A Busca

17 O Padre Karras


Dojo Central do Gen-Bu, em Hokkaido no Japão, 18:30 da tarde. Um grupo de soldados estava, desde cedo, ordenados para uma recepção. Isso porque o helicóptero pessoal de Gengetsu, um modelo de guerra antigo e desprovido de armas, e que comportava até dez pessoas, acabara de chegar e seus tripulantes, naquele exato momento, começavam a descer da aeronave. Os homens estranham muito o fato de que, além de dois soldados rasos, somente o 1º e o 2º capitão, Nezuo Tsu e Mozu Ki respectivamente, descem da aeronave. Não viram nem Rumiko e muito menos Gengetsu à bordo.

Nenhum deles, porém, nada diz à respeito até que Mozu, quando passam por eles, interrompe a caminhada e exclama em voz alta:

─ Homens! O mestre Gengetsu não vai mais voltar. Ele está morto!

Um murmúrio aos poucos começa e, após alguns instantes de discussão, é Nezuo quem continua, dizendo o que já era esperado pela maioria:

─ Eu vou, de hoje em diante, guiar o nosso Gen-Bu, como supremo comandante. Vamos agora decidir os próximos passos que o império dará, por isso eu quero que nos deixem sozinhos por enquanto. Depois eu proclamarei nossa decisão e responderei qualquer dúvida.

─ Sim meu senhor – responde todos eles, quase num uníssono.

─ E amanhã, preparem uma formal despedida – Nezuo observa seu companheiro com um rabo de olho – pois Mozu também vai nos deixar. Certo capitão Mozu?

Mozu corresponde o olhar de seu parceiro, mas simplesmente acena a cabeça, concordando. Isso dá início à um novo murmúrio entre os soldados enquanto os capitães, indiferentes ao que seus homens conversavam, seguem caminho até a entrada do Dojo.

Lá dentro, quase na sala principal, eles são recepcionados pelo padre Karras, que veio apressado ao encontro deles e provavelmente aguardava ansioso pelo retorno de seu tutor. Ou ao menos era isso que os dois capitães imaginavam. A notícia de que Gengetsu foi morto, porém, estranhamente não surpreendeu o padre. Tanto que a primeira pergunta que ele faz aos seus capitães não diz respeito ao seu mestre, mas sim, à outra pessoa igualmente querida pelo padre:

─ E quanto a Rumiko, senhores? Onde ela está?

Mozu encara Karras com um rosto irado, mas responde segurando sua fúria.

─ A batalha no Brasil foi dura, padre. Se mesmo Gengetsu foi derrubado, o que você acha que aconteceu à idiota da Rumiko?

─ Eu... Eu entendo – o padre abaixa a cabeça.

Ele não ousa fitar o rosto dos capitães, mas fica com vontade de perguntar: “Se Gengetsu e Rumiko morreram, como é que vocês dois sobreviveram?”. Porém, a pergunta que faz é diferente da que pretendia:

─ Onde está o corpo de nosso mestre? Vocês o enterraram em Vera Cruz?

─ Não se preocupe, padre – desta vez foi Nezuo que se manifestou – Ele será enviado ao Japão daqui a alguns dias.

─ Vocês o deixaram em Vera Cruz? Onde? Quer dizer... em que local exatamente?

─ Sei lá! – torna Mozu tentando fugir da conversa – Rumiko o levou para algum lugar e ficou de fazer os procedimentos finais.

─ Então... Rumiko ainda está viva?

─ Ela não vai voltar padre. – explana Nezuo – Então podemos dizer que ela já está morta.

Mozu, com sua ignorância e falta de decoro, dispensou o padre resmungando:

─ Rumiko está morta! Ou ao menos vai estar, daqui alguns dias.

Aquilo saiu sem querer e Mozu imediatamente se culpou por isso. Aos seus olhos, o padre era só um homem religioso, de uma doutrina ocidental e, portanto, inútil, já que estava exercendo sua fé no lugar errado e em tempos que não se precisava mais de fé e sim de uma boa espada nas mãos. Mas ele também sabia que Karras não era bobo, então deu um jeito de fugir rapidamente da situação, valendo-se de seu maior dom: a grosseria.

