de lugares afastados entre eles. O homem volta correndo para o quarto, pega um sabre atrás da porta e sai apressado para fora.
─ Hei, vocês aí – ele grita – essa é uma área privada. Se mandem!
Contudo, ao invés de partirem, os dois estranhos, agora que foram descobertos, começam a se aproximar mais decididos. Quando finalmente ficam a uma distância perceptível e sob a luz emergida de sua casinha, o homem arregala os olhos e retruca:
─ Oh, então são vocês, Doshins nº1 e nº8 de Rumiko? O que querem?
O mais alto deles, que se vestia completamente de preto, com ligas de couro marrom nas mangas dos dois braços e de uma cicatriz no rosto impossível de ser ignorada, retira das costas uma espada de tamanho médio. Ele era o nº 1 de Rumiko. O ichigou e, consequentemente, o capitão da guarda da terceira divisão do Gen-Bu.
─ Nós descobrimos a verdade – ele dita – Descobrimos a conspiração que armaram contra o dai-sensei e contra Rumiko–shushou.
─ Conspiração? Que conspiração? Do que estão falando?
─ Sabe do que estamos falando – replica o número 8, ou seja, Hachigou – E nós sabemos que está envolvido nisso até o pescoço, por isso não vamos deixar você partir. Vai ter de dar explicações à Rumiko–teichou quando ela voltar.
─ Idiotas – o homem começa a rir – Vocês não ouviram Mozu–teichou? Rumiko está morta.
O soldado hachigou demonstra espanto. O homem apelidado de “número Um” não moveu um músculo facial.
─ Você que é idiota! – ele responde.
─ Imbecis! – o soldado de Mozu mostra-se apreensivo, apertando o cabo de seu sabre.
Ele sabia que não adiantava argumentar, pois os soldados de Rumiko eram incorruptíveis e irritantemente fiéis. Então teria de lutar. Por outro lado, entrar num combate contra um Ichigou, mesmo que ele viesse sozinho, seria um ato insensato. Até Malakai, o ichigou de Mozu, tinha respeito por Kizuato, ichigou de Rumiko.
─ Sinceramente não sei do que estão falando – ele tenta desconversar – Mas sei de coisas que podem achar interessantes. Por exemplo, sei que o Gen-Bu será invadido.
Os soldados à frente se entreolham.
─ Se existe uma conspiração – continua o soldado de Mozu – ela estava toda voltada para este dia. O dia em que o Gen-Bu estaria sem seu líder e, por isso, estaria desprotegido.
─ Será invadido por quem? – pergunta o Ichigou.
─ Não importa. Estou de saída do Gen-Bu. E do Japão. Tenho meios para isso – o homem ergue um pacote de pano – E tenho um plano que, se quiserem, posso incluí-los nele.
─ Nos unir à você? – o hachigou ri – Nunca!
─ O Gen-Bu como nós o conhecemos já era, companheiros. Ele não vai resistir ao ataque que virá e vocês seriam loucos se ficassem aqui.
─ Louco seria você, de não ficar e defender sua casa. Traidor miserável.
─ Idiotas! Sabiam que o senhor Nezuo os considera traidores também? Ele não vai ajuda-los.
O ichigou segura o cabo de suas espada com as duas mãos e faz uma pose de luta.
─ Queria apenas assustá-lo e força-lo a nos contar o que mais sabe você sobre a conspiração. Mas se isso que está dizendo for verdade, se você traiu mesmo o Gen-Bu em troca de um punhado de dinheiro, então você deve morrer.
O soldado de Mozu bufa algo incompreensível, depois corre em direção da dupla com seu sabre em punho. Mas seu primeiro ataque é facilmente defendido pelo homem de cicatriz que, num movimento de contra golpe, acaba com a vida do agressor.
Após tombar nas gramas molhadas de sereno, a dupla de invasores se entreolha e o mais alto resmunga.
