A Busca

7 O Primeiro Sorriso


Depois que se ouviu o barulho dos dois disparos feitos pelo guarda desesperado, um berro de dor de alguém dizendo que foi atingido chamou a atenção de Petruz. Um tumulto rapidamente se espalhou pela multidão, ainda presos na fumaceira. Segundos depois, uma gritaria seguida de uma correria às cegas subitamente se iniciou. As mulheres ali presentes começam a berrar, homens correm para todas as direções e algumas crianças começam a chorar e a gritar.

─ Fujam! – grita um.

─ É um sequaz! – grita um outro.

─ Um sequaz? – questiona Petruz em voz alta, pouco antes de receber uma cotovelada na altura da cabeça, que lhe foi dada sem querer.

Ele olha ao redor sem saber o que ocorria e não consegue enxergar muito bem, devido à fumaça que se espalhava e também às pessoas que, loucas para salvar a própria pele, empurravam e pisavam qualquer um que estivesse em seus caminhos. Então Petruz se recorda de que a mocinha havia dito que o futuro prefeito sofreria uma tentativa de assassinato naquela mesma tarde. Ele deduz que talvez esse seja o motivo de tanta confusão e correria, então, ao invés de se unir aos desesperados e fugir, ele decide se infiltrar mais naquela confusão, encontrar a mocinha que conheceu há pouco e retirá-la de lá. Foi quando, de repente, sua visão cai sobre o palco e ele fica pasmo.

O vice-prefeito estava agora encurralado numa das enormes caixas de som usadas para o discurso. Três homens de óculos escuros estavam caídos e sangrando, talvez até mortos. E a moça a qual Petruz acabara de conhecer agora caminhava em direção ao político, cujo qual tremia tanto que mal podia falar. Ele nota dois objetos nas mãos da moça, viu que eram uma espada e uma bainha e não precisou pensar muito para deduzir que juntos eles formavam o bastão que ela carregava.

─ Então ela... ela é a Sequaz – ele sussurra.

Petruz vê também, vindo ao longe, quatro homens de preto correndo ao palanque, portando suas Katanas em punho. Passariam por ele e com certeza iriam para cima da moça. Ele morde os lábios de apreensão. “Não tenho nada com isso” – ele pensa – “Já tenho problemas demais. Devia ter ido embora como ela me disse”. Petruz encara os homens de preto e fecha os olhos em seguida, novamente pensando “não tenho nada com isso. Vou fingir que não os vi”.

Ao reabrir os olhos, ele vê que os guardas diminuíam gradualmente o avanço, pouco antes de chegar à cerca que separava o palanque da multidão. Então, dois deles caem ajoelhados para, logo depois, deitarem no chão. O terceiro se agarrou na cerca, virou-se e recostou-se à ela, então caiu de cara, largando a espada pouco antes de sua queda. Pessoas ao redor de Petruz também foram aos poucos se agachando e sentando, para logo depois, deitarem-se no chão. Alguns já gritavam as palavras “veneno” ou “gás venenoso”, muito antes das pessoas caírem desfalecidas, mas só agora ele se deu conta de que isso era um risco. Foi só então que Petruz notou, enquanto via as pessoas lutarem para continuar conscientes e fugir, que a fumaça, branca e espessa, agora já ficando clara e transparente, tinha um odor que era irreconhecível por ele, mas que lhe parecia ser vegetal. Ele se aproximou rapidamente de um garoto que caiu pouco adiante de seus pés e descobriu o que acontecia. O garoto não estava morto, mas sim dormindo. Uma forte onde de sonolência estava afetando à todos. Tão forte era, que as pessoas mal conseguiam ficar de pé. Só que ele não sentia nada. Pelo menos não ainda.

No palco, agora livre de futuras intervenções, a moça volta a se aproximar do vice-prefeito, lentamente e com sua espada de lâmina reta em punho. O vice-prefeito sente seu coração sair pela boca de tanto medo que sentia, então ele grita apavorado:

─ Es -ESPERE! Eu não... Eu não sou desse estado. Juro que não. Por favor, não me mate.

