A Busca
10 Na loja de Roupas
Notas iniciais
Uma mulher loira, alta e muito bonita, que se vestia com roupas sociais e bem elegantes, olhou feio para Petruz e Rumiko, quando ambos adentraram em sua loja de roupas. Já era tarde, quase onze da noite e, por isso, a mulher achou que fossem um casal de mendigos ou pior, de assaltantes. Havia dois seguranças no local, um em cada lado da entrada e portando sabres e pistolas de choque pendurados no cinturão. Eles notaram a mochila-saco nas costas de Rumiko e perceberam as duas pontas de objetos parecidos com uma espécie de bastão saindo pela boca amarrada. Não fizeram, contudo, intenção de impedir o casal de entrar.
Um outro rapaz magro, também com madeixas louras e bem vestido, se aproxima de Petruz e pergunta rudemente o que ele quer. Petruz por sua vez não responde, ele simplesmente aponta com o queixo para Rumiko, que já ia mais à frente, desinibida como sempre, dando a entender que ele estava com ela. O rapaz então lança um olhar tão desprezível para Petruz que fez o ruivo ficar plantado no lugar, e caminha em direção de Rumiko.
A mulher loira também se aproxima de Rumiko, faz um gesto para o atendente ficar de olho no rapaz à porta e posta-se na frente da mocinha sorridente. Rumiko interrompe a caminhada e inclina-se rapidamente para mulher, dizendo um “oi” em japonês. A mulher, que pelo visto era a gerente ou responsável pela loja, não dá atenção necessária e pede educadamente para Rumiko se retirar, pois ela já estava fechando a loja. Rumiko desfaz o sorriso, passa uma olhada rápida pelo estabelecimento até onde seus olhos podem alcançar e comenta:
─ Mas a loja ainda está cheia de clientes, senhorita.
─ Eu sei, mas eles também já vão sair. Além do mais, não vendemos roupas de mau gosto como as suas.
─ Oro?
A mulher havia notado, abaixo da blusa e no lado esquerdo do peito da camisa que Rumiko usava, o sinal da Fahrenheit, nome de uma fábrica de roupas especializada em fazer, para os ocidentais, roupas no estilo nipônico. Rumiko não obtinha suas peças lá, pois as roupas orientais que ela usava eram originais japonesas ou chinesas. Mas ela gostava das camisas que eram feitas pela Fahrenheit, não pela aparência, mas sim pela textura usada. A ofensa da mulher, contudo, foi totalmente proposital e não foi dirigida à preferência de marca de roupa da mocinha. Ela havia visto algo do tipo acontecer em um filme americano, onde uma garota de programa era contratada por um milionário e passa a viver com ele, frequentando festas luxuosas e lugares maravilhosos, mas que não perde seu ar de “pobreza”.
Ela sabia que Petruz não seria “o milionário” em questão, por isso não corria riscos. Também achava que, com isso, iria jogar o orgulho de Rumiko no chão, fazendo com que ela se zangasse e decidisse assim, ir embora com raiva e não voltar nunca mais, tal qual fez a atriz do filme. No entanto, para a sua surpresa, Rumiko simplesmente deu risada do comentário da mulher.
─ A senhorita também não gostou das roupas de Rumiko? Então acho que preciso mudar meu figurino. Mas de qualquer forma, Rumiko não veio aqui procurar roupas para si, e sim, para o meu amigo ali.
A moça sorridente aponta para Petruz, que já estava próximo da porta de saída, desejando loucamente ir embora dali por causa do desconforto e embaraço que sentia. A mulher elegante cruza os braços e, com um sorriso cínico ela retruca:
─ Nós também não temos roupas para dar aos mendigos.
─ Não foi o que Rumiko quis...
─ Nós fazemos doações de vez em quando, no natal, quando sobra alguma peça que fica fora de moda. O que não vai acontecer esse ano, por isso, voltem no ano que vem e, quem sabe, talvez tenha alguma coisa para doar.
─ Mas Rumiko não disse que quer roupas doadas – a moça tira seu “ursinho panda” da mochila cilíndrica e estende a mão para a loira, de punho fechado e voltado para baixo – Rumiko está aqui para compra-las.
A mulher abre a mão instintivamente e Rumiko deposita sobre ela duas moedas de ouro. Os olhos da mulher arregalam ao mesmo tempo em que uma vergonha enorme toma conta de seu espírito, de forma tal, que ela quase ficou de joelhos e pediu desculpas. Rapidamente, ela acenou para seus dois atendentes mais experientes, e que na ocasião estavam ocupados com outros clientes, e pediu para eles darem total atenção à Petruz. Depois, ordena à outro rapaz, com o crachá de chefe de vendas no peito, que fique responsável pelo tratamento que seria dado ao ruivo. Rumiko cruza os braços e sorri pasma com o poder que o dinheiro tinha sobre as atitudes dos humanos. E fica pensando em como será que era o mundo dos negócios antigamente, antes do sistema de Barter perder o controle e o poder monetário começar a comprar até a alma das pessoas.