─ Bom, vamos correr. Se for verdade que o Gen-Bu nos vê como traidores, nós já estamos mortos, não importa aonde nos escondamos. Portanto não poderemos mais ficar aqui.
─ Mas e se essa invasão for verdadeira?
O ichigou guarda a espada, pensativo, até que responde com confiança.
─ Nezuo–teichou é invencível. É o segundo homem mais forte depois do dai-sensei. O Gen-Bu vai ficar bem.
─ Certo! – responde o mais baixo, se aproximando do cadáver – Espere só um momento, senhor.
Ele revista o corpo e encontra o embrulho de pano. Não se surpreende ao ver que seu conteúdo nada mais era que algumas moedas de ouro e cédulas enroladas de alto valor. Ele entrega para seu parceiro, questionando:
─ O que vamos fazer agora?
O ichigou acena a cabeça, chamando o parceiro para sair dali, e permanece os passos seguintes em silêncio, pensativo. A ideia inicial era esperar Mozu se afastar do Gen-Bu para poder se aproximar e explicar aos soldados restantes sobre o plano de traição e cobiça que foi maquinado por ele ao longo dos três últimos anos. Só que, se Nezuo os considerava como traidores, seus homens não iriam acreditar nas acusações de um mero soldado contra um capitão, mesmo este soldado sendo um ichigou. Então, o que restava fazer agora era avisar Rumiko de que a vida dela era visada por contatos de Mozu. Esse era o primeiro passo. Depois dariam um jeito de expor Mozu.
Kizuato não sabia exatamente onde em Vera Cruz estava Rumiko, mas ele sabia por onde começar a procurar, já que a missão de matar Caio Velasqueses, o último presidente do Brasil, foi incumbida ao grupo de Rumiko pouco antes de Gengetsu morrer. E como Gengetsu caiu, essa ordem deveria ser cancelada, mas o motivo de Gengetsu ter interesse na cabeça de Velasqueses ainda continuaria. Por isso o ichigou tinha certeza de que sua capitã iria satisfazer o desejo de seu amado sensei, nem que fosse sozinha.
─ Vamos voltar ao Gen-Bu, Hachigou.
─ Hã? Mas senhor, se voltarmos, seremos mortos.
─ Eu tenho um plano que pode dar certo. Se funcionar, iremos atrás de Rumiko.
─ Anh...Você não acha que Rumiko pode já ter sido morta, como aquele idiota falou?
O soldado principal da divisão de Rumiko olha para o parceiro, mas não o vê levantar o rosto. O Ichigou tinha fé em sua capitã, e mesmo sabendo que ela não seria capaz de enfrentar a fúria do Gen-Bu, ele dá a resposta firme e seguro.
─ Tenho absoluta certeza que não!
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Sentado à frente de uma mesa enorme e bela, recheada de pães doces, frutas e assados dos mais variados tipos de animais, Nezuo bebia as últimas garrafas de whisky e mais um pouco do valoroso sake, pertencentes à Gengetsu. Na mesma mesa encontrava-se Klaus, o ichigou da primeira divisão do Gen-Bu e agora chefe de toda a tropa remanescente, e outro ilustre convidado. Na verdade, uma visita inesperada e misteriosa.
Era um homem alto, completamente calvo, com vários anéis prateados nos dedos e gargantilhas grossas e douradas ao pescoço. Vestia-se de paletó branco e calças sociais finas e nos pés, belos sapatos, com o bico forrado com uma chapa prateada. Apesar do casaco, estava de peito nu por baixo, exibindo sua musculatura definida, sendo coberta apenas pelos suspensórios largos, cravejados de enfeites de prata. Quando sorria, a maioria de seus dentes, se não todos, brilhavam na sala pouco luminosa, pelo fato de terem sido substituídos por peças de ouro. Seu nome era Henderson, e junto com sua ostentação exagerada pela riqueza, trazia também, à suas costas, um grupo de seis mulheres, que mantinha-se em pé, com um rosto que mesclava a tristeza e a seriedade.
