A Busca

38 O Segredo de Seimei


Notas iniciais
Esta é uma obra de ficção e blá, blá, blá... Por isso, o diálogo religioso apresentado aqui em nada tem a ver com minha opiniões pessoais. Ainda estou estudando um jeito de deixar o texto mais curto, portanto, perdoem o capítulo longo e boa leitura.

Seimei mostrou uma face entusiasmada, claramente disposto a revelar tudo o que sabia sobre o tal biênio, mas tão logo seus olhos brilharam, gradualmente foram perdendo vivacidade, e ele diz apático:

─ E por que eu contaria? Não vai partir pelo mundo atrás de Rumiko? Sinta e veja esse biênio com seus próprios olhos. Estamos novamente no Biênio de Eva, caso o senhor não saiba.

De imediato, Karras tem o pensamento invadido por uma frase de Gengetsu, que sempre soou enigmática. Dizia respeito à um importante acontecimento que ocorreria entre os anos de 2015 e o ano seguinte. Sendo assim, um biênio. O biênio de Eva. O padre não fazia ideia do que seria esse evento, mas sente em seu coração que agora tinha mais um motivo para trazer Rumiko de volta. Se ela insistisse nessa bobagem de ressuscitar os mortos, com certeza se envolveria ou se esbarraria nesse acontecimento. Karras respira fundo, apagando essa possibilidade da mente e concentrando-se em satisfazer os anseios do sacerdote Kyoshiro, vulgo Abe no Seimei.

─ Mas enfim, o segredo da sua imortalidade... Pode me dizer que segredo é esse?

Seimei serve-se de outro copo de vinho branco e toma quase tudo de um só gole.

─ Eu estava à procura de uma fonte da imortalidade, por ordem de um dos imperadores que eu servia na época e acabei me perdendo numa ilha misteriosa com muitas pessoas inúteis ao meu redor. Com vergonha de voltar para o meu imperador com um fracasso nas mãos, eu realizei experimentos mágicos proibidos, usando como cobaias as pessoas que, mais cedo ou mais tarde, morreriam de qualquer jeito, fosse de fome ou de sede.

─ Meu Deus...

─ O fato é que, no fim, eu consegui descobrir e dominar uma magia ancestral. Graças à ela, eu agora vou e volto à esse mundo. É quase como uma maldição. E todas as vezes que volto, eu tenho que assumir um nome diferente.

─ Humm... pelo que eu entendi, se é que entendi alguma coisa, você morre e renasce das cinzas, como uma fênix humana, é isso?

─ Quase. Quando eu estou para abandonar o corpo atual, a magia final que utilizei em mim não me permite partir desse mundo. Então, tudo o que eu tenho que fazer é escolher um dos filhos de Izanagi que está para nascer.

─ Filhos de Izanagi? Um recém-nascido, você quer dizer... – Karras arregala os olhos de espanto – Você está dizendo...? Metempsicose?

Seimei abre um sorriso largo e sinistro. Estava gostando de Karras cada vez mais. Era alguém que, se tivesse descoberto muitos anos antes, adoraria tê-lo como um de seus sacerdotes ou monges. O maldito Gengetsu deveria saber que ele sentiria essa atração religiosa, como também deveria saber que Karras jamais se curvaria à Seimei. E isso o fez sorrir ainda mais.

─ Um poder parecido – contorna Seimei – Vocês cristãos chamariam de “reencarnação”.

─ Isso é... Isso é um termo usado em nossa religião, mas o conceito é diferente.

─ Entendo... Tem uma inteligência considerada perigosa para um homem religioso, senhor João “John” Karras. É um espanto que ainda exerça a profissão de padre católico mesmo depois da caçada aos padres que o pastor Joares proporcionou ao mundo cristão.

Uma pessoa comum não acreditaria em nada do que foi dito por Seimei até agora. Entretanto, depois que se uniu à Gengetsu, Karras viu e ouviu coisas que não gostava nem de lembrar. Além disso, ele era um padre de uma ordem minúscula, considerada como especial e protegida pelo Vaticano. E por carregar esse fardo, à ele foi revelado certos segredos que fugiam à compreensão humana e confiados em sua obrigação de guardar estes segredos. O padre respira fundo, ajeita o colarinho romano e tenta se recompor.

