A Busca
8 Tengudake
Notas iniciais
Petruz pegou o tapete que forrava o interior do tubo, enrolou num formato de canudo e o colocou debaixo do braço. Era pequeno, porém pesado, por causa de sua textura e espessura. Depois, correndo ao encalço da moça, ele pergunta:
─ Posso levar seu sabre?
─ Não é um sabre, senhor – replica a mocinha, estendendo, mesmo assim, a arma para Petruz – é uma Shikomizue. Seu nome é Shiko-Mizu no Ryu.
─ Chico...mi...? – o garoto disfarça, não completando a palavra que por enquanto era difícil para ele pronunciar e memorizar.
Como ele não terminou o que iria dizer, Rumiko prosseguiu.
─ Antes de se unir a Rumiko nessa peregrinação, o senhor precisa saber que talvez possamos nos perder e andar sem rumo.
─ Tudo bem! Eu já estou perdido há anos mesmo.
─ Podemos ter que dormir ao relento, sobre a brisa fria da madrugada.
─ Eu já durmo assim há muitos meses.
─ Podemos passar fome por dias.
─ Eu já... – Petruz faz uma pausa – eu já estou com fome faz muito, muito tempo.
Rumiko olha para o garoto com um semblante triste, porém despreocupado. E ele coça os cabelos emaranhados e se escusa:
─ Desculpa Rumiko. Nós mal começamos e eu... Enfim, eu não quero que pense que estou reclamando.
─ Oh, não senhor. Não foi isso que me veio à cabeça. Venha com Rumiko, por favor.
A moça leva o garoto até um beco longo, sujo e praticamente abandonado, não muito distante do local onde estavam anteriormente. Lá chegando, ela pede para o garoto se sentar em qualquer lugar enquanto explica.
─ Vamos ficar aqui até a noite cair, aí será ainda mais seguro sair. Tudo bem para o senhor?
─ Sim! Sem problema.
Rumiko senta- se próxima à um latão enorme de lixo e Petruz veio sentar-se de frente à ela, encostando-se na parede oposta do beco, mas antes pergunta se ela queria seu tapete.
─ Oh, não, senhor – ela responde abraçando os joelhos e fechando os olhos – Pode ficar com ele por agora.
Petruz coloca-o no chão e se senta em silêncio. Ele olha disfarçadamente ao redor e percebe que o local era realmente bem reservado, afastado de qualquer rua movimentada e que, quando escurecesse, seria um lugar perfeito para se esconder. E isso o deixou meio preocupado, pois em sua cabeça passou muitas hipóteses relacionadas ao porque da moça tê-lo levado ali. Pensou que talvez ela fosse esperar ele adormecer e depois sumir. Pensou inclusive que poderia ser assassinado por ela naqueles instantes seguintes. Mas isso nunca aconteceu.
Além do mais, ele reparou numa coisa que não combinava com a cena. Ele era testemunha de um assassinato e sabia quem era o culpado, que era justamente a mocinha poucos passos à sua frente. Mesmo assim, quando pediu para carregar a arma do crime, ela cedeu sem questionar, sem se preocupar ou expressar algum sorriso malicioso. Seria isso parte de algum plano dela para tentar incriminá-lo? Ou ela já confiava nele a ponto de deixa-lo do lado mais seguro da espada? Petruz prefere ficar com a segunda opção, porque, olhando para ela agora, de frente para ele, braços cruzados e de olhos fechados, o ruivo, por alguma razão, não conseguia imaginar Rumiko jogando-o numa fogueira em que ela mesma acendeu.
O silêncio imperava de modo irritante, pois a menina tinha o estranho hábito de não perguntar nada sobre ele ou qualquer outro assunto, então o garoto achou melhor tentar puxar uma conversa:
─ Sabe... eu nem sempre fui um mendigo. Quero dizer,... eu não nasci nas ruas.
─ Rumiko sabe disso, senhor.
─ Hã? Sabe? E como você sabe?
─ Seu vernáculo não é o de um mendigo que nasceu nas ruas, senhor.
─ Ah é? Certo...,bom, você... você quer saber o meu nome?
─ Sim! – Rumiko ergue o rosto, encarando Petruz com um olhar sedento – Isso muito me prazeria, senhor.