─ Agora sai da frente que temos de resolver uns assuntos mais importantes.

─ Sim meu senhor – Karras se afasta para o lado e dá passagem aos dois homenzarrões.

Antes de ir, Nezuo segura no ombro de Karras e se desculpa por Mozuo, dizendo que todos sentiam muito pelo acontecido e portanto estavam nervosos, o que os levava a dizer certas besteiras. O padre faz um sim com a cabeça e sai pela porta da frente, onde fica a observar os soldados, reunidos em grupos aqui e ali, conversando coisas relacionadas ao que acabaram de ouvir enquanto aguardavam novas ordens.

Foi quando um deles, ao avistar o padre, saiu do menor dos grupos, gesticulando com as mãos para que seus companheiros ficassem no lugar, esperando. Era um soldado de cabelo loiro esbranquiçado, altura média e de físico robusto. Usava um uniforme preto, com uma ombreira no braço esquerdo e ligas grossas de couro nos cotovelos dos dois braços. Era o uniforme de um chefe da guarda, que dava ordens ao grupo na ausência do capitão.

Ele se aproximou de Karras e se inclinou em seguida.

─ Padre Karras, boa tarde. O senhor falou com os capitães?

─ Sim. Eles estão lá dentro resolvendo alguns assuntos. Acho que é sobre o futuro do Gen-Bu ou algo assim.

─ O senhor perguntou sobre Rumiko?

O padre encarou o soldado e viu que sua pergunta se devia mais à preocupação do que curiosidade. Karras não conversava com os soldados, só com os capitães, mas naquele momento ele sentia que aquele homem estava perdido. Então pede para o homem se levantar e olha bem para o rosto do soldado, que era rígido, sério e possuía uma cicatriz enorme, difícil de ser ignorada, do lado esquerdo da face. Em seguida o padre questiona:

─ É um soldado de Rumiko?

A pergunta soou meio óbvia e o padre percebeu. Afinal, não fosse isso, aquele homem não teria perguntado sobre a moça com um ar tão pesado de apreensão. O soldado assentiu e Karras, num ato de curiosidade, se aprofunda mais.

─ Qual é o seu número e como posso me referir a você?

─ Sinto-me honrado em dizer que sou o número “um” padre. Portanto pode se referir a mim como ichigou.

Karras fica em silêncio, observando-o, tentando sentir se poderia confiar naquele homem. Os soldados que recebiam a numeração de valor “um” eram os mais leais e confiáveis de seus capitães. Diferente dos outros, esses soldados não eram escolhidos à dedo, nem pela ordem de entrada no grupo, visto que o primeiro homem à entrar numa divisão recebia o número “Dois” e depois, iria subindo ou descendo de “cargo”. Um Ichigou era um soldado em que o capitão mais confiava, conversava e, se fosse o caso, até se confidenciava. Resumindo, era um soldado que merecia estar nessa posição.

Se ele estivesse dizendo a verdade, o padre sabia que poderia confiar nele, por isso faz um sinal para o soldado o seguir, levando-o para seu quarto enorme, localizado na parte de trás do dojo, e que era enfeitado ao estilo de uma pequena sala altamente cristã, com algumas estátuas de barro, livros religiosos e psiquiátricos e quadros de homens santos pendurados nas paredes.

E lá, o padre pede para o homem se sentar perto de uma mesa de madeira e entrega-lhe um pedaço de papel dobrado. Era uma carta ou algo parecido. O Ichigou desdobra e reconhece a letra de imediato.

─ É uma carta de minha shushou(1)?

─ Isso mesmo. Leia por favor.

─ E-eu posso?

Karras faz que sim e o soldado então, passa os olhos pela carta, lendo-a sem fazer perguntas. Ela era endereçada ao padre Karras, e informava que Gengetsu havia realmente sido morto na batalha contra Flousey na ilha de Vera Cruz, por isso o padre não ficou espantado em ouvir a notícia. Dizia também que Rumiko, nos dias que seguiram à queda do seu mestre, entrou numa peregrinação em busca de alguém chamado Oz. Havia ainda algumas outras informações, que por pertencer ao convívio entre eles dois, não diziam nada ao soldado. Ele termina de ler e questiona:

─ Desde quando o senhor sabe que o mestre foi morto? E sobre a Shushou? Desde quando...?

