A Busca

34 O Plano reserva de Mozu


Depois de analisar com perceptível desdém as capas e títulos dos quatro primeiros livros, os olhos de Henderson não conseguiram disfarçar o espanto e felicidade ao se deparar com a capa retorcida e empoeirada do Opera Omnia Paracelsi. O livro, ali apresentado em sua raríssima edição original, era um dos mais importantes e enigmáticos da história e um dos cinco mais procurados do mundo atual, tanto por ocultistas e pesquisadores como por simples colecionadores. Quase sem voz, ele mostrou-se interessado em compra-lo imediatamente.

─ E-eu vou... an-han... Eu vou ficar com esse aqui.

Nezuo recosta-se na cadeira de costas altas e exibe o sorriso de alguém consciente que estava no comando.

─ Claro. Esse vai lhe sair por duas mil bedinas.

─ O quê? Isso é um absurdo!

─ Posso ser um leigo nesse campo, senhor Henderson, mas qualquer criança perceberia a cara de felicidade que você tentou esconder. Ficou muito claro em seus olhos que esse livro é valioso.

─ Muito observador.

─ Sou sim. Eu posso até estar pedindo muito, mas também sei que posso estar pedindo pouco, afinal, ele estava num lugar onde não poderia nem ser visto, sequer ser vendido. Esse pode até ser um livro de valor inestimável.

─ Bobagem. Tudo na vida tem um valor fixo.

─ Até pessoas? – questiona Klaus, olhando de esguelha para Henderson.

─ Principalmente pessoas – Henderson sorri mostrando seus dentes de ouro.

─ Seja qual for o caso... – Nezuo puxa a bandeja mais para junto de si – ...não vou vendê-lo por menos que isso.

Henderson olhou para o exemplar único e raro, protegido por um pedaço de seda. Poderia encontrar outras cópias daquele livro em lugares obscuros do mundo ao qual ele, graças a sua fortuna, teria acesso. Mas aquela cópia era imaculada, sem reedição ou adaptação e que, desde o século 16, era protegida do tempo e das pessoas ignorantes que costumavam queimar os livros que ofendiam aos seus Deuses. Lendas diziam que aquele livro de Paracelso exercia algum poder sobrenatural sobre as pessoas que o liam. Se fosse verdade, então Henderson sabia que nenhuma outra copia seria mais influente e poderosa que aquela à sua frente, potencialmente a número um.

─ Certo! – ele resolve – Eu pago! Ele não vale tanto, mas eu pago.

─ Sei... – Nezuo ri, empurrando a bandeja de volta para o convidado.

─ Tem mais algum deles?

─ Deles? Deles quem?

─ Esse é, para o seu conhecimento, um dos cinco livros mais sagrados do mundo. Se o senhor Burashi conseguiu um deles, não deve ser difícil ele ter conseguido dois ou três. Ou mesmo todos.

Havia mais livros na Himitsu, que Nezuo não trouxe a todos perante Henderson por teimosia e vontade de sair logo daquela sala. Mas agora que viu Henderson quase perder a fala ao se deparar com algo que, para um leigo como ele, não passava de um punhado de papel velho e empoeirado, Nezuo percebeu que foi muita sorte. Ele podia não ter conhecimento do valor cultural dos livros guardados na Himitsu, mas sabia que, se estavam naquela sala, significava que eles eram, além de valiosos, extremamente perigosos. E Henderson possivelmente faria bom uso desse perigo.

─ Todos os livros do dai-sensei estão aí – diz Nezuo enfim, passando a mão espalmada por alto sobre a mesa, indicando a bandeja.

─ Certo... entendi. Bom, então eu vou levar esses aqui.

Henderson separa um total de quatro livros diversos. Com exceção das obras completas de Paracelso, ele pagou o valor de mil bedinas pelos outros três.

─ Saiu meio salgado – diz Henderson sorrindo, empilhando os livros com cuidado – Não se esqueça que, se aceitar minha proposta anterior, sou eu que vou fornecer o produto. Por isso deveria ser mais gentil comigo.

─ Tenho isso em mente. Quem sabe num próximo encontro a gente tenha uma conversa mais confiável.

─ Assim espero.