─ Ah é? Bem... Eu me chamo Daniel! – o garoto estufa o peito – Daniel Alves Petruz. E eu pertenço à família...hã...
Naquele momento, vendo o rosto ansioso de Rumiko e levando em consideração o que acabara de fazer, Petruz deduziu que não deveria revelar ainda à sua nova colega que ele pertencia à uma família de classe política. Ele estava tão acostumado a dar o nome de sua família em reuniões chatas e visitas irritantes de pessoas meio famosas, que agora, depois de estar a tanto tempo sem falar com alguém, ele quase deixou escapar sua linhagem. Então ele tentou disfarçar.
─ Pertenço a uma família qualquer. Que bobagem a minha...!
Rumiko desmanchou sua ansiedade e olhou para Petruz com uma face repreensiva, mas logo ela sorriu e retorquiu:
─ O senhor pertence à família política dos Alves, cujo ultimo líder foi Álvaro Alves Petruz, o suposto melhor governador que esse estado já teve. Judeu ortodoxo do grupo dos Sefardim(1A), não Hassídico(1B) e um dos homens mais influentes, respeitados e importantes do campo político do Brasil.
Petruz esbugalha os olhos de surpresa. Rumiko exprime um olhar de desaprovação e termina:
─ Definitivamente não é uma família como qualquer outra, senhor. Não deveria ter vergonha do nome de seu pai.
─ Como sabe que sou filho do governador Álvaro? Só por causa da semelhança dos nomes?
─ Certamente seus nomes serem parecidos numa possibilidade de vocês não serem parentes seria muita coincidência. Mas assim que o viu, Rumiko teve a sensação de que já o tinha visto antes.
O garoto lembrou-se desse momento, quando Rumiko mostrou-se espantada assim que seus olhos se encontraram. A sensação então não foi mal interpretada, ela realmente o conheceu.
─ Rumiko levou um tempo para reconhecê-lo – segue a moça – pois o senhor está muito diferente, mas a verdade é que Rumiko já o viu ao lado de seu pai há muito tempo atrás.
─ Ah é? Quando? Quero dizer,... onde?
Rumiko inclina o rosto de lado lindamente, e pergunta com um notável receio, de modo que sua voz quase não sai.
─ O senhor não se lembra de Rumiko?
─ N-não... – Petruz cora, sentindo seu coração acelerar – acho que nunca te vi antes.
─ Hunn... de fato, o senhor era ainda muito novo na ocasião – a moça reajusta a posição da cabeça e sua voz volta ao normal – Rumiko o viu numa conferência pública.
─ Com meu pai?
─ Hai. Com o senhor seu pai.
─ Ah é? Então, diga-me. Eu já fui a muitas conferencias com meu pai, mas ele fazia questão de andar sempre com muitos guarda costas. Assim eu poderia ser filho de qualquer um. Como soube que eu era filho de Álvaro?
─ Sua pergunta não tem fundamento, senhor.
─ Hã?
De fato, a pergunta de Petruz era infundada. Sendo ele o único garoto no meio de um bando de homens adultos, não poderia estar ao lado de um político famoso e adorado durante uma conferencia se fosse ele um simples filho de um dos guarda costas. Rumiko, contudo, aceita a pergunta com educação e responde com esclarecimento.
─ Houve uma vez em que meu sensei me pediu para estudar sobre seu pai. Nessa época, enquanto colhia informações sobre o senhor Álvaro, Rumiko acabou esbarrando em inevitáveis informações que pertenciam ao senhor também. Quando descobriu tudo o que pode sobre o governador, Rumiko fez uma pequena pesquisa extra, baseada no senhor. Claro que nada do que encontrei foi passada para o meu sensei.
─ Seu... “Sânsei”?
Rumiko abaixou a cabeça e ficou em silêncio após isso. Petruz decidiu não se aprofundar no assunto por enquanto e tentou continuar com o rumo da conversa por outros meios.
─ Bom! Então você conheceu meu pai?
─ Não diretamente, senhor. – a moça ergue a cabeça lentamente – Mas Rumiko já leu muita coisa a respeito de seu pai.
─ Imagino. Você sabe até a doutrina religiosa dele. Por acaso é judia também?
─ Iie! – ela entrelaça os dedos das mãos, apoia seu queixo sobre eles e pisca o olho para Petruz num simpático sorriso – Rumiko é Shiksa.
