A Busca
39 O Segredo de Karras
Com o cotovelo sobre a mesa e o rosto pousado no punho, de face sisuda e meramente desapontada, Seimei observava Karras em silêncio. Como prometido, o padre lhe contou quase tudo. Os dias que antecederam seus estudos até se tornar padre. A ajuda de custos que ganhou do Vaticano para estudar psicologia e teologia, os melhores e mais curiosos dias que passou em Roma. E, por fim, o episódio em que futricou demais e acabou por descobrir uma divisão especial de padres, secreta até ao Papa e que, ao se envolver com eles sem permissão, acabou se esbarrando num dos maiores segredos dessa divisa de sacerdotes secretos. Na época, ele ainda não sabia direito o que tinha descoberto. Ainda assim, prometeu por mais de uma vez que nunca contaria o que viu à ninguém. Manteve sua promessa por cinco anos seguidos, passou por provações dos cardeais e suportou uma prisão cruel, sem comida decente ou luz do sol por vários dias. Isso lhe rendeu o título e o peso de ser um dos que compartilhavam esse segredo e o carregaria para sempre. Deveria protegê-lo e passa-lo adiante somente em seu momento de morte para o prelado que ele julgasse ser honrado o suficiente para receber ou, numa melhor opção, morrer sem revelar nada, nunca, jamais.
Seimei ouviu à tudo com visível aborrecimento, aguardando somente o fulminante desfecho final, coisa que não aconteceu. Quando Karras calou-se e serviu-se de um copo de vinho, deixando claro que tinha terminado, Seimei bateu seguidamente a longa unha do dedo indicador na mesa de mármore, perguntando.
─ Que segredo é esse, padre? Qual é a podridão que sua fé esconde e que seus amiguinhos lhe incumbiram de carregar?
─ Não tem nada a ver com minha fé. Nem com a santa igreja. Foi uma coisa que vi e que não deveria. E eu jurei não contar isso para ninguém.
─ E eu jurei não revelar o segredo de minha imortalidade para alguém que não confio.
─ E você... revelou para mim?
─ Exato!
─ Estou honrado.
─ Não quero que se sinta honrado. Quero uma permuta de segredos. O que você descobriu?
Karras bebe todo o conteúdo de seu copo e, depois de um longo suspiro e pesando os problemas, prós e contras de sua decisão, responde bem baixinho.
─ Um baú! Eu encontrei um baú.
─ Um Baú? O que é isso?
─ Você sabe... uma caixa de madeira, com recantos de aço, cadeados lacrando a tampa... essas coisas. Era como uma arca.
─ Humm... E o que tinha dentro desse... baú?
Karras fecha os olhos, respira fundo e pede que Deus o perdoe. Então retira os óculos e responde com os olhos cerrados
─ Um demônio.
Seimei franze o cenho, sem mover mais nenhum músculo. Não sabia se ria ou se xingava o padre. Antes de qualquer reação semelhante ou mal interpretada, ele perguntou simplesmente.
─ Só isso?
─ O que quer dizer com, “só isso”? O que sabe sobre demônios para agir de modo tão esnobe?
─ O que eu sei é que vocês, cristãos, costumam chamar de... “demônios”, criaturas que vocês na verdade nem sabem o que são. Sei que, por medo ou preconceito, vocês os colocam nessa categoria e dão um valor medonho e exagerado à eles, para que outras pessoas ignorantes nem se atrevam a procurar informações sobre os mesmos. Eu já vi, inclusive, deuses de outras crenças serem tachados assim por vocês.
─ Acho que não compreende a gravidade da situação.
─ Talvez não, mas eu não sou burro. Já vivi muitos anos e li muita coisa, considerada proibida pela sua religião. E descobri, por exemplo, que não são apenas os demônios que um seguidor da sua doutrina deve temer – um sorriso maléfico se forma na face de Seimei – Mas isso o senhor também já sabe não é, senhor João “John” Karras?
