A Busca

13 O Detetive Vargas


Notas iniciais
Apresento aqui um dos personagens que eu mais gosto, porque ele dará um toque investigativo à história. E apesar de não ser bom nisso, eu adoro histórias de investigação.

Há alguns quilômetros de distancia dali, em um hospital particular especializado em todo tipo de doença ou ferimento grave, um homem sentado na sala de espera do térreo, bebia um daqueles cafés expressos, que pode ser retirado de graça em uma das inúmeras máquinas espalhadas pelos andares do nosocômio. De idade pouco avançada, barba rasa e rosto cansado, ele usava um terno escuro e um sobretudo preto, chapéu de abas largas cobrindo os cabelos grisalhos e sapatos de couro. Ao seu lado, uma bengala de apoio, feito de marfim, que ele era obrigado usar para poder andar.

Incomodado, o homem olha ao redor da sala, procurando algo para ler e se distrair. Por já ser madrugada, a sala de espera estava quase vazia, com uma mulher elegante ali, um casal de idosos acolá, um rapaz vestido como roqueiro ao fundo... enfim, parcas pessoas que só estavam presentes por obrigatoriedade. Do contrário já teriam ido para suas casas. Ele próprio faria isso, se também não tivesse que esperar. O pior é que sentia uma vontade grande de fumar e não poderia fazer isso ali, portanto, diminuía seu desejo por tabaco com doses de cafeína. Minutos depois, uma enfermeira jovem e bonita, assim com são a maioria em todos os hospitais de gente rica, se aproxima dele com um sorriso no rosto e uma prancheta na mão.

─ Detetive Vargas?

─ Eu mesmo docinho – ele responde sem olhar para a moça.

─ É um prazer recebe-lo de novo, mas o senhor deve saber que o paciente que está procurando desta vez não pode receber visitas agora. Posso dar dois motivos. Está muito tarde e ele ainda não está em condições.

Vargas suga os pingos finais de café do copo descartável e replica com displicência:

─ Já terminou?

A moça aspira o ar pesadamente, balançando a cabeça. Já conversou com aquele homem antes, pois não era a primeira vez que vinha ali naquele dia. Portanto sabia que era inútil tentar dialogar com alguém como Vargas:

─ Já sim – ela responde desanimada.

─ Ótimo! Qual o número do quarto?

─ 3-25, senhor.

─ Trezentos e vinte e cinco? Vocês têm tantas salas assim?

─ Terceiro andar, sala vinte e cinco, senhor Vargas. – responde a jovem mulher, jogando a prancheta no colo do detetive e já dando as costas – Boa sorte!

O detetive joga o copo descartável no lixo e caminha mancando até o elevador. Havia estado no hospital cerca de três horas atrás para entrevistar algumas pessoas. Deixou outras para depois e declarou que o motivo era porque ainda estava fora de condições, mas o fato era que ele sabia que mais declarações vindas das pessoas que estavam no mesmo lugar não dariam em nada. Recebeu, porém, uma informação vinda da última pessoa que interrogou, de que alguém poderia ir mais fundo no caso em que lhe foi incumbido.

─ Sala 325 – ele diz para si mesmo ao ficar de frente para a porta.

Três batidas pesadas e espaçosas e logo depois, ele entra sem muitas explicações. Um homem deitado na cama assistindo a uma pequena televisão presa num suporte à parede, olha para o detetive com desprezo.

─ Sou o detetive Vargas da divisão de Homicídios – ele mostra o documento dentro da carteira, ao lado de um distintivo dourado com os desenhos de uma espada medieval com asas, apontada para baixo e sobreposta à uma estrela de cinco pontas.

─ Não sabia que tinha uma divisão de Homicídios aqui em Saltos.

─ Não tem – retruca Vargas fechando sua carteira e sentando-se na cadeira de visitas.

─ Então deve ser de uma delegacia importante porque eu não posso receber nem minha esposa durante o horário de visitas, quanto menos fora dele.