Nezuo já havia discutido e decidido o que faria do Gen-Bu com seus homens mais próximos e confiáveis, mas a súbita aparição daquele visitante e a interessante proposta que ele ofereceu fez com que Nezuo repensasse um pouco sobre o que havia preparado para seu futuro. Eles conversaram muito durante o jantar, e agora comemoravam o final de uma noite proveitosa com muita bebida e comida enquanto se preparavam para fechar outra negociação, que já foi revelada pelo visitante.
─ E quando poderemos vê-la? – questiona Henderson, erguendo seu corpo de vidro, o qual uma das moças à suas costas prontamente lhe serve de mais whisky.
─ Tudo ao seu tempo senhor Henderson. Primeiro, quero avisá-lo que ninguém além de mim pode descer na sala Himitsu.
─ Entendo. Mas então como os veremos? Esses tais... Livros raros?
─ Eu os trarei aqui. Mas diga, porque está tão interessado neles?
─ Gosto de leitura. Se forem realmente livros raros eu gostaria de dar uma olhada. E se forem valiosos, pagarei o quanto pedir.
─ Está atrás de algum em especial?
─ Por que quer saber? Não tem cara de quem lê muito, portanto não deve entender.
─ Eu vi todos os livros que estão na himitsu. Asseguro que, se você procura algum ítem exclusivo, eu posso ou não lhe adiantar se o tenho em meu poder.
─ Octophorus! – diz Henderson de imediato, em tom de desafio e de olhos afiados.
─ “Octo...” “fórus...” – Nezuo olha para a mesa, mergulha em pensamentos – Não, não. Acredito que esse eu não tenho.
─ Como imaginei – o fogo nos olhos de Henderson diminui – Só existe um no mundo e não me senti confiante de que iria encontra-lo aqui. Ainda assim, estou interessado nos outros livros. Talvez você não tenha nada que me interesse, mas se eles pertencem à Gengetsu, e ele os considerava importantes o suficiente para escondê-los numa sala secreta ao invés de guardá-los na biblioteca da mansão, então eu quero dar uma olhada neles.
─ Fala como se conhecesse o sensei Burashi – intervém Klaus, que desde o início desconfiava das intenções do visitante.
E não era pra menos. Henderson apareceu no Gen-Bu sem mais nem menos, e com tom arrogante e autoritário, declarava querer falar com “o novo dono do império”, ignorando qualquer outro membro abaixo dele. Nezuo, que na ocasião planejava enviar um pessoal no encalço dos soldados de Rumiko, teve de adiar tudo para ouvir as ideias e propostas desse estranho visitante.
O faro de Klaus não falhava, mas Henderson também sabia como se defender de cães de guarda como ele.
─ Na verdade eu não o conhecia tão bem assim. Foi meu... “superior” que me falou sobre ele. Me avisou sobre sua morte e sobre as maravilhas que ele lia, admirava e colecionava. E também que ele escondia inefáveis tesouros numa sala tão secreta que nem seus seguidores mais importantes tinham acesso.
─ E como ele... esse seu “superior”, sabia dessas coisas? – adiciona Nezuo.
─ Só Deus sabe. Aliás, Deus deve ter muito a ver com isso, afinal, meu chefe é um homem com muita afinidade com Deus.
─ E esse seu amigo é? – quis saber Klaus.
Henderson exibe um sorriso sarcástico, mostrando seus dentes de ouro, e leva o copo de whisky à boca. Não tinha a intenção de revelar quem era seu superior nem de se dirigir à um reles soldado, mesmo ele sendo o ichigou de Nezuo e agora o chefe superior de toda a guarda. Nezuo, por sua vez, volta os olhos para Henderson e conclui com firmeza:
─ Bom, isso realmente não importa. Vamos aos negócios. Vou trazer todos os livros da Himitsu para cá, mesmo porque não são muitos – Nezuo ergue-se – Com licença. Vou me demorar por cerca de uma hora.
─ Eu aguardo, com prazer.
