A Busca

42 Riscando Vargas


Cidade de Saltos, alguns momentos depois do meio dia. No momento em que ia receber o almoço trazido pelo serviço de quarto, o celular de Vargas vibra em seu bolso. Ele abre a porta e espera um rapaz novo e uniformizado entrar, empurrando um elegante carrinho de refeição, típico do hotel. Vargas indica um lugar para deixar o carrinho, sai para o corredor e atende o celular, recostando-se na parede.

─ Senhor Vargas? Eu sou do centro de controle de tarefas e missões da NERAK. Tenho uma ordem pessoal do diretor da Força à ser transmitida ao senhor.

─ Pode falar.

─ O caso de Rudolf não é mais seu. Então, está dispensado dele.

─ O... O quê? O que quer dizer?

─ O senhor deve estar sabendo que um embaixador foi assassinado.

─ O senhor Lomar. Sim, eu sei, e daí?

─ Não me foi dado detalhes, mas pelo que ouvi, o assassino de Lomar é o mesmo de Rudolf, por isso, o caso foi passado para outras pessoas da Força NERAK.

─ Isso é um absurdo!

─ Já foi decidido. Mas pode ficar tranquilo. Mesmo fora do caso, se o senhor acompanhar as notícias à partir de agora na televisão, verá chamadas jornalísticas referentes ao assunto, dando créditos ao senhor e seu excelente trabalho. Será reconhecido e...

─ Eu não ligo para fama. Eu e meu parceiro estamos 100% a par do caso. Se nos deixar nele apenas como equipe de apoio e...

─ Sinto muito, senhor Vargas, isso não é problema meu. E falando nisso, avise seu pupilo também. O caso ficará nas mãos de uma equipe totalmente nova. Tenha um bom dia, senhor Vargas.

O telefone é desligado e Vargas, cabisbaixo, entra em sua suíte e senta-se pesadamente no sofá. A grande bandeja com o almoço foi posta na cozinha, sobre uma bela mesa de pedra. O cheiro era tão bom que chegava até o quarto ao lado, mas Vargas não se levantou. Havia perdido até a fome, tamanha foi sua decepção. E com o celular ainda em mãos, discou um número tão conhecido por ele que nem precisou olhar para os teclados.

─ Sim? – atende uma voz masculina.

─ Senhor Kato...

Vargas fica mudo por um momento, até que Katou retorna:

─ Senhor? Tudo bem com o senhor?

─ Sim, eu... Não! Não estou nada bem.

─ O que aconteceu?

─ Eu não sou de fazer rodeios então vou direto ao ponto. Estamos fora do caso Rudolf.

─ Pode me dizer por quê?

─ Parece que nosso assassino é um do tipo serial, então eles deixaram o caso nas mãos de uma equipe preparada para esse tipo de serviço.

─ Entendi. Que pena não?

─ É sim. E Kato... Quero que saiba que você fez um trabalho excelente. Se a Força chegou nessa conclusão não foi sem a sua ajuda.

─ Sem a nossa ajuda, senhor. Mas tudo bem. A gente até que se divertiu.

─ Estou orgulhoso de você como seu treinador e... Droga! Desculpe filho. Sei que, para você, só o fato de participar desse caso já era um grande sonho seu.

─ Trabalhar com o senhor era um grande sonho meu. Passo por aí amanhã, senhor. Vamos beber alguma coisa.

─ Até, então.

Vargas desliga o celular e deita-se no sofá.

─ Acho que vou mudar de profissão – ele diz massageando a testa – Quem sabe... vender cachorros-quentes. É... talvez seja uma boa.

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O assassinato de Lomar saiu em todos os noticiários e programas interativos com grades voltadas à informação, mas durante toda a parte do dia, nem Rumiko e nem Petruz tiveram tempo de conferir. Rumiko sabia que agora as coisas iriam acontecer mais rápido, dado o valor e a fama da vida de Lomar e, portanto não poderia perder muito tempo, pois era chegado o momento de matar Velasqueses, o ex-presidente do Brasil e a maior cabeça de sua lista. E para sorte de Rumiko, ele também se encontrava na cidade-estado de Jaú. O único problema é que ele estava em outro bairro, bem distante dali e a ocasião propícia para que ele caísse na armadilha que Rumiko vinha arquitetando desde o primeiro dia aconteceria em menos de 24 horas.