Petruz é convidado a sentar-se perto de uma área onde tinha vários locais para experimentar as roupas que comprasse. Os atendentes não se preocupavam mais nem com o estado do garoto, sujo e mal vestido, pois seguiam as ordens de sua chefa cegamente.
Petruz não queria abusar muito da bondade de Rumiko, então ele pegou apenas algumas camisas sociais, quatro calças, sendo duas Jeans, uma social e uma de moletom, e comprou também um tênis e dois pares de sapato dos mais baratos que pode encontrar naquela loja cara e chique. Além, é claro, de meias e das importantes roupas de baixo. Não pegou nada de muito esportivo, porque nunca foi um garoto muito aventureiro ou travesso.
Enquanto o ruivo experimentava as peças, com o máximo de cuidado para não sujá-las, a dona da loja se aproximou novamente de Rumiko com um sorriso amarelo no rosto.
─ Acho que esqueci de me apresentar. Meu nome é Fátima.
─ Hajimemashite, Fátima san. Rumiko desu – responde Rumiko também sorrindo, com a diferença de que seu sorriso era sincero – prometo que não vamos demorar muito.
─ Oh, não. Pode demorar o quanto for preciso.
─ Mas a senhorita disse que já estava quase fechando a loja.
─ Sim, eu disse, mas... acho que podemos esperar vocês se decidirem. Com calma, é claro. Vestir-se bem é uma arte demorada.
─ Arigato Gozaimasu!
A mulher permanece ao lado de Rumiko, meio nervosa, meio desconfortável. Se os tivesse atendido bem desde o início, se soubesse que a mocinha possuía moedas de ouro desde o início, ela saberia como se aproveitar da situação e poderia ganhar o dia, ou mesmo a semana inteira, só com aquela dupla. A fim de disfarçar uma abordagem, Fátima avisa novamente para seus funcionários cuidarem bem de Petruz e continua seu “negócio” por outro ângulo.
─ A senhorita não vai querer comprar alguma coisa? Temos roupas que ficariam muito bem na senhorita.
─ Domo Arigato, mas Rumiko não gosta do tipo das roupas que são vendidas aqui.
Fátima esbugalha os olhos. A resposta curta e direta de Rumiko veio como se fosse uma faca de gelo varando seu coração. Isso porque aquela era a loja mais cara, grandiosa e chique da região. Mulheres de várias partes da cidade vinham até ali no intuito de procurar roupas para uma ocasião especial. Para uma “criança” dizer aquilo, Fátima só tinha uma explicação em mente; achava que Rumiko estava dando o troco pela rudeza com a qual ela os tratou. Troco esse bem merecido, ela acreditava.
─ Ah, sim... Desculpe... – replica a mulher num tom baixo e reprimido – Eu não tenho um gosto bom o suficiente para lhe agradar...
No entanto, para uma nova surpresa, Rumiko balançou a cabeça negativamente e respondeu.
─ Chigau wa! A senhorita tem muito bom gosto para roupas. Mesmo com essas clientes chiques perambulando por aqui, a senhorita é a mulher mais bonita da loja. Rumiko só não acha que as roupas vendidas aqui ficariam bem nela.
─ Por que não?
Rumiko torce o bico, observando a loja e pensando numa resposta que satisfizesse Fátima. Gostaria de falar a verdade e dar uma resposta direta, afirmando que vestimentas que fazem as mulheres parecerem bonecas de porcelana, também eram, como ela costumava dizer, roupas de maricas(1). E por ser uma loja que vendia roupas para eventos especiais como festas ou reuniões, não havia nela uma seção feminina de peças esportivas, única seção que Rumiko procuraria se entrasse ali para comprar roupas para si. Resumindo, toda peça de roupa dedicada às mulheres se resumiam à saias curtas e apertadas ou longas e cortadas na lateral; vestidos de seda justos, com as costas à mostra; vestidos sociais com alças finas ou sem alças que se apoiassem na altura dos seios... enfim, somente peças belas, chiques e caras que enalteciam as partes mais voluptuosas de uma mulher. E Rumiko fugia disso. Levou muito tempo para vencer as fraquezas de sua feminilidade a fim de poder ser tratada pelos membros do Gen-Bu como um soldado e não como uma simples “mulherzinha”. Por esse motivo, ela não gostava de mostrar nem seus ombros. Rumiko observa o tratamento dado à Petruz e, numa última olhada para Fátima, ela vê que a mulher ainda esperava uma resposta.