Terminado a organização e após uma formal despedida, Klaus se oferece para levar Henderson e suas mulheres até a porta. Nezuo também se prontifica a ir com o visitante. Nenhuma outra palavra foi trocada durante a caminhada pelos corredores da mansão até a porta de saída. Do lado de fora, um carro enorme, branco e de luxo, os esperava. Henderson coloca seus preciosos livros em um dos bancos confortáveis do automóvel enquanto as mulheres se acomodam como podem em outros assentos. Henderson cumprimenta Nezuo antes de finalmente entrar na direção do automóvel.

─ Vamos nos ver de novo – afirma ele, dando a partida no carro.

─ Vamos com certeza – replica Nezuo.

O luxuoso carro importado inicia sua descida pela trilha da montanha, construída especialmente para automóveis. Nezuo, seu ichigou Klaus e alguns soldados, permanecem nos portões de saída do Gen-Bu, observando o ilustre visitante ir embora. A noite escura escondeu sem demora as lanternas traseiras do automóvel e Klaus, eficiente como sempre, se prontifica:

─ Vou entrar em contato com nossos rastreadores. Pra saber se estão mesmo indo embora.

─ Não precisa. Esses tipos não vão aprontar nada por enquanto.

─ “Esses tipos”? O senhor sabe quem são eles?

Nezuo ia abrir a boca quando escuta um som familiar, vindo de não muito longe. O som foi aumentando e aumentando, ganhando força.

─ O helicóptero! – ele exclama.

Rapidamente, todos os presentes entram pelos portões e correm até outra saída, que dava na área abaixo da colina onde se localizava o dojo Gen-Bu, procurando pelo pequeno espaço reservado para a aeronave pessoal de Gengetsu. O terreno do heliporto improvisado ficava à no mínimo vinte minutos a pé dos portões principais, num local arborizado. As hélices já giravam com força o suficiente para alçar voo, então Nezuo não poderia fazer mais nada além de assistir ao longe a aeronave subir lenta e cautelosamente. Assim que se vê longe dos perigos naturais da montanha, o helicóptero ergue ao céu e vai em direção norte. As luzes, tanto as da aeronave quanto as dos postes ao redor, que auxiliavam nas subidas noturnas, estavam apagadas. Aos poucos, Nezuo e seus companheiros vão diminuindo o passo, observando a aeronave sumir na escuridão da noite.

─ Quem serão esses ladrões? – pergunta Klaus.

─ São espertos para meros ladrões – Nezuo diz baixinho, observando a mancha negra se afastando no céu escuro.

Eram inteligentes porque não se deram ao trabalho de acender as luzes de suporte do heliporto para não perderem tempo e nem serem identificados. A perícia deles também era admirável, porque estavam numa área montanhosa. E no escuro, qualquer descuido ali poderia fazer com que se chocassem em uma árvore ou até mesmo na própria montanha caso voassem baixo demais e na direção errada. Quem quer que tenha roubado o helicóptero conhecia a área e a conhecia muito bem.

No chão, os corpos dos quatro soldados responsáveis pela vigilância da aeronave. Pareciam feridos, mas estavam vivos e conscientes. Um dos soldados de Nezuo se aproximou deles e agarrou um com violência pela gola do uniforme, fazendo o soldado gemer devido à um corte sofrido no braço, na altura do cotovelo. Após umas rápidas palavras, ele se vira, acenando para Klaus e Nezuo, gritando:

─ A terceira divisão!

Klaus focaliza seu capitão. Este aperta os punhos.

─ Rumiko...

─ Sim. Provavelmente o Ichigou dela – adiciona Klaus – Só existe mais uma pessoa além de mim e do senhor que seria capaz de manobrar a aeronave daquele jeito. Mas não se preocupe, senhor. Sei como tirá-los do ar.

Nezuo coloca as mãos na cintura e abaixa a cabeça. Logo, um sorriso malévolo.

─ Não! Deixe-os irem. Eu já tenho um plano quanto à isso. Por enquanto, o fato desses traidores terem roubado nosso helicóptero pode ser algo à nosso favor.

No céu, já bem distante do campo aéreo da montanha, o ichigou de Rumiko, apelidado de Kizuato, enfim liga as luzes do helicóptero e seu parceiro respira aliviado.

─ Ufa! Não acredito que conseguimos roubar a aeronave do dai-sensei.

─ Essa até que foi a parte fácil de nossa missão, meu amigo.

─ É, eu sei. Até onde poderemos ir?