O padre encara seu anfitrião, sem nada a dizer. E quando é vencido pelo olhar de Seimei, ele decide desviar os olhos e recolocar os óculos. Seimei continua
─ Tenho certeza que esse tal ser, lacrado nesse tal de baú, seja lá o que ele for, deve ter algo muito mais especial do que esse seu julgamento simplório e leviano. Deve inclusive ter um nome ou algo que o qualifique como tal.
─ Sua aversão à minha religião é inquietante. Mas o senhor tem razão. O demônio lacrado naquele baú não era qualquer um. Devo dizer também que não era qualquer baú. Era o baú de... – o padre estende alguns segundos de suspense – era o baú do rei Salomão.
Karras esperava que Seimei se sobressaltasse, gritasse ou esbravejasse algo relacionado à sua revelação. Seimei, contudo, nem piscou. Ele estudou pouco da mitologia de Israel, por isso, os mais profundos segredos, os fatos mais ocultos e os atos mais escabrosos de certas personalidades da doutrina cristã eram completamente desconhecidos por ele. E não se sentia incomodado com isso, pois sabia que não era o único. Tais revelações eram desconhecidas por quase 95% dos seguidores da doutrina.
─ O senhor sabe quem foi Salomão? – questiona o padre ao ver a face estática de Seimei.
O onmyoji dá de ombros, fazendo biquinho e fechando os olhos de cílios longos. Karras continua:
─ Bom então não dá para continuar essa conversa. Mesmo assim, esse é um assunto que morre aqui. Eu mesmo, quando descobri sobre isso, passei por horrores para provar minha lealdade. E depois de adquirir a confiança de meus superiores, eu fui incumbido de fazer parte de uma confraria que levou o tesouro de Roma, com missão de escondê-lo em outro lugar. Num lugar secreto.
─ E quantos mais sabem desse lugar?
─ Além de mim, somente outros dois padres. O restante já morreu. Alguns já estavam em idade avançada na época em que os conheci. E outros... bem...
─ Foram caçados e degolados pelo pastor Joares – completa Seimei.
O padre faz que sim com a cabeça, lembrando-se de que o único interesse de Joares o perseguir tanto era por esse motivo. E só Deus sabe o que Joares faria se colocasse as mãos no baú de Salomão.
─ Sua história foi menos interessante que a minha, padre – profere Seimei – E levando em consideração o suspense que fez, devo dizer que estou muito desapontado.
─ Pelo menos a minha história é verdadeira.
─ Abusado – Seimei ri da audácia de Karras – E se está mesmo dizendo a verdade, então já entendi o porque do senhor querer a volta de Rumiko tão logo.
Seimei serve-se do último copo de vinho branco e completa.
─ Tem medo que ela acabe encontrando ou ouvindo falar desse baú. Não pelo demônio que tem dentro, mas pelo fato de que, se ela descobrir relatos sobre ele, irá acreditar nas lendas e mitos de sua religião.
─ Não são lendas nem mitos, senhor Kyoshiro.
─ Eu sei. Agora eu sei disso. E prometo ao senhor que vou ler mais e com mais seriedade a respeito de sua crença. Aí então poderemos falar mais a respeito desse seu Salomão e seu baú.
─ Obrigado. Eu acho.
─ E agora que sei disso. Do motivo do senhor querer Rumiko de volta o quanto antes, eu digo de uma vez por todas... Eu, sacerdote Kyoshiro do templo Jimmu, não vou ajuda-lo.
Karras sorri timidamente. Depois de todo aquele bate papo, o dia inteiro jogando conversa fora, ele já desconfiava. Talvez estivesse apenas se enganando, tentando se convencer que se conseguisse cair nas graças de Seimei, ele mudasse de ideia. De qualquer forma, ele não acreditava que sairia do templo acompanhado de Seimei. Ou melhor, do “sacerdote Kyoshiro”, já que Karras ainda não aceitava que aquele homem pudesse morrer e renascer a seu bel prazer. Isso era contra as leis do seu Deus.
─ Acho que já abusei demais de sua hospitalidade – diz Karras, apoiando-se na mesa para se levantar – E já perdi muito tempo aqui também. Preciso ir.
