A Busca
9 No Restaurante
Já dentro do restaurante, que apesar do horário não estava tão cheio quanto deveria, Rumiko diz para o seu novo acompanhante se sentar próximo à janela que ela lhe indica e dirige-se à uma mesinha onde ficava os menus. Logo depois, volta ao encontro de Petruz e senta-se. Um garçom encosta-se à mesa deles, com uma face retorcida e falta de pose, tentando deixar claro que ali não era lugar para um moleque de rua e uma moça que não se veste como uma dama.
Rumiko lê o cardápio rapidamente e pede o prato de almoço completo e especial do dia, embora já fosse quase hora da janta. O garçom lhe explica que o prato do dia, que no caso era carne assada com macarrão ao molho, verduras cozidas, ovos cozidos, purê de batatas e tantas outras coisas que Rumiko se sentiu inchada só de ler, era servido apenas na hora do almoço. Com um sorriso simples e uma explicação ainda mais simples, a moça lhe diz que estava tudo bem, porque nem ela e nem seu parceiro havia ainda almoçado. Então ela pede para ele dizer ao cozinheiro para preparar um prato parecido para janta. Em seguida, a moça faz uma pequena lista do que queria no seu prato, que seria exatamente o mesmo, mas com alguns ingredientes a menos.
O garçom anota tudo, mas precisava saber se eles tinham condições de pagar e, portanto, ainda não havia se movido do lugar, escolhendo as palavras certas para perguntar sem ser rude. Antes de ele abrir a boca, a moça pega uma bolsinha em forma de ursinho panda de dentro de sua mochila esportiva e posta sobre a mesa um objeto reluzente. Imediatamente, o homem pede licença e sai de cena, indo às pressas para a cozinha.
Petruz olha para o objeto brilhante e só três segundos depois é que ele percebe estar de frente para algo que ele só havia visto em filmes.
─ Caramba! Isso é... – ele põe as mãos na boca, depois continua em tom mais baixo – É uma moeda de ouro?
A moça assente com a cabeça e olha enfastiada para as pessoas nas mesas ao redor, verificando seus modos e jeitos de se vestir. Rumiko concordava que uma pessoa tem que ter o bom senso de não entrar num lugar que não lhe é apropriado, tanto que ela não escolheu aquela mesa próxima da janela à toa. Havia dois motivos relacionados ao fato de ela querer sentar-se ali e um deles era porque o lugar era mais reservado e afastado das mesas “preferidas” do restaurante e fora da vista de pessoas metidas à superiores. Mas mesmo que algumas pessoas se trajassem diferentes de outras, isso não dava o direito de alguém, em posição melhor ou superior, julga-las pela aparência. Isso porque muitas pessoas no mundo atual, vitimadas pelos estragos do fim do mundo, poderiam não se vestir muito bem, mas isso não significava que eram mendigos. Poderiam muito bem ter dinheiro nos bolsos ou mesmo contas gordas nos bancos, aguardando um momento propício de utilizar esse dinheiro. Havia muita gente assim no mundo, principalmente em Vera Cruz. Por esse mesmo motivo que muitos restaurantes e lanchonetes reservavam um lugar para esses tipos de pessoas, e era exatamente onde Rumiko foi se sentar com Petruz.
Porém, o que Rumiko não havia entendido era que o garçom não estava julgando à ela e sim, seu parceiro ruivo, cuja a única roupa limpa que trajava era o blusão nipônico e rosado, pertencente à Rumiko.
─ Você tem muito dinheiro? – Petruz intervém novamente.
─ Yô! Tenho 20 moedas de ouro, senhor.
─ Vi-Vinte? – o garoto quase engasga e toma fôlego para se recompor novamente.
─ Bom, não são mais vinte. Rumiko teve alguns contratempos. Vinte foi a quantia que Rumiko pode trazer do Dojo de meu Sensei.
─ Seu... “Sensei”... Ele é um homem rico?
─ Dame ne! Mas ele era um homem de visão ampla e, por isso, era também muito trabalhador.
─ “Era”? O que houve...Por acaso ele...?
Petruz tenta suavizar a intensidade do que pretende perguntar, mas Rumiko antecipa sem rodeios.
─ Meu Sensei está morto senhor Petruz. Esse é o motivo de Rumiko ter abandonado a vida no Dojo e iniciar uma procura pelo senhor Oz. Rumiko pretende ressuscitar o mestre Gengetsu.