O ruivo enrubesce novamente, apertando as coxas com força, comprimindo os lábios e tentando olhar pra qualquer outro lugar que não fosse os olhos grandes da moça. Rumiko não entendeu o porquê do desconforto de Petruz, então dá um tempinho para ele se recompor. Ela nunca teve intimidade com rapaz algum do Gen-Bu, mas conversava com quase todos quando lhe era possível e, em nenhum deles, ela havia encontrado tanta timidez e inocência, por isso achou uma graça ver Petruz corar.
O que lhe aconteceu é que a palavra Shiksa, pronunciada por Rumiko sem qualquer inibição, tinha um sentido duplo. Rumiko usou no sentido que se refere à uma mulher judia que falhou ao seguir os preceitos ortodoxos da religião judaica. Não era o caso dela, mas Rumiko gostava de deixar claro sua posição em relação à qualquer doutrina religiosa. Só que esse mesmo termo pode ser usado para se referir à moças ou mulheres não-judias, que representam para homens e até mesmo garotos judeus, uma tentação irresistível ao ponto de fazer com que os mesmos sejam enfeitiçados por seus encantos e abandonem sua religião. Foi nesse sentido que Petruz entendeu.
A moça afasta as grossas franjas da frente do rosto com a mão esquerda e continua distraidamente.
─ O governador Álvaro era um bom homem. Rumiko, de certa forma, gostava dele. E imagina que o senhor não esteja alimentando o desejo de também ser um homem da política.
─ Oh, não! Eu estudei sobre o assunto por incentivo de meu pai, mas não tinha nenhuma intenção em ser um político porque não era o que queria para o meu futuro.
─ Que pena. – Rumiko ergue o rosto e sorri – Se o senhor ainda nutrisse a vontade de ser um político, com a linhagem que possui e se puxou as qualidades de seu pai, seria um homem de grande futuro.
─ Você acha... Quer dizer... Está falando sério?
Petruz olha com mais atenção para Rumiko e nota que, apesar de ela ainda estar sorrindo, seus olhos diziam que ela não estava brincando. Ele se cala, vira o rosto e espera a moça começar uma nova conversa. Mas isso não vem a acontecer. E, devido à fome que sentia, a fraqueza causada pela desnutrição e o frio irritante, ainda mais agora sem o seu cobertor, Petruz logo adormece, encolhido em seu canto.
Quando a noite cai por completo e algumas luzes se acedem, iluminando as ruas, ele acorda assustado. Havia tido um sonho estranho, cujo maior enfoque foi o assassinato que tinha presenciado naquela tarde. A noite estava muito fria e uma garoa fina e gelada caía lenta e interminavelmente, mas apesar disso o garoto não sente falta de seu cobertor. E ao inalar um delicioso e distante aroma de rosas e perceber que sentia-se aquecido, ao menos a parte superior de seu corpo, ele entende o por que. Estava coberto por uma pequena, porém quente e bem confortável peça de roupa, que lhe fora posta nas costas enquanto dormia. Era o blusão estranho que sua recém-adquirida colega usava. Contudo, ao tatear ao redor, ele percebe que não estava mais com a espada de Rumiko em mãos.
O rapaz esfrega os olhos e observa ao redor, notando que a moça também não está mais ali. Ele ri num suspiro e não se surpreende. Sabia que, se acaso adormecesse, Rumiko iria aproveitar para ir embora. Também estava ciente de que, para alguém tão ágil e completo como Rumiko, ter como acompanhante um moleque que mal tinha forças para andar seria um estorvo. O rapazinho amaldiçoa sua fraqueza, sua timidez, seu medo... Mas agora já era tarde.
Pelo menos ela havia deixado sua blusa japonesa, que era quente e cheirava à rosas, embora ele estivesse falando sério quando afirmou que passaria frio ao lado dela. Petruz cruza os braços e encolhe as pernas para aquecê-las ao menos um pouco. A peça de roupa que Rumiko lhe deixou era quente, mas não era grande o suficiente para todo o seu corpo. Apesar do frio, a ferida em seu braço não doía, porém ainda incomodava. E de nariz gelado e doendo, ele esfrega as ventas com uma das mãos e, súbito, espirra. E no momento seguinte, uma voz macia e agradável lhe saúda:
─ Odaijini(2), Petruz san!
