A Busca

40 Marisa da DeWars


O assassinato de Lomar Armstrong foi considerado um crime de incidência internacional e a coroa da Inglaterra já estava cobrando investigação e justiça. O problema é que ninguém tinha pista alguma do que aconteceu e nenhum dos envolvidos sobreviveu para contar o que houve. Agora, no local do crime, um homem baixo, barbudo e pançudo, de olhar sério e cabisbaixo, esperava ao lado de fora do estacionamento pela chegada de uma unidade policial muito importante. Ele era um detetive já aposentado que, naquele dia, antes do amanhecer, recebeu um telefonema e uma missão importante: ir até o local em que Lomar fora assassinado e mantê-lo intocável até que a força policial responsável em casos assim chegasse. O detetive fuma um cigarro de cheiro forte, sem nicotina, e se pergunta o porquê da demora. Ele havia esquecido que ações criminosas nunca param e, sendo assim, mal podia imaginar que do outro lado da cidade, três policiais de um DP de Jaú estavam encurralados num barraco cercado por uma quantia de doze meliantes. Tinham recebido uma chamada de assalto à residência, mas não foram notificados de que os ladrões não eram poucos. Faziam parte de uma quadrilha de mais de vinte homens. No confronto, dois dos cinco policiais e oito dos vinte criminosos foram mortos. E agora o confronto estava quase no fim.

Graças a suprema lei de desarmamento, só os policiais de forças especiais tinham o direito de andar com armas de fogo. E os três encurralados não faziam parte de nenhum grupo especial. Eram apenas peças do governo, usadas para acabar com a poderosa onda de violência que dominava a cidade. Em contrapartida, os bandidos não tinham objeção nenhuma em usar armas de disparo. Os dois únicos problemas que enfrentavam eram: conseguir uma, já que boa parte delas foi destruída. E não ser capturado pelas autoridades em porte das mesmas, pois o porte de arma de fogo sem autorização é punido com a sentença imediata de morte.

Um dos policiais encurralados era o sargento Seixas. Ele liderava aquela frota de ataque e agora, tudo o que tinha eram seus dois homens restantes, um de patente cabo e o outro, ainda um interino, ambos tão assustados quanto seu sargento. Para piorar, dentro do barraco havia uma senhora de idade avançada e uma criança, provavelmente avó e neto. Em situações comuns os bandidos não fariam nenhum mal à eles, mas agora que os policiais se esconderam ali, aqueles dois com certeza já foram descartados do círculo de compaixão dos meliantes.

Seixas possuía apenas o seu sabre, arma oficial de toda a frota policial do mundo. Já seus soldados estavam desarmados, desesperados e gritando de pânico enquanto os agressores, do lado de fora do barraco, tentavam arrombar a porta que fora bloqueada com alguns móveis e pedaços de madeira. O sargento Seixas olha para seu celular. Já havia ligado para o quartel local e recebido a notícia de que logo os reforços estariam ali. Mas a demora era tanta, que Seixas percebeu e aceitou que foram abandonados. E por que não seriam? Eles eram apenas peões da policia, usados para casos pequenos. E peões eram descartados com frequência. Ficou claro para Seixas que o chamado de assalto à residência foi forjado e que eles caíram numa armadilha.

Sem mais alternativas, Seixas procurou um número especial no seu celular, que tinha anotado anos antes, época em que era do exército. Muito acima de seu atual batalhão, o sargento Seixas sabia que essa unidade não tinha nada a ver com a polícia local e que eles jamais interfeririam em assuntos tão pequenos. Mas, após olhar para avó e neto, escondidos e encolhidos no cubículo que era o banheiro, ele imaginou que não lhe custaria nada tentar. Então escreve um texto rapidamente, informando a situação, e envia.

Dez minutos depois, no quartel general de uma unidade do exército brasileiro, um soldado de verde camuflado passa apressado pelos corredores de um campo militara e bate na porta de vidro de uma sala, onde outros seis homens estavam em reunião. Um deles faz sinal que entre, e o visitante abre a porta e se põe a falar rapidamente.

─ General! Recebemos uma ligação de um dos soldados de policia do estado de Vera Cruz.

─ De qual localidade? – questiona o general sem olhar para a cara do soldado.

─ Uma cidade-estado, chamada Jaú, na região norte de Vera Cruz, estado do Amazonas.

─ E qual o recado?

─ É um pedido de socorro, senhor. Parece que estão encurralados. Ele escreveu também algumas linhas sobre pessoas inocentes, mas não dá para entender.