─ Eu sou especial. Você é o... – Vargas abre uma folha de papel médico, dado à ele pela enfermeira e lê só o sobrenome do paciente – Pereira. Posso te chamar apenas pelo sobrenome, certo?

─ Poderia se estivéssemos em terreno americano.

─ Pereira então – completa o detetive sarcástico, antes de fazer uma face séria.

─ O que você quer, detetive?

─ Você esteve no assassinato do prefeito Rudolf.

─ Estive sim.

─ O que pode me dizer sobre o ocorrido?

─ Se você foi encarregado do caso, já deve ter aborrecido outras pessoas antes de mim.

─ Posso dizer que sim. E daí?

─ Então deve saber qual a minha resposta e, portanto está perdendo seu tempo.

─ Senhor Pereira, as regras dizem que nós devemos primeiramente conhecer o interrogado com perguntas fúteis e desinteressantes. Mas eu não sou assim. Não quero saber qual a raça do seu cachorro, não quero saber como conheceu sua esposa e nem o nome de seu filho, se é que tem algum. Estou aqui em nome de minha corporação, para entender e decifrar um assassinato e por isso, vamos direto ao assunto. O que você tem para mim?

─ É o que estou dizendo, detetive. Você deve ter recebido dos outros a mesma informação que vou dar agora que é: “Eu não me lembro de nada”. Eu fui drogado por “seja lá o quê”.

─ Eu também recebi a informação de que você foi o menos exposto por esse... “seja lá o quê”, que afetou à todos os outros e os deixou desmemoriados.

Pereira volta os olhos para a T.V. Vargas se acomoda na cadeira, retira um caderno de anotações de um dos bolsos de seu terno, apoia uma perna sobre a outra e diz:

─ Em todo caso eu vou te dar uma forcinha. Um dos seus companheiros, que disse ser amigo seu mesmo fora da profissão, teve seu braço decepado por um objeto cortante. Também foi atingido na parte lateral do rosto. Quanto à isso não há marcas muito profundas, mas ele se lembra por causa da dor que sentiu. Só depois é que desmaiou devido à uma sonolência enorme que lhe atingiu.

O enfermo volta-se para o detetive e este continua:

─ Seu amigo também disse que viu o agressor, ou melhor, o semblante dele sob a espessa fumaça que os envolvia. Disse que parecia um guerreiro japonês, ou seja, de espada na mão e roupas largas e orientais. Isso não ajuda muito já que hoje em dia há muitas pessoas, principalmente os jovens, se vestindo assim nas ruas por causa dessa nova moda de roupas ninjas e samurais e das malditas escolas de esgrima japonesa. Mas foi aí que ele me deu uma informação valiosa, ao dizer que se lembrava da posição do senhor. Você era quem estava mais perto do prefeito, num local que provavelmente lhe deu uma visão melhor e mais clara do alvo, já que o gás do sono lançado no palco foi feito de modo que ficasse longe de Rudolf. Estou certo até aqui?

Pereira permanece calado, mas deixa a entender que o detetive estava no caminho certo. Para ser sincero, ele achava que o detetive até falava como alguém que estivesse no meio da plateia.

─ É interessante como fragmentos de memórias podem se tornar cenas completas não é? – assume Vargas com um sorriso de canto.

─ Você fez bem o seu trabalho, detetive.

─ Eu faço o que posso. Agora eu quero ouvir a sua parte na história. E é bom que sua fatia de recordações seja maior que todas as outras que ouvi até agora.

O enfermo fica calado por quase um minuto até que suga uma boa quantidade de ar e salienta:

─ Vamos fazer assim, detetive. Eu estou morto de cansaço e de saudades de minha esposa. Já recebi informações de que vou ter alta em dois ou três dias. Eu só quero descansar um pouco para que minhas memórias voltem com força total. Prometo que assim que sair daqui e rever minha mulher, eu vou até a delegacia onde o senhor fica e vou lhe contar tudo o que eu me lembrar.