─ Rumiko não tem o costume de ir à festas de gala ou eventos, senhorita Fátima – responde ela enfim.
─ Humm...! Acho que entendi.
Fátima deu uma olhada em Rumiko, examinando-a sem levantar muita suspeita. Era uma mocinha bonita, que infelizmente não tinha nenhum acréscimo à sua beleza natural de menina. Rumiko tinha cabelos negros, lisos e organizados e, embora estivessem envoltos numa única, ridícula e enorme trança, dava para se perceber que estavam um pouco ondulados pelo fato de eles serem lavados com uma frequência maior que a normal e por não serem penteados devidamente.
Seu rosto era limpo e aparentemente macio e sua pele clara e meio rosada era tão linda, porém tão judiada por sol, vento e chuva, que chamava desesperadamente por um bom tratamento de pó de arroz. Mas apesar disso, ela não tinha nenhum traço de maquilagem, nenhum pingo de creme facial, não possuía sequer furos nas orelhas, portanto também não usava e nunca usou brincos ou qualquer outro tipo de adorno nas orelhas.
Fátima, que apesar de ter herdado a loja de roupas de seu pai, também era dona de dois salões de embelezamento na cidade. Por isso, não se conformava como uma mocinha tão simpática, que parecia esconder por baixo daqueles andrajos um corpo que demonstrava ser um modelo perfeito para se experimentar todo e qualquer tipo de visual, pudesse ser tão descuidada consigo mesma. Quando Fátima disse que entendeu a resposta dada, ela na verdade achou que Rumiko não gostava de se vestir como uma dama.
Quando Petruz finalmente saiu de um dos vestiários, já tendo experimentado todas as roupas que iria levar, mas ainda usando seus trapos de mendigo, ele se aproximou de Rumiko e disse “Pronto!” com certa irritação. Rumiko olhou para a sacola de Petruz e viu que não tinha roupas o suficiente para se passar um fim de semana.
─ Senhor Petruz, o que o senhor está levando é pouco. Não tenha receio de pegar mais peças.
─ Estas são o suficiente. Depois compramos mais em outro lugar, se precisar. Vamos embora, por favor.
─ Hai! – Rumiko se volta para Fátima, lhe entrega a sacola que estava nas mãos de Petruz e pede para ela ver o quanto daria aquelas peças.
Com medo de gastar o dinheiro de Rumiko, Petruz pegou peças de roupas que lhe agradasse, mas que não fossem muito caras. Nisso, o resultado final foi de quase a metade do valor referente à uma moeda de ouro, ou seja, menos que 500 bedinas. Como Rumiko mostrou à Fátima duas moedas logo de cara, a mulher tentou incentivar Petruz a gastar mais. Mas Petruz não foi seduzido pelo poder de venda de Fátima e, irritado por causa da mudança de tratamento da mulher, lança um olhar penetrante e odioso para Fátima e se retira antes de Rumiko, ficando a espera dela lá fora. Sempre foi tratado como um príncipe em qualquer lugar que chegasse. E agora, ser visto como um indigente era muito difícil para ele. Mas também era bom, porque lhe estava sendo mostrado um mundo que ele só via pelos mesmos olhos de pessoas fúteis como Fátima.
─ Por que será que ele está tão bravo? – diz Rumiko em voz alta, enquanto olhava Petruz se afastar.
Rumiko entregou uma moeda de ouro ao caixa e pediu para Fátima adicionar duas blusas masculinas, das mais caras e mais quentes que ela tivesse e duas blusas comuns, de tecido mais simples. Peças que Petruz não havia comprado porque o valor das mesmas estava alto devido ao tempo frio que fazia. E também porque sua sensatez o avisou que o dinheiro não era seu.
Assim que recebe o troco, Rumiko agradece ao rapaz do caixa, pega as duas enormes sacolas e se despede de Fátima. E quando chega quase próxima da porta de saída, no momento em que Petruz volta e pega as sacolas de sua mão, Fátima pede para que ela espere. O coração da dona da loja estava apertado demais e ela precisava se desculpar com os dois, principalmente depois de lembrar da cara de raiva com que Petruz olhou para ela. Então Fátima se aproxima de Rumiko e se desculpa formalmente.
─ Senhorita Rumiko, eu... Eu gostaria de me desculpar pelo modo como os tratei.
─ Do que está falando? A senhorita nos tratou como clientes.
─ Não... eu me refiro à rudeza de como os tratei assim que chegaram aqui. Espero que possa me perdoar.
─ Daijôbu desu, yô(2)! – responde Rumiko mostrando seus dentes num largo sorriso – Rumiko não se ofendeu com nada do que a senhorita disse.
─ Não mesmo?