O ichigou olha para o painel da aeronave e confere o combustível. Por sorte, o helicóptero sempre era abastecido quando em solo, então eles tinham combustível para duas horas ou pouco mais. Daria para sair do país, mas após isso teriam de encontrar um lugar para reabastecer.

─ Vamos para a federação Russa – decide Kizuato – Com a fama e o respeito do Gen-Bu, é bem capaz do capitão Nezuo retirar a proteção aérea dessa nave e logo este helicóptero será rastreado e derrubado. Até que isso aconteça, nós precisamos estar ao menos no espaço aéreo dos comunistas vermelhos.

─ É uma ideia brilhante, senhor. Mas não temos permissão para deixar o espaço aéreo do Japão e muito menos de entrar no da Rússia.

─ Deixa essa parte comigo.

Kizuato abre um mapa aéreo, com rotas especiais traçadas à caneta, uma bússola eletrônica que trabalhava em conjunto com a do painel e direciona a aeronave para o espaço russo.

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Ainda eram cinco da tarde, mas o silêncio já imperava em quase todos os vagões daquele trem com destino à Jaú. Petruz observava Rumiko, acomodada no banco do outro lado da mesa que os separava, e que era virado de frente para o seu. De braços cruzados, o ombro e a cabeça inclinados para o lado, encostados na janela e a boca levemente aberta, deixando uma fresta entre os lábios que mostrava seus alvos dentes, a moça cochilava profunda e tranquilamente. Ao lado dela, outro rapaz, também dormindo e, ao lado de Petruz, uma mulher obesa, que roncava profundamente.

O trem de viagem era bastante confortável, com pequenos aposentos privativos nos vagões, separados por placas opacas de acrílico e alumínio e uma porta pequena e corrediça, que dava para o corredor. A cada dois vagões, um banheiro público, com quatro cubículos, separados dois para homens e dois para mulheres. Os bancos, com divisa de três assentos costurados, eram largos e macios, posicionados um de frente para o outro e separados por uma pequena mesa entre eles para refeição dos passageiros. Acima dos bancos, numa altura que lembrava a parte superior de um beliche, havia uma cama de solteiro estreita, forrada com um cobertor fino, com suas pernas de aço presas nos braços dos bancos e parafusadas atrás, nas paredes.

Petruz se sentou de frente para Rumiko porque queria conversar, perguntar muitas coisas e dar total atenção às explicações da moça, mas depois que eles pegaram mais passageiros logo na primeira parada feita pelo trem, Rumiko, carismática como sempre, rapidamente fez amizade com seus novos acompanhantes e os quatro conversaram sobre muitas outras coisas de pouco interesse para o ruivo. Falaram inclusive sobre o assunto padrão da maioria das rodas de bate papo, que era a situação atual do país e do mundo.

E assim foi até que, num dado momento, a senhora cessou de falar, demostrou seu cansaço e se preparou para tirar um cochilo. Rumiko aproveitou e fez o mesmo. A moça parecia estar exausta e Petruz não entendia o porquê, já que não sabia que ela passou a noite em claro. E agora, tudo o que Petruz podia fazer era olhar para a mocinha cochilando, com suas respirações leves e suaves.

Subitamente, o garoto se levanta devagar, meio encurvado, e estica o braço, na intenção de tirar uma das mechas da franja de Rumiko, para poder ver seu rosto por inteiro, já que ele não tinha muita desenvoltura para admirá-la quando estava acordada. Porém, antes de realizar sua intenção, ele sente como se seu tórax começasse à queimar. Tocar Rumiko sem o consentimento dela e em um de seus momentos de total vulnerabilidade era algo que seu acanhamento ainda não permitia. Ele então desiste e volta a se sentar, e se contenta em apenas observar a moça, mesmo com o rosto quase coberto pelas grossas franjas que lhe caíam pela face.

─ Você é linda! – Sussurra o garoto também cruzando os braços.

─ É mesmo! – replica outra voz.

No susto, um calor ainda mais intenso lhe invade e Petruz olha para o lado. No momento em que ele se levantou para mexer nos cabelos de Rumiko, a mulher obesa ao seu lado acordou, mas manteve-se de olhos fechados. Ela agora abre os olhos de cílios enormes e vira-se para o rapaz, rindo por causa do susto que ele levou. Com um gesto de que era para Petruz fazer pouco barulho, ela põe a mão pesada na cabeça dele e acaricia seus cabelos ruivos, questionando com um sorriso provocativo.

