A Busca

11 A New World Order - Parte 1


Petruz olhou para a sacola de roupas em suas mãos, não acreditando no que acontecia consigo. Desde que perdeu seu pai e passou a morar nas ruas, ninguém lhe dava sequer um “bom dia”. Mas agora que conheceu essa estranha mocinha, os momentos que estava passando ao lado dela pareciam um sonho.

Ele se recorda com pesar do momento no restaurante, em que ele apagou a chama de alegria da moça, quando ela indiretamente o convidou para participar de sua busca. Seriam aventuras perigosas e ele realmente não queria se envolver, mas seu coração estava meio incomodado com o trabalho que tem dado à moça até então, sem dar nada em troca.

─ Prometo que assim que puder, eu lhe pago por isso, Rumiko – diz Petruz, adiantando o passo.

A moça abre seu sorriso carismático para ele, mostrando-se feliz por ver que ele está mais equipado contra o tempo.

─ Daijobu Desu! Considere isso como um presente, senhor Petruz. Rumiko não espera e nem quer que o senhor me pague de volta.

─ Até blusas você comprou. Elas estavam tão caras.

─ Uhn! Agora o senhor já pode devolver o Hanten de Rumiko.

─ Hanten? – Petruz leva alguns segundos para perceber que Rumiko falava do casaco nipônico que ele ainda estava usando.

─ Oh! Claro... desculpe.

─ Não precisa ser agora, senhor – a moça ri com o desespero do garoto, tirando a blusa no meio da rua e no frio.

Petruz se ajeita, arrumando o Hanten sobre o corpo e pronuncia entristecido.

─ Hum... Você está chateada comigo?

─ Orô? – Rumiko inclina a cabeça para o lado – Dôushite?

─ Quando eu disse que não queria me envolver em seus planos futuros, você pareceu meio desapontada.

─ Gomen Ne. Rumiko está envergonhada por deixar escapar seu desaponto. Mas Rumiko entende o senhor, afinal, como dito, isto não é nenhum turismo. Fique comigo só por hoje senhor. Amanhã Rumiko promete que o deixa em paz.

Petruz engasgou. Não era bem assim que ele via a situação. Rumiko pode ter sido a primeira assassina que Petruz conheceu, mas ele já sabia que pessoas assim existiam. Afinal, ele era filho de um político adorado pelo povo, portanto era respeitado por uns e odiado por outros. Por esse motivo, não foram poucas as vezes em que alguns “amigos” de seu pai lhe ofereciam opções de serviços relacionados aos conhecidos “assassinos sequazes”, para acabar com aqueles que queriam ver o mal dele. E como o bom judeu temente à Deus que sempre foi, Álvaro jamais aceitou.

Os dois jovens andaram em silêncio por longos minutos até que chegam em um local onde edifícios e moradias de vários tipos alugavam quartos para passarem a noite. Com o mundo em pedaços do jeito que estava, era muito comum encontrar cadeias de aluguéis por toda a parte, desde hotéis, motéis e os famosos e crescentes sleep-and-breakfast, que nada mais eram do que casas ou prédios construídos unicamente para visitantes e transeuntes pernoitarem. Até mesmo as moradias enormes que antes pertenciam a alguém importante ou de posse e que hoje estão abandonadas, são postas para alugar para várias pessoas e mesmo famílias.

Rumiko entra em um dos prédios, sem sequer escolher se há um melhor entre os muitos deles e se aproxima do balcão, olhando em seguida para Petruz, que se posiciona ao seu lado. E assim fica, imóvel por alguns segundos, encarando Petruz com um olhar perdido e apagado.

Rumiko dava a impressão de que olhava para Petruz, mas sua visão real focalizava um homem de blusa cáqui perto da porta, conversando com um dos guarda-costas que tomava conta do motel. Mais uma vez, ao saírem da loja de Fátima, ela havia notado que um homem parecia os seguir e por isso escolheu um motel a dedo. Aquele homem entrou logo em seguida, pedindo informações para disfarçar. Ele não sabia que seu plano não deu certo. Rumiko o havia percebido.

─ O quê? – Petruz retorna o olhar para ela – O quê foi?

O olhar da moça volta a brilhar novamente.

─ O senhor se importa de dividir um quarto com Rumiko?

─ Hã...? Ah, bem eu... Tudo bem...eu acho.

Petruz não tinha a pretensão de dormir no mesmo quarto de uma garota, mas não desaprovou a ideia. Percebendo o embaraço do ruivo, a moça lhe oferece:

─ Se quiser, Rumiko pode pagar um quarto separado para o senhor.