─ Obrigado, senhor Seimei. E ser padre não é profissão. É missão! Por isso não posso me acovardar diante de uma caçada sem sentido.

─ Verdade. Prova disso é que veio até aqui de habito religioso. Ou pelo menos de colarinho romano, um item que por si só foi motivo para que o pastor Joares encontrasse e decapitasse muitos dos seus.

─ Tenho certeza que Deus está vendo isso e irá colocar uma luz na cabeça de Joares algum dia.

─ Não tenho tanta certeza disso. Sabe onde estava esse “seu” deus quando você foi encurralado por Joares e quase foi morto, só sobrevivendo porque o senhor Burashi apareceu?

Karras empalideceu. Ao ver a face séria de Seimei encarando-o, ele imaginou que aquele homem de trajes brancos viria com outra pergunta pungente no que dizia respeito à sua fé. Ainda assim, simplesmente ajeitou os óculos, sem se exaltar, pois se sentia preparado para qualquer abordagem. E como psicólogo e grande estudioso de teologia, imaginava-se capaz de responder à qualquer ataque ofensivo.

─ Ele estava comigo. Ele sempre está comigo. É verdade que naquele dia o senhor Gengetsu apareceu e me salvou, mas se não fosse por Deus tê-lo enviado, eu não estaria aqui.

─ E sabe por que seu Deus estava lá?

─ Porque ele é único e verdadeiro e... – Karras pondera antes de continuar – ...e onipresente?

─ Porque é o mesmo Deus do pastor Joares, padre. O mesmo Deus do Papa e do Supremo Pastor. O mesmo Deus dos Nazistas e Judeus. O mesmo Deus dos católicos ortodoxos e aqueles pobres infelizes caçados pela inquisição. E se vocês dois acreditavam no mesmo Deus, ele é claro, estaria lá para observá-los. Ele não te ajudou, punindo Joares com um raio ao invés de lhe enviar Burashi. Se bem que, se tivesse feito isso na época, o mundo de vocês, cristão-religiosos, não estaria tão obscuramente controlado por um único déspota lunático que anda pelo mundo fazendo o que chama de “Justiça Divina” enquanto outro com poder para detê-lo se esconde atrás das muralhas sagradas do Vaticano. Seu Deus não te abandonou, porque você tinha fé que ele não te abandonaria.

─ Senhor Seimei... – Karras retira os óculos – No meu país há um ditado que diz que não se deve ensinar um padre à rezar. Eu já estudei psicologia. Portanto espero que não esteja querendo mudar meu raciocínio ou bagunçar a minha mente, usando palavras em que eu acredito, porém de modo distorcido.

O rosto sério de Seimei desaparece, tornando a dar lugar à uma nova risada. E ri muito desta vez, contagiando Karras, que também ri, de modo menos escandaloso. Seimei agora entendia a diferença entre os padres especiais do Vaticano e os pastores a serviço de Joares. O que explicava também o porquê dessa guerra religiosa, iniciada pós Fim do Mundo, na virada milênio, e que se estende até os dias atuais, causando dezenas de vítimas. O que ele não entendia ainda era porque os ditos “católicos” não reagiam à altura. Seimei fica de pé, vira-se de costas para Karras, e inicia um novo sermão.

─ Creio que interpretou mal minha abordagem, então me permita lhe transmitir meu ensinamento de outra maneira. O senhor sabia que deuses precisam de fé para sobreviver?

─ O que isso tem a ver com a abordagem anterior?

─ O senhor sabe o que é fé, senhor João “John” Karras?

─ Claro que sei o que é fé.

─ Não, senhor João “John” Karras. O senhor não sabe o que é fé. Sua cabeça lhe diz para associar fé à crença. Sua cabeça lhe diz que ter fé é acreditar que algo exista, mesmo que provas não haja.

─ E não é isso?