O garoto se vira rapidamente para o outro lado do beco, que dava numa saída contrária àquela em que eles entraram, vê Rumiko se aproximar silenciosa como um gato e quase não a reconhece. A moça havia saído para observar como estavam as coisas ao redor, já que fazia mais de horas que o assassinato tinha acontecido e, antes de voltar para o beco, ela pôs suas roupas de civil “comum”.
─ Fico feliz que tenha acordado, senhor. Está esfriando muito e temos que sair deste lugar.
Petruz se levanta prontamente, mas com dificuldade em esconder a sua alegria por ver o rosto de Rumiko mais uma vez. Então ele nota a moça remexendo numa enorme caçamba de lixo.
─ O que está fazendo? – ele pergunta enquanto enrola o tapete.
Rumiko tira um saco de lixo de cor vermelha de dentro da caçamba e responde à Petruz com um rabo de olho.
─ Vamos comer alguma coisa, senhor. Afinal, foi o senhor mesmo que disse estar com fome.
─ E nós vamos comer...o que tem aí? Nesse lixo?
Embora estivesse aproximando-se da linha da morte por inanição, a dignidade de Petruz ainda não havia descido tanto. Mas aceitou que, se para ele acompanhar Rumiko, tivesse de ir tão longe, então suportaria qualquer coisa. A menina, no entanto, ri graciosa, imaginando o que se passava na cabeça do rapaz e rasga o saco de lixo, revelando que seu conteúdo não era nada além de uma bolsa de academia em formato cilíndrico, bem grande em altura e diâmetro. E Petruz respira aliviado:
─ Uma... Mochila-saco...
Rumiko assente com a cabeça e desata o laço trançado que prendia a abertura da mochila, enfia a sua Shikomizue dentro, deixando apenas uma ponta do lado de fora, e retira um pote branco, que na verdade era um carretel protegido, contendo um rolo de bandagens, o qual parecia estar úmido. Em seguida, ela pede para Petruz mostrar o braço lesado. O rapaz obedece, esticando o braço em silêncio e a moça passa algumas voltas da bandagem na ferida, que já estava escurecida.
─ Essa lesão já deve estar infeccionada. Esse produto não vai curar a infecção, mas vai impedir que fique pior do que já está. Amanhã o senhor precisa ir a uma drogaria ou um posto de saúde, tudo bem?
─ Sim, tudo bem – responde o rapaz em modo automático.
─ Rumiko está falando sério! O senhor corre o risco de perder esse braço.
─ Sim! Eu vou sim.
Rumiko termina o tratamento dando um nó nas bandagens e exclama com a voz manhosa, afirmando que tinha terminado:
─ Owarimashita! Grata pela compreensão e confiança.
─ Claro... sem problema.
Petruz passa a mão sobre as bandagens em seu braço. Ele estava gelado, mas pelo menos a dor, que já era pouca, agora sumiu completamente. A moça pega sua mochila, realmente parecida com aquelas usadas por peregrinos, guarda as bandagens nela e a joga nas costas.
─ Saa, Ikemashô!
Após tais palavras, Rumiko anda em direção à saída do beco enquanto o garoto, sem entender o que ela disse, fica parado no lugar a observa-la, imaginando o que fazer. A moça dá uns quatro passos e volta-se para Petruz. Então, com a cabeça, ela faz um sinal para ele a seguir. Só aí o garoto pega o tapete e vai atrás dela, enrolando-o no caminho e resmungando.
─ Você precisa parar de falar essas palavras estranhas. Eu não as entendo... Achei que você tinha me mandado esperar.
─ Gomen Nasai. Ainda há algumas palavras que Rumiko não tem mais o costume de pronunciá-las em português. E pode deixar o juutan aí, senhor. Será um peso a menos.
─ De que país você é? – Petruz olha para o pequeno tapete em suas mãos, soltando-o em um dos cantos do beco após deduzir que Rumiko falava dele quando disse “juutan”.
─ Rumiko nasceu aqui mesmo, na ilha de Vera Cruz, mas passou os últimos 15 anos no arquipélago japonês.
─ Que massa! É por isso que você é tão forte! Deve ter sido treinada lá, certo?
─ O senhor fala muito rápido, mas está com a razão. Meu Sensei era o melhor espadachim de Kyoto e um dos melhores do Japão, talvez até do mundo.