─ Tem quase uns dois dias.

─ Dois dias? E por que o senhor não contou aos homens sobre isso, padre?

─ Por que você acha que eu estou contando para você em particular?

O soldado abre mais os olhos. Estava claro que alguma coisa ruim acontecia nos bastidores do dojo. Mesmo ele, um reles soldado, já desconfiava de um golpe contra o Sensei dentro do Gen-Bu, mas achou que não daria em nada já que Gengetsu tinha ao seu comando os três capitães conhecidos como os mais fortes de Hokkaido. O próprio Gengetsu era considerado o melhor espadachim de Kyoto, local onde, atualmente, se reuniam os melhores guerreiros do país.

─ Quem é Oz? – pergunta o soldado redobrando a carta com cuidado.

O padre, que já estava com um livro nas mãos esperando essa pergunta, simplesmente abre na página certa e entrega para o soldado, que apenas lê por cima, já que tinha pouca informação a respeito e muita especulação.

─ Um ser do submundo... Feiticeiro das sombras?

─ Sim. Não há ilustrações sobre sua forma, portanto pode ser um humano ou qualquer outra coisa.

─ Segundo esse livro, Oz é uma criatura que ressuscita os mortos, dá vida eterna aos vivos, e... – o soldado lê mais uma vez para ter certeza – ...além de predizer o futuro, é isso mesmo?

─ Exatamente. O segundo poder mais cobiçado do mundo. Esse de ressuscitar os mortos, eu quero dizer.

─ Isso é possível, padre?

Karras cruza os braços e respira fundo antes de dizer o que acha:

─ Existe uma passagem num misterioso livro, chamado Octophorus, que diz ser possível resgatar a alma dos mortos do outro mundo, trazendo-os à vida. Mas o Octophorus não cita Oz como sendo o autor de tal milagre. Além do mais, eu acreditava e ainda acredito que a existência de Oz não passa de boatos.

─ Será que a shushou acha que ele existe?

─ É provável. Do jeito como é ingênua, é bem capaz de ela ter sido enganada. Mas, por outro lado, ninguém nunca provou que Oz não exista.

─ E minha shushou é muito obstinada. Se Oz não existir, então Lady Rumiko vai demorar à voltar, porque ela vai procura-lo até nos confins da Terra.

─ Realmente! – replica o padre pegando o livro de volta, de modo rápido e brusco, como que irritado com alguma coisa.

─ O senhor tem uma cópia desse “octo-alguma-coisa”?

─ Só existe um no mundo, meu filho. Ele é um livro misterioso, poderoso e perigoso. Por isso, o que há sobre ele pra estudar e ler são teses e suposições de pessoas que dizem tê-lo lido, mas que também não podem provar.

─ Mas então como o senhor... como correu atrás dessa informação em tão pouco tempo? Sobre Oz, eu me refiro.

─ Não foi recentemente. Já faz algum tempo que sei dessa história...

Karras exibe um olhar perdido, pensativo... Ele se referia ao sumiço de Gengetsu durante dois anos de viagens pelo mundo, e de que, quando voltou, trouxe essa e muitas outras histórias fantasiosas.

─ Não quero falar disso por enquanto, mas essa não é a primeira vez que ouço falar de Oz.

─ Entendo...

O soldado se levanta e fica com as mãos apoiadas sobre a mesa de escritório.

─ Amanhã, o senhor Mozu vai embora e o Gen-Bu vai passar a pertencer ao senhor Nezuo. Eu vou odiar servir um capitão como Nezuo, tenho certeza. E já que minha Shushou havia decidido que não iria mais capitanear, ela devia ao menos ter nos dito o que fazer, para que pudéssemos realizar suas expectativas sem decepciona-la.

─ Serviria alguém que você odeia se Rumiko assim lhe ordenasse?

─ Sem questionar e sem reclamar. Isso significaria, de certo modo, ainda servir à uma última ordem da capitã Rumiko e isso seria, para todos nós, uma obrigação. Agora que nem ela e nem o senhor Gengetsu irão mais voltar, eu também gostaria de abandonar o Gen-Bu, mas não saberia se isso iria lhe ofender ou lhe decepcionar.