─ Ignore! Isso é problema da policia local.

Na ponta da mesa, em frente a todos os outros homens, na parte mais privilegiada da sala de reuniões e sentado na cadeira de maior prestígio, havia um homem, de corpanzil enorme, ombros largos e rosto pouco enrugado pela idade, usando terno marrom escuro com muitos adornos e insígnias douradas e um quepe cinzento, também com muitos enfeites de cor prata. Com metade do rosto escondido abaixo da aba do quepe militar e a outra metade oculta atrás dos dedos entrelaçados em frente à boca, ele questiona com uma voz tão poderosa que assustava.

─ Cidade-estado de Jaú?

─ Senhor, sim senhor!

─ É só um incidente pequeno meu comandante – torna o homem de patente General – não acho que devemos nos intrometer.

─ Não só acho como não devemos – completa um outro homem, de pele negra e terno militar quase tão adornado quando o da ponta privilegiada da mesa.

Este possuía a patente de um marechal, o mais alto posto do exército. Entretanto, de todos na mesa, isso era apenas o segundo posto mais elevado daquela sala. O comandante supremo torna a falar:

─ Claro que não! Mas eu tenho um de nós por lá, então não custa dar uma observada.

─ Sim meu senhor – o general abaixa a cabeça.

O marechal encara o homem com seus olhos castanhos de conjuntivas vermelhas.

─ Senhor Savage, e o caso de Armstrong?

─ Lomar Armstrong não vai a lugar algum. Ele já está morto.

O líder da mesa ergue a cabeça e pede o celular do soldado emprestado, copia a mensagem e o número para o seu celular particular, que era considerado um dos mais avançados e caros do mundo. Depois, faz uma rápida ligação para outro celular tão avançado e exclusivo quanto o seu.

No casaréu perdido numa das favelas de Jaú, o sargento Seixas, ao notar que a porta estava para ser arrombada, empunha seu sabre e se coloca em posição de ataque.

─ Quando eles entrarem, eu vou dar tudo de mim. Aí vocês aproveitam para fugir, entenderam?

─ S-sim senhor – diz o cabo quase chorando.

─ Não senhor! – responde o outro, com patente de soldado interino – eu vou lutar até o fim, ao lado do senhor, meu sargento. Se lutarmos juntos, o cabo e essa família terão mais chances de escapar.

Após olhar por vários segundos para o soldado e ver que ele estava firme em sua decisão, o sargento Seixas lhe replica:

─ Faça como quiser soldado.

Do lado de fora, os doze homens já cansados de tentar arrombar o velho barraco de madeira, começam a arquitetar um plano para fazer os homens saírem. Foi quando um deles teve a ideia nefasta de pôr fogo no pequeno estabelecimento. Os outros meliantes concordam prontamente e um deles se oferece para ir buscar gasolina e fósforos.

Quando deu seus primeiros passos, descendo o pequeno relevo que formava o terreno da cabana, um Sedan preto chegou no local, barrando seu caminho e levantando poeira, tal qual era a velocidade com que veio até ali. Era um automóvel incomum, com aparência futurista, jamais visto por qualquer um daqueles homens. A placa do carro, de cor preta, tinha a simplória identificação DWS: 001 escrita em prata e continha o desenho de um brasão que dispensava qualquer apresentação. O meliante se afasta, assustado e sussurrando:

─ A... A DeWars?

A porta do sedan se abre e, despreocupadamente, uma mulher vem saindo. Elegante, alta, de cabelos ondeantes com uma cor alaranjada de rara beleza, ela usava óculos de grau com lentes escurecidas e um quepe do exército bem adornado. Vestia-se com um terno social feminino de cor verde claro e um blazer militar por cima das vestimentas, de cor branca, que lhe chegava aos seus joelhos. Ao lado da cintura, preso por uma cinta especial de duas voltas, um sabre curvado de cabo branco marfim, dentro de uma bainha, também branca.

A mulher tira o quepe, coloca no banco de seu carro e fecha a porta. Em seguida, encara os doze meliantes, um por um, com uma face séria e raivosa. Enquanto ela os encarava, silenciosa e imóvel, os meliantes começaram a se perguntar coisas relacionadas ao fato de a DeWars estar ali, naquele fim de mundo, e se metendo com gente que, para a organização, não passavam de moscas. A DeWars era como o exército, ou seja, eles não se envolviam em crimes internos ou situações onde cada polícia de cada cidade ou estado tivesse a obigação de resolver.