─ Espadachim? Que legal! E você sabe voar e fazer aqueles raios de fogo com sua espada?
─ Nani? – Rumiko olha espantada e confusa para o garoto.
Petruz percebeu que a menina não entendeu a brincadeira mal feita e mal colocada, então ele desconversa:
─ Ah...Nada. Deixa pra lá. Acho que estou viajando demais. Deve ser a fome.
─ Are(3)? Via...jando???
─ É! Estou boiando um pouco. Mas eu sempre desconfiei que aquelas acrobacias dos filmes fossem impossíveis de se realizar.
─ Mas afinal, do que é que o senhor está falando? Rumiko não está entendendo.
─ Deixa pra lá, já disse. Mas diga, se você é da ilha de Vera cruz, por que seu nome é tão incomum?
Rumiko observa o rapaz por mais alguns passos, depois volta seu olhar para frente, sem responder à última questão. Então Petruz continua:
─ Você não tem cara nem traços de japonesa. Sendo assim, você deve ser, no máximo, neta de japoneses. Como é mesmo que eles são chamados? Deixa eu lembrar...
─ Sansei. – responde a moça, permitindo que Petruz seguisse seu raciocínio sem perder tempo pensando em algo que ele provavelmente não se lembraria.
─ Acho que é isso! E se for isso, então isso já daria a você o direto e o dever de ter um nome brasileiro, não é isso mesmo?
─ É muito perspicaz, senhor Petruz. De fato, o nome “Rumiko” não é um nome de batismo. Ele me foi dado por meu Sensei, na época do meu treinamento. Quando o sensei Gengetsu decidiu me adotar, ele apagou meu nome e cortou minha raiz. Então ele me disse um nome que eu deveria carregar enquanto fosse leal à ele.
─ Rumiko?
─ Yô!
─ Então você foi adotada?
─ Yô!
─ E qual era o seu nome verdadeiro?
─ Nome verdadeiro, senhor?
─ É! Você sabe... O seu antigo nome?
A moça voltou a ficar em silêncio, simplesmente observando o rosto de Petruz sem exibir o seu já costumeiro sorriso. Na verdade, ela estava com um olhar tão neutro que não fazia menção de que iria ou mesmo se queria dizer qual era seu nome anterior. Percebendo a relutância da moça, Petruz imaginou que não deveria forçar, mas não quis fechar a conversa com aquele clima ruim, então ele atropelou os pensamentos de Rumiko com outra coisa que lhe causava uma imensa duvida.
─ Tem outra coisa que eu ainda estou pensando e queria que você me explicasse.
─ Pode falar senhor – replica a moça com um entusiasmo renovado, mostrando que ela queria mesmo evitar o assunto de anterior.
─ Como fez aquilo? Aquilo de fazer as pessoas dormirem?
─ Umm... Com uma dose certa de Tengudake(4) dá para se fazer coisas interessantes.
─ Tengu.. dake?
─ Uhn! O Tengudake pode ser usado para causar vários sintomas. Pode inclusive causar a morte, embora não fosse esse o objetivo de Rumiko. E o mais interessante é que, do modo como Rumiko o usou, ele funciona como um irritante.
─ Um irritante?
─ Eeh! Ele não pode ser rastreado como veneno, embora seja um veneno. Rumiko só diminuiu à zero sua taxa de mortalidade.
─ Aí você transformou esse tal de tengudake numa espécie de pó e colocou naquelas esferas.
─ Gasubonbe(5).
─ Gas bombe... – Petruz vai repetindo cada palavra estrangeira que ouve, no ingênuo pensamento de aprender uma língua nova.
─ O efeito atinge o sistema nervoso de qualquer um que respire ao menos uma vez a fumaça que contem esporos do Tengudake. A maior vantagem é que, assim que se inala o primeiro ar misturado com os esporos, a pessoa pode adormecer de dez à quinze minutos depois que ainda assim não se recordará do que aconteceu.
─ Por isso esperou as bombas explodirem para agir?
Rumiko morde os lábios inferiores num sorriso de satisfação. Sentia-se ótima quando alguém entendia os seus “Modus Operandi”, sem que ela precisasse explicar ou dar satisfações de como agiu ou porque agiu.
─ Mas então... – Petruz funga o nariz – E eu? Porque eu não fui atingido?