─ Fé é energia, senhor João “John” Karras. Eu não só acredito nisso. Eu sei. Eu encontrei essa energia e dela me beneficiei. É assim que volto ao mundo dos vivos, toda vez que sou convidado ao mundo dos mortos.

─ Fé é energia?

─ Sim. Um milagre é feito de uma energia conhecida como...

─ Pensamento positivo – completa Karras, valendo-se, não como padre, mas como psicólogo.

─ Sim... Um pensamento positivo forte o suficiente para mover montanhas quase sempre é direcionado à coisas pequenas, como curar um enfermo, exorcizar um possuído ou andar sobre as águas.

O padre respira fundo, engolindo a provocação, toma um gole de vinho branco e gesticula para que Seimei continue. O velhote acaricia a fina e comprida barba na ponta do queixo, explanando:

─ Os cristãos em geral buscam um único Deus. Os cristão católicos, quando podem, pedem ajuda aos seus santos. Os espíritas são ajudados, naturalmente, por espíritos. A umbanda tem seus deuses, completamente diferentes dos deuses cristãos, que lhes auxiliam na guerra e no amor. Os japoneses pedem ajuda à deuses que os ocidentais mal sabem pronunciar seus nomes. Os indianos possuem deuses de facetas assustadoras e múltiplos braços ou pernas, que, benevolentes, estão sempre prontos à ajudar seus súditos. Os gregos depositam sua sorte na colheita e pescaria, guerra e amor, nas costas de seus belíssimos, porém vingativos e enciumados deuses... O senhor nunca se perguntou por que é que há milagres em todo lugar, em toda crença, já que a religião que o senhor segue é a única certa?

─ Então eu estou errado? Todo o resto do mundo cristão está?

─ Não! Vocês estão certos. Se eu sou o único que acredita nisso, então vocês estão certos, por mais errados que estejam. É assim que funciona não é?

─ Está falando de dissonância cognitiva? – Karras cruza os dedos sobre a mesa.

─ Oh, não. Claro que não.

─ Que bom. Então... Pode explicar isso?

─ Antes, preciso perguntar, não é na religião de vocês que alguém disse algo do tipo: “se tua fé for maior que um grão de arroz, olhe para esta montanha, diga ‘mova-se’, e ela moverá”?

─ Jesus... – responde o padre, com certa irritação na voz – Foi nosso salvador Jesus que o disse. E não é um “grão de arroz” e sim, um grão de areia.

─ Sei. E o senhor já viu alguém mover uma montanha, senhor João “John” Karras?

─ Claro que não!

─ Então não existe nenhum cristão, católico ou protestante, que possua uma fé do tamanho de um mísero grão de areia?

─ Isso é uma analogia! – Karras grita furioso, batendo na mesa, mas logo se acalma, recoloca os óculos e continua – Uma analogia... uma frase que se usa para dizer que você pode fazer qualquer coisa, desde que tenha força de vontade. Desde que tenha fé.

─ E aí está a resposta! Fé é energia. E deuses, demônios, seres místicos e míticos, alimentam-se dessa energia. Parafraseando alguém que não lembro o nome no momento, “as criaturas místicas não sobrevivem fora de seu habitat natural, porque elas precisam de fé pra sobreviver”.

─ Por “habitat” você quer dizer o lugar onde eles são venerados?

─ Dificilmente encontrará aqui, no Japão, alguém que saiba o que é um boitatá. Dificilmente encontrará no Brasil alguém que saiba o que é um Inugami.

“Inugami”... A palavra gelou o corpo de Karras, fazendo-o prender a respiração. E ele sabia que Seimei a disse de propósito, já que poderia usar qualquer uma das outras centenas de youkai, oni ou yurei que acercam o imaginário japonês.

Há muito tempo atrás, na época em que Rumiko ainda era uma criança, ela foi amaldiçoada por um Inugami. Assustada, a primeira coisa que ela fez foi pedir ajuda ao padre, que nada pode fazer além de rezar e abençoar Rumiko. Nada acontecia e durante alguns dias, Rumiko continuava a ver o fantasma. Quando Gengetsu voltou da longa viagem que fazia e soube do problema, ele levou a menina num lugar misterioso. Nesse mesmo dia, ela retornou já livre do espírito e salva da maldição. Só bem depois disso é que Karras veio à saber que Gengetsu levou Rumiko até o templo de Seimei. Aquele mesmo em que ele se encontrava agora.