O soldado respira de modo pesado e desapontado, resmungando o quanto Rumiko iria fazer falta naquela casa, tanto na sua vida quanto na dos seus homens, depois se prepara para sair, voltar ao seu grupo, e aguardar o seu destino. Havia muito tempo que Mozu estava no desejo de pôr as mãos no grupo de Rumiko e ele sabia disso. Agora que Mozu vai embora, é bem capaz que ele leve alguns dos soldados de Egao-san consigo.

─ Bom! Eu já vou indo padre. Obrigado pela confiança. E reze por nós.

─ Por favor, soldado – o padre levanta a mão e faz um sinal para o homem esperar.

─ Sim padre?

─ Tenho mais uma carta para lhe mostrar.

Karras larga o livro que falava sobre Oz na mesa, vai até sua estante de madeira e pega uma cópia rasa do livro sagrado cristão, folheando-o e procurando por algo. Assim que encontra, ele se volta para o homem e mostra-lhe um outro envelope, ainda lacrado e com o selo internacional.

─ Estou convencido de que você é mesmo o homem que merece a posição de Ichigou. Essa carta está endereçada a você. Desculpe não tê-la entregado antes, mas Rumiko gostava de cada um de vocês e falava tão bem de todos, que eu não sabia ao certo quem era o tal “Ichigou” de quem ela admirava tanto.

O soldado pega a carta com as mãos tremendo, abre e começa a lê-la devagar. E conforme ia lendo, seu rosto ia mudando numa mistura variada de alegria e emoção.

A carta dizia, num resumo, que Rumiko estava agradecida do fundo do coração à todos aqueles que a serviram e que agora eles estavam livres para decidir o que fazer de suas vidas. Era um “documento de libertação”. E o carimbo oficial do Gen-Bu, ao lado da assinatura pessoal da moça como capitã desistente da terceira divisão, frisava que os capitães restantes do Gen-Bu teriam que aceitar e concordar com as decisões dos soldados dela. Havia ainda alguns agradecimentos especiais ao soldado Ichigou, que foi seu mais fiel escudeiro, e à ele, Rumiko lhe conferia autoridade total para decidir o que fazer com o restante dos membros do 3º grupo de soldados do Gen-Bu, pois ela sabia que todos concordavam com a posição dele no grupo. E finalizava dizendo que ele sempre os comandou melhor que ela, portanto saberia o que fazer.

Quando termina a leitura, o soldado encosta a carta no peito e contempla o rosto sereno de Karras.

─ Eu posso... posso ficar com essa carta, padre?

─ Claro, filho! Ela é sua de qualquer forma.

─ Obrigado... muito obrigado!

─ Tudo bem, meu filho. Peço novamente que me perdoe, mas eu precisava ter certeza que você era o homem certo.

─ Sim, padre. O senhor agiu certo.

─ Só que agora... Tem mais uma coisa – Karras exibe um olhar mais sombrio.

O soldado guarda a carta no peito, por dentro da blusa, enquanto Karras senta se à mesa, colocando a carta dele entre as folhas do livro sagrado em suas mãos. Ele acaricia a capa do livro, entristecido, sentindo o peso de ter perdido Gengetsu. Sentia-se mal por achar que não fez por Gengetsu tudo o que deveria ter feito para pagar sua dívida de vida. Sentia-se pior por guardar para si um segredo terrível que, por ter descoberto tarde demais, não teve tempo de passar adiante. E agora esse segredo o está corroendo por dentro.

─ Tem mais uma coisa. Já que é o homem mais confiável de Rumiko, acho que posso lhe pedir um favor, para me aliviar de uma coisa que está me sufocando.

O Ichigou de Rumiko expressa uma face de seriedade.

─ Sim, padre?

─ Você provavelmente é quem mais tempo ficou ao lado de Rumiko do que qualquer outro soldado. Nunca ouviu ela comentar nada a respeito de um possível... – Karras escolhe bem a palavra que quer usar para não dar falsas interpretações – nunca ouviu ela dizer algo sobre um motim.

─ Motim? – o ichigou sussurra a palavra, assustado.