A mulher observa o enorme relógio no pulso, solta um suspiro e profere em voz alta.

─ Senhores, bom dia. Sou a comandante Marisa, da tropa de operações especiais conhecida como DeWars!

Apesar de feminina, a voz de Marisa soava em contralto. Era pesada e firme, bastante autoritária. Após sua apresentação, um silêncio se seguiu entre os meliantes. Até que único homem de cabelos grisalhos no grupo, com pinta de líder do bando, adianta-se ao centro dos marginais e pergunta receoso:

─ O... o que a senhora quer por aqui?

A mulher olha para o lado, e vem girando a cabeça devagar, observando tudo ao redor. O lugar era uma favela rasa, com casas baixas e vielas para todos os cantos à exceção do local às suas costas, de onde viera de carro e se via uma rua sem asfalto, cruzando a favela. Numa análise de situação, todos os potenciais inimigos estavam ali, espalhados à sua frente. Ela retira seu celular do bolso, confere a localização em GPS que lhe foi passada e constata de que estava no lugar certo. Então guarda o celular, retira os óculos e passa um pequeno lenço de seda nas lentes, explanando de forma tranquila:

─ Recebi um pedido de ajuda que, pelo visto, vem daquele barraco.

A moça faz um sinal com a cabeça, apontando para o aposento de madeira, mas nenhum dos homens segue seu gesto e mantêm-se firmes no lugar.

─ E o que você quer? – repete o homem de cabelos grisalhos, armado com um longo, grosso e imundo pedaço de ferro.

─ Sei que estão querendo agredi-los, mas peço que os deixem partir. São homens da polícia de sua cidade e vocês deveriam respeitar.

─ E se a gente não deixar? – questiona um outro, bem mais novo, praticamente um moleque, segurando um pedaço de pau na mão direita.

Rrecolocando os óculos, Marisa caminha devagar até ficar ao centro aberto pelos bandidos, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça social, e diz com os olhos voltados para baixo:

─ O objetivo da DeWars não é enfrentar ou prender vocês, seus míseros ladrões de galinha e criadores de caso. Mas se não fizerem o que eu estou mandando, serei obrigada a usar de violência.

Mais um dos homens, de cabelo longo e corpo musculoso, troca sua arma com um dos colegas, pegando uma espécie de faca de cozinha e se aproxima um pouco mais da comandante.

─ Você acha que tá apavorando a gente, mulher? Sei que essa sua farda merece respeito, mas você não tem noção do perigo?

Marisa solta um ar lento dos pulmões, mostrando-se irritada e estressada. Ela não tinha tempo e nem paciência no momento para discutir com aqueles arruaceiros, então decide resolver tudo de um modo direto, gritando subitamente.

─ VOCÊS AÍ, POLICIAIS DENTRO DESSE CASEBRE. ESTÃO TODOS BEM?

O sargento Seixas, ao ouvir a voz de uma mulher cortando o repentino silêncio lá fora, procura por um buraco na madeira do barraco e, ao olhar por ele, abre a boca de espanto quando seus olhos encontram a pessoa de jaqueta militar no centro dos meliantes.

─ Mas é...? A... A comandante Marisa! O que ela está fazendo aqui?

A mulher repete a pergunta e, antes de terminar, o sargento responde de imediato.

─ ESTAMOS BEM, MINHA SENHORA!

O sargento tremia numa mistura de emoção e medo. Ele tinha quase certeza que o exército não ia responder seu chamado de ajuda. Mas, se acaso a resposta fosse afirmativa, ele jamais imaginaria que iriam pedir ajuda logo à Marisa, a pessoa que dividia a mais alta patente da corporação DeWars. Após ouvir a resposta vinda de dentro do barraco, Marisa replica:

─ Ótimo! Fiquem aí dentro. Só saiam quando eu mandar, entenderam?

─ ENTENDIDO!

Sem se alterar, Marisa volta até o carro, retira seu blazer dos ombros, faz algumas dobras iniciais e o coloca sobre o capô e seu celular acima do porta-luvas. Os bandidos apenas observavam os movimentos da mulher. Estavam assustados e confusos demais para saber a hora de atacar, ou mesmo se deviam atacar.