─ Vou leva-lo até a saída.
Seimei ergue-se, gemendo com esforço. O padre achava estranha sua dificuldade em se mover. Seimei era um homem velho, mas nem tanto para andar se arrastando. Gostaria de perguntar quantos anos ele teria. Em vez disso, faz um comentário inconspícuo.
─ Não precisa me acompanhar se está tão indisposto.
─ Não é indisposição. Este corpo velho já está quase no seu limite.
─ Então logo o senhor vai trocar por outro?
─ O senhor entende rápido, senhor Karras. Mas não se preocupe quanto à isso. Quando trouxer Rumiko de volta, eu, sacerdote Kyoshiro, ainda vou estar por aqui. Então venha me fazer outra visita.
─ Um-humm... Vamos então.
Um último copo de vinho de ambos para “matar” a garrafa e eles se vão. Karras sentia-se meio zonzo, nada que dificultasse sua caminhada. O percurso até a saída do templo pareceu mais longo na hora de sair do que foi para entrar. Chegando ao torii, na saída, Seimei parou antes de atravessá-lo e esperou que Karras ficasse ao seu lado. Então, ele olha para cima, fitando as barras superiores do monumento.
─ Este, senhor Karras, é o maior motivo de eu gostar tanto desse lugar.
─ Humm... – o padre olha para o torii – Tem razão, é um belo arco. Só precisaria de uma limpeza ou reforma e algumas melhorias na aparência.
─ Tolo. Esse torii é sagrado demais para que sua raridade seja desrespeitada. Kami-Sama o quer muito bem, por isso não pode ser maculado por mãos humanas com o único propósito de estética.
─ Kami...Sama? Você quer dizer... Deus?
Seimei aproxima-se de uma das colunas e põe sua mão espalmada, suspirando em seguida.
─ Um torii é um portão sagrado, senhor Karras. Além de entrada para um lugar santo, ele serve como uma passagem de purificação, afinal, você estará entrando num local religioso, num santuário ou templo. Ah... Seu táxi chegou.
─ Meu táxi? – o padre olha para o outro lado e vê um belo carro de quatro portas se aproximar e parar ao lado deles.
─ No caminho, gesticulei para que alguém lhe providenciasse uma carona. Não se preocupe, não terá que pagar nada. Só precisará de dinheiro para pagar o avião com destino à Hidaka.
─ Hidaka? O que eu iria fazer em Hidaka?
─ Senhor Karras... – Seimei abre a porta traseira e espera o padre entrar e se sentar – só existem duas pessoas para quem Rumiko deu um pedaço de seu coraçãozinho. Uma delas está morta. A outra só pensa que está morta.
─ De quem o senhor está falando?
O sacerdote debruça-se sobre a janela do automóvel e espera Karras descobrir. Pelos olhos maldosos e maliciosos de Seimei, só uma pessoa surgiu na mente do padre.
─ Ah, não! – protesta Karras – Ela não!
─ Já que eu lhe disse que não o ajudaria, você deve considerar a possibilidade de quem o queira, não é?
─ Mas ela é... Eu sou... Eu não sei se devo ir até lá.
─ O senhor superou esse seu preconceito religioso para vir até aqui. Supere-o mais uma vez e vá lá falar com ela. Não posso dizer se irá ter sucesso, mas as chances são melhores com ela do que com qualquer outra pessoa que tiver em mente.
─ Eu vou pensar no caso. Prometo.
─ Eu sei que vai. O senhor não tem muita escolha.
Ainda debruçado sobre a janela do táxi, Seimei olha para o lado, remexe os lábios, pensativo. Queria dizer mais alguma coisa, mas pelo visto, desistiu. E enfim, ergue-se e bate na cabine do automóvel. O motorista então se vai, levando o padre.