─ RESSUSCITAR? – Petruz se exalta novamente e Rumiko, com uma gentil piscadela, põe o dedo indicador da mão esquerda sobre os lábios, gesticulando um pedido de silêncio.
─ Ressuscitar? Isso é possível?
─ Se Oz existir, sim!
─ Ressuscitar...! Esse... “feiticeiro” deve seu muito poderoso pra ser capaz disso. Mas qual é o preço?
─ O preço, senhor?
─ Com um poder tão impressionante, ele não deve fazer isso de graça, não é?
─ De fato, ele não faz tal serviço por caridade.
─ Eu sabia. É por isso que você trouxe moedas de ouro, não foi?
─ Iie! O preço varia de pessoa para pessoa. E nem sempre é dinheiro. Mas Rumiko sabe de uma coisa que ele quer muito.
─ Sério? E o que é?
Rumiko estica-se para frente e Petruz faz o mesmo, deduzindo que ela iria sussurrar um segredo.
─ O senhor precisa possuir um diamante vermelho para pagar o preço do serviço. Mas tem que ser um vermelho puro, sem nenhuma modificação química.
─ Um diamante vermelho puro? Não sabia que existiam diamantes vermelhos na natureza.
─ Até 1997 existiam apenas quatro deles em todo o mundo. Um deles inclusive foi encontrado aqui em Vera Cruz. Mas depois do “Fim do Mundo”, foram encontrados mais alguns.
─ E você tem uma dessas pedras?
Rumiko sorri com um jeitinho maroto, deixando claro que não possuía o objeto. Petruz leva a mão ao rosto, coçando o olho direito.
─ Você não tem? E o que vai fazer?
─ Rumiko sabe onde tem uma delas, senhor.
A mocinha aproxima-se mais, debruçando-se sobre a mesa, estica a mão até a janela e escreve com o dedo indicador a palavra “Ophis” no vidro embaçado pelo frio e pela umidade da garoa fina que caía intermitentemente. Petruz lê mentalmente a escrita, mas não sabia se soletraria certo, por isso ele pergunta:
─ Como é que se lê isso? E o quê quer dizer?
─ Rumiko não assevera – a moça volta a se acomodar na cadeira – A palavra parece estar em inglês e Rumiko não sabe nada de tal idioma.
─ Não acho que isso seja inglês. Mas eu também não sei muito sobre o idioma. Enfim, aí tem um diamante vermelho. E o que vem a ser isso, uma cidade?
─ Um templo.
─ Um templo? E onde fica?
─ Shirenai! – a moça dá de ombros, pegando a moeda de ouro da mesa e guardando-a na bolsinha.
─ O quê? Você... Você não sabe?
─ Hai! Rumiko não faz a mínima ideia de onde fica, senhor Petruz.
O garoto enerva-se um pouco. Agora que descobriu que a moça estava uma missão final com teor tão sobrenatural e difícil de ser realizado, o ruivo ficou ansioso em saber tudo sobre as intenções de Rumiko. Mas ele logo se acalma, afinal, não foi Rumiko que pediu que ele viesse junto e sim o contrário.
Nesse momento, dois garçons se aproximam com os pratos que eles pediram. Rumiko havia pedido o prato completo de almoço, ou uma versão noturna do mesmo, porque ele era realmente completo, com tudo de bom que o restaurante servia no domingo. Era o prato mais caro do expediente diário e não era servido à noite, mas como a moça tinha dinheiro e deu uma explicação "plausível", os donos do restaurante e os cozinheiros não fizeram questão de discutir com ela. A versão completa do prato é entregue à Petruz e à ela o garçom põe sobre a mesa outro que deveria ser semelhante, mas que não tinha nem legumes, nem carne.
Rumiko come sem cerimônia e em silêncio, até que percebe que Petruz está comendo devagar, receoso e olhando para os lados meio sem jeito.
─ Dôushita no, Petrus–san?Algum problema?
─ As pessoas... Elas estão olhando para nós, como se fôssemos de outro mundo.
─ Deve ser por causa de minhas roupas, senhor. Eles devem estar achando-as esquisitas. O senhor também não gostou delas quando viu Rumiko.
─ Não, você agora até que não está tão esquisita quanto antes. Eles estão olhando para mim... Eu estou imundo, maltrapilho...