Nezuo faz um sinal para Klaus e então ambos saem da sala de visita da mansão, indo para um dos quartos do fundo onde uma escada escondida por uma porta trancada os aguardava. Dali acessaram facilmente um corredor que dava no portentoso dojo. Nezuo, que agora andava sempre com a chave da sala de armas pendurada ao pescoço, vai direto para o salão principal, abre a porta que dava acesso à sala bélica e entra no elevador. Klaus ficou na espera, ao lado da porta da sala de armas, observando seu chefe girar a pesada manivela e desaparecer no buraco do elevador secreto.
Todo o esforço feito da primeira vez que pisou ali, ao lado de Mozu, teve de ser refeito. Andar na fina passarela, no escuro, correndo o perigo de cair num buraco sem fundo, e girar a pesada trava que bloqueava a porta-cofre da Himitsu, sem ajuda alguma, era algo que faria qualquer um desistir depois da primeira tentativa. Tanto que, por Nezuo, ele nunca mais desceria ali. Estava ciente, porém, que teria de visitar aquela sala por muitas vezes ainda até que ela se tornasse nada além de um buraco no chão.
Nezuo acende as luzes da sala e aproxima-se da estante onde viu os livros. O lugar era ainda mais assustador quando se estava sozinho. E o fato de saber que lá fora já era noite só piorava o clima. Tudo ali dava calafrios. O manto de Vlad III, suspenso num mostruário de vidro, a armadura de samurai original com aquela máscara vermelha horrível de bigodes brancos e sobrancelhas grossas, o escudo com desenho estilizado que lembrava uma aranha de pernas longas e finas, o tenebroso espelho antigo cujo vidro negro só refletia seres vivos. E por fim, a estátua de Amaterasu, divindade da qual Gengetsu honrava, e que ainda estava coberta com o lençol de seda negra.
Fazia já algum tempo que Nezuo não ouvia a frase que recentemente lhe assombrava e que ele atribuiu à deusa xintoísta do Sol. E agora que voltou àquela sala com o intuito de pegar mais pertences de Gengetsu, pupilo de Amaterasu, ele sentiu o suspiro de uma brisa de vento, vindo do abismo ao lado de fora do cômodo, que mais uma vez pareceu lhe sussurrar: “você vai se arrepender”.
Sentindo os pelos do corpo se ouriçar, Nezuo pega os livros rapidamente, porém com cuidado, para que suas capas duras e deveras antigas não se despedaçassem em suas mãos, e os forra com um pano de algodão, colocando-os numa larga bandeja de refeições.
Quando já tinha uma quantidade considerável, Nezuo decidiu parar de colher as obras e sair dali. Ele pegou a bandeja com as duas mãos e foi em direção à porta da sala-cofre. Antes de sair, porém, olhou uma última vez para a estátua coberta de Amaterasu.
Estufando o peito e adquirindo uma carga de coragem, Nezuo aproximou-se da estátua da deusa nipônica, coberta com um valioso lençol negro de mais pura seda chinesa.
─ Por que está aqui? – ele pergunta à estátua – Aqui não é lugar para uma estátua tão comum e sem valor como você, então... por que?
Obviamente não obteve resposta. Sentindo sua valentia contra o sobrenatural rapidamente se esvair, Nezuo resmunga antes de sair.
─ Garanto que vou descobrir.
Ao terminar todos os processos de trancar a sala secreta e apagar as luzes, ele subiu para o andar superior, aonde Klaus o esperava para ajudar com os livros.
─ Cuidado! – avisa Nezuo – esses livros estão despedaçando.
De reencontro com Henderson, na sala de visitas no segundo andar da pequena mansão, Klaus se prepara para colocar a bandeja sobre a mesa, enquanto outros soldados do Gen-Bu afastavam ou retiravam os petiscos, talheres e garrafas de bebidas, arranjando um espaço. Henderson, que estava de costas para os eventos, observava um dos quadros espalhados pela sala, onde se via um redemoinho velho num jardim de capins altos. Proferiu levianamente.
