A Busca

41 O Diretor da Nerak


Jason Marshall MacNamara Leeson, ou Jay Lee como era chamado por alguns mais próximos, era o supremo diretor e herdeiro único da mais importante organização de proteção de Vera Cruz e uma das mais conhecidas em toda o mundo, a Força NERAK. Embora adulto, ele ainda era jovem, mas já se mostrou capaz de resolver problemas e liderar seu grupo nas mais difíceis missões que foram jogadas em suas mãos. Nunca tinha pegado, porém, um caso como o do assassinato de um embaixador, mas não se sentia intimidado. Afinal, Marisa, a comandante de uma organização muito mais poderosa que sua, já estava a caminho e já tinha pistas do suposto assassino.

Tomando uma xícara de café forte, ele observava da janela de sua sala no mais alto andar do prédio de oito andares, a paisagem de sua amada cidade, agora quase em ruínas. Poucas foram as casas que se reergueram e a maioria dos altos edifícios foi abandonada ou derrubada para criação de mais casarões e áreas reservadas para o aluguel de pernoites. De repente, uma de suas secretárias lhe avisa pelo radio-telefone que sua aguardada visita já estava a caminho de sua sala. “Ótimo” – pensa Jay Lee, sentindo o coração acelerar e virando-se, se recostando à janela. Deu um rápido ajuste no terno que usava, passou a mão nos cabelos loiros e limpou os lábios com os dedos. Não demorou muito até que batessem na porta e chamassem por seu nome, ou melhor, por sua posição dentro da Força:

─ Senhor diretor. A Comandante Marisa está aqui.

─ Sim! Obrigado.

Jay Lee volta para sua enorme cadeira, coloca a xícara na mesa e fica ao lado do móvel, esperando, até que vê Marisa entrar devagar pela porta mantida aberta pela secretária. Trazia uma bolsa militar de tamanho médio e de cor preta nas suas mãos sempre protegidas por suas luvas brancas. Os cabelos longos, cheios e brilhantes e com sua maior peculiaridade, o tom naturalmente alaranjado, pareciam mais belos que nunca. No rosto a seriedade de um líder e no andar, a confiança de alguém que pisava num terreno em que dominasse e conhecesse bem. Jay Lee respira fundo e acena com a cabeça, estendendo a mão em seguida:

─ Olá, comandante. Como tem passado?

─ Vou muito bem, senhor Lee – Marisa põe a bolsa na mesa, aperta a mão do diretor com uma firmeza incomum numa mulher – e o senhor?

─ Melhor agora que está aqui. Faz tempo que não nos vemos pessoalmente. Sente-se, por favor.

Marisa abre a bolsa, retira os sacos plásticos que continham a adaga e a bainha, coloca-os de lado sobre a mesa e põe a bolsa militar no chão. Contudo, não se senta. Ao invés disso, ela caminha para um dos cantos da enorme sala e espera as deduções de seu colega e contribuinte nas batalhas das ruas. Jay Lee pega o saco e ergue à altura do rosto, analisando a adaga.

─ Então foi essa a arma?

─ Sim. Uma Tantô japonesa.

─ Uma tantô... Nunca tinha visto um político ser morto por uma arma de corte. Os marginais estão ficando ousados.

─ Não é muito difícil. O difícil foi como ele o matou. O assassino teve de chegar bem perto para poder usa-la.

─ Por que acha isso? Ele poderia simplesmente tê-la arremessado de longe, não é? Como vemos nos filmes.

Marisa olha para os retratos ao redor da sala, pega um em que havia uma jovem menina de asas agarrando, pelas costas, o rosto de um garotinho loiro e de óculos grandes e redondos, ambos sorrindo como crianças normais, num espaço de fundo branco, embora desse para ver algumas folhas caindo e flores de girassóis erguendo-se do chão.

─ Se essa Tanto tivesse sido arremessada à distância... – explica Marisa – não teria deixado a cena com a aparência que encontramos. Ela foi fincada com força o suficiente para derrubar Lomar da cadeira enquanto ele ainda estava sentado.