─ Ela é sua namorada?

─ N-não senhora! – Petruz afasta-se mais, escapando das carícias – E-ela... ela só é m-minha amiga.

─ Calma querido. Está tremendo e gaguejando.

A mulher aproxima sua boca de lábios carnudos, brilhantes de um batom vermelho vivo, e sussurra no ouvido de Petruz, com uma voz manhosa:

─ Ela não sabe que você gosta dela mais do que como um amigo?

─ D-d- d-d- Do quê está falando? – Petruz se levanta num sobressalto, bate a cabeça de leve na cama acima e, nisso, Rumiko desperta.

A menina olha para os dois à sua frente e nota que Petruz está alterado. Parecia nervoso e seu rosto estava vermelho, mas fora isso não vê nada de suspeito. Enquanto estica os braços para o alto, espreguiçando-se, ela diz com sua voz suave:

─ Ohayoo!

Petruz fica calado, mas a mulher responde dando uma boa tarde, embora não entendesse o cumprimento feito por Rumiko.

─ Está tudo bem? – questiona Rumiko olhando para Petruz. E a mulher novamente responde.

─ Sim querida. Está tudo maravilhoso. Não é garoto?

Petruz vira o rosto para a janela e abre mais as cortinas, deixando um pouco do sol da tarde entrar, ignorando que o outro rapaz ao lado de Rumiko ainda estivesse dormindo. Rumiko coloca as mãos atrás da cabeça, envergando a coluna e se espreguiçando lentamente, abrindo a boca num bocejo prazeroso e demorado. Em seguida, esfrega os olhos e começa a desfazer sua trança única:

─ Sobre o que estavam falando? – ela quis saber.

Petruz tornou a ficar vermelho, temendo o que aquela mulher iria dizer, então tentou inventar alguma coisa, mas a mulher o interrompeu.

─ Estávamos continuando a conversa de hoje cedo, querida. Sobre o fato de que o mundo está no fim.

─ Oh, sim – Petruz acompanha a mulher – É isso mesmo. É uma pena.

─ O mundo não está no fim, senhora – explica Rumiko – Já passamos por isso. Embora ainda esteja bem ruim, é verdade.

─ É, mas talvez isso mude quando o líder do mundo for eleito – diz Petruz tentando solidificar um assunto.

─ É verdade, garoto. Eu não digo isso à qualquer um, mas espero sinceramente que o eleito seja o senhor Galápagos.

─ Galápagos? – questiona Rumiko e Petruz ao mesmo tempo.

Rumiko já tinha ouvido aquele nome antes. Era o nome do homem que seu sensei mandou investigar e abordar no dia em que ele foi morto. Rumiko tinha a certeza que era o mesmo, porque não achou possível dois homens da política ter o mesmo nome e possuir os mesmos requisitos que os deixassem aptos ao mesmo interesse; a vaga de líder do mundo.

─ Sim – a mulher continua – Ferdinando Galápagos. Ele é um bom homem. Um dos poucos que se salvam dessa corja de vagabundos.

Rumiko riu do modo como a mulher falou, mas deu um jeito de mudar de assunto sem demonstrar desinteresse naquela conversa. Não culpava Galápagos pela morte de Gengetsu, mas, se não fosse por ele existir, talvez ela estivesse ao lado de seu mestre nos momentos mais cruciais daquele fatídico dia.

Pouco mais de uma hora depois, a mulher se levanta e chama seu filho, que ainda cochilava. Emburrado, ele ergue-se sem falar com ninguém, pega sua mochila escolar e uma maleta que estavam ao seu lado. Aparentava ter mais ou menos 15 anos, por isso a grosseria e a rebeldia eram justificáveis em seus modos. Assim que ele e sua mãe apanham toda a bagagem, o garoto sai apressado do cômodo, dizendo apenas um tchau para Rumiko, que o tratou muito bem, apesar de sua má educação. A mulher, antes de atravessar a porta, pergunta, olhando para Rumiko:

─ Desculpe, mas... Qual é o seu nome?

─ Rumiko, senhora.

─ Oh,... Rumiko? Que nome estranho para uma moça. A gente ficou metade de um dia juntos e eu sequer me apresentei. Foi muito bom te conhecer Rumiko. Meu nome é Margarida.