─ A bebida energética que Rumiko lhe deu possuía um ingrediente que anula o efeito do Tengudake durante os 30 minutos seguintes em que ele é ingerido.
─ Foi por isso que você me deu?
─ Rumiko lhe deu porque não queria mais. E também não queria jogar fora.
─ Mas você me disse que iria jogar fora se eu não quisesse, lembra?
─ Sim, mas foi só para fazer o senhor aceitar sem constrangimento. Não podemos jogar alimento fora, desde que ainda esteja saudável, porque sempre tem alguém que quer. O senhor não concorda?
─ Claro... – Petruz desvia o olhar sabendo que ele nunca pensou por esse lado – claro que concordo.
─ Se não fosse para o senhor, Rumiko teria dado para outra pessoa.
A moça interrompe a caminhada e apoia-se na parede de um prédio com a mão esquerda, erguendo a perna direita e dobrando o joelho, no intuito de ajustar seu tênis surrado e velho. Petruz fica parado logo mais adiante e nota, nesse meio tempo, que a mocinha fecha os olhos e respira fundo. Em seguida, com uma virada de rosto bem devagar e desconfiada, ela olha para um beco escuro, do outro lado da rua, e assim fica por uns segundos.
─ Alguma coisa errada, Rumiko?
─ Rumiko ainda não assevera. Mas é melhor irmos andando.
Petruz também olha em direção ao beco escuro e longínquo, mas não vê nada de mais. No entanto, também fica com a sensação de que alguém iria sair dali à qualquer momento, portanto permanece parado, observando o lugar.
─ Senhor Petruz! – Rumiko lhe chama atenção, poucos passos adiante.
O garoto volta-se para a moça, ainda desconfiado, e se aproxima dela em rápidas passadas.
─ Não precisa se preocupar com nada, senhor. Rumiko é meio paranoica.
─ Por que você me chama de senhor? É por causa de minha linhagem?
─ Iie! É mais por causa do meu Keigo(6)!
─ Keigo? O que é isso?
Rumiko responde essa pergunta com um simpático sorriso. Estava tão acostumada a morar no Japão que não conseguia se adaptar ao fato de que agora, muito da cultura nipônica que ela se esforçou para aprender, soaria como novidade ou mesmo bizarrice para outrem. Petruz, porém, imaginando que Rumiko se divertia com sua ignorância, novamente muda de assunto:
─ Por quê você se refere a si mesma em terceira pessoa?
Ainda observando o garoto sem dizer nada, a moça caminha por mais alguns metros em silêncio e com uma face de confusa, demonstrando não entender porque o ruivo construía tantas dúvidas em sua cabecinha. Estava na cara de que ele gostava mesmo de conversar, ou de, no mínimo, se meter a fundo na vida dos outros. Seja qual dos dois fosse o motivo, Rumiko estava adorando. Não se lembrava de ter conversado tanto e em tão pouco intervalo de tempo com alguém que não fosse um figurão amigo de seu mestre ou um responsável por algo relacionado aos interesses de seu senhor. Súbito, ela olha para cima, observando uma placa luminosa já quase sobre suas cabeças e diz:
─ Chegamos!
Petruz focaliza o quê a moça observava e vê um mediano, porém bem ambientado restaurante. A moça pega no braço esquerdo do rapaz e o puxa para dentro daquela taberna sem fazer nenhuma questão sobre suas roupas. E assim que desaparecem dentro do restaurante, há muitos metros atrás, no beco observado por Rumiko, dois vultos surgem das sombras.
─ Ela está mesmo por aqui – diz um deles, de olho fixo no estabelecimento onde Rumiko entrou – O senhor Mozu é incrível.
─ É sim. – concorda o outro, acendendo um cigarro.
─ Acha que ela nos viu?
─ Impossível! Está muito escuro. Além do mais, não teria problemas se nos visse, pois ela nem nos conhece.
─ Mesmo assim, vamos seguir de acordo com o plano. Mande dois para o restaurante, mas avise-os para seguir as ordens. Nós esperaremos do lado de fora
─ Claro. Mas e quanto ao garoto?
─ O que é que tem?
─ O que vamos fazer com ele quando chegar a hora?
─ Isso não é óbvio? Quem é que vai sentir falta de um mendigo?
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