Assim como muitos ali antes de adormecerem, Rudolf achava que Rumiko era uma assassina do tipo conhecido como “sequaz”. Os assassinos sequazes eram aqueles que matavam apenas os governantes aos quais eles não estavam contentes com o mandato ou com o modo como dirigiam a cidade ou o estado. Rumiko, porém, replica ao homem sem levantar a voz:

─ Isso não me diz respeito, senhor Rudolf. Rumiko não vai mata-lo por insatisfação.

─ M-mas então... Porque está fazendo isso?

Rumiko sorri carinhosamente para o vice-prefeito, mas logo em seguida apaga o sorriso, demonstrando uma face desgostosa.

─ O senhor conhece o orfanato Saint Exupery(1), para crianças e adolescentes, vítimas do Fim do Mundo?

─ C-Claro. – “essa é a resposta certa”, ele imagina – Fui eu quem o construí.

─ Muito bem. Então o senhor sabe o que havia abaixo dele. Uma espécie de porão sombrio que o senhor apelidou de “Inspiração de Amaro”.

Os olhos do homem se arregalam de pavor. Rumiko volta a sorrir, satisfeita.

─ Parece que se lembrou. Que bom. Então deve se lembrar também do que acontecia nos subsolos secretos daquele lugar. E o que as famosas Tecedeiras de Anjos(2), contratadas pessoalmente pelo senhor, fizeram durante os anos de 2.001 e 2.002.

─ Me... Me perdoe.

O segundo soldado atacado por Rumiko e que fora arremessado do palanque, agora tentava subir de volta. Um corte raso, porém doloroso em quase toda a frente de seu corpo lhe drenava as forças, mas ele tinha que voltar para defender o homem que foi pago para proteger. Pendurando-se na beirada do palanque, ele vê quem o atacou e não acreditou que foi derrubado por uma menina que aparentava ter, no máximo, dezessete anos de idade. A estranha fumaça já havia se dissipado e ele, que foi derrubado antes de ser afetado, pode notar outros de seus companheiros, também caídos pelo extenso palco. Não tinha mais forças para continuar, porém estava consciente para ouvir a conversa ao redor e, embora não fizesse ideia do que os dois estavam falando, sabia que, enquanto eles estivessem batendo papo, ele teria tempo para se recuperar, então deu mais um tempo e assim ouviu Rumiko continuar:

─ Perdoar? Senhor Rudolf, Rumiko não tem pessoalmente nada contra o senhor. O senhor fez o que achava ser certo, não foi? “O essencial é invisível aos olhos”(3), não é isso?

Rudolf fica perdido no vasto olhar de Rumiko, sem saber como responder. Aqueles olhos grandes e aquele sorriso enigmático não demonstravam deboche, tampouco ódio ou repulsa. Mas ele sabia: estava prestes a pagar pelos seus pecados do passado. Rumiko fica próxima ao corpo do primeiro guarda, desfalecido e sem o braço direito, que fora decepado por ela na abaixo do cotovelo. Ela percebe que já havia estendido demais sua presença ali e sabia que precisava sumir, pois temia que pessoas de fora, que não foram afetadas pela fumaça, aparecessem naquele local. Mas acima de tudo, havia outra coisa que lhe preocupava. Ela observa o homem ao chão por mais um segundo e completa.

─ Senhor prefeito, esse homem precisa de cuidados médicos imediatos. Rumiko precisa se apressar ou seu guarda-costas pode morrer.

O outro guarda, ainda consciente, lentamente puxa sua beretta extra e a ergue disfarçadamente, apontando para Rumiko, que estava de costas para ele, e espera sua visão focalizar o alvo para que o disparo seja perfeito. E enquanto isso não acontece, ele continua a ouvir os dois conversarem.

─ O que você quer? – questiona o prefeito – Quanto você quer?

─ Senhor Rudolf, esse seu soldado...