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Vera Cruz. Estado do Maranhão, único estado do nordeste à usufruir da floresta amazônica e que, depois do Fim do Mundo e da estranha energia que alimentou a fauna e a flora, teve suas árvores multiplicadas, tanto em quantidade quanto tamanho, tornando-se ainda maiores e mais assustadoras. Num ponto isolado do estado, uma mãe desesperada era consolada por seu marido, que a abraçava fortemente enquanto tentava segurar suas próprias lágrimas de preocupação. Naquela noite escura, seu filho de quatro anos estava desaparecido na extensa floresta. Era uma mata considerada perigosa, protegida por uma cerca de segurança para evitar que animais grandes saíssem e ferissem a população. A cerca de fato impedia animais grandes de saírem, mas animais pequenos e crianças espertas passavam por ela sem problema. Assim, duas outras crianças, de onze e doze anos, numa brincadeira inescrupulosa, fez com que o garotinho entrasse na mata para recuperar uma bola de futebol, escondida por eles muito tempo antes.
O problema é que já era tarde para esse tipo de brincadeira. E agora, passando das onze e meia da noite, a criança não retornava. Provavelmente se perdeu no caminho e, ao invés de sair, se aprofundou ainda mais nas matas. A polícia foi chamada e já avisara de que isso não era incomum, portanto, só poderia entrar em ação vinte e quatro horas depois do desaparecimento da criança. Como última esperança, os bombeiros também haviam sido chamados. Estes sim, não faziam corpo mole diante de um problema tão sério e já estavam à caminho. Mas devido à área montanhosa, eles também demorariam à chegar.
A única ajuda profissional ao lado daquele casal era um helicóptero de uma rede de televisão que por acaso ficou sabendo do fato e voou para lá. Não podiam fazer muita coisa já que a aeronave não poderia entrar na densa floresta e as grossas folhagens e galhos atrapalhavam a luz do seu canhão Nightsun. Eles avisaram que iriam ficar até o fim do combustível, dando suporte do ar e filmando tudo ao vivo para seu canal de televisão. E nada mais que isso se poderia fazer.
Enquanto isso, eram os familiares e amigos dos pais da criança que se arriscavam fazendo as buscas. Mas eles também tinham suas limitações e preocupações. Era perigoso se aprofundar demais na nova e inexplorada floresta pós Fim do Mundo. Tirando os animais silvestres habituais do local, havia ainda a possibilidade de se deparar com algum novo tipo de bicho ou inseto venenoso. Assim, as pessoas entravam, iam até certo ponto da extensa floresta e retornavam.
Entendendo o medo daqueles que o ajudavam, o pai percebeu que só ele poderia fazer algo mais. Então leva a esposa para dentro de casa, lhe serve uma água com açúcar e deixa a mulher aos cuidados de suas vizinhas. Depois acende um candeeiro e sai, decidido à procurar seu filho até em lugares ainda não explorados. Tinha certeza de que seu filho estava fora do limite conhecido pelas pessoas.
─ André! – ele grita o nome de seu filho assim que passa por um dos colegas que já no limite da imaginária linha de exploração.
─ Daqui para frente tem alguns buracos, descidas e lagos. Fora os animais venenosos. Não podemos ir muito além daqui.
─ Agradeço sua ajuda – diz o pai, avançando e gritando o nome de seu filho – Andrééé...
O homem observou o pai desesperado ser tragado pela escuridão da floresta. Nada do que dissesse o faria mudar de ideia, então, só restava rezar e torcer.
Os bombeiros chegaram vinte minutos depois do chamado, assumiram o caso e ordenaram, por segurança, que todos os civis saíssem da floresta. Foi nesse momento que, no helicóptero de reportagem, o piloto avistou algo ao longe, se aproximando pelos ar. Vinha do horizonte, era grande demais para ser um pássaro, pequeno demais para ser um avião e rápido demais para um planador ou asa delta.
─ Tem algo vindo para cá ou é impressão minha?
─ Hum? – o repórter e também copiloto da aeronave olha ao horizonte, poucos segundos antes do objeto passar abaixo deles e se mergulhar na densa floresta.
─ Mas o que era aquilo?