Preparada, Marisa retorna ao meio dos inimigos, ficando no centro da roda de meliantes. Calmamente, ela coloca um par de luvas pretas, retira seu sabre da cintura, com bainha e tudo, puxa a folha de lâmina e finca a espada no chão. E segurando apenas a bainha na mão esquerda, a mulher mostrou-lhes o relógio no pulso e, batendo o dedo indicador sobre ele, continuou:

─ Tenho um compromisso bem mais importante e já estou muito atrasada. Por isso, se vocês não querem mesmo desistir, venham todos juntos. Assim eu ganho tempo.

O homem de cabelos grisalhos sorri, mostrando seus dentes estragados e amarelos. Ele é o primeiro a gritar e atiçar o linchamento. Logo, todos os outros, contagiados pela euforia, começam a berrar e avançar, sem controle e sem estratégia, em direção da mulher. Sabiam que agora era tudo ou nada.

Vinte minutos depois, no local do crime de Lomar, o detetive encarregado de cuidar do lugar já estava ficando impaciente, quando viu o sedan negro e futurístico da DeWars se aproximar. O homem disfarça seu aborrecimento e se aproxima do Sedan, esperando a porta abrir.

─ Bom dia, comandante – ele diz enquanto apaga mais um cigarro que havia acendido.

─ Muito bom dia, detetive. Desculpe a demora, tive uns probleminhas no caminho.

─ Tudo bem.

─ O que o senhor já descobriu?

─ Nada, por enquanto. Há sinais gritantes de invasão no trailer, mas não há vestígios de arrombamento no cerco ao redor. Quem quer que tenha entrado aqui, era ágil como uma lebre e leve como um gato. Tenho uma informação valiosíssima para a senhora, mas antes gostaria que visse a cena do crime.

─ Repórteres e perícia?

─ A perícia entrou, mas não mexeu nem analisou nada ainda. Os repórteres de TVs e jornais estam esperando autorização do governo antes de poderem entrar no trailer.

─ Maravilha.

Sobre uma enxurrada de flashes de máquinas fotográficas, os dois passam pelos portões de entrada do estacionamento reservado aos trailers e vão direto para a casa móvel especial de Lomar. Os corpos dos soldados de segurança já haviam sido removidos. Apenas o de Lomar Armstrong ainda estava no mesmo exato local onde foi encontrado.

Marisa entra no trailer de Lomar acompanhado do detetive e do chefe superior de policia da cidade-estado de Jaú, servindo-lhe de escolta. A mulher se aproxima e abaixa-se perto do corpo do falecido, notando a adaga enfiada na testa do homem.

─ Uma Tantô (1)...!

─ Umm... – o chefe de policia se admira com a observação e cultura de Marisa – Sim comandante, uma adaga japonesa. Os soldados britânicos também foram mortos por uma arma cortante, mas é difícil dizer se foi a mesma.

─ Havia alguém com arma de fogo?

─ Sim. Poucos soldados, cerca de seis deles, estavam armados com baionetas.

─ E não tiveram tempo de atirar?

─ Aí é que está comandante – o detetive mostra um saquinho plástico com três cápsulas de projétil usadas e continua – Três tiros foram disparados durante a ação de ontem. Mas nenhum acertou o alvo.

─ Nenhum acertou o alvo – repete Marisa erguendo-se devagar e olhando ao redor do interior do trailer.

─ Dois foram encontrados no local, um na parede e outro num dos trailers. O terceiro, de acordo com o que foi periciado, foi disparado para o céu.

─ Para o céu?

O detetive dá de ombros. O chefe de polícia também não soube o que dizer. Marisa começa a andar por todo o trailer. Estando de luvas, ela pode mexer em tudo e abrir todas as portas. O olhar sério e desconfiado mostrava que ela, ao mesmo tempo em que procurava por pistas, matutava outra coisa completamente diferente em sua mente. Se havia seis soldados armados, por que só três atiraram? O detetive espera Marisa terminar de observar e remexer nos interiores e pequenos detalhes do trailer e se aproxima, ouvindo a mulher lhe perguntar:

─ Qual era a informação especial que tinha para mim?

O detetive olha para o chefe de polícia e lhe dá permissão de falar.

─ Bem... – o chefe de policia olhou para fora do trailer, para ver se não havia ninguém por perto, depois voltou a entrar e sussurrou – quando os homens da embaixada chegaram, encontram um dos britânicos ainda vivo. Ele foi levado para o hospital, mas não resistiu e morreu na ambulância. No entanto, antes de ser carregado, ele murmurou alguma coisa que eu julguei ser importante.

Marisa posiciona de frente para o homem e cruza os braços, então o detetive continua no lugar do chefe de policia.