─ Mas o que é isso? – intervém o homem que estava atrás do balcão – Vocês estão brigados ou algo assim? Isto aqui é um motel. Se vocês são namorados devem dormir juntos.

─ O senhor tem razão – replica Rumiko rindo sem jeito, remexendo no seu “ursinho panda” – um quarto, por favor.

─ Duas centopeias, senhorita.

─ O que? – espanta-se Petruz – duzentas bedinas? Mas isso é um absurdo.

─ Heki da yo! – Rumiko concorda, colocando as cédulas no balcão.

─ Mas Rumiko... esse lugar... – Petruz abaixa a voz para o balconista não ouvir – esse lugar é uma espelunca.

─ Heki, Heki! – a moça abana a mão, num gesto nipônico que Petruz não entende.

O raciocínio rápido de Rumiko fez com que ela deduzisse que essa seria a melhor opção. O homem ao fundo, que chegou pouco depois deles, era um dos que Rumiko vira há pouco mais de uma hora atrás, no lado de fora do restaurante. Fingia pedir informações para o guarda-costas, mas na verdade ele estava à espreita de Rumiko, pois sabia que só havia dois lugares para ela passar a noite. Por ali, que era a segunda cadeia de motéis da região, ou pela primeira, situada a quilômetros de distância daquele local, em direção oposta à loja de roupas que Rumiko entrou, e que também estava sendo vigiada por outro homem.

Rumiko queria que Petruz dormisse em um quarto separado, pois assim ele não correria riscos. Mas quando o balconista fez menção de eles serem namorados, a cabeça de Rumiko criou uma série de dúvidas, filtrou-as em muitas opções e rapidamente escolheu a melhor delas. Petruz era de menor, aquilo era um motel e um casal não poderia dormir separado a menos que contratassem os acompanhantes horrorosos oferecidos pela região, como prostitutas e garotos de programa, e que tinham permissão dos estabelecimentos para oferecer seus serviços e se disponibilizavam para os solteirões de plantão.

Rumiko escolheu um motel caro, apesar de vagabundo, porque esses atributos lhe davam os ingredientes que ela precisava no momento. Por ser vagabundo, os clientes não poderiam reclamar muito do atendimento e, portanto não seriam incomodados com “serviço de quarto”. E por ser caro, o estabelecimento tinha como política não futricar na vida do casal em questão e muito menos dar informações sobre os mesmo à terceiros. Muitos assassinos, conspiradores e até políticos se valiam desse artifício para suas noites proibidas e, portanto, apreciavam lugares assim.

Os motéis, no entanto, não permitiam que alguém de menor contratasse um dos acompanhantes sem antes fazer um levantamento sobre a vida da pessoa e se acaso descobrissem quem Petruz era na realidade, se acaso descobrissem que ele era filho de um governador famoso e que hoje vivia como um mendigo, de uma forma ou de outra a ligação dele com o assassinato daquele dia seriam interligados. Esse fato envolveria muitas pessoas que Rumiko queria evitar encontrar naquela noite. E já havia muitos policiais pelas redondezas, aborrecendo a população e os comerciantes. Ficarem no mesmo quarto evitaria metade dos problemas e por isso Rumiko decidiu aceitar o palpite do balconista de dormirem juntos.

Os dois sobem ao segundo dos quatro andares, onde ficavam as primeiras acomodações dos amantes, e entram no quarto correspondente ao da chave que receberam do balconista. Dentro havia uma cama de casal velha e ainda desarrumada com uma mesinha ao lado, uma TV com cabo pirateado, embora que mais da metade dos canais estavam ainda fora de sintonia, um ventilador quebrado no teto e, em uma das paredes, um guarda roupa, com roupões de banho, toalhas, cobertores e lençóis. O quarto era enorme, tendo apenas como adição um banheiro com a porta deslizante feita de tiras de madeira. Do lado oposto ao da porta, havia uma janela, também velha e que parecia não ser nada segura. Mas como eles estavam no segundo andar, isso pouco importava.

Rumiko caminha até a cama e coloca sua mochila sobre o móvel. Petruz, mais por timidez do que por cavalheirismo, e imaginando que não haveria nenhuma chance de ele e Rumiko dormirem na mesma cama, já se adianta:

─ Você pode dormir na cama se quiser. Já faz tempo que durmo no chão mesmo.