Rumiko tinha um plano que envolvia os três alvos e, se tudo corresse bem, quando chegasse a vez de Velasqueses, ela deveria estar com muito tempo sobrando. Só que, ao conhecer Petruz logo no início da jornada e dedicar alguns momentos para satisfazer as necessidades dele, ela perdeu um tempo pequeno, porém precioso. Não estava reclamando e muito menos arrependida, mas se ela quisesse terminar o serviço em Vera Cruz, então os dois teriam que caminhar mais rápido que o previsto. Ainda tinham a proteção do anonimato, pelo fato de ninguém conhecer seus rostos, então tinham de tirar proveito disso para ganhar terreno.

Quando o fim daquela tarde chega, os dois decidiram parar numa pequena colina gramada e florida, em baixo de uma bela árvore de copa frondosa, para fazer um lanche e descansar um pouco da dura viagem que fizeram até então.

─ Pelos deuses – Petruz retira seus tênis para aliviar os pés – nós andamos quase que o dia inteiro. Ainda falta muito Rumi?

A moça, que usava guardanapos como proteção nas mãos enquanto preparava alguns sanduíches com os ingredientes comprados na última mercearia que visitaram, se vira para Petruz com um rosto surpreso e engraçado.

─ O senhor... O senhor chamou Rumiko de “Rumi”?

─ Hã? – o próprio Petruz não tinha se ouvido quando falou aquilo – S-sim... Desculpe!

─ Isso é um modo carinhoso de se referir ao nome de Rumiko?

─ É sim! – o rosto de Petruz enrubesce – Desculpe, eu não... Se você não gostou, eu...!

─ Daijobu! – a moça começa a sorrir e entrega um sanduíche para Petruz – Rumiko adorou ser chamada assim. Isso mostra que o senhor e Rumiko são amigos íntimos.

─ Mesmo? Não tem problema eu te chamar assim?

─ Hai! Daijobu desu!

Petruz começa a saborear o sanduíche feito pela menina, evitando o olhar dela. “Daijobu”... Petruz adorava ouvir aquela palavra. Significava que estava tudo bem, seja qual fosse a situação. Já havia outras poucas palavras que ele, embora não soubesse a tradução exata, desconfiava mais ou menos o que a moça queria insinuar, baseando-se apenas no tom de voz que ela usava.

Quando o sol se põe por completo e a noite começa a se dominar, a moça ergue-se e argumenta com a voz ainda sob o efeito de um bocejo:

─ Senhor Petruz, Rumiko gostaria de continuar a caminhar, mas se o senhor precisar descansar...!

─ Ei, ei... Espere Rumi. Eu não quero atrapalhar. Não tenho feito nada útil até agora, por isso quero evitar ser um estorvo para você.

─ O senhor não é um estorvo para Rumiko.

─ Tá bom. Mas vamos continuar!

─ O senhor tem certeza?

─ Claro! – Petruz calça os tênis e bate os punhos no peito, demonstrando disposição – Vamos continuar.

─ Arigato – a moça inclina um pouco o corpo – Arigato gozaimasu!

─ Bom... “De nada”! Vamos lá!

Os dois pegam suas respectivas mochilas e Rumiko aponta para um comércio luminoso à distância:

─ Antes, vamos só passar naquela loja de conveniências. Rumiko precisa comprar mais umas coisas para passarmos a noite.

─ Claro!

Chegando no estabelecimento, Petruz separa-se de Rumiko e vai olhar outras coisas de seu interesse. A loja era grande, quase um supermercado, com seções para mantimentos, ferramentas de obras, materiais escolares. Petruz olhou tudo, não achou nada que lhe chamasse a atenção e decidiu se reunir com Rumiko. Quando a encontrou, num corredor vazio, viu que a moça estava paralisada, com duas garrafas de suco de laranja numa das mãos e na outra uma pequena cesta de compras do estabelecimento com vários itens dentro. De cabeça erguida, observava seriamente um televisor pendurado no teto, cuja matéria exibida lhe tomava toda atenção.

O ruivo olha para a T.V e vê a transmissão de uma matéria jornalística falando do caso Lomar. Era o assunto mais importante do dia e já era reprisado pela terceira vez naquele mesmo jornal. Só que não era o caso do assassinato que incomodava a moça e sim, uma informação que passou tão rápido que já nem estava mais na tela. Tanto que Rumiko encarava o aparelho de olhos fixos, mas parecia estar pensando em outra coisa, em outro assunto.