─ Então Lomar foi pego desprevenido e ficou tão assustado que não teve tempo de reagir ou se mover.

Marisa volta para a mesa com o retrato nas mãos e se senta confortavelmente, replicando:

─ Creio que não, senhor Lee. Lomar estava realmente com os olhos arregalados de pavor. Mas a pele da face estava lustrosa, resultante de um suor frio. Ele viu quem foi o assassino por tempo suficiente para temer por sua vida. Eu arriscaria dizer que até trocaram umas palavras.

─ Acha que eles se conheciam?

─ Acho que o assassino não matou Lomar por engano ou capricho. Lomar estava predestinado a morrer pelas mãos do suposto executor por causa de alguma coisa que ele fez no passado.

─ Interessante. Um acerto de contas ou um assassino contratado. Um assassino sequaz, talvez?

Marisa fica em silêncio, observando a foto com uma leve ternura nos olhos, receptiva apenas para os comentários que julgasse coerentes. Jay Lee estava em sua espaçosa sala, atrás de sua confortável mesa e próximo do temido telefone de onde dava ordens, pedidos e sugestões para pessoas importantes. E ainda assim, sentia-se pressionado pela grandeza da Comandante. Ele mantém a calma, respira fundo e continua, com a voz quase abafada:

─ Fiquei surpreso quando jogou um caso tão importante em nossas mãos. Não imaginei que faria isso, já que você foi para lá pessoalmente.

─ Eu estava de passagem quando recebi a informação. Minha intenção real era passear por algumas cidades do Amazonas e resolver uns problemas.

─ Entendi... Então, me diga! Qual a informação que a senhora tinha pra mim?

─ Temos uma descrição e um nome, que nos foi fornecido por um dos homens que morreram no ataque. E de acordo com ele, o assassino é uma mulher. Uma moça, na verdade, e ela deu à entender que atuou em nome de alguém que não parece ser deste país, pois forneceu um nome oriental. O nome "Rumiko".

─ Rumiko? Será que era o nome do chefe dela?

─ É a minha primeira suposição. Pode pesquisar isso pra mim? Eu não trouxe o meu computador.

─ Claro, senhora. Eu vou fazer isso agora mesmo.

Jay Lee abre um laptop sobre sua mesa e digita algumas coisas, abrindo diretórios e carregando arquivos que falavam sobre os grandes e pequenos chefões do crime. Depois, conecta o laptop à internet e atualiza a lista de criminosos condenados ou procurados por homicídio. Se não houvesse nenhum resultado com o nome Rumiko dentro da categoria de criminosos do estado, a lista iria pegar os resultados de pessoas inocentes também, para futura averiguação. Enquanto isso, Marisa se levanta e volta à parede onde estava o pequeno retrato que havia retirado, colocando-o no lugar.

─ Sua irmã já ligou? – quis saber a Comandante.

─ Ainda não! Deve estar passando raiva ouvindo as lamúrias infantis do rei Henrique.

─ Rei "Henry" – corrige Marisa, sem lhe voltar os olhos – Vocês estão bonitinhos nesta foto.

─ Hum? – Jay Lee observa o porta retrato que a Comandante se referia – Eu odeio essa foto. Estou parecendo o garoto do desenho “Denis, o Pimentinha”.

─ Nunca ouvi falar. Mas você está bem diferente agora.

─ É verdade. Troquei os óculos por lentes de contato. Mudei o corte de cabelo. Malhei um pouco, cresci mais. Fiz um tratamento para as sardas... Enfim.

─ Enfim não lembra mais esse garotinho fofo. Agora sua irmã... Olha como era bonitinha essa marca de nascença embaixo do olho de Flousey, em formato perfeito de uma estrela. Era maior quando ela era criança.

─ E não desapareceu conforme ela cresceu.

─ Porque você mantém esse retrato na parede de sua sala, se o odeia tanto?

─ Essa foi a primeira foto que meu pai tirou de mim e de Flousey juntos e ainda na infância. Ele adorava essa fotografia por muitos motivos, mas o principal é porque não tem nenhuma outra foto com Flousey ainda criança.