─ Dame! Rumiko também não vai dormir na cama, senhor. É muito macia para meu gosto.

─ Macia? – Petruz senta-se sobre o móvel – Ela parece que foi feita em cima de blocos de concreto.

─ Rumiko vai dormir no chão, senhor Petruz. O senhor pode dormir onde melhor lhe agradar.

A moça retira sua Shikomizue da mochila-saco e entrega ao rapaz, que fica olhando para a arma sem entender.

─ Se o senhor não se importar, Rumiko vai tomar banho primeiro. Fique com minha Shiko Mizu no Ryu e tome cuidado.

─ Tomar cuidado? Tomar cuidado com o que?

─ Os homens do restaurante estão aqui.

Os olhos de Petruz demonstram um espanto repentino. O jeito despreocupado de ser de Rumiko emitia tanta tranquilidade e paz de espírito, que o ruivo havia esquecido completamente dos homens mal encarados que os observavam pouco tempo atrás.

─ Rumiko ainda não sabe quem são ou o que querem, mas tem quase certeza de que eles irão nos atacar esta noite.

─ Como você sabe?

─ Um deles entregou algo para o vigia do motel. Rumiko não sabe ao certo o que foi, mas tem quase certeza que era uma quantia em dinheiro.

─ Oh meu deus... Então vamos sair daqui.

─ Dame yo!

─ “Não”? Porque não? Acha que é seguro ficarmos aqui?

─ Hai! Já disse que não precisa se preocupar. Fique de alerta enquanto Rumiko toma um banho. E se o senhor perceber qualquer movimento na porta, o senhor chama por Rumiko.

A moça retira sua blusae a joga na cama. Depois abre sua mochila, pega uma toalha cor de rosa, uma pasta de plástico em que parecia ter uma vestimenta dobrada e um pequeno nécessaire, também de plástico, só então entra no banheiro de calça de moletom e camisa, para finalmente se despir por completo.

A água do chuveiro era quente, mas como Rumiko estava querendo se banhar desde quase dois dias atrás, ela não se importaria se o chuveiro só cuspisse água fria, como era comum nos motéis vagabundos de esquina.

Petruz se sentou na cama e ficou observando o trinco da porta, com a espada de Rumiko nas mãos já desembainhada e apontada para a entrada. Ele não sentia, mas podia ver a lâmina da espada tremer. Estava com medo, e o medo induzia sua imaginação a fazer com que ele, de vez em quando, visse o trinco da porta girar, mas não sabia dizer se era por isso que tremia. Ele fecha um dos olhos por causa de uma gota de suor que lhe cai nos cílios. Foi só então que Petruz percebeu que estava, além de nervosismo, suando também de calor. O tal do Hanten de Rumiko era realmente quente e confortável, por isso a tarde fria e a noite gelada daquele dia não lhe incomodaram tanto quanto nos dias anteriores, em que ele ainda tinha seu cobertor, que era velho, sujo e remendado, mas era quente. E agora que estavam dentro de um cômodo aquecido por ar condicionado, aquela jaqueta japonesa estava incomodando e ele decidiu tirar.

No banheiro, Rumiko cantava uma música que, por estar em japonês, era desconhecida para Petruz. Era uma música lenta, suave e, com a ajuda do timbre macio e perfeito da voz de Rumiko, se tornava uma música muito bonita e agradável de se ouvir, mas parecia falar de algo triste. Petruz se lembrou que essa era a mesma melodia que Rumiko cantarolava quando saíram do restaurante.

Quinze minutos depois, Rumiko sai do banho, sorrindo aliviada com o frescor proporcionado pela ducha quente e abundante. Era inegável que o lugar, apesar de horrível, era caro demais para se dormir, pois o quarto era espelunca, mas o chuveiro valeu cada centavo gasto.

A moça trazia numa das mãos as roupas que trajava ao entrar no banheiro e agora usava um pijama, cuja calça e a blusa eram de uma seda brilhante muito bonita, de cor azul bem claro e com bolinhas brancas. Na outra mão ela trazia sua nécessaire que, agora suada pelo vapor, vinha enrolada na toalha. Aos seus pés, um par de pantufas em forma de coelhinho de cores rosa e branco. Eram até bonitinhas, mas deixava a cena meio engraçada, já que Petruz não conseguia tirar da mente o inegável fato de que ali à sua frente estava uma assassina. Além do mais, ainda estava amedrontado com um possível ataque surpresa em que ele, desta vez e provavelmente, tomaria parte.