─ Humm! Depois Rumiko cuida disso, senhor. Rumiko já tem algo em mente desde hoje à tarde.
─ Hã? O que quer dizer?
A menina sorri de olhos fechados e bochechas cheias e volta a se alimentar, não esclarecendo mais nada nos 10 minutos seguintes. Petruz também tenta não ligar para os outros clientes e começa a comer mais despreocupadamente. Sentindo o delicioso cheiro dos alimentos e assimilando que há tempos não via tanta comida, ele percebeu que estava tão faminto como jamais esteve em toda a sua vida. Precisava aproveitar. E para ajudar a relaxar, assim que fitou novamente a palavra no vidro, ele busca mais conversação com a mocinha:
─ Como você sabe que tem um diamante vermelho nesse templo?
─ Rumiko teve uma informação de peso e confiança.
─ De quem?
Rumiko toma um pouco do suco de uva que pediu para acompanhar a refeição e observa Petruz com seu rosto angelical, sem dizer nada. O garoto, meio envergonhado, inclina o rosto para seu prato e exclama:
─ Desculpe! Eu estou me metendo demais em seus assuntos, não é?
A moça mostra conforto ao garoto e passa um guardanapo descartável nos lábios. Se ela bem se recorda da ficha de Petruz quando a estudou anos atrás, ele agora já devia ter seus dezessete anos, mas parecia pensar como um garoto curioso de doze.
─ Rumiko não acha prudente dizer quem foi, senhor, mas pode lhe falar qual era a informação se desejar.
─ Não precisa falar se não quiser.
─ Não há problema algum, senhor. De qualquer forma, acho que o senhor deveria saber. Isso vai ajuda-lo a testar a veracidade de minhas palavras e ações.
─ Não! Eu não estou duvidando de nada que você disse, Rumiko. Só estou com vontade de conversar um pouco. Pode falar de qualquer assunto.
─ Arigatai! Vamos falar do diamante vermelho então.
Petruz sente uma brisa maior de conforto e balança a cabeça concordando. Ele viu nos olhos de Rumiko que ela não desconfiava dele, ao mesmo tempo em que se esforçava para que ele também não pensasse isso. Rumiko então olha para o alto por um momento, como se tentasse lembrar alguma coisa e começa:
─ Se Rumiko não estiver enganada, o nome dele é Moussaieff Vermelho. E como Rumiko já disse, ele é um dos quatro únicos que existe à vista do público.
─ A vista do publico? É por isso que você disse que há mais?
─ Yô! Há alguns outros que ainda não tinham vindo a público antes do acidente climático. Como a bedina dominou o ciclo monetário e divide espaço com o ouro e prata...
─ As pedras preciosas de status raro são de valor inestimável – conclui Petruz, já entendendo onde a menina queria chegar – por isso o mundo só tem conhecimento dessas quatro pedras.
─ Zattsuraito(1)! – Rumiko sorri brilhosa, orgulhosa com o rápido entendimento de Petruz.
Ela termina o restante de seu prato e continua o esclarecimento:
─ Quando o GIA(2) oficializou o Moussaieff para o mundo em 1997, ele já havia sido retirado de Vera Cruz(3) e lapidado numa forma triangular arredondada por uma empresa de nome difícil para Rumiko, que ficava localizada em Nova Iorque(4).
─ O GIA? O que isso significa?
─ Rumiko não se recorda no momento, senhor, mas isso não é importante. O fato é que, após a oficialização da pedra, muitas pessoas foram visitá-lo no museu ao qual ele foi colocado. E no caos que se sucedeu durante os desastres do “fim do mundo”, ele sumiu.
─ Mas se eles são raros, você não vai poder usar seu dinheiro para compra-los, não é?
─ Rumiko não vai compra-los, senhor. Mas com certeza vai, de uma forma ou de outra, conseguir esse diamante.
─ Certo, mas... Eu só não entendi uma coisa. Como é que você sabe que o tal “mussa-alguma-coisa” está no templo...ahn... – Petruz olha para a palavra quase sumindo no vidro e continua – como é que sabe que ele está no Templo de “ófis”?
─ Rumiko já explicou. Foi um informante que me contou. E Rumiko não perguntou como ele sabia. Além do mais, não é o Moussaieff que está no templo, é um de seus "irmãos". Rumiko usou o Moussaieff como exemplo.
─ Entendi. Mas puxa! Você é bem ingênua!