─ DANE-SE! – berra o vice-prefeito, já com lágrimas nos olhos – Dane-se! Dane-se ele e todos esses inúteis. Quanto você quer para me deixar ir e ficar de bico calado?

Rumiko suspira aborrecida. “Ainda vai atirar em mim, soldado?” – ela se pergunta mentalmente. Mesmo de costas, ela sentia que alguém lhe apontava uma arma. Possuía um dom congênito cujo poder não só lhe dava a posição e intenção do indivíduo, como também lhe diria quando ele iria atirar, se acaso fosse mesmo atirar.

Então, no instante seguinte, esse mesmo dom “apita” de modo diferente, informando que Petruz ainda está na multidão, paralisado em meio à um pequeno grupo de pessoas que não foi afetado completamente pela fumaça e que, enlouquecidos por achar que era um gás venenoso, não sabia ainda ao certo para onde correr. Rumiko semicerra os grandes olhos, espantada com seu sentido de aproximação. Ela ficou perto do garoto só por alguns minutos, mas, por alguma razão, ele a cativou o suficiente para que seu dom supernatural recebesse a energia de presença emanada do corpo do garoto e o usasse como uma identidade. Ela agora poderia encontrar Petruz em qualquer lugar, desde que estivesse dentro do raio de alcance de sua impressionante idiossincrasia.

Seu dom lhe chamou a atenção porque, assim que Petruz percebeu o soldado restante, apontando a pistola para Rumiko, ele resolveu fazer alguma coisa, pois sentiu a necessidade de ajudar. Porém, sem saber como, ele se enerva, ansioso e apavorado, e sua vontade de gritar foi estranhamente captada por Rumiko. O garoto também nota a moça olhando de volta para ele, mas não sabe que gesto fazer para que ela o entendesse. Rumiko então, mesmo à distância, manda-lhe um simpático sorriso, guarda sua shikomizue e volta alguns passos, caminhando até um dos guardas que jaziam inertes de sono ali no palanque. Havia uma espada deitada sobre o corpo do guarda, com o cabo voltado para o lado onde Rumiko parou.

Ela pisa com força na parte erguida da katana, fazendo-a pular com o impacto, calcula o movimento giratório da arma e a agarra pelo cabo em pleno ar. Percebendo que mais seguranças ou guardas logo estariam vindo em socorro do vice-prefeito, ela gira o corpo sobre os calcanhares e arremessa a espada em direção ao seu alvo com tanta rapidez e força, que o corpo do vice-prefeito, ao ser atingido no peito pela espada, que lhe vara o coração, é arremessado para trás. O homem agarra-se nas caixas de som, levando-as consigo devido ao seu peso, derrubando os objetos e caindo para fora do palanque.

A mocinha vira-se para o soldado deitado no chão, ainda com a arma em punho apontando para ela, e diz afobada e visivelmente preocupada:

─ Rápido, senhor! Chame uma ambulância.

Logo em seguida, com um longo e preciso salto sobre a grade de proteção, de onde ela prepara um segundo salto para o chão, ela desce do palanque e corre em direção à Petruz, que novamente fica paralisado de medo e emoção até o momento em que a moça lhe agarra seu braço direito na altura do pulso e diz com sua voz doce:

─ Vamos sair daqui, senhor!

Petruz larga sua bolsa ali mesmo, não porque ele quisesse, e corre junto com a moça o mais rápido que podia, perdendo também, durante a fuga, seu cobertor velho e esburacado. Estava fraco devido à fome, mas a meia garrafa de warriors ainda dava energias ao seu corpo magro e, portanto, ele recebia forças vindas da vontade de viver. Naquele momento ele se aceitou estar em condições de entender o sinal de seu Elohim, pois nunca quis tanto viver como naquele momento.

A mocinha, por sua vez, temia apenas que ela e aquele incidente fossem ligados a Petruz, trazendo, assim, problemas futuramente ao garoto. Por isso ela, em consideração à ajuda que o rapaz lhe deu, tinha de tirá-lo dali são e salvo.