O repórter olha para o piloto, com os olhos brilhantes de excitação:
─ Entre em contato com nosso o chefe dos bombeiros. Quero falar com ele.
─ C-certo!
O recado é transmitido ao celular do bombeiro chefe, que depois de trocar algumas palavras com o repórter no ar e ficar à par da situação, ordena com mais afinco que todos ainda na floresta, os seus ajudantes, os familiares e amigos da família, se retirassem e aguardassem segunda ordem.
Encolhido entre as grossas raízes expostas de uma sequoia enorme, bem ao fundo da floresta, o garotinho André estava realmente apavorado, agarrando com firmeza a sua bola de futebol que ele tanto amava por ser o primeiro brinquedo que ganhou de presente na vida. A primeira coisa que viu depois que encontrou sua bola foi uma coruja. Isso o fez sair correndo, desorientado, indo parar ao fundo das árvores ao invés de voltar pelo caminho que veio. E para seu azar, a cada passo que dava, ele tinha a sensação de ter visto ou escutado alguma coisa. Eram apenas sombras ou o vento fazendo barulhos estranhos. Mas para um garotinho de quatro anos, eram monstros pavorosos e uivos assustadores, por isso ele foi se aprofundando mais e mais.
Já era pouco mais da uma da manhã quando, de repente, ele ouviu um barulho estranho, parecido com um remexer de folhas e galhos. Quase abriu a boca para gritar por ajuda quando percebeu que, o que remexia nos galhos, vinha em sua direção sempre pelo alto. E ele não era tão ingênuo para acreditar que um ser humano conseguisse se mover tão rápido pelo topo das árvores.
O garotinho aperta sua bola contra o peito e fecha os olhos, na ilusória sensação de que, se mantivesse os olhos fechados e não vissem o monstro, então o monstro também não o veria. Só que o suposto barulho, que ia se aproximando cada vez mais, assim que ficou bem acima da área onde André estava, pareceu parar. O pequeno André morde os lábios e se encolhe mais e mais. Até que escuta uma voz aconchegante:
─ Então você é o Andrezinho que estão procurando?
Bem devagar, o garotinho abre os olhos e ergue o rosto, procurando saber de onde vinha a voz. No alto de uma pequena elevação pouco mais à frente e abaixada sobre topo de uma das pilastras de pedra que demarcavam a área de perigo da floresta, ele vê uma majestosa criatura. Parecia uma mulher de cabelos longos, com roupas justas na parte superior do tronco e barras largas e longas da cintura para baixo, tudo em cores verdes e amarelas. Usava um aparelho típico de comunicação em que se notava um visor ao olho direito. No momento estava aceso e brilhando na escuridão. Nada disso, porém, chamava mais atenção do que o belo e plumoso par de asas às costas da mulher, iluminando ainda mais a sua aparência majestosa.
─ Oi meu amorzinho – ela continua com um rosto sereno – a mamãe está preocupada com você.
─ Ma... mãe... – o garotinho levanta-se chorando e caminha em direção à ela.
Apesar da aparência incomum, aquela mulher não era uma total estranha. André já tinha ouvido falar dela pela boca de seus pais e amiguinhos mais velhos. Não lembrava o nome e nunca a tinha visto, nem mesmo pela televisão, mas sabia que poderia confiar nela.
A mulher também se aproxima do menino, ajoelha-se e abre os braços para recebê-lo.
─ Vou levar você até ela, tudo bem?
O pequeno André corre pelo resto de espaço que os separavam e se joga nos braços da mulher, sem largar sua querida bola de futebol. Ela ergue o menino no colo e avisa com voz de ternura.
─ Estamos bem longe de sua casa então a gente vai voando até lá. Você não tem medo de altura, né? Claro que não. Nenhuma criança tem.
André apenas sorri, de olhos arregalados e rosto esperançoso.
─ Então... Prepare-se! – a mulher diz por fim.
Uma flexionada nos joelhos, um poderoso salto em linha reta, seguido de um bater de asas para ganhar mais impulso e, no instante seguinte, o céu estrelado já era visto com mais clareza, sem os obstáculos das folhas e galhos. Abaixo, as copas das árvores agora se mostravam como um mar verdejante e, aos poucos, começavam a se mover para trás, tal qual uma colossal esteira rolante de grama.