─ Entendi. Quem diria que ela iria durar tanto tempo. Os alienígenas que chegam aqui na Terra são literalmente dilacerados e devorados pela ciência humana. Os que encontraram ainda bebês nunca sobrevivem até a fase juvenil. Lembra-se de Utah? Ou de Butão?

─ Fora o caso de Flousey eu só me lembro de Roswell, Comandante.

─ Humm... O caso Kenneth Arnold, ano de 1947. E por quê? Fizeram um filme em Hollywood contando sobre aquele evento?

O diretor ri da indireta, relacionada ao fato de que a maioria da população do Brasil e mesmo do mundo só toma conhecimento de alguma coisa quando os americanos fazem um filme sobre o assunto. E o pior é que muitos acreditam no que assistem. Marisa achava isso um perigo, pois em sua privilegiada posição, sabia que muitas teses americanas sobre teorias de conspiração e muitas matérias jornalísticas que vão ao ar como verdadeiras não passavam de baboseira.

─ Em todo caso, isso foi graças ao meu pai – continua o diretor – Ele escondeu Flousey das autoridades dos EUA durante anos. Os antigos e “supostos” alienígenas que caíram na Terra só morreram porque foram parar nas mãos do exército americano. E foram muitos. Temos casos que datam de 1800 e pouco.

─ Eu sei. Temos todos os arquivos da NASA e da Força Aérea dos Estados Unidos, relacionados aos casos descobertos como falsos, os ainda improváveis e os classificados como secretos.

─ Então guarde-os bem porque o mundo não está preparado para outro alienígena – o diretor afasta os dedos do teclado e abaixa o volume da voz – Eu ouvi dizer, pela boca de alguém bem suspeito porém sensato, que o meteoro que caiu em Berlim não era um meteoro e sim uma nave espacial...

Jay Lee nota as verdes pupilas de Marisa o observando de esguelha. Sentiu um pingo de orgulho por ter chamado a atenção militar de sua superior, e continua com sua tese:

─ ...por isso não foi detectado quando se aproximou e por isso, o vírus D4 recebeu a alcunha de vírus alienígena. Isso é verdade comandante?

Marisa volta as pupilas para o lugar, tornando a observar a fotografia na parede.

─ Mas Flousey é inacreditável, não é? Tirando o par de asas, ela é totalmente uma pessoa comum. E mesmo levando em consideração o fato de ela ser de outro planeta, sua irmã até que é bonita. Você deve estar agradecido.

Jay Lee aceita a súbita mudança de assunto e não ousa insistir. Se aquela teoria maluca da nave espacial estivesse certa ou errada, não seria da boca da Comandante que ele iria descobrir. Então volta a digitar nos teclados e responde, mantendo o bom humor.

─ De fato, eu odiaria ter como irmã um daqueles bonequinhos baixinhos, barrigudinhos, cinzentos, cabeçudos e de canelas finas. Mas infelizmente, também é uma pena que Flousey não seja mais rápida que uma bala, não ser mais forte que uma locomotiva e não possuir visão de calor.

Marisa bufa um riso, mas não chega a gargalhar como Jay Lee o faz. Ela continua olhando outras fotos ao redor da sala, do diretor da NERAK já adulto, e algumas antigas de seu pai, que era conhecido apenas como Maxwell, apertando as mãos ou pousando ao lado de pessoas famosas, tanto no mundo do entretenimento quanto no da política. As fotos em que Flousey apareciam realmente eram poucas. Ela não tinha permissão de dar entrevistas televisivas nem por escritas, não podia posar ou aparecer em capas de revistas ou jornais, e nem interagir com civis, coisa que Marisa achava um absurdo. A comandante volta para a única foto onde os dois posavam juntos e o ajeita na parede.

─ É muito agradável ver vocês dois aqui, ainda crianças e juntos, já que seu pai tinha medo de que você chegasse perto de Flousey.

─ Como a senhora sabe disso? Não deve ser muito mais velha que eu.