Virando numa esquerda, entrando numa direita, se enfiando em vielas, os dois jovens correm em meio à multidão e tentam se perder da visão dos soldados remanescentes do prefeito, que ainda agonizava, mas certamente não sobreviveria. Petruz correu, correu... até não poder mais, e quando se deu conta eles já estavam bem longe do local da palestra, embora ainda não estivessem seguros.

A moça entra em um beco apertado, em meio à dois edifícios de mais ou menos seis andares cada, atravessa a grade no final do beco, passando por um buraco enorme feito no arame, e chega numa rua ainda de terra em que, mais à frente, havia um reservatório de canos de esgoto, o mesmo que ela havia estudado muito antes de iniciar sua missão. Ela vai se esquivando e se aprofundando entre os enormes tubos de cimento, sem jamais largar o pulso do garoto, até que escolhe um cano em particular, ao fundo do reservatório e pede para que Petruz a acompanhe. Quando o garoto se aproxima, ele nota que aquele cano não foi escolhido à toa, pois estava forrado com um tapete de cor verde.

A moça inclina-se, entra e faz gesto para que ele também se aconchegue. Petruz entra, se senta e respira fundo, recuperando o fôlego perdido e que não combinava com o ritmo de uma vida sedentária de mendigo. Ele vê que a moça, incrivelmente, apesar de parecer cansada, não estava tão resfolegante quanto ele. Foi aí que Petruz notou que havia uma garrafa de plástico ali dentro. Sedento, o garoto a observou por alguns poucos segundos antes da moça, imediatamente depois, pegar a garrafinha de plástico, abrir a tampa, tomar apenas um pouco do que tem dentro e oferecer o restante à ele, frisando que o que tinha ali nada mais era do que um suco natural de frutas. Ela se lembrou, provavelmente, de que Petruz tinha adorado a bebida Warriors, por isso se desculpou por aquele ser simplesmente um suco comum.

O rapazinho toma um pouco e vê que ela dizia a verdade, então ele continua a beber enquanto observa a mocinha retirar um lenço do bolso localizado na longa manga de sua estranha blusa. Em seguida ela desembainha aquilo que ele pensava ser um bastão, mas que agora sabia que era uma espada muita bem afiada e perfeitamente polida, e começar a limpar o sangue da lâmina. Só após recuperar o fôlego e saciar a sede é que Petruz se deu conta do potencial perigo em que se encontrava.

─ Quem é você?

A moça olha para Petruz, torna a atenção à sua espada e somente depois de terminar a limpeza da folha completamente e dar uma rápida conferida, é que ela responde:

─ Rumiko.

─ Co -como é?

Ela sorri simpaticamente para Petruz e retifica.

─ Meu nome é Rumiko, senhor. Hajimemashite(4)!

─ Rumiko...

─ Desculpe por não ter lhe dito meu nome antes. Rumiko não achou que fosse preciso e não queria que o senhor se envolvesse mais do que o necessário.

─ Então você... você é a Sequaz que iria matar o prefeito?

─ Iie! – a moça balança a cabeça para os lados, negando – Rumiko não é uma sequaz, senhor.

Ele inclina a cabeça e encara a menina com um olhar meio assustado:

─ Então... Por que fez aquilo? Quem enviou você?

À essa pergunta, a moça não responde. Ela simplesmente ergue-se com sua espada em punho e a recoloca na bainha. Não tinha sequer um fio de pensamento direcionado à fazer mal ao garoto, mas por algum motivo, o modo como ela guardou sua shikomizue o deixou assustado.

─ Você... – Petruz engole seco – Você vai me matar também?

Rumiko olha para o garoto com um rosto penoso. Sentia-se estranha e desconfortável quando as pessoas, mesmo as inimigas, tinham medo dela. Então se afasta um pouco, tencionando demonstrar que não lhe faria nada de ruim:

─ Desculpe Rumiko por tê-lo feito perder sua bolsa, senhor!

─ Não... não tem problema... eu não tinha nada de importante dentro daquela trouxa... só alguns outros trapos.