A sensação de voar era maravilhosa, um deleite reservado apenas aos pássaros. Claro que máquinas e balões tentavam imitar esse poder, mas nenhum apetrecho inventado pelo homem causava a mesma adrenalina e proporcionava o mesmo prazer de liberdade que o de voar livremente pelos céus.
Quando viu a criatura se sobressair entre a floresta e, ao que parecia, estar protegendo algo em seus braços, o repórter na aeronave enlouqueceu, gritando desesperado com seu camera-man.
─ Filma aquilo! Filma aquilo! Filma aquilo!
O garotinho também gritava de alegria, erguendo sua bola de futebol com seus braços curtos. Os bombeiros prontamente abriram um pequeno cerco entre os curiosos e repórteres e a mulher alada pousou suave no meio deles. Após um abraço apertado e afetuoso, ela entregou o pequeno André nos braços de sua mãe, que invadiu o cerco aos tropeções e não conseguia parar de chorar. O pai chegou logo em seguida, abraçando mulher e filho por um longo momento. E em meio à uma salva de palmas, a mulher alada, visivelmente envergonhada, faz gestos para as pessoas pararem com aquela festividade. Explica que se alguém merecia ser elogiado, era o pequeno André, que se mostrou corajoso por todo o tempo. E finaliza dizendo.
─ Obrigada à todos vocês. Pela ajuda e pela preocupação.
Ela uniu as mãos em frente ao rosto e agradeceu à todos de coração. Tinha noção de sua importância para os necessitados, tinha noção de que sua capacidade de voar fazia as pessoas pensarem que ela poderia estar em qualquer lugar à qualquer hora, mas não era bem assim. Por isso, Flousey sentia-se muito feliz quando via as pessoas se ajudando, se preocupando uns com os problemas dos outros.
Fugindo dos olhos admirados e elogios exagerados, Flousey se aproximou do garotinho ainda no colo dos pais e lhe acariciou os cabelos. Ela amava crianças, apesar de seu superior não concordar e praticamente proibir que ela interagisse demais com civis.
─ Olha só o homenzinho – ela diz encostando seu rosto ao do garoto, sentindo a maciez infantil de sua pele – não ficou com medo de cair?
─ Hu-Um – André sacode a cabeça, negando – Sabia que você não me soltaria.
─ Não mesmo. Nunca.
Súbito, Flousey coloca uma das mãos no aparelho ao ouvido direito, e responde ao headset.
─ Só um momento.
Dando um beijo de despedida, na mãe e na criança, Flousey volta-se para o chefe dos bombeiros, agradece pela ajuda e se desculpa pela saída repentina. Então, num forte passo à frente, seguido de um salto e um único bater de asas, e sendo ovacionada e aplaudida pelos presentes, Flousey ganha os céus mais uma vez. Estabilizando-se à uma altura elevada e confortável, ela aperta o botão de recepção do seu aparelho enquanto plana nos céus.
─ Pronto!
─ Eu vi isso, Flousey. Esse seu visor serve para outras coisas além de sensor de calor.
─ Eu sei. Desculpe, eu não consegui me controlar. Quatro anos e tão corajoso.
─ Falamos sobre isso outra hora. Porque agora aconteceu algo terrível.
─ O que aconteceu?
─ Um embaixador da Nova Inglaterra foi assassinado aqui em Vera Cruz.
─ Por todos os Deuses! Como isso aconteceu?
─ As notícias só virão de manhã, mas eu preciso que você vá para a Nova Inglaterra agora. Eu preciso que você acalme os nervos daquele reizinho afobado até sabermos quem vai assumir o caso. Já marquei um encontro entre vocês para as dez da manhã.
─ Certo. Preciso passar aí para me preparar.
─ Tá legal. Vem voando pra cá. E quando digo “voando” eu quero dizer rápido! Bem rápido.
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