Seimei percebe o olhar entristecido de Karras. Ainda assim, não se compadeceu. Ele aproxima-se do padre e inclina-se, apoiando o cotovelo sobre a mesa.

─ E agora que sabe meu segredo... Eu tenho uma grande questão à lhe fazer.

─ Ficarei feliz se puder responder.

─ Quando eu soube que tinha um padre no lar de Gengetsu, ou seja, um católico no lar de alguém que prestava homenagens à uma deusa Xintoísta, eu também fiz uma pesquisas a seu respeito. Sua cabeça vale ouro para o pastor Joares e eu sei que vai além do fato de você ser um padre. Sei que você guarda um grande segredo. Só que eu não descobri que segredo é esse.

Seimei semicerra os olhos:

─ Qual a sua história, meu já querido irmão, senhor João “John” Karras?

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Como Rumiko tinha ainda muito dinheiro e não se importava em gastar com Petruz, ela alugou a melhor das cabanas do grandioso e formoso sítio em que chegaram. Era uma moradia grande, luxuosa e mobiliada com coisas caras, desnecessárias ou incomuns. Porém, afora o luxo, era visivelmente um quarto de motel. O ambiente era perfumado, separado em cômodos de tamanhos muito bem distribuídos. No dormitório havia uma única, enorme e confortável cama de formato circular. Os travesseiros eram vermelhos, grandes e em forma de coração e o colchão era coberto com um edredom macio, rendado e bordado com desenhos de rosas brancas. De frente para cama, o espaço era completamente livre até chegar à parede pintada de azul piscina, com uma chapa de madeira ao centro e, embutida nela, uma tela grande de televisão. Ao chão, um carpete bem macio e tão lustroso que dava até pena de pisar nele e, no teto, um grandioso espelho oval.

Petruz fez um biquinho. Era um ninho de amor perfeito, não fosse pelo detalhe de que eles não eram nada além de amigos, se é que Rumiko o considerava mesmo como um amigo. Mesmo assim, tímido como era, sentia-se desconfortável naquele ambiente. E de tão inquieto, resolveu argumentar.

─ É uma bela cabana. Algum motivo especial?

─ Rumiko só pediu pelo melhor quarto que eles tinham. Disseram que esse era o mais caro, e que, portanto, era o melhor. Rumiko não fazia ideia que o lugar seria assim, tão...

Rumiko suspira, num sorriso de desaprovação à respeito do luxo excessivo do lugar e avisa.

─ Bom... Rumiko vai tomar um banho.

─ Claro, pode ir.

O ruivo olha para a cama e localiza acima da cabeceira do móvel o controle remoto da televisão. Ele senta-se na cama, aprovando com um gesto de cabeça e um som nasal a maciez do colchão, depois liga o aparelho televisivo. Já era tarde da noite. Ele deixa num canal qualquer e deita-se ao fundo, observando as imagens com os olhos vazios e os pensamentos nas nuvens.

Quando deu por si estava roncando, o que o fez acordar. Não sabia quanto tempo dormiu, mas não foi muito, já que a moça continuava no banheiro, cantarolando baixinho como um passarinho tímido. O garoto olha para a porta do banheiro, feita em cortina e depois olha para a bolsa cilíndrica de Rumiko, jogada abaixo da área aonde ficava a tela de TV. Estava sempre fechada e quase sempre amarrada. A curiosidade do ruivo em saber tudo o que tinha dentro já o incomodando há tempos, e embora ele soubesse que não era de sua conta, sabia também que, quando ele e Rumiko se separassem, iria se arrepender de não perguntar.