─ Isso é um alívio. Rumiko vai indo agora, senhor. Muito obrigada por sua ajuda e, por favor, siga esse conselho: o senhor deve ficar aqui pela próxima hora. Assim ninguém poderá ligar o senhor à Rumiko. Se acaso um dia nos virmos de novo, Rumiko promete recompensa-lo melhor. Dewa Sayonara(5).

─ Espere... Para onde...?

Petruz abaixa a cabeça, processando o tipo de conversa que estava tendo, pois foi só nesse momento que ele percebeu que a mocinha se referia a si mesma em terceira pessoa, por isso sua cabeça estava meio confusa. Mas ele logo pôs os argumentos no lugar.

─ Para onde você vai agora? Se é que eu posso... Eu posso saber?

─ Rumiko tem um objetivo na vida, senhor. Uma meta que devo atingir à qualquer custo.

─ E a morte do prefeito foi..?

─ O senhor Rudolf foi só um dos três obstáculos que estão no caminho de Rumiko. Não fazem, contudo, parte de minha meta.

─ Entendi. Depois você vai para onde?

─ Não saberia lhe dizer, senhor.

─ Como assim?

─ Rumiko está numa peregrinação, que se iniciou há apenas alguns dias e ainda não sabe direito o rumo que deve tomar.

─ Uma peregrinação?

─ Rumiko procura uma pessoa, por isso precisa se apressar.

─ E quem você procura? Talvez eu possa ajudar – “Meu pai era muito influente”, pensa Petruz, sem ousar proferir em voz alta.

A moça observa o garoto por alguns segundos. Sentia-se confiante para conversar com ele sobre o assunto que normalmente deveria ter vergonha de falar ou que, dependendo da situação, deveria manter segredo. Então, depois de um delicioso sorriso, ela lhe diz:

─ Rumiko está à procura de um feiticeiro chamado Oz, senhor.

─ O feiticeiro Oz? – Petruz pensa por um momento – Eu li a respeito dele em alguns livros de história.

─ Rumiko precisa de algo mais tangível do que contos em livros. Preciso encontra-lo de verdade.

─ Mas Oz não existe de verdade... – o garoto faz um olhar de curioso – Ou será que existe?

─ É isso que Rumiko pretende descobrir nessa peregrinação. Este é o meu atual objetivo.

A mocinha se volta para a saída do cano, sai e quando já está há poucos passos de distância, do lado de fora, Petruz mais uma vez lhe chama a atenção.

─ Espere! Me deixa ir com você.

─ Ir com Rumiko?

─ É... Quer dizer... Se você não tiver nenhuma objeção, é claro.

Rumiko fica calada, olhando para o rosto piedoso do garoto. Logo, Petruz continua:

─ Sei que não serei de grande ajuda. Talvez eu até te atrapalhe, mas vai ser só por um dia ou dois. E ficando com você, quem sabe, eu aprenderia a me virar como você o faz.

A moça continua calada, de olhar sério, mas não bravo, e ouvindo cada lamento de um garoto que já teve tudo na vida e que agora não tem mais nada. Rumiko, de certa forma, se identificava com ele, pois também viveu nas ruas e sabe bem como ele se sente. Dar uma chance à ele seria como se pôr no lugar de seu mestre que, 15 anos atrás, lhe fez o mesmo favor. Só que Rumiko não tem certeza se é uma boa ideia deixá-lo ir junto, afinal de contas, não quis que ninguém do Gen-Bu, além de Nezuo, viesse consigo. Entretanto, sentia um estranho e forte desejo de que Petruz a acompanhasse. Por um dia ou dois já seriam suficientes.