─ Hun? O senhor acha?
─ Se eu acho? Bom, vamos ver – Petruz ergue as mãos, gesticulando que ia contar nos dedos os fatos que iria esclarecer – Você não sabe se Oz existe. E se existir, você não sabe onde ele está ou onde fica seu paradeiro. Você sabe que é preciso um diamante vermelho para realizar seu desejo, mas você não tem. Você sabe de um lugar onde tem um, mas não faz ideia de onde fica esse misterioso lugar. Tudo o que você sabe foi ouvido “de boca”, como uma sequência de boatos maldosos ou exagerados... É... – o ruivo abaixa os braços e conclui – você é bem ingênua!
─ Oz pode até não existir, mas Rumiko não acredita que o senhor que me deu a informação estava mentindo. Além do mais, se esse templo existir, Rumiko vai achar. Se esse diamante existir, Rumiko vai encontrar. E se Oz existir, Rumiko vai conseguir ressuscitar o Sensei.
─ E se tais coisas realmente existirem, como você tem tanta certeza que vai encontra-las?
A moça abre um largo sorriso e responde enquanto empurra o prato vazio para o centro da mesa:
─ Rumiko tem muita sorte, senhor.
Petruz corresponde o sorriso e também acelera seu ato de comer para sair logo daquele restaurante e escapar dos incômodos olhares que sentia sobre si. Ele percebeu que enquanto Rumiko tivesse fé em sua busca, ela iria em frente e isso era muito inspirador. Além disso, quanto mais demorasse a realização de seu sonho, mais tempo ele teria de sua companhia.
Nesse meio tempo, Petruz percebe que a moça, mesmo demonstrando sua alegria e conforto, está um pouco apreensiva. Não era da sua conta, mas ele ainda queria conversar e sabia que não tinha nenhum outro assunto que interessasse a sua nova amiga, então ele termina sua refeição e a questiona:
─ Alguma coisa errada, Rumiko? Quer sair daqui também?
A mocinha puxa o copo de suco para junto de si, leva a ponta do canudo até os lábios e começa a falar lentamente.
─ Não dirija o olhar com muita rispidez, senhor. Mas se prestar atenção atrás de Rumiko, verá dois homens de terno. Um de marrom, o outro de cor vinho.
Petruz esbugalha os olhos, espera uns segundos antes de olhar disfarçadamente ao lado do ombro da moça, focalizando os suspeitos ao fundo, perto da porta de saída.
─ Sim, estou vendo. Um deles está carregando um guarda chuva enorme, não é isso?
─ Não é um guarda-chuva, senhor. É uma Shikomizue. O outro também está armado. E se o senhor prestar atenção, há mais dois homens lá fora, do outro lado da rua.
O garoto olha imediatamente para fora e realmente vê dois homens de blusas com capuz, ambas pretas, fingindo conversar embaixo do sereno, e nota que eles também portavam algo como bastões, parecidos com aquele que a moça carregava, só que de cores diferentes. Eles estavam do outro lado da rua, embaixo da lona de uma loja já fechada. Havia um certo tempo que estavam ali e poderiam ficar ali o dia inteiro que Petruz jamais os notaria, mas agora que Rumiko os citou, eles se destacavam mais facilmente das pessoas que por ali transitavam.
Naquele instante ele também percebeu que não foi por coincidência que a moça escrevera a palavra no vidro, quando, se quisesse manter a discrição de seus segredos, poderia simplesmente pegar uma caneta, visível e facilmente adquirível em qualquer uma das mesas, e escrever tal palavra num papel ou num guardanapo descartável. Ela a escreveu no vidro porque, assim, os homens do lado de fora não saberiam se ela estava olhando para eles ou para a palavra escrita. Então o garoto pergunta:
─ Quem eles são, você sabe?
─ São apenas “alvos”, senhor. Não se preocupe com isso.
─ Alvos?
─ Yô! Estão nos seguindo desde que saímos do beco.
─ Será que sabem do que você fez hoje à tarde?
─ Talvez, mas não é por isso que estão atrás da gente. Do contrário já teriam nos denunciado.
─ Então... O que será que eles querem?
Rumiko termina seu suco e diz com naturalidade.
─ Provavelmente estão querendo matar Rumiko.