─ Ele tinha um sotaque inglês difícil de entender, mas eu acho que podemos usar o que ele disse como pistas para um início de investigação.

─ E o que foi que ele disse, senhores?

─ Ele resmungava constantemente as palavras “smiling lassie” e... Rumiko.

─ Rumiko? O que é isso?

─ Acho que é um nome, comandante – retorna o chefe de polícia – Se for, é de origem japonesa.

Marisa se aproxima do chefe de policia, que não era nem de baixa estatura e nem de pouco porte físico, mas sentia-se pequeno quando ficava perto do alto e esbelto corpo da mulher. Ela lhe pergunta bem rente ao seu rosto.

─ Está me dizendo que quem fez isso foi uma “moça sorridente” de origem japonesa?

─ Bem, minha senhora... Nós ainda não começamos a investigar a fundo. Por isso é cedo dizer.

─ Uma adaga japonesa usada por uma assassina japonesa – Marisa divaga.

A mulher volta a olhar para o cadáver de Lomar e fica alguns segundos em silêncio, pensando e observando o local. Todos esperavam ansiosos para ver que decisão ela iria tomar. Um homem da importância de um embaixador, morto fora de seu país, era motivo suficiente para causar um pequeno conflito de interesses. Ela tinha de deixar o caso nas mãos de alguém que conseguisse encará-lo com cabeça fria. Alguém que soubesse lidar com a investigação e com as cobranças do país natal do embaixador, no caso, a Nova Inglaterra do rei Henry.

Quando Marisa finalmente tomou sua decisão, ela viu, depositada na mesa, a bainha da adaga.

─ Disse que ninguém entrou aqui ainda?

─ Não senhora, comandante.

─ Nem vocês?

─ Só eu, minha comandante – responde o detetive, erguendo timidamente a mão – recebi ordens para averiguar o local e mantê-lo seguro e imaculado até que um de vocês chegasse.

─ Humm... – faz Marisa, matutando alguma coisa.

Depois de quase um minuto, ela pega seu celular, disca rapidamente alguns números e, após uma demasiada espera de quase seis toques, uma voz feminina, típica de secretária, atende:

─ Recepção da Força NERAK, bom dia.

─ Bom dia, mocinha. Eu sou a Comandante Marisa, da DeWars. Quero falar diretamente com o diretor.

─ Claro! Só um minuto, por favor.

Uma longa pausa:

─ Pronto! – veio a voz masculina, embora suave, respondendo do outro lado da linha.

─ Senhor Lee? Marisa falando, tudo bem?

─ Comandante! Sempre é uma honra ouvir sua voz.

─ Já sabe sobre o incidente internacional ocorrido em Jaú?

─ Sim, comandante. Flousey já foi para a Inglaterra tentar acalmar os nervos do Rei Henrique enquanto não sabemos quem vai assumir o caso.

─ Rei Henry, você quer dizer. Eu estou no local do acontecido. Para ser mais exata, estou no trailer onde Lomar foi assassinado.

─ Já sabe quem foi?

─ Eu tenho um nome e uma leve fisionomia. Mas o mais importante, eu tenho aqui comigo a arma que foi usada para matar Lomar. Vou envia-la à vocês aí da Nerak’s Force, tudo bem?

─ S-sim. Pode mandar, mas... Porque vocês mesmos não assumem o caso?

─ Não acho que a DeWars deva se envolver. Não ainda.

─ Certo, sem problemas, eu acho.

─ Tem algum repórter ou fotógrafo de vocês por aqui?

─ Sim. O nome dele é Parker.

─ Que conveniente. Peça para ele entrar. Será o primeiro a fotografar Lomar.

─ Obrigado, comandante. Vou ligar para ele e avisá-lo agora mesmo. Aproveitando, diga o nome do suspeito, assim eu já o procuro na nossa lista de suspeitos e criminosos.

─ Eu vou levar a arma para você pessoalmente e aí nós conversamos.

─ Você... Vai vir aqui?

─ Algum problema em me receber?

─ Hã? Não, claro que não! Tudo bem, eu estou esperando então.

Marisa desliga o celular e encosta o aparelho aos lábios pintados com batom cor de pêssego, pensando mais profundamente sobre essa decisão. Não era uma boa ideia, mas era bem melhor que deixar nas mãos da polícia local.