─ Margarida...! – como sempre faz, Rumiko dá um espaço de tempo, como se saboreasse o nome recém-ouvido – O prazer foi meu, senhora Margarida. Espero que nos vejamos de novo.

─ Oh sim! Eu também espero – a mulher olha para Petruz e continua – espero te ver de novo também Petruz. Até lá, cuide bem de Rumiko.

A mulher pisca o olho direito e Petruz enrubesce na hora, com medo de que Rumiko perceba alguma coisa. Margarida faz um aceno final de despedida com a mão esquerda e sai, fechando a porta corrediça em seguida. A viagem até o destino final seria ainda muito longa e, apesar do trem ter alguns vagões com banheiros e um serviço muito bom de alimentação, ele fazia algumas paradas com trinta, quarenta minutos, às vezes até de uma hora de duração durante o caminho.

Essas paradas serviam como pontos de descanso, onde as pessoas poderiam sair para “esticar as pernas”, já que era proibido sair de dentro dos cômodos e andar no corredor quando o trem estava em movimento. E para almoçar, pois o serviço de alimentação do trem não servia nada além de lanches rápidos.

Petruz sabia que ainda faltava muito para o fim dessa viagem de trem, então ele olhou para Rumiko e perguntou se ela iria sair. A moça balança a cabeça negativamente, replicando.

─ Iie! Rumiko vai ficar aqui no vagão. Mas se o senhor quiser, pode sair para passear.

─ Não. Eu quero ficar aqui com você. Agora que estamos sozinhos, eu tenho muitas coisas pra perguntar.

─ Senhor Petruz.... Desculpe, mas... não pode deixar para depois? Rumiko está muito cansada e, se o senhor não se importar, ela gostaria de dormir até amanhã.

─ Até amanhã? – o ruivo ri, imaginando que Rumiko estava exagerando.

─ Sim! Isso, claro, se o senhor não se importar.

─ Não... Pode dormir.

─ Arigato... – outro longo bocejo – Oyasuminasai!

A moça sobe para a cama acima e usa sua mochila saco, posicionando-a como travesseiro.

─ Boa noite, senhor Petruz – ela repete, agora em portugues.

─ Durma bem e... até amanhã...

─ Mmmm...

Em seguida o triste silêncio.

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Naquele mesmo dia, em uma base de um vilarejo no centro de uma cidadezinha rural americana, aos pés do território de CAU, uma carta expressa chega às mãos de um dos ocupantes do lugar, que guardavam os portões de entrada. O recebedor leva a carta até o centro do vilarejo, num casarão bem iluminado e arejado, que anteriormente pertencia ao chefe da vila. Na área correspondente à cozinha, sentado ante à mesa num canto escuro, um senhor bem incorporado, servia-se de suculentas asas e coxas de frango frito. O homem mascarado inclina-se ao lado do senhor e ergue a carta com o rosto abaixado.

─ Senhor Heru! – exclama ele.

O senhor, de nome Heru, limpa as mãos num guardanapo de pano e bebe um pouco de água. Após isso, pega o envelope, dispensa seu subordinado e lê a carta devagar. Então, depois de um ditoso sorriso, ele levanta-se e vai até a porta de saída, aos fundos do casarão, à procura de outro subordinado seu, que no momento deveria estar treinando no quintal.

À primeira vista, era um homem comum, bem alto em estatura e magro fisicamente. Em uma análise mais profunda, porém, nota-se que não é um homem tão comum assim. Seu cabelo, liso e de tom esbranquiçado, era cortado ao estilo moicano e sua pele tinha uma estranha cor cinzenta bem clara. Ele usava óculos, mas não parecia ter orelhas, por isso o objeto possuía uma tira de borracha única, que o prendiam em volta de sua cabeça, como se fossem óculos de mergulhador. Definitivamente, não era um ser humano comum.

Heru interrompe sua caminhada pouco antes de sair pela porta, mantendo-se no escuro, e o observa em silêncio, enquanto seu subordinado prepara um de seus ataques elevados. De corpo pouco encurvado e balançando o braço direito de maneira solta e livre, como se fosse um pêndulo, o homem se concentrava profundamente. Na mão deste mesmo braço, ele empunhava uma adaga pequena e de cabo preto. À sua frente, numa distância de mais de três metros, via-se um grosso colmo de bambu, firmemente fincado no chão, com dois metros de altura e nele, uma marca feita de giz, numa posição que representava o pescoço do inimigo.