─ Eu não virei a comandante da DeWars da noite pro dia, senhor Lee. Nesse exato momento, enquanto conversamos, crianças de dez à doze anos estão voluntariamente se candidatando para fazer parte de nossa tropa, estudando em nossas escolas militares. Há muitos anos atrás, eu fui uma dessas crianças. E durante a minha ascensão, eu soube que trabalharia mais com vocês do que com qualquer outra força policial, por isso recebemos um histórico e um dossiê à respeito de Maxwell Leeson, contando sua vida, suas ideias e tudo o que ele poderia nos contar sobre uma suposta visitante de outro planeta, já que não se encontra muita coisa sobre ela nos jornais e revistas do país.

A comandante senta-se na cadeira de visitas, à frente da mesa de Jay Lee, coloca os cotovelos nos braços do móvel, entrelaça os dedos e inclina-se pouco à frente:

─ Acho que eu tinha uns nove anos quando meu pai, que era do alto escalão do exército, teve a ideia de me colocar na escola militar da DeWars.

─ Eu odiaria meu pai se ele fizesse algo parecido comigo.

─ Comigo não foi diferente. Mas ele disse que eu poderia desistir quando quisesse, afinal, “Não fazer nada obrigado” era o lema de meu pai. Então eu decidi seguir o caminho dele e acabei gostando da coisa. Já estava com doze ou treze quando entrou o garoto que hoje é conhecido como o supremo comandante Savage.

─ Hum...sei.

Jay Lee nunca viu Savage e não tinha muita coragem de se aprofundar num assunto relacionado à ele, por isso encerra a conversa. A sala então, fica em silêncio pelos quase dez minutos seguintes, até que o diretor suspira desanimado:

─ Não tem nada! Temos bem poucos arquivos cadastrados com esse nome, em sua maioria de colônias de imigrantes, espalhados por todo o país. Mas são de pessoas simples e honestas e não temos acesso à cadastros de outros países.

─ Tudo bem. Não creio que será necessário, mas nós temos se precisar. Marque cada um deles e mande uma cópia para a DeWars. Vamos investigar um por um.

─ Certo! Tem mais uma coisa. O nome “Rumiko” é japonês.

─ Sim! Eu sei disso.

─ Diferente de Yukio, Yuri ou Akira, o nome Rumiko é exclusivamente feminino, ou seja, é um dos poucos nomes que normalmente se aplicaria somente às mulheres. Sabia disso também?

Marisa vira o rosto rapidamente e observa Jay Lee com um olhar de espanto. Não estavam tão acostumados com nomes japoneses, por isso, só pelo fato de Rumiko terminar com um artigo definido masculino, ambos, em suas devidas ignorâncias, acreditavam que fossem o nome de um homem.

─ Você..? – Marisa se inclina e reaproxima-se da mesa – Você está pensando no mesmo que eu?

─ Que essa tal Rumiko não é o nome da chefa e sim da própria assassina? Sim, é exatamente o que eu estou pensando.

─ Ela não deu um nome qualquer e muito menos o nome de um suposto chefe ou chefa. Ela deu o próprio nome antes de matar suas vítimas.

A comandante vira o rosto para o lado e sussurra:

─ Seria mesmo um assassino ao modo sequaz, como você suspeitava?

─ Bom, só vamos ter certeza disso quando vocês fizerem uma busca pelo cartório britânico. Porque se for uma sequaz da nova Inlgaterra, essa Rumiko em particular não deve ter cadastro brasileiro.

─ Será o primeiro país que vasculharemos, senhor Lee, eu lhe garanto isso.

─ Tem mais uma coisa, minha senhora. Lomar Armstrong era apenas um seguidor do rei Henrique, mas tinha quase tanto poder aqui no Brasil quanto a própria coroa britânica. Todos, até mesmo o rei da Inglaterra, estavam apoiando ele a ser o líder do mundo. Isso lhe soa coincidente?

─ Por que soaria?

─ Porque se ele foi morto por isso... – Jay Lee mexe em seu laptop e o vira para Marisa – Lomar não foi o único.

A comandante olha na tela e vê um documento de texto com bela formatação, com o título “Caso de Saltos”. Abaixo do enorme título, o nome do seu autor.

─ Quem é Damião Vargas?