Petruz olha novamente para o vão da porta do banheiro, ouvindo o sonoro e baixo cantar de Rumiko, então se levanta e vai até a porta silenciosamente. O garoto se aproxima da cortina e faz um som de pigarro com a garganta, chamando a atenção da moça. Rumiko, percebendo que já se demorava no banho, pergunta do lado de dentro:

─ Desculpe, senhor Petruz! Rumiko já vai sair.

─ Não! Tudo bem. Eu só queria saber uma coisa.

─ Só um minutinho.

Segundos depois, a moça subitamente abre um pouco da cortina e aparece de lado para ver o que ele queria. Petruz se assusta com aquela atitude e enrubesce rapidamente ao ver que Rumiko havia se enrolado na toalha, escondendo seu corpo dos seios para baixo. Ele não viu nada de “importante”, mas o modo como se mostrou desinibida naquela ocasião e a ação seguinte dela tirando os cabelos lisos e molhados do rosto para depois sorrir e fitar Petruz com seus olhos grandes, foi de uma beleza tão inefável para o ruivo que ele sentiu seu coração acelerar.

─ O que gostaria de saber, senhor?

─ E- eu.... e- eu queria saber...

O rapaz fica em silêncio por um momento, de rosto abaixado, evitando olhar para a moça. Rumiko percebe o rosto incomum de seu parceiro e passeia rapidamente o olhar pelo quarto atrás de Petruz.

─ Por que o senhor está tão nervoso? Aconteceu alguma coisa?

─ Nada! Não aconteceu nada... Eu queria saber se posso... Se eu posso ver o que você traz em sua bolsa?

Petruz nem acreditou que conseguiu fazer aquela pergunta. Um “Não” bem dado, ou um “Não é de seu interesse o que tem dentro”, seria bem apropriado e muito bem aceito por ele. No entanto, a moça faz um suspiro, do tipo que dizia “que pergunta boba”, larga as cortinas e volta para dentro do banheiro, respondendo naturalmente:

─ Mochiron! Pode fazer o que quiser senhor.

A resposta o deixou sem jeito. Ele não esperava isso. Quando a deslumbrante imagem de Rumiko sai de sua vista, ele recupera o fôlego, sua temperatura volta ao normal e seus músculos rijos tronam a relaxar. Então ele vai para a cama e se joga nela, sentindo-se um lixo.

─ Que idiota! – ele sussurra, dando socos na cabeça – no que está pensando? Mexer na bolsa de uma mulher...!

Cinco minutos depois, Rumiko sai do banheiro, trajada com seu pijama de bolinhas e as pantufas em forma de coelho nos pés, esfregando a toalha nos cabelos. Petruz continua deitado de bruços na cama, com os pés para fora do colchão e a cabeça envolta pelos braços dobrados. A moça se senta ao seu lado e, enquanto esfrega a toalha nos cabelos molhados, nota sua mochila-saco no canto da parede, exatamente no mesmo local e do mesmo jeito que ela pôs quando chegou.

─ O senhor achou o que procurava?

─ Oh, não! Eu não mexi em sua bolsa.

─ Doushite?

─ Ah, bem... eu só estava curioso para saber o que tem dentro.

─ Não vai saber se não olhar, senhor Petruz.

─ É... É que eu... Não tinha nada para fazer então...! – Petruz bafora irritado com suas escusas e admite seu erro – Desculpe a minha imprudência, Rumiko.

─ Imprudência, senhor?

Petruz se vira na cama e olha para o teto, tentando não se olhar no espelho acima, então completa com pesar.

─ Não é da minha conta o que você carrega em sua bolsa. Da próxima vez pode até me xingar se quiser.