Subitamente, o homem cinzento ergue seu rosto e olha fixamente para o bambu à frente. Logo em seguida, seu braço, que balançava como um pêndulo, faz um rápido e imperceptível movimento. Nisso, uma parte do colmo vai ao chão, revelando que sofrera um corte perfeito, exatamente no ponto marcado, dividindo-o em dois. Em termos técnicos, se fosse um uma pessoa, teria sido decapitada.

Heru quase não pode ver o golpe. Cortar alguém à distância com uma espada que precisa ser usada de perto é algo considerado impossível por qualquer espadachim que entenda de raio de ação. E o inimigo geralmente não espera por algo assim, o que torna a técnica perigosa e poderosa. Por isso Heru era fascinado por ela, e a considerava como sobrenatural, já que não acreditava ser possível que ela fosse realizada por um ser humano. Apesar disso, sempre achou que não deveria incentivar ou elogiar aquele homem, porque tinha para si que um subordinado que não é respeitadoé sempre mais fácil de controlar.

Agora sim, Heru aproxima-se mais, aparecendo na porta, coloca uma mão na cintura e outra na batente, e grita o nome do homem cinzento:

─ Samu Zan!

O homem imediatamente interrompe seu treinamento, virando-se para Heru e, com uma humilde mesura de cabeça, ele ergue os óculos, colocando os sobre a testa e responde:

─ Sim, meu senhor?

─ Tenho um trabalho para você.

Heru arremessa no chão de pedregulhos, uma foto que veio acompanhado com a carta que acabara de receber. Samu caminha até ela e a pega, como um fiel servo deve fazer. Após observar e não reconhecer quem era a mocinha sorridente na fotografia, Samu olha para seu superior, mostrando sua face confusa. E seu chefe mostra os dentes num sorriso forçado:

─ Parece que Gengetsu caiu. O Gen-Bu agora vai ficar nas mãos de Nezuo. Sabe o que isso significa?

─ Vamos fazer uma visita ao capitão Nezuo?

─ Vamos sim. Gengetsu sempre nos desprezou, dizendo que o nosso estilo ninja era inferior ao seu estilo babaca samurai. Agora que morreu, vamos oferecer nossos serviços ao senhor Nezuo.

─ Oferecer nossos serviços? – questiona o homem cinzento, incrédulo.

Alguns dias atrás, seu superior Heru, acompanhado de dois outros comandados fortes e de confiança, chegaram naquela vila, pediram ajuda e abrigo e afirmaram que iriam ficar apenas por algumas horas. Nesse meio tempo, eles aproveitaram para conhecer bem o local e as pessoas, para decidir se valeria o esforço se fixarem ali. Quando Samu finalmente pode sair da escuridão e ir ao vilarejo, se deparou com os corpos de todos os cidadãos da vila, espalhados por todo o local. Era impressionante a chacina que apenas três membros do grupo, mesmo sendo membros de elite, podiam fazer. Samu agora imaginava que algo do tipo iria acontecer também com o Gen-Bu.

Ele olha novamente para o retrato em suas mãos, ainda não entendendo o que ele tinha a ver com as intenções atuais de seu chefe. Foi quando Heru deu sequência à conversa.

─ O senhor Mozu mandou alguns capachos para matar essa menina do retrato, mas não acredita que eles tenham obtido sucesso. Seu último paradeiro foi em Saltos. Quero que você encontre Sanzenin e Edward e diga-lhes para encontrar essa moça ou o cadáver dela. Acompanhe-os durante o processo, depois volte com os dois para cá e vamos nos preparar para visitar o Gen-Bu.

─ Entendi. E onde fica essa Saltos?

─ No Amazonas. É uma cidade pós-fim do mundo, localizada ao norte do estado.

─ Sim senhor.

Samu leva a mão com a adaga às costas, escondendo-a, faz uma mesura com a cabeça e diz que já vai se aprontar para partir. Ele mantém a cabeça baixa, espera seu senhor sumir de vista, e só então sai do quintal e vai até um estabelecimento pequeno e separado do casarão, lugar aonde dormia e morava. Enquanto juntava suas coisas para se preparar para a viagem, ele pega a fotografia para pôr junto aos seus pertences e, nisso, vê um nome escrito nas costas do objeto. E o lê num sussurro:

─ Rumiko...!