─ Ei, Rumi. O que foi?

─ Eles... retiraram o senhor Vargas do caso.

─ Quem é Vargas?

─ O detetive que estava no nosso encalço em Saltos.

─ Oh, sim. Aquele do restaurante Genevie. Que bom que tiraram ele do caso. O cara era fera. Quase pegou a gente.

A moça vira-se para Petruz, com a face de alguém que discordava da alegria dele. Petruz afasta o rosto, desconfiado.

─ Isso... é bom, não é?

Rumiko olha para o lado, pensativa. Dois sentimentos antagônicos lhe corroíam o ser. Primeiro a preocupação, porque, se retiraram Vargas do caso, à ela significava que, em algum lugar do caminho, os dois assassinatos que cometeu não se ligaram do jeito que ela queria. Assim sendo, a cidade de Saltos não interferiria no caso de Jaú, ou, em outras palavras, a vida de um embaixador estrangeiro era mais importante que a de um “prefeitozinho” nativo de uma cidadezinha qualquer.

O segundo sentimento era a raiva. Rumiko não queria que Vargas fosse retirado do caso ainda. Talvez não se importasse tanto se ouvisse a notícia de desistência diretamente da boca do detetive, dizendo que passou o caso à outrem por motivos pessoais. Mas do jeito que a notícia foi apresentada na televisão lhe soou muito desrespeitoso. Também não era problema dela. O que a deixou quase irascível é que Rumiko tinha planos para Vargas. Planos que lhe auxiliariam no futuro e que agora foram por água abaixo. E tinha mais uma coisa... Sem Vargas, o caso iria cair nas mãos de alguém mais rápido, mais inteligente e mais poderoso em quesitos legais. Rumiko já sabia quem seria e, por isso, tinha de chegar até Velasqueses o quanto antes, nem que precisasse pegar um avião para ganhar tempo.

─ Ikemasho! – dita Rumiko quase mordendo os lábios.

Então vira as costas e sai à passos pesados. Petruz a segue pouco depois, questionando com certo receio:

─ O que foi?

─ Nani ô?

─ Você parece brava. Não gostou que tirassem Vargas do nosso pé?

─ Hai! Rumiko não gostou nada disso. Mas ainda bem que soubemos a tempo.

Os jovens pagam pelos produtos e saem sem levantar suspeitas. Ao lado de fora, livres de olhares e ouvidos suspeitos, movido apenas pelo desejo de puxar conversa e tentar entender o desapontamento de Rumiko ao ouvir uma notícia que deveria ser boa, Petruz lhe pergunta sem o mínimo desejo de saber.

─ Quem assumiu o caso?

─ Hum? Ele agora está... está... – Rumiko finge se recordar quando na verdade pensava numa desculpa – O caso agora está nas mãos de uma delegacia policial aqui de Jaú.

─ Humm... Então, se a gente sair de Jaú, estaremos livres?

─ Não exatamente! Mas não se preocupe quanto à isso – a moça exibe à Petruz seu carismático sorriso – Enquanto não chegarmos no limite do Amazonas, Rumiko não vai deixar ninguém pôr as mãos no senhor.

A matéria jornalística apontou a Força NERAK em peso como nova responsável do caso. Rumiko não sabia que Vargas já era da Nerak, mas mesmo que soubesse, para o caso ser arrancado das mãos de um detetive tão eficiente, só significava uma coisa. O soldado alado da Nerak iria assumir.

Rumiko deduziu que não convinha dizer isso à Petruz, para não assustá-lo com coisas desnecessárias. Velasqueses era o último da lista e seu fim estava próximo, à menos de 24 horas para ser preciso. Alguns quilômetros depois disso e estariam no limite do estado, onde Rumiko prometeu deixar Petruz livre. Se tudo correr bem, ela vai conseguir manter a promessa de entrega-lo ao seu destino são, salvo e acima de qualquer suspeita sobre os seus crimes.

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Em outra área do mundo, mas ainda próximo ao território de Vera Cruz, uma criatura enorme, de pele cinza clara e um penteado em moicano, observava às escondidas um rapazote próximo à um bar de esquina, rodeado por belas moças de vestidos apertados, saias curtas e saltos altos. Era um homem também belo e falador, com cabelos longos e lisos, de cor clara e preso por um laço na medida do pescoço, olhos cor de mel e um mirar de sedutor.