─ É um dos nossos detetives mais antigos. Ele estava em outro caso de assassinato, mas enquanto eu a esperava, li umas coisas bem incomuns nesse relatório. Não tem nada a ver com o caso Lomar, mas contém traços que podem indicar uma possível quadrilha especializada.

─ Não seria o mesmo assassino?

─ Impossível. O suspeito de Damião é um rapaz e não uma moça. E se tudo o que estiver aí for verdade, é um assassino bem experiente.

─ Quem foi a vítima? – Marisa pega o aparelho e o põe no colo, lendo-o rapidamente.

─ Rudolf! Um ex-prefeito da nova cidade de Saltos. Ele era conhecido como...

─ O único com o cargo de prefeito que poderia subir ao posto de Leviatã, o líder do Mundo.

─ Exatamente! Achei interessante a parte em que...

Marisa ergue uma das mãos, pedindo silêncio para o diretor, e continua a leitura, com outra de suas mãos apoiando o queixo. Ter leitura dinâmica era um requisito obrigatório para todos da DeWars com títulos acima de capitão, e a de Marisa era a mais rápida da corporação, só perdendo, claro, para o supremo comandante. E ela fez bom uso de seu aprendizado, devorando páginas e páginas por minuto, mesmo que ler escritos numa tela fossem diferentes e mais difíceis do que tê-los em papel impresso.

A Comandante ergue as sobrancelhas acima dos aros de seus óculos. Nunca tinha lido um relatório tão detalhado sobre um crime do qual não havia pista alguma. Era como se lesse, em primeira mão, a resenha de um romance de suspense que ainda seria publicado.

─ Impressionante – ela diz por fim – Gostaria de conhecer esse detetive qualquer dia desses.

─ Ele já é um velho senhor. Quase inválido, devido um acidente que sofreu num caso alguns anos atrás. Anda mancando de uma perna, sabe?

─ Eu disse que quero conhecê-lo, senhor Lee. E não apostar uma corrida com ele.

─ Claro. Desculpe.

─ Ele tem como suspeito um rapaz ruivo que se veste com roupas orientais.

─ Sim. Por isso, imaginei que não era a mesma pessoa e, portanto, não poderia ser um seguimento do caso. Se houver alguma ligação então é como eu imagino, deve ser uma quadrilha, especializada em assassinar políticos. E políticos bem específicos.

─ Só que tem uma coisa, diretor. O senhor leu o relatório inteiro?

─ Sim. Duas vezes.

─ Então acho que o senhor não prestou atenção numa informação importante.

Marisa, com sua memória excelente, vai até a página onde leu uma informação que ela julgou ser importante para registro. Com o mouse, ela selecionou um trecho do texto e devolveu o laptop para o diretor. Jay Lee observa a parte selecionada, a lê mentalmente e demonstra uma face surpresa. O texto selecionado falava de uma acompanhante feminina. Uma mocinha baixa, magra, de pele clara e alegre. Estava classificada como refém, embora Vargas deixasse claro que não acreditava nisso. Marisa mantém os olhos fixos e sérios no diretor enquanto questiona:

─ Ainda acha que os criminosos não tem ligação?

─ Uma moça alegre? – questiona Lee.

─ Ou “sorridente” – sugere Marisa.

─ Síndrome de Estocolmo, talvez?

─ Talvez sim. Ou talvez ela é quem seja a assassina e o garoto seja o refém. Ou um cúmplice, um namoradinho ou, quem sabe, um assassino também, realmente responsável pela morte de Rudolf e que, por algum motivo, deixou Lomar a cargo da moça.

─ Improvável, mas não impossível.

─ Daria tempo de uma pessoa realizar os dois assassinatos?

─ Sim. Tecnicamente sim. A morte de Rudolf foi dias antes da de Lomar. E dado o espaço de tempo que os dois crimes aconteceram... Sim, se o assassino for o mesmo, e eu acho que não seja, daria tempo de ele matar os dois.

─ Lomar teve uma morte digna de ter sido cometida por um “super-vilão”. E segundo o relatório do senhor Vargas, o prefeito Rudolf foi assassinado à luz do dia, durante uma palestra com várias testemunhas, e todos que o viram ser morto, inclusive seus guardas, não se lembram de nada. Já viu um caso assim antes?