O padre assente com a cabeça e espera o soldado dar seu parecer. Não era possível que o soldado não soubesse de nada a respeito, pois mesmo ele, um homem religioso, que nunca participou dos combates de seu mestre, conseguia sentir algo no ar.

─ Minha shushou nunca disse nada sobre um motim, padre. Nunca confidenciou ou comentou, nem mesmo de modo raso, algo a respeito de uma traição. Mas...

─ Mas? – o padre instiga.

─ Bom, pode parecer paranoia minha, mas pouco antes de irmos ao Brasil, uma atmosfera estranha pairava sobre um certo... capitão.

O padre cerra os olhos, aguardando continuidade. O Ichigou de Rumiko não era nem um pouco religioso, mas já tinha ouvido falar que os padres indicados pelo clero do Vaticano eram confiáveis a ponto das pessoas das mais variadas classes, até mesmo assassinos, se confessarem à eles. E Karras era um desses padres. Além do mais, era amigo de Rumiko.

─ Mozu! – revela o Ichigou decidindo não fazer mais suspense.

Karras apenas faz um movimento com a cabeça, concordando, como se também já suspeitasse de alguma coisa. O padre pede novamente para o soldado se sentar. E ele o faz antes de apresentar as explicações de sua desconfiança:

─ Pude notar soldados rasos, que normalmente eram invisíveis à Mozu, começarem a se... entrosar mais com o capitão e menos com seus companheiros. Como se...

─ Como se tramassem alguma coisa. – conclui Karras.

O soldado remexe os lábios e concorda com a cabeça. Karras então, olha para os lados, depois entra mais ao fundo do seu quarto e pega uns papéis que estavam dentro de uma pasta lacrada com barbante. Depois entrega uma mala preta ao soldado, que fica sem entender.

─ Não é bom que nos vejam conversando a sós ─ o padre explica ─ mas acho que não tem problema se pensarem que eu pedi sua ajuda para algo relacionado com um serviço religioso. Posso mesmo confiar em você, não posso?

─ Claro... quer dizer, isso é o senhor que tem que decidir, pois vai depender do que vai me contar.

─ Tem a ver com a segurança de sua capitã.

O soldado expressa um rosto curioso e ao mesmo tempo sério.

─ Então não creio que haja alguém mais confiável que eu.

─ Ótimo! – o padre entrega os papéis ao soldado e vai pegar mais alguma coisa – Então me ajude.

Ao olhar rapidamente os papéis, o soldado percebe que são cópias variadas de um mesmo documento.

─ Esses papéis... São cópias do Lótus Sagrado? O senhor é um padre e ao mesmo tempo um monge?

─ Realmente, não dá para ser os dois ao mesmo tempo, filho. Mas gostei de algumas particularidades religiosas daqui da região, que aprendi quando vim para o Japão. Então resolvi, em nome de nosso mestre, seguir algumas das... “regras” daqui.

─ Desculpe a minha ignorância religiosa, mas isso se aplica em quê?

─ Existem monges aqui no Japão, chamados de Rokujurokubu, que peregrinam pelo país distribuindo essas cópias em 66 lugares santos. Fiz isso uma vez para conhecer alguns lugares que ainda não tinha visitado. Além do mais, nos dias de hoje, é preciso ter muito cuidado quando se assume a minha posição. A de “padre”, quero dizer.

─ Entendo. Isso eu entendo.

O Ichigou sabia que, nos tempos atuais, os fiéis do Vaticano não eram bem vindos em vários cantos do mundo. Ele não sabia o porquê e também não lhe interessava, afinal, não era católico, mas tinha consciência de que, em alguns lugares do mundo, os seguidores do catolicismo Papal eram caçados, presos e em alguns casos até mortos. Só o que ele não entendia ainda era o quê exatamente Karras pretendia fingindo-se de monge, já que, no Japão, os padres não corriam tanto risco.

Assim que termina as preparações, o padre coloca mais alguns papéis na maleta preta que estava nas mãos do soldado e o chama:

─ Vamos! Temos muito o que conversar e pouco tempo.

─ Aonde vamos?

─ À um lugar santo.

Notas finais
1 - Shushou = Capitão / Capitã de um time ou grupo. O uso depende da ocasião já que a palavra "capitão" em japonês possui formas diferentes de uso em situações diferentes.