Percebendo que estava sendo observado, o galante rapaz desculpou-se gentilmente com as moças, informando que tinha um compromisso, e pediu que elas esperassem um minuto. Livrando-se delas, o homem caminhou gingando, sorridente e à cantarolar, até que se aproxima de uma árvore localizada em um bosque, atrás de um cercado branco, onde sussurra.

─ Estou indo para casa daqui a pouco. Me espere por lá.

Um grunhido é ouvido como resposta. Então o rapaz volta, novamente a cantarolar, para junto do círculo de mulheres, para uma despedida mais íntima, lhes prometendo mais diversão um outro dia.

Quase vinte minutos depois, ele chega aos arredores de sua casa, assoviando e cumprimentando as donas e donzelas que encontrava no caminho. Como de costume, sua moradia era mais uma dessas casas que são alugadas por alguns dias. Um tipo de comércio que dominava o mundo atual, onde muitos ficaram desalojados e posteriormente perderam suas terras, fosse para gangues, facções criminosas ou mesmo pessoas do meio político. O rapaz entra na casa mais afastada de todas, feita de tijolos vermelhos e rodeada com cerca de madeira, caminha até uma mesa enorme no meio de sua cozinha, e se senta numa das cadeiras ao redor dela, colocando os pés sobre o móvel de refeições. Ele serve-se de uma bebida e questiona:

─ E então Samu. Finalmente veio me visitar, hein?

A criatura de pele cinza sai das sombras da sala e replica:

─ Estou aqui seguindo ordens, senhor Edward.

─ Sei disso. E então? O que é que está acontecendo?

─ O mestre quer que você verifique um caso de assassinato. Um que deveria ter ocorrido ha poucos dias atrás.

─ Verificar? Meu negócio não é verificar assassinatos, Samu. É cometer.

─ Bom, se tiver sorte ela ainda pode estar viva.

Samu pega uma foto na maleta onde carregava seus pertences e joga na mesa em frente ao belo rapazote. Assim que viu a foto e quase caindo num sobressalto ao se ajeitar na cadeira e tirar os pés da mesa, Edward exclama boquiaberto.

─ Wou...! Quem é essa princesinha?

─ O nome dela é Rumiko. Ela é uma dos membros do Gen-Bu, o império de Gengetsu. A última informação sobre seu paradeiro é Jaú, Ilha de Vera Cruz.

─ Que ótima coincidência estarmos indo para lá.

─ Seu dever... Ou melhor, nosso dever é averiguar se ela ainda está viva após a tentativa que sofreu de assassinato. Se estiver, cabe ao senhor eliminá-la. O mestre mandou avisar que ela é uma esgrimista habilidosa, por isso cuidado.

─ Pelos deuses. Além de linda ela também luta? Finalmente uma fêmea que me merece.

Samu estranha o comentário e fica em silêncio por uns segundos, esticando o pescoço para observar a fotografia nas mãos do belo homem de cabelos sedosos. Samu não viu nada de particularmente extraordinário em Rumiko. Então não entendia o motivo de Edward estar quase babando como um cachorrinho apaixonado. Tudo o que viu, em todas as vezes que olhou para aquela fotografia durante o caminho, era uma moça de rosto sem graça, com cara de menina e cabelos mal tratados. E era baixinha, a julgar pelo formato e altura dos ombros em relação com a cabeça. Samu imaginou que os olhos galanteadores de Edward, irritantemente exigentes quanto em relação ao corpo e à estética feminina, veriam ainda menos atrativos naquela mocinha singela, já que o rapaz vivia rodeado de belas e elegantes mulheres por onde quer que fosse. Pelo visto se enganou.

Samu volta à sua posição, faz um pigarro e repete a missão com mais veemência na voz as ordens que lhe foram passadas.

─ Repetindo, se Rumiko estiver viva, o mestre Heru quer que a mate, senhor Edward.

─ Não, Samu! Ela tem que estar viva, porque ela vai ser minha. Ela tem que ser minha!

Samu solta um suspiro de aborrecimento e não argumenta mais nada. Ele era um guerreiro de nível tão elevado quanto Edward ou Sanzenin, talvez até mais forte, mas não se sentia no direito de discutir com eles justamente por causa de sua classe.

─ Bom, o recado está dado – termina Samu – Faça como quiser, mas depois se esclareça com o mestre Heru.

─ Claro! Pode deixar.