Minutos depois, um rapaz chega à porta do trailer e se apresenta como Parker, mostrando um distintivo quase policial, com o brasão da Corporação NERAK. Marisa o convida a entrar e, a fim de deixa-lo trabalhar, ela sai do trailer, sendo seguida pelo chefe de polícia e pelo detetive. A mulher olha para o chefe e ordena:

─ Entre em contato com a torre de radar aéreo do estado e veja quantas aeronaves sobrevoaram o território nos últimos dias.

─ Sim, comandante! Farei isso imediatamente.

Em seguida, Marisa pergunta ao detetive.

─ Qual o horário de funcionamento dos trens desta região?

─ Há apenas um trem, minha senhora. O trem de longa distância, que cruza de Saltos à Manaus com paradas programadas para refeições. Por que pergunta?

─ Aqui em Jaú não há onde pousar aeronaves sem serem detectadas. Se essa assassina for japonesa, não tiver asas como Flousey e não veio de helicóptero, significa que ela só pode ter vindo de trem, por isso ainda deve estar por aqui, nos arredores de Jaú.

─ Humm... entendo. A senhora tem razão.

─ A coisa mais certa a fazer seria mandar alguém para a estação. Mas não sem uma descrição definida do suspeito é um tiro no escuro.

─ É verdade. Mesmo assim é uma boa ideia. Vou providenciar isso também. Quem sabe até lá não surja alguma informação que auxilie no reconhecimento do suspeito.

O detetive se encontra com alguns policiais, explica a situação e aguarda uma resposta. Depois aproxima-se da comandante e diz que está tudo arranjado. Marisa sonoriza um “sim”, retira um longo e fino cigarro de uma caixa dentro do blazer militar e acende. Então aguarda até que vê o fotógrafo da NERAK saindo do trailer.

─ Por Júpiter! Ele trabalha rápido! – observa Marisa.

─ Vai nos ajudar a investigar, comandante? – questiona o detetive.

Marisa pede ao chefe de policia a caixa de sacos plásticos, daqueles usados para recolher provas, e responde sem delongas:

─ Não! Vocês também estão dispensados do caso. Esse problema é da força Nerak.

Ela entra no trailer, retira sua luva e coloca outra de silicone, usada em medicina e coisas do tipo, e arranca a adaga da testa de Lomar, colocando-a dentro do saco plástico. Num outro saco de provas, ela coloca a bainha da adaga. Só aí é que ela se despede do detetive e do chefe de polícia, e caminha até seu carro do lado de fora do cercado, com os sacos de provas nas mãos, sendo fotografados pelos vários repórteres do local.

Pouco após entrar em seu automóvel e fechar a porta, ela faz uma nova ligação, que só era possível de ser feita por seu celular e que rapidamente é atendida.

─ Savage! – exclama uma voz máscula e grave.

─ Comandante Marisa falando, senhor.

─ O que você descobriu?

─ Nada ainda comandante Savage. Só temos um nome e uma inútil descrição do culpado. Mas eu tenho em mãos a arma usada para o assassinato.

─ Isso já basta. Traga-a aqui e vamos resolver isso antes que aconteça o pior.

─ Eu tenhooutra ideia. Estou indo agora para a corporação Nerak.

─ Pode me explicar?

─ Vou pedir para eles assumirem o caso.

─ Resposta insuficiente.

─ Bom, foi um crime de cunho internacional, mas eu estou com um pressentimento de que o responsável por esse crime não era um assassino de fora.

─ Não estou te seguindo.

─ O assassino de Lomar é, a princípio, um assassino japonês. A arma usada também é importada da terra do sol nascente.

─ Porque o Japão iria comprar briga com a Inglaterra?

─ Pra mim o Japão não tem nada a ver com o caso. Como eu disse, estou com a sensação de que o assassino é um brasileiro que matou usando um nome japonês, para livrar Vera Cruz do incidente. Por isso, ele deu o nome de seu chefe antes de matar essas pessoas. Mas isso é só uma tese minha e é o senhor que manda, então...

─ Não! Faça o que achar melhor.

─ Obrigada senhor.

─ Mas... Se estiver certa, você tem consciência de que vai colocar Flousey numa saia justa?

─ Tenho sim, senhor – Marisa sorri mordendo a ponta da língua – Mas aí já não é mais problema nosso.

Notas finais
1- Tantô = Pronúncia do termo japonês que literalmente significa "espada curta" e que, na cultura nipônica, ganhou genericamente o significado de "lâmina curta". Hoje designa, em todo o mundo e de forma genérica, lâminas com típico "design" daquela origem. O comprimento máximo da parte aparente de uma lâmina de "tantô" é de 30,3 cm.