Petruz arregala os olhos, assustado, porém fica em silêncio e evita outro ataque de pânico. Mesmo porque, gritar não ia adiantar. Então a moça continua:
─ Rumiko pensou que havia escolhido bem o restaurante, mas pelo visto, se enganou.
─ Oh, meu deus, Rumiko. O quê... O quê nós faremos agora? Vamos fugir?
─ Iie! Rumiko tem planos de passar a noite por aqui. Vamos continuar a caminhada só amanhã, se estiver tudo bem para o senhor.
─ O quê? Mas...Mas porque?
─ Há três dias que Rumiko não dorme, senhor. Se vamos começar uma peregrinação, devemos estar bem descansados. O senhor não concorda?
─ Mas e se...E se eles...
─ Ki ni Shinai, Ki ni Shinai(5)! – a moça faz um sinal com a mão, gesticulando para o garoto se acalmar – Se eles ousarem nos atacar, nós enfrentaremos eles.
─ Nós...? – Petruz quase se engasga com as batatas fritas que comia.
A mocinha sorri e pede a conta da refeição que fizeram. O olhar livre e brilhante da moça deixava uma clara sensação de que ela realmente não estava se preocupando com os homens que estavam de tocaia. E para finalizar o “almoço” ela pede para o garçom se aproximar e pergunta:
─ Por favor, os senhores servem champanhe aqui?
─ Sim senhorita.
─ Traga uma garrafa e duas taças, por favor.
─ Alguma marca de sua preferência?
─ Não entendo muito de bebidas alcoólicas. Por isso traga a que melhor lhe agradar. Um que o senhor recomendaria. Tudo bem?
─ Sim senhorita. Só um momento.
O garçom se vai apressado e não demora a trazer a bebida, abrindo-a em seguida. Rumiko enche as duas taças até a metade, serve uma para Petruz e diz para ele que é para comemorar.
─ Comemorar o quê?
─ O nosso breve encontro. O senhor ajudou muito hoje e Rumiko quer que o senhor saiba que ela está muito agradecida.
─ Você salvou minha vida só hoje por duas ou três vezes. Quem está agradecido sou eu.
─ Oro? O que quer dizer, senhor?
Petruz apenas sorri e toma o primeiro gole de seu champanhe, sem mais se importar com os olhares dos outros fregueses e sem se preocupar com os ditos alvos que Rumiko mencionara. Ainda estava com medo, mas a tranquilidade de Rumiko era contagiante.E o champanhe lhe trouxe certa saudade de seu passado, pois, desde os seus quinze anos, que ele terminava um bom jantar ao lado de seu saudoso pai com uma taça bem servida daquele tipo de bebida.
─ Três dias sem dormir, é? – questiona Petruz – E o que esteve fazendo durante esse tempo?
─ Lendo.
─ Lendo?
Rumiko inclina-se e pega sua mochila, tirando duas revistas de uma abertura lateral e estendendo para Petruz.
─ Hai! Lendo.
O ruivo vê as capas das duas revistas e franze a sobrancelha.
─ “Contos de Fadas: A lenda de Oz” – ele lê em seguida o título da outra capa – “Alpinismo e Educação: montanhas do Fim do Mundo”.
Logo depois, Rumiko coloca um livrete sobre a mesa, que Petruz, após servir-se de outra taça de champanhe, a pega e lê em seguida.
─ “Pedras preciosas e raras: Os mistérios dos diamantes”. Então foi aqui que você leu sobre os diamantes vermelhos?
─ Yô! E Rumiko também comprou um livro com desenhos pra colorir e uma caixa de lápis de cor, mas deixou no trem.
─ Como é? Você está falando sério?
─ Sim – a moça balança a cabeça algumas vezes, afirmando com orgulho – Era uma revista grande assim ó, e de capa dura, então Rumiko decidiu não trazê-la consigo.
─ Não! Eu quero dizer..., você comprou uma revista com desenhos para pintar?
─ Hun? E o que há de errado nisso senhor?
─ Nada... – o rapaz coloca a mão na boca, escondendo o riso – Nada não.
Petruz não queria rir, mas não consegue se segurar. Rumiko o observa com seu rosto radiante, aparentemente satisfeita por também fazer Petruz sorrir. A informação sobre o livro de colorir era uma brincadeira. Contudo, ver Petruz sorrir de verdade era um desejo da moça desde o momento em que o ruivo decidiu vir com ela. Rumiko gostava de ver as pessoas rirem de alegria, porque isso era algo que alimentava seu espírito, mas infelizmente não tinha o dom de criar anedotas.