Rumiko abaixa os braços, pousando a toalha sobre as pernas e absorve calada e pensativa a amargura de Petruz. Ela era mais velha que o ruivo, por isso, depois de um tempo ao seu lado e julgando-o pelo teor de suas conversas, Rumiko teve uma prévia e involuntária avaliação sobre o rapaz. Petruz não só tinha a indiscrição de um garoto, como também não tinha o costume de conversar a sós com alguém do sexo feminino. Potencialmente ela seria a primeira. Só que era isso que Rumiko gostava nele. Suas perguntas sem análise de situação e suas conversas tolas a faziam viver um tempo que ela perdeu. Um tempo de experimentações joviais em que, enquanto outras mocinhas na faixa dos quinze anos falavam de ídolos pop e iam a shoppings fazer compras desnecessárias, Rumiko, nessa mesma faixa de idade, estava suando a camisa com exercícios pesados, queimando os neurônios com aprendizados complicados que não se ensinavam em escolas comuns e levando uma surra dos moleques mais velhos durante as aulas de esgrima de Nezuo. Por isso, estar em companhia de alguém que viveu num mundo que ela só conhecia através dos filmes feitos para adolescentes era bastante agradável e, de certo modo, era uma situação nova para ela também. Ela não queria que isso terminasse. Pelo menos não antes da hora.

Decidida, Rumiko esfrega a toalha com mais rapidez e intensidade nas pontas finais de seus cabelos, levanta-se e vai até sua mochila. Ela agarra o objeto com certa vivacidade, trás até a cama, desata o nó do cordão superior, abre todos os zíperes e vira a mochila de ponta cabeça, sacudindo e derrubando sobre o colchão tudo o que havia dentro.

─ Kore! – a moça joga a bolsa vazia de lado – Isto é tudo o que tem dentro, senhor.

O coração de Petruz se aperta em culpa e remorso, mas agora não faria mais sentido ele não querer ver. Seria até insultuoso, pensava ele. Então se ajeita devagar na cama, sentando-se e olhando para os objetos jogados sobre ela.

Analisando item à item, havia uma bolsinha em forma de urso panda, onde se encontrava todo o dinheiro de Rumiko; um mapa desatualizado de Vera Cruz; uma luneta retrátil; um rolo de ataduras umedecidas com algo medicinal, lacrada em um pote de plástico e um rolo de faixas de gaze. Havia algumas jaquetas, calças e vestidos ao estilo oriental, e outras peças usadas no ocidente, para tempos frios e para os quentes. E em uma bolsa separada e transparente, algumas roupas íntimas que o ruivo, assim que as reparou, fez questão de desviar os olhos rapidamente.

Havia também duas sapatilhas chinesas e dois chinelos de palha reforçada, que se prendiam ao calcanhar e tornozelos. Um vidro de perfume de 300 ml, com a suave, porém poderosa essência de passiflora, responsável pelo delicioso e estonteante odor de Rumiko. Um pequenino bloco de anotações, com no máximo dez ou doze linhas por página, contendo informações que só faziam sentido para sua dona.

E por fim as espadas japonesas, sua Shikomizue especial preferida, a shikomizue comum e uma espada curta que a moça disse chamar wakizashi. Fora alguns outros objetos que Petruz não conhecia apenas de olhar, todos com aparência oriental e com cara de ser, ou objetos utilizados como arma, ou apetrechos que lhe auxiliariam na medicina. E vendo tudo aquilo exposto aos seus olhos, Petruz se sentiu envergonhado e estranho por Rumiko satisfazer todos os seus desejos sem nunca questionar ou se aborrecer. Entristecido, ele finalmente começa a falar:

─ Obrigado pela confiança e... Desculpe!

─ Wakata! Mas por favor, não se sinta mal por isso, senhor. Rumiko não precisa guardar segredo sobre nada ao senhor.

─ É sério?

─ Mochiron!

Rumiko sobe e ajoelha-se sobre a cama, pegando no rosto de Petruz, fazendo-o olha para ela

─ Pergunte o que quiser, quando quiser e sobre qualquer coisa que lhe incomodar.

Petruz observa Rumiko por um momento. Ela não precisava ir tão longe, pois ele já tinha entendido o recado. Sentiu uma vontade forte de sacudir a cabeça, pegar os objetos para guardar e dizer para Rumiko esquecer aquele seu ato estúpido de moleque indiscreto. Só que, ao olhar para aquela carinha de menina, aqueles olhos brilhantes e aquele sorriso singelo, presenciando aqueles cabelos que, quando soltos, eram cheios e de uma beleza agressiva difícil de explicar e sendo envolvido pelo suave e envolvente perfume de passiflora exalado do corpo da moça, Petruz não obteve forças para mudar de assunto.