─ Eu vou ver se encontro Sanzenin. Assim que o senhor obtiver os resultados da missão, entre em contato conosco para podermos voltar ao clã Heru.

─ Claro, claro! – o rapaz abana as mãos, como se espantasse uma mosca – e cuidado para não ser visto.

Edward joga sua cabeça para trás, no recosto da cadeira, coloca novamente os pés sobre a mesa e observa a foto de Rumiko com um sorriso sinistro:

─ Que rostinho lindo – ele sussurra enquanto passa os dedos da outra mão na fotografia – esse rostinho deve ser meu. Você vai ser minha.

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Em outro lugar, outro par de olhos também fitava algo na noite pela janela de sua sala. Os olhos do diretor da Força Nerak, Jay Lee. Agora, não dava para ver muita coisa, já que a noite sem lua cheia imperava numa cidade de poucas luzes. Ele mergulhava em pensamentos, enquanto tomava mais uma xícara de café, bem forte. A sala estava com as luzes apagadas e até mesmo o aquecedor estava desligado. As únicas luzes visíveis vinham de um abajur perto de sua mesa e do monitor de seu laptop.

O silêncio da sala e apreensão do diretor era justificável. Ele esperava a ligação do mais forte soldado da Corporação Nerak, que no momento estava na Inglaterra resolvendo um assunto político e que ficou de entrar em contato assim que a noite chegasse em Vera Cruz. E a ligação tardou a acontecer, mas não falhou.

─ Senhor diretor – a voz de uma das secretárias interrompe seus pensamentos – a senhora Flousey está na linha um.

─ Até que enfim!

O diretor vai até sua mesa e se senta pesadamente.

─ Pode transferir para cá – diz ele apertando o botão do interfone – e pode trazer mais uma xícara de café, por favor.

─ Sim, senhor.

O sinal telefônico é trocado e Lee escuta o som comum de uma rua movimentada.

─ Você precisa comprar um celular – diz o diretor aumentando o volume do telefone – já que não gosta de levar seu intercomunicador.

─ Oi Jay! Desculpe o barulho. Eu estou perto de uma ponte de pouco acesso veicular, mas tem muitos comércios aqui.

─ Deixa pra lá. E aí, como estão as coisas por aí?

─ O rei Henry aceitou nosso pedido formal de desculpas. O Prócer do Brasil não vai precisar vir até aqui se explicar.

─ Ótimo. Significa que ele não virá aqui nos aborrecer também.

─ Mas Henry quer esse caso esclarecido. Ele nos deu uma semana para, pelo menos, descobrir quem foi. E quando o pegarmos, ele quer que levemos o criminoso para o castelo real britânico, onde ele será julgado.

─ Onde será enforcado, você quer dizer. Bom, pode dizer à ele que já andamos metade do caminho.

─ Você já sabe quem foi?

─ Eu espero que você me diga.

─ Como assim?

─ Achamos que a morte de Lomar tem alguma coisa a ver com o caso Burashi.

─ O caso de Gengetsu Burashi?

─ Sim. Diga ao rei que já temos uma pista do assassino e volte para cá. Quero você de volta já amanhã cedo para discutirmos tudo o que você se recorda sobre Gengetsu.

─ Está bem. Vou fazer isso agora mesmo. Até mais.

Flousey desliga o telefone e Lee põe as mãos sobre a mesa, entrelaçando os dedos, fechando os olhos e pensando onde essa tal de Rumiko deveria estar agora.

─ Ainda deve estar em Jaú – ele sussurra para si mesmo – não pode estar longe.

O diretor puxa seu laptop e repassa todas as informações sobre Gengetsu. Ele realmente não acreditava que o tal guerreiro metido à samurai tinha algo a ver com as mortes atuais, mas as suspeitas e deduções de Marisa eram bem interessantes.

Se o falecido Gengetsu fosse mesmo responsável pela morte de Lomar, mesmo que indiretamente, Jay Lee tinha em poder algo realmente valioso, que era as opiniões e informações de Flousey, uma das poucas pessoas que conheceu Gengetsu pessoalmente. Sendo assim, Flousey tinha de saber algo a mais. Tinha de conhecer um detalhe que os olhos daqueles que estavam de fora não conseguiam ver.

Lee nunca quis tanto conversar com Flousey como está querendo agora, porque ansiava descobrir algo antes da poderosa DeWars, coisa que, ele tinha de concordar, era quase impossível.

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