Pouco depois, o rapaz folheia rapidamente o livrete sobre pedras preciosas para ver mais ou menos do que se tratava. Não demorou para ver a foto de um diamante vermelho, apelidado de “Pedra de Fogo” e citado ali como raríssimo e inestimável. Agora Petruz entendia o porquê de Rumiko saber tanto sobre o diamante e sobre Oz, mas não havia entendido ainda porque raios ela comprou uma revista de alpinismo.
Minutos depois, após terminar a segunda taça, ele percebeu que Rumiko não havia nem sequer tocado em seu próprio copo depois que o serviu.
─ Você não vai beber?
─ Rumiko não pode tomar nada alcoólico, senhor.
─ Por que não?
─ Meu sensei não aprovaria.
─ E não come carne também, pelo visto.
Rumiko ergue as sobrancelhas, demonstrando não compreender o argumento e Petruz explica, apontando para seu prato vazio.
─ Reparei que a sua refeição foi a mesma do minha, mas no seu prato não veio carne. É vegetariana, por acaso?
─ Rumiko é Ovolactovegetariana.
─ Ovo... lacto...? Mas eu vi você comer ovos.
─ Rumiko não come carne vermelha, senhor Petruz.
─ Humm... E no caso do álcool, porque pediu champanhe então? Porque não pediu uma soda ou um outro suco?
A mocinha abre um sorriso mostrando seus dentes brancos e perfeitos:
─ Por que vocês homens adoram álcool. A sakazuki(6) de meu sensei sempre continha sake quando ele estava relaxando ou sem nada para fazer.
─ É, mas nem todos os homens são assim. Além do mais, há mulheres que bebem álcool também.
─ Hai, hai, Wakateru yô! Mas o senhor gosta de champanhe. Principalmente depois do almoço, não é verdade?
─ Sim, mas... – nesse momento Petruz tem um surto de curiosidade – Espere aí! Como...? Porque você acha que eu gosto de champanhe após as refeições?
─ Porque seria estranho se não gostasse – responde a moça simplesmente.
Petruz observa Rumiko em silêncio, termina seu copo, serve-se de uma última taça e, quando pensa em fazer outra pergunta relacionada ao fato de ela saber tanto sobre ele, a moça interrompe suas intenções ao retirar um pedaço de papel do bolso e coloca-lo sobre a mesa, dizendo:
─ Kore! Mite wo Kudasai.
─ Como é que é?
─ Veja isto por favor – traduz ela rapidamente, fazendo uma leve mesura com a cabeça – é mais sensato dizer ao senhor o que Rumiko pretende fazer agora, já que ficaremos juntos por um pouco mais de tempo.
Petruz olha para o pedaço de papel na mesa, depois pega meio temeroso por estar escrito algo em japonês, já que ele não iria entender nada. Quando olha com calma, tudo o que vê são três nomes que pertenciam aos seguintes representantes políticos:
Caio Velasqueses, ex-presidente do conselho superior dos três poderes da Ilha de Vera Cruz, hoje nas mãos dos Honoráveis. Ele também foi o último presidente da república do Brasil, já que depois dele nenhum outro foi eleito ao cargo, que hoje é ocupado por um Prócer do país;
Xeique Keril Alifah, líder palestino que, antes do incidente com o mundo, era representante de pelo menos metade dos países e estados da Ásia, a outra metade não era de sua alçada, mas os responsáveis por ela tinha um certo débito com sua pessoa. Atualmente, todas as terras em seu nome e sua função de secretário geral do estado também são supervisionadas pelos Honoráveis;
E por último Lomar Armstrong, chefe do conselho político da nova e, hoje independente, Inglaterra, tendo com isso, quase tanto poder quanto a própria família real do país. Foi o responsável por manter a Inglaterra nos níveis de país de primeiro mundo ao iniciar um plano audacioso que unificou os outros dois países da Grã-Bretanha à um único pedaço de terra, dando origem à Nova Inglaterra. Além disso, conseguiu força de trabalho exterior, que manteve os ingleses livres de afazeres obrigatórios para, assim, poderem se preocupar com suas próprias vidas.