─ Senhor Petruz? – Rumiko abana a mão à frente dos olhos do ruivo – o senhor está aí?

Petruz engole seco, olha para os pertences na cama e responde:

─ Tudo bem eu... Eu vou tentar... Quando tiver alguma dúvida, eu vou perguntar diretamente.

─ Yosh! Amigos não podem ter esse tipo de restrição.

─ Você... dá muito enfoque para essa coisa de amizade.

─ Uhn! Rumiko nunca fez um amigo antes, por isso preciso aproveitar a sua companhia. Espero que não se importe de Rumiko pensar no senhor desse modo.

─ Não, mas... Eu não acredito que alguém como você nunca tenha tido um amigo antes.

─ Ara? E por que não, senhor?

─ Porque você é tão... legal. Tem essa outra parte de você ser uma assassina e coisa e tal, mas fora isso, é a pessoa mais legal que eu já conheci. Diferente de mim, em que as pessoas só se aproximavam porque eu era filho do meu grande pai. Ninguém gostava de mim pelo que eu era ou... Pelo que eu sou.

─ Parece familiar para Rumiko.

─ Lhe parece?

─ Bom, não é que Rumiko nunca teve amigos antes, mas, tal qual o senhor, os amigos de Rumiko só os são, porque Rumiko era uma pupila do grande senhor do Gen-Bu. Assim, resumindo, o senhor é o primeiro amigo que Rumiko faz sozinha.

Rumiko se levanta e leva sua bolsa já arrumada para o canto do quarto.

─ Meu sensei não achava correto Rumiko fazer amizade segura com ninguém. Ele dizia que um amigo é uma pessoa que entra em seu circulo de compaixão e, por isso, precisa ser protegido.

─ Mas o que tem de mal nisso? Eu queria ser forte como você para proteger os outros.

─ O ponto de vista é outro, senhor. Gengetsu Sama dizia que era mais fácil você matar um simples conhecido do que um grande amigo. Que mesmo que uma pessoa dissesse ser seu amigo, isso não significaria que ela não iria te decepcionar ou trair. Rumiko passou por algo mais ou menos assim.

─ Passou? – Petruz se mostrou mais curioso.

─ Hai...

Rumiko pensava em Nezuo, o novo dono do império de Gengetsu e a pessoa a qual seu mestre mais admirava. Imaginando a dor que Nezuo deveria estar sentindo pela perda de Gengetsu, Rumiko deduziu que ele a acompanharia na jornada, o que não veio a acontecer. Totalmente desconfortável com a conversa que iniciaria e ciente de que Rumiko não lhe esconderia nada, Petruz tem um dos seus primeiros sensos de respeito em relação à situação e pergunta com um novo ânimo:

─ Mudando de assunto. Quem é o próximo? São três no total, não é isso?

─ Yô!

Rumiko reabre sua bolsa, tira e desdobra um dos seus hakama e, de dentro de um dos bolsos, retira uma fotografia, onde via-se um homem acima do peso, de terno e gravata, sorrindo e abanando para as pessoas ao redor. Rumiko volta para a cama, engatinha sobre o enorme colchão e entrega a foto para Petruz. O ruivo o reconhece de imediato:

─ É... É Caio Velasqueses. O ex-presidente do Brasil!

─ Isso mesmo senhor. É também o último presidente remanescente da América e por isso, é chamado de “presidente do fim do mundo”.

─ Eu sei. Ele teve seu mandato cassado porque foi contra as leis dos Honoráveis. Ele é um dos homens politicamente mais poderosos do país.

─ Ele não pode mais aplicar ou vetar leis e nem participar das decisões que levariam o país à uma guerra, embora ainda tenha o respeito de outros parlamentares e a amizade de alguns senadores, categoria que, o senhor deve saber, não existe mais.

─ Ainda assim, é um homem poderoso.

─ So desu. E sabe do que mais, senhor Petruz? – Rumiko afia um sorriso – Ele tem que morrer.