Mas não estava tão assustado para deixar de perceber a beleza natural de Rumiko. Ele até então só havia visto a moça de trança e com roupas largas e pesadas, que não lhe faziam justiça. Mas agora, de cabelos soltos e molhados, usando um pijama que tinha exatamente o seu número e que, portanto, desenhava bem a silhueta de seu corpo, ela parecia outra pessoa.

A moça coloca o estojo plástico sobre a mesa ao lado da cama, inclina o corpo para o lado e segura seus cabelos com a toalha, depois esfrega-os com as duas mãos, secando-os.

─ A água está ótima, senhor – diz ela descontraída – Pode ir agora se quiser.

─ Sim... É claro que eu quero. Tomar um banho quente depois de tanto tempo vai ser bom.

─ Retire as bandagens antes de entrar no chuveiro e lave a lesão com bastante água. Depois nós enrolamos seu braço de novo.

─ Está bem.

Petruz entrega a espada para sua colega de quarto e pega uma toalha no guarda roupa, correndo para o banheiro. Rumiko recoloca sua shikomizue na bainha, põe a arma embaixo da cama, envolve a toalha na cabeça e, em seguida, começa a secar seus cabelos mais apropriadamente, totalmente despreocupada com seus supostos perseguidores.

No andar de baixo, do lado de fora do motel, um dos homens que vigiava a moça acaba de colocar no gancho o telefone que usara para fazer uma ligação ao bairro vizinho. Havia chamado os outros dois homens que estavam se dirigindo para a outra cadeia de motéis, onde ficariam de tocaia para o caso de Rumiko aparecer por lá. Levaria um tempo até eles se reunirem de novo, mas nenhum deles tinha permissão para atacar Rumiko sozinho, então estavam loucos para se reencontrarem, pois estavam sedentos por um pouco de ação.

Petruz passou bons quarenta minutos no banho. A água estava realmente maravilhosa, talvez porque fazia tempo que ele queria e muito tomar um banho de verdade. Enquanto se deliciava abaixo daquelas águas quentes e abundantes ele, num dado momento, vê a escova de dente de Rumiko dentro de um compartimento rosa e transparente, e ao lado um tubo de creme dental. Petruz se aproxima da pia, desejoso de escovar seus dentes também, mas ainda precisava comprar uma escova.

Foi aí que ele viu a si mesmo no espelho e se assusta com a própria imagem. Estava cadavérico, com os ossos da face marcando a pele e os olhos profundos. Fazia muito tempo que não via a si próprio e imaginava que estivesse horrível, mas não tanto. O ruivo havia comido tanto naquela noite que seu estômago chegava a doer, por isso sabia que, quando sua digestão começasse a trabalhar, ele recuperaria sua aparência natural, ou ao menos parte dela. Mas mesmo assim, não podia ignorar que, agora, ele estava assustador.

Ele coloca a mão no espelho, deslizando os dedos sobre sua imagem refletida e se pergunta como Rumiko teve coragem de chegar perto daquele indigente quase moribundo. E o mais impressionante; ela não fez cara de nojo ou desdém nem uma vez sequer. “Que menina...” – ele pensa abaixando o rosto e focalizando novamente o porta-escovas de dente. Com um profundo aspirar do vapor das águas quentes, Petruz volta para baixo do chuveiro, por onde fica por mais quinze minutos antes de finalmente o desligar, se secar, se vestir, já com suas roupas novas, e sair.

Rumiko, durante o tempo que Petruz ficou no banheiro, havia secado e trançado seus cabelos, e agora estava terminando de ler, pela segunda vez, a revista que falava de Oz. Sentada sobre a cama e com as pernas dobradas, a moça, assim que viu o ruivo, fechou a revista e lhe lançou um olhar de afeto. Agora limpo e com os cabelos sedosos e brilhantes, visivelmente mais leves agora que estavam completamente livres da sujeira acumulada por tantos meses, Petruz ainda estava longe de ser o que era, mas já parecia outra pessoa.

─ Sente-se melhor, senhor Petruz?

─ Sim. Muito melhor. Sinto que preciso tomar mais uns dois ou três banhos ainda hoje para ficar completamente limpo, mas por hora, estou ótimo.

─ Que bom.

O ruivo lança um olhar descontraído para as mãos de Rumiko:

─ Lendo essa revista de novo?

─ Hn! Rumiko não entendeu uma coisa e queria ver se não deixou passar algo.

─ Rumiko, essa revista é feita para o público juvenil. Não vai achar nada profundo sobre uma criatura que ninguém sabe que existe numa revista feita para crianças.