Em se tratando de política mundial, esses três homens eram muito superiores aos outros políticos comuns, mas agora só são lembrados e ainda respeitados por sua importância no passado. Contudo, eles têm a grande tendência de se tornarem o líder supremo do planeta e são vistos como os mais competentes para o cargo, pois levando em consideração a condição de que a pessoa que se sentar no trono do Líder Supremo irá mandar em todos os chefes de cada país da Terra, escolher alguém que já esteve no controle de vários outros homens importantes de um país seria a decisão ideal, já que esta pessoa saberia como reagir sob esse tipo de pressão e responsabilidade.
A mocinha apoia o queixo nas mãos e explica, com seu rosto simpático e carismático:
─ Essas são as três pessoas mais influentes no mundo da política atualmente e as mais prováveis de se sentarem no trono do Leviatã. Depois que elas caírem, o mundo político ficará desestabilizado por pelo menos dois anos e as eleições para o Líder do mundo serão adiados para, no mais cedo, 2.018.
─ Espere um pouco. Caírem? Você quer dizer...? – Petruz faz um olhar de que entendeu a palavra “cair” no sentido de “morrer” e Rumiko fecha os olhos concordando e concluindo.
─ Rumiko vai matá-los, senhor Petruz. E essas tarefas vieram em um momento bem oportuno, porque durante o período de um ano, Rumiko não pode deixar ninguém subir ao trono de líder do mundo.
─ P -Por que não?
Rumiko arregala seus olhos e exclama com vivacidade:
─ Por que o líder desse mundo será meu sensei. Esse era o desejo dele e ele é, de fato, a pessoa mais qualificada para o cargo.
─ Mas o seu sensei não está...? Ah é mesmo. É por isso que você está à procura de Oz. Para ressuscitá-lo.
─ Yô! E Rumiko só tem o prazo de um ano para ressuscitar o sensei. Por isso, nós vamos primeiramente eliminar essas pessoas e desestabilizar o sistema político criado pelos Honoráveis para a escolha desse suposto Leviatã.
─ Nós? Ei, espere um pouco aí Rumiko. Mesmo com seus poderes diminuídos, esses aí são homens importantes. Iremos correr risco de vida se tentarmos matá-los. Sabe disso, não é?
─ Hai! Isso não deixa o senhor animado? – a menina parecia estar com fogo nos olhos – Só se dá importância para vida quando a mesma está em perigo de se acabar.
Era um convite ousado e descarado da parte de Rumiko e ela sabia que estava pressionando o ruivo numa parede. Mas não estava se importando muito com isso. Nos últimos dois ou três anos, Rumiko sentia-se chateada, incomodada, incompleta, só não sabia bem por quê. Petruz substituía esse vazio, pois tinha alguma coisa nele que ela gostava.
Além do mais, Petruz não tinha para onde ir, então Rumiko deduziu que não custava nada arriscar e pedir por uma união, mesmo que breve, pois ela não se sentia especial o suficiente para achar que, em sua jornada, fosse encontrar outra pessoa que não se importasse de desperdiçar alguns dias ao seu lado.
Porém, para a sua infelicidade, Petruz abaixa a voz e a cabeça, retrucando:
─ Ei, ei, calma aí, Rumiko! Eu não penso assim. Hoje demos muita sorte no caso do vice-prefeito, mas... Eu não quero correr o mesmo risco de novo. Eu prezo demais a minha vida.
Nesse momento a chama de excitação dos olhos de Rumiko diminui, mas ela não desfaz o sorriso. A moça fica em silêncio por uns instantes e então pega sua bolsinha em formato de urso panda, faz um gesto com a mão, chamando a atenção do garçom e lhe entrega uma nota de cem bedinas. Dava para pagar a conta e ainda sobrava muito, então ela pede para o garçom trazer duas garrafas médias de vitaminas naturais.
Petruz fica incomodado com o silêncio súbito da moça. Sabia que ela tinha ficado chateada e precisaria encontrar um jeito de se desculpar, afinal, acabara de comer como nunca na vida, sendo que, horas atrás, estava para morrer de fome. Mas ele realmente não queria correr risco de vida. Ninguém quer.
Rumiko, por sua vez, jamais iria deixar um garoto comum passar pelos mesmos perigos aos quais ela estava acostumada enquanto vivia sob o teto do Gen-Bu, mas realmente ficou desapontada em saber que Petruz não compartilhava o prazer de passar por tal sensação de emoção e perigo. Todos os “rapazes” que ela viu e acompanhou entrarem e treinarem no Gen-Bu, descobriu que eles só tentavam fazer parte do grupo porque tinham, além de tudo, um “quê” de aventureiros.