─ Uhn! Existem duas regras no mundo dos negócios de vendagem. Uma delas é que o freguês é medido por sua aparência. Se o cliente parecer-se com um pescador, você não deve vender à ele um peixe, mas sim, uma vara de pescar. Meu mestre me ensinou isso.
─ Sim, você está certa. Meu pai, o antigo dono desta loja, também me ensinou algo parecido, mas eu acho que não estou dando conta do recado. Essa regra não nos dá o direito de tratar alguns clientes como se fossem lixos.
Realmente, Fátima se recorda que, quando a loja ainda era comandada por seu pai, havia uma clientela maior e mais fiel. Depois que ela assumiu e mudou a política da loja, como parar de doar roupas com defeitos e priorizar a vendagem ao máximo possível, mas sem facilitar para o comprador, a frequência de aparição dos fregueses não sumiu, mas diminuiu de certa forma. Porém a visão de Rumiko estava acima disso, então ela acalma o coração da moça.
─ Esta regra é a que alimenta seus filhos e filhas, senhorita Fátima. A senhorita deve parar de se culpar agora. Melhorar seu ponto de vista dos futuros clientes é uma coisa boa, mas não mude por nossa causa, porque Rumiko entende perfeitamente o porquê da senhorita ter nos destratado.
─ Entende mesmo?
─ Uhn! Se Rumiko tivesse uma loja de roupas ou de qualquer outra coisa, gostaria que ela fosse administrada por alguém como a senhorita. Vosso pai deve estar orgulhoso de você.
Rumiko se curva em reverência à Fátima e se volta novamente para a saída. Antes de ela atravessar a porta, Fátima grita:
─ Você sabe qual a outra regra importante do mundo dos negócios?
─ O cliente sempre tem razão – responde Rumiko com seu animado jeito de ser.
A moça sai pela porta, acenando com a mão num último gesto de despedida e some da vista de Fátima. Lá fora, Petruz irritado com a espera começa a falar bobagens sem sentido, referente à demora da moça, enquanto Rumiko tenta se desculpar.
Meia hora depois, a loja já estava quase vazia, então Fátima chamou seus empregados e disse-lhes para avisar aos clientes restantes que iriam fechar. Depois ela chama o chefe de vendas, aquele que serviu Petruz tão bem, e lhe diz para reunir todas as peças de roupa que estava há meses num enorme quarto ao fundo da loja, e que seriam devolvidas à fábrica no fim daquele mês. Pede também para ele colocar junto a essas roupas, as peças da loja que não seriam vendidas por estarem com defeitos como manchas e costuras mal feitas, e também as roupas que estavam ali na vitrine há tempos e que também não seriam mais vendidas. O rapaz repassa as ordens aos empregados da loja, que começam a fazer o serviço imediatamente para poderem ir para suas casas descansarem. Num dado momento, o chefe de vendas se aproxima de Fátima e pergunta:
─ Vai misturar categorias diferentes de roupas não vendíveis. O que a senhora vai fazer com tantas peças roupas?
─ Vamos doar – responde a mulher com um sorriso verdadeiro, raramente visto em seu rosto.
─ Doar? – pergunta o rapaz confuso.
─ Sim. Tem uma casa ótima aqui perto... Uma espécie de exército da salvação para as vítimas que ainda sofrem os sintomas do fim do mundo, e que aceita doações de roupas e comidas. Fica logo adiante, no fim da rua que cruza essa em frente.
─ Eu sei, mas... Doar? Até mesmo as roupas que estão na vitrine?
─ Elas também. Além do mais, precisamos trocar as roupas da vitrine de vez em quando, não é?
─ Mas teremos de pagar por aquelas roupas, minha senhora. Seria melhor tentar devolve-las, como você sugeriu e sempre fez desde que assumiu a diretoria.
─ Não, tudo bem, eu pago.
Fátima se aproxima da vitrine e vê outros clientes de ainda a pouco, sumindo aos poucos na escuridão da noite, indo em direção à cadeia de alojamentos da cidade, procurando um ponto de táxi ou um lugar para dormir. Logo, ela murmura em voz alta.
─ Eu sinto que a presença dessa moça aqui hoje não foi coincidência.
─ O que quer dizer, senhora?
─ Eu me sinto como se... Como se minha alma já estivesse com um pé no inferno e, de alguma forma, essa moça veio me avisar disso para que, assim, eu pudesse encontrar um jeito de me salvar.
O rapaz observa sua patroa com cara de perdido e ela, em contrapartida, diz para ele esquecer o que acabara de ouvir e manda o rapaz voltar ao trabalho. Novamente sozinha com seus pensamentos, Fátima mentaliza o rosto de Rumiko com aquele sorriso largo e brilhante, e com a voz baixa e cheia de emoção, diz um “obrigado”.
Fale com o autor