─ Que quadro interessante. Simplório, mas interessante.
─ Sim. Estão espalhados por toda a mansão. É simplório porque o sensei nutria uma certa admiração por quadros de autores pouco famosos.
─ Huum. Pouco famosos? Já ouviu falar num quadro chamado “Madonna Benois”, senhor Nezuo?
O nome não era estranho. Nezuo puxa uma cadeira e senta-se, desconversando.
─ Eu não. Mas é que eu não sou muito ligado nessas besteiras, sabe? Veja só, eu trouxe seus livros.
─ É um quadro famoso – Henderson continua, ainda de costas – Foi pintado por ninguém menos que Leonardo da Vinci em 1478. Antes do fim do mundo, ele estava em algum lugar de Saint Petersburg, na Rússia. Depois do Fim do Mundo, ninguém soube onde ela foi parar.
─ Deve ter sido destruída pelo clima ou por meros vândalos durante a crise. Ouvi dizer que muitos bancos, museus e shoppings foram saqueados por jovens insatisfeitos ou assustados.
Henderson aproxima-se da mesa e encurva-se, apoiando os dedos cheios de anéis sobre o móvel, e de olhos fixos em Nezuo.
─ Talvez sim. Talvez não. Eu soube que essa sala secreta de Gengetsu também guarda mais coisas além de livros. Uma verdadeira sala de relíquias. O senhor Gengetsu, que Deus o tenha, não possuiria por acaso um quadro com esse nome em seus pertences?
─ Não.
─ Tem certeza? Pode não estar na sala secreta, mas ainda aqui em algum lugar. Se importa de eu der uma olhada na mansão à procura dele?
─ Claro que me importo. O senhor não vai perambular a casa de meu sensei. Minha casa.
O sorriso dourado de Henderson desaparece, dando lugar à um rosto de desgosto.
─ Tudo bem... – Henderson abaixa os olhos e observa os livros – Mas deixe-me informá-lo... Dizem que todos os quadros que da Vinci pintou possuía um mistério ou um código secreto, pois ele era auxiliado por anjos e demônios durante suas pinturas, para passar mensagens à humanidade através de suas obras. E com Madonna Benois não foi diferente. Poucos acreditam nisso, na verdade o próprio da Vinci não acreditava. Mas isso foi motivo suficiente para mobilizar pesquisadores e profissionais do ramo durante séculos e séculos após sua morte. Você por acaso sabe qual a lenda que acerca esse quadro? Sabe o segredo que ele oculta?
─ Não faço ideia. Que segredo é esse?
─ Digamos que é um segredo grande o suficiente para mudar física e drasticamente a vida de muitas pessoas comuns e de uma grande pessoa em particular.
─ Uma grande pessoa? O senhor quer dizer um Prócer?
Um sorriso amarelo brota novamente na face de Henderson. A curiosidade de Nezuo, completamente livre de ambição, não negava; ele realmente não possuía o Madonna Benois. Ou talvez até possuísse, mas ignorante como era, não tivesse certeza. Afinal, o quadro estava ainda desaparecido. Henderson sabia bem disso porque, pouco antes de ter conhecimento sobre a morte de Gengetsu e dessa misteriosa sala de tesouros, ele estivera em Saint Petersburg, no local onde o quadro era guardado, exatamente à sua procura, e não o encontrou lá, mas ouviu rumores sobre uma suposta "visita" de Gengetsu ao país gelado.
Enfim, ele senta-se à mesa e puxa a bandeja com os livros. Uma de suas assistentes lhe entrega um par de luvas de couro branco. Antes de calçá-las, ele ergue o copo de vidro, que novamente é servido de whisky por outra das mulheres e replica:
─ Deixa pra lá. Não posso entrar em detalhes, pois está ficando tarde. Além do mais, se esse quadro não está em seu poder, não deve ser de seu interesse saber. Vamos dar logo uma olhada nessas maravilhas.
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