Outro motivo do convite era que ela também não queria seguir viagem sozinha, sem alguém para ao menos conversar. Mas no fundo ela sabia que era melhor não envolver pessoas inocentes em suas loucuras de aventureira destemida, porque seu mestre lhe ensinou que com a vida não se brinca. Nem com a própria e muito menos com a dos outros. Rumiko só não aprendeu a ser tão responsável quanto Gengetsu queria que fosse, porque ela sempre o tinha às suas costas, dando sermões, broncas, conselhos e acima de tudo, proteção. Só agora ela percebia isso e sabia que não tinha mais jeito. Estava na hora de aprender a ser mais adulta.
Rumiko chama Petruz para irem embora ao mesmo tempo a que se levanta para receber o garçom que lhe trazia o troco e as duas garrafas de 280 ml de vitaminas. Rumiko pega as garrafas, entrega uma à Petruz, porém não aceita o troco e diz que vai deixar como gorjeta para os garçons que a serviram, mas com uma condição. Condição essa que Petruz ficou sem saber, pois ela pede para o garçom se aproximar e cochicha em seu ouvido.
─ Como queira senhorita – replica o garçom, permanecendo no lugar assim que Rumiko se afasta com Petruz.
Ao passar pelos dois homens de terno, que fingiam tomar uma cerveja e olhar o ambiente, Rumiko interrompe a caminhada e fala num tom que fosse baixo, mas que desse para ao menos um dos homens ouvir:
─ Senhores, aquela garrafa de champanhe ainda está quase cheia e gelada. Também deixei quatro refeições já pagas aos senhores e seus acompanhantes do lado de fora. Sirvam-se, por favor, e não nos sigam mais.
A moça retoma a caminhada enquanto um dos homens a acompanhava com os olhos, tentando imaginar como ela descobriu que eles estão atrás dela.
Em seguida, Rumiko avisa à Petruz para não correr, mas que desse uma acelerada no passo, assim, ambos saem apressados do local. A moça teve o trabalho de memorizar boa parte dos rostos que estavam presentes na primeira fila da palestra do vice-prefeito, que poderiam reconhecê-la e, quando entrou no restaurante, certificou-se de que não havia nenhum dos rostos por lá. Foi nesse ínterim que ela percebeu os dois homens de terno. Eles não estavam na palestra, mas desde algumas horas antes de ela e Petruz se reencontrarem no beco, que Rumiko desconfiava de que estava sendo seguida. E agora ela tinha essa confirmação.
Rumiko queria evitar um confronto dentro daquele restaurante, pois, se não o fizesse, teria de fugir novamente e agora, após a clara declaração de que Petruz não queria mais se envolver com ela, Rumiko estava ainda mais preocupada com ele. Precisava tirá-lo de sua vida o quanto antes, mas primeiro, gostaria de agradecer pela ajuda e disposição com a qual foi recebida por ele e por isso, iria colocar o plano que ela afirmou ter em mente desde aquela tarde.
Os homens do outro lado da rua os veem sair, mas não esboçam nenhuma reação. Rumiko também avisa à Petruz para que ele não dê atenção e seguem em direção à uma loja de roupas enorme e chamativa, pouco mais abaixo da rua principal.
O coração de Petruz estava acelerado. Ele temia que um ataque rápido lhe viesse pelas costas e lhe retirasse a vida, mas ao notar que Rumiko exibia um olhar tranquilo, com um sorriso despreocupado e ainda por cima estava à cantarolar baixinho, ele se acalma um pouco mais.
─ E agora? – diz um dos homens dentro do restaurante.
─ Bom... não podemos mais esperar. Avise o chefe de que vamos agir ainda hoje.
─ Hoje?
─ Ela já sabe de nossa presença, então não vamos perder mais tempo. Vamos agir hoje.
─ Muito bem. Já sabe aonde ir e o que fazer?
─ Sim. Deixa comigo. Partirei agora mesmo.
Espere um pouco... – um dos homens segura o outro pelo braço e observa a mesa preparada para quatro pessoas, com quatro refeições já pagas e prontas para serem servidas e uma garrafa de champanhe – ...não precisa ser tão rápido. Vai lá fora e chame os outros, eles devem estar com fome.
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