─ O senhor tem razão.

Petruz senta-se na cama ao lado da mocinha e pede a revista para dar uma olhada.

─ Desculpe, não queria jogar água fria em seus sonhos.

─ Nani? – o provérbio era estranho para a moça.

─ O que você não entendeu?

─ Rumiko ouviu uma coisa sobre Oz, que essa revista também confirmou, de que ele é capaz de predizer o futuro.

─ Ora, e o que é que tem de mais? Muita gente faz isso, ou ao menos pensa que faz.

─ É isso que Rumiko não entende. O dom de presciência de Oz é citado como único. Mas como pode ser único se esse é um dom tão comum, mesmo entre os charlatães e enganadores.

─ Acho que não entendi.

─ Oz não prevê o futuro – Rumiko semicerra os olhos – ele deve ter um dom tão inefável, que os romancistas e jograis o disfarçaram com essa história de adivinhar o futuro.

─ Romancistas? Rumiko... – Petruz deixa escapar um riso – ...não leve muito a sério essa história de mágico de Oz. Lembra-se da história infantil que aborta um tema parecido? O Oz ali não passava de um impostor, um enganador, um charlatão.

─ O senhor tem razão e Rumiko espera que esteja certo.

─ Hã? Por quê?

─ Porque se Oz for um impostor, significa que ele existe. E se ele existe, Rumiko vai encontra-lo.

─ Seu otimismo é contagiante.

─ É sim.

─ Mas se ele existir e for um mentiroso, você não vai ressuscitar seu mestre.

─ Sim. O maior motivo de Rumiko querer viajar pelo mundo à procura por Oz é saber se ele é capaz de realizar o poder de ressurreição. Mas Rumiko também tem o desejo de conhecer o mundo que meu mestre viu e ficou fascinado.

─ Nesse quesito eu também fiquei curioso. Tem oito anos que estou nas ruas e não entendo bem como o mundo está funcionando. Pessoas armadas com espadas, esse negócio de nova geografia, os locais chamados de zonas vermelhas... Vejo isso nos jornais e não entendo nada.

─ Acho... – Rumiko se ajeita na cama expressa um sorriso enorme –...acho que Rumiko pode ajudar nisso, senhor. Rumiko gosta muito de Neo-Política. O que deseja saber?

─ Bom...

Petruz coça a cabeça, pensando. Não tinha realmente nenhuma dúvida que lhe despertasse interesse, afinal, nunca foi de ligar para a vida dos outros. Mas notou que Rumiko estava ansiosa para dizer o que sabia. Chegou a pensar que ela queria mostrar que sabia mais do que ele, um legítimo filho de político.

─ Quer se exibir? – ele pergunta de modo capcioso.

─ Uhn! – Rumiko assente com a cabeça – Rumiko quer sim.

O ruivo ri, percebendo que a moça não entendeu o significado da palavra “exibir”, ou então entendeu de outra forma, já que sua modéstia era algo que facilmente se misturava com sua ingenuidade.

─ Fale-me sobre... Fale-me sobre o uso dessas armas japonesas. O mundo agora parece que virou um Japão da época dos samurais.

─ Isso é um jeito genérico e pequeno de se ver as coisas senhor. Vivemos num mundo onde a lei que impera é a conhecida como Lei do Aço. O Japão teve seus anos de fama, que de tão famosos eles são retratados até hoje, mas a espada já foi usada como arma em praticamente todos os cantos do planeta, em alguns lugares muitos anos antes do Japão. A primeira espada do mundo, por exemplo, pertenceu ao fundador e primeiro rei da Acádia(1), que viveu há milhares de anos atrás.

─ Ah é?

─ Uhn! Hoje essa espada está com o rei Sartus II e é considerado um dos maiores tesouros do mundo e o maior bem que um esgrimista pode possuir.

─ Não sabia disso. Bom, então... e porque estamos vivendo essa... Lei do Aço? Como o mundo ficou desse jeito?

Rumiko respira fundo e puxa da memória tudo o que leu e ouviu de Gengetsu.

Notas finais
1- Rei de Acádia ou Ácade - Seu nome era Sargão. Ficou conhecido como Sargão de Acade ou o Grande Rei e sua espada, considerada a primeira do mundo, foi encontrada no seu túmulo. Sargão morreu há mais de 5 mil anos, mas até hoje, quando se fala em "espada", automaticamente as pessoas só pensam nos samurais.