Porém, ela começa a pesar também o outro lado, ou seja, o tipo de vida que leva e em tudo o que já passou até agora, e se recorda do porquê que não quis nenhum homem do dojo em sua companhia. Poderia se virar sozinha, mas achava-se estúpida e ingênua demais para ter alguém como Petruz ao seu lado e, portanto, tinha medo de que ele pagasse por sua estupidez. Teve muita sorte em ser encontrada por Gengetsu, mas não poderia ousar se equiparar à ele, pois Petruz talvez não pudesse dizer o mesmo em relação à ela. Com pensamentos desse tipo em mente, Rumiko adota uma face mais serena e entristecida. Nisso, Petruz abaixa a cabeça e mostra sua falta de insistência:

─ Eu acho que sei o que está pensando, Rumiko. Sei que não quer que eu vá, afinal, não deve ser uma viagem de turismo. Além do mais, já deve ter alguém te esperando e...

─ Rumiko está sozinha, senhor. E realmente não é um turismo, é uma peregrinação, pois não sei ao certo quanto tempo vai durar.

“Mas se está sozinha, como pode ser uma peregrinação?” – Petruz pensa com seus botões.

─ Mas como o senhor bem viu – segue Rumiko – talvez não seja muito seguro vir com Rumiko.

─ Eu estou ciente disto... Mesmo assim, se eu puder ir... eu gostaria muito. Muito mesmo. Eu só preciso dar um jeito de me tornar mais apresentável pois...

Rumiko volta a se aproximar da boca do tubo, onde Petruz estava ajoelhado, e o rapaz se cala. A moça encurva-se, apoiando as mãos sobre os joelhos, encarando o garoto com seus olhos grandes e rosto atencioso.

─ Rumiko ficaria honrada se o senhor à acompanhasse por uns dois ou três dias.

─ Sério...? – os olhos de Petruz brilham – Quer dizer... É verdade, posso mesmo ficar com você?

─ Rumiko sabe que não deveria lhe pedir isso, afinal o senhor já me ajudou bastante hoje.

─ Eu posso dizer o mesmo.

Rumiko consentiu com a cabeça sonorizando “Uhn!”. Ela concordava que deixar o garoto ficar ao seu lado logo após o ato que acabou de cometer seria muita burrice. Mas até aí, ela também admitia que nunca foi a pessoa mais esperta do mundo. Era sua razão lutando contra sua emoção. Além do mais, só faltavam mais dois nomes na sua lista, portanto Petruz só iria ficar ao seu lado por mais algumas dezenas de horas, e ter alguém para conversar nesse meio tempo iria animá-la, tanto para realizar suas duas últimas missões quanto para o momento em que fosse partir para fora do país e seguir em sua jornada definitiva.

Até gostaria que Petruz ficasse com ela por muito mais que dois míseros dias, e sua gratidão lhe conscientizava de que ela teria de recompensá-lo de alguma forma por sua ajuda e por tê-lo feito perder seus pertences. Mas não tinha a intenção de prolongar aquela parceria, porque estava com uma estranha sensação de perigo e não queria que o garoto se envolvesse novamente. Num último ato, ela se afasta e encara Petruz afetuosamente. E então... lhe presenteia com um sorriso. Com o seu primeiro sorriso de alegria.

Notas finais
1. Saint Exupery = Antoine Marie Jean-Baptiste Roger (29 de Junho de 1900 – 31 de Julho de 1944), foi escritor, ilustrador e piloto. Escreveu, dentre outras obras, O Aviador, Citadela e o famosíssimo O Pequeno Príncipe. 2. Tecedeiras de Anjos = Mulheres que eram responsáveis em assassinar bebês recém-nascidos. O nome vem do fato que, segundo uma lenda, todo recém-nascido que é assassinado ou morre por qualquer outro motivo, vira anjo. A referência no texto ao nome do porão, “Inspiração de Amaro”, diz respeito ao ótimo livro de Eça de Queiróz, “O Crime do Padre Amaro”, em que o Padre em questão contrata uma tecedeira de anjos para levar seu filho e dar um sumiço nele. 3. O essencial é invisível aos olhos = Essa frase, aqui parafraseada por Rumiko, também pertence à Saint Exupery. 4. Hajimemashite = Pode ser entendido como "prazer em conhecer" 5. Dewa Sayonara = Um “Adeus”, mas que não deve ser interpretado como definitivo.