─ Nem nos filmes de ficção mais mentirosos.

─ O assassino é o mesmo, senhor Lee. Ou melhor, “a mesma”. Esquece esse moleque de cabelos ruivos. Meu instinto diz que a assassina de ambos é Rumiko. Já sabe o que fazer?

─ Acredito que o melhor a fazer é analisar as impressões digitais dessa adaga e compará-las com essas imigrantes que tem Rumiko no nome ou sobrenome.

─ Isso mesmo.

─ Só que, se tivéssemos a certeza de que o assassino é o mesmo, daríamos passos mais rápidos por que não perderíamos tempo com futuras comparações. Mas não podemos nos basear em suposições e não podemos descartar esse ruivo do relatório. Ele pode ser importante.

Marisa faz um biquinho, pensativa. Jay Lee conclui.

─ Em toda e qualquer hipótese, tudo leva a crer que esse assassino ou assassina, ou ambos, pode estar agindo por vontade própria, mas seguindo os desejos de alguém superior. Só nos resta saber quem. E para saber quem, precisamos saber o por quê. E para saber o por quê, precisamos, primeiro, ter certeza de que estamos lidando com o mesmo assassino.

A comandante ergue-se devagar, caminha decidida até a janela da sala e observa a paisagem abaixo.

─ Isso é fácil de descobrir, senhor Lee. Basta compararmos as duas digitais.

─ Duas? Só temos as digitais da adaga que a senhora trouxe. Iremos compará-las com o quê?

─ Se tivesse lido o relatório com atenção, saberia que o senhor Vargas enviou, há alguns dias atrás, uma espada para ser averiguada pelos seus técnicos periciais. A mesma espada que foi usada para matar Rudolf.

─ É verdade... Eu me esqueci disso, mas realmente, recebi as informações dessa arma quando chegou. Se essa espada foi usada pela mesma assassina, então eliminaremos um problema. Vou mandar analisar e comparar as duas agora mesmo.

Marisa espera o diretor fazer suas ligações e expelir suas ordens a todos os seus funcionários, responsáveis pela parte investigativa da corporação. Quando desligou seu telefone pela última vez, a comandante sentou-se pesadamente na cadeira de visitas e resmungou.

─ Estive pensando e veja se raciocina comigo... Por que alguém mandaria um assassino atrás do pescoço de um possível líder? Isso não faria sentido, por que um incidente internacional iria tirar permanentemente os direitos de eleição do mandante e ele ainda correria o risco de ser morto pelos Honoráveis. Se ele quisesse matar Lomar para eliminar a concorrência...!

─ Ele teria de esperar Lomar voltar para a Inglaterra – completa Jay, batendo os quatro dedos na mesa, num ritmo sequenciado – Coisa que ele ia fazer poucos dias antes de ser assassinado.

─ Exato! Assim evitaria um confronto com os Honoráveis.

─ A não ser... – Jay interrompe a batucada de seus dedos – A não ser que ele não esteja querendo eliminar a concorrência, mas sim os candidatos.

─ Isso também não faria sentido. O risco internacional ainda existiria. E há assassinos em todos os cantos do mundo, não precisaria mandar alguém vir de fora e deixar claro que o trabalho foi do exterior.

─ É um assassino pessoal. Exclusivo do mandante.

─ Correto. E a pessoa que o mandou teria de ser muito poderosa em termos políticos para ser tão ousada. Alguém que, mesmo sendo um mandante de assassinatos, possuísse o respeito das pessoas.

─ Como um perigoso, porém respeitado terrorista.

─ Exatamente como um perigoso e respeitado terrorista – acompanha Marisa, concordando e continuando – Mas quem teria poder para agir na penumbra sem ter medo de se revelar? Que tipo de monstro usaria assassinos pessoais, seguidores e fiéis a ponto de se arriscar para...!

Subitamente, os dois arregalam os olhos, se encaram e ao mesmo tempo e exclamam:

─ Gengetsu Burashi!