─ Está me fazendo de idiota?

─ Claro que não. Tudo o que o senhor disse é verdade e eu sou testemunha de um assassinato. O assassinato de alguém importante. E quero ajudar na captura do culpado. Mas agora eu não me lembro de nada. O efeito do gás do sono ainda deve estar em mim. Por isso, dois ou três dias é tudo o que eu te peço.

─ Muito bem... – Vargas levanta-se da cadeira e retira um cartão pessoal do bolso da calça – Não fico em nenhuma delegacia daqui de Saltos. Qualquer coisa, me ligue neste número.

─ Claro, sem problema. E desculpe.

─ Sem problema. Mas se não me contatar em uma semana, eu vou atrás de você.

Vargas sai, visivelmente chateado e sem se despedir do enfermo. Estava com sono apesar de tudo, então esse pequeno recesso foi bem aceito por ele também.

─ Preciso de um computador – sussurra Pereira minutos depois, observando o cartão de visitas do detetive.

No térreo, o detetive vai até o balcão de informações e pede para a atendente chamar por uma das enfermeiras-chefes. Uma mulher velha, baixa e de gordura em excesso, se aproxima dele com uma cara mal-humorada, balançando o rosto com se perguntasse “que foi?”. Vargas observa a identificação no peito do uniforme e lê “Enfermeira-Chefe: Rose”. Ele sobe os olhos à face de Rose e ordena:

─ Quero que me dê o nome do médico-chefe, responsável por todas as pessoas do caso do prefeito.

─ Quê prefeito?

─ O que foi assassinado, mulher. Onde esteve nas últimas horas, em Marte?

─ Hunf! O médico desse caso não está.

─ Como assim “não está”? Ele é um médico, isso aqui é um hospital e ele trabalha aqui.

─ Ele não mora no hospital. Seu turno se encerrou às 23:00 horas.

─ Mesmo assim eu vou querer o nome e o endereço desse médico.

─ Não posso dar nenhum...

Vargas puxa sua carteira de modo tão abrupto que todos ali se assustam, pensando que ele iria puxar um revólver ou agredir a enfermeira. Habilmente, ele abre a carteira no compartimento onde estava seu documento de detetive. O emblema dourado da espada alada sobre a estrela de cinco pontas era um símbolo que calava a boca de todos aqueles que tinham juízo. Com a enfermeira Rose não foi diferente.

─ Vou esperar na sala de espera – Vargas guarda suas credenciais – Obrigado por enquanto.

O detetive caminha até uma máquina de café expresso, prepara um copo e vai em direção da enorme sala principal, onde esteve durante todo o início da madrugada.

─ “Vou esperar na sala de espera” – resmunga a mulher fazendo careta e nasalizando a voz, como se o imitasse. Em seguida ela aponta para uma das jovens e bonitas enfermeiras e ordena – vê isso pra mim rápido! O telefone e o endereço do doutor Danilo. Só não entregue nada à esse imbecil antes de minha autorização.

─ Sim, senhora.

Petruz ainda se revirava na cama de um lado para o outro. Seu coração acelerado por causa do medo não o deixava pregar os olhos. Ao seu lado, no chão, sobre um edredom fino, branco e florido, Rumiko dormia confortável como um bebê. Petruz não entendia como alguém que se dizia ameaçado de morte conseguia dormir tão tranquilamente num lugar tão estranho e pouco protegido. Nos filmes americanos que assistia, pessoas com esse problema vivam escondidas ou protegidas por aparelhos de segurança. Pelo visto, a vida real era diferente, ou Rumiko tinha se enganado.

As lâmpadas do quarto estavam apagadas, mas a noite perto de uma cadeia de motéis era agitada, por isso luzes de vários letreiros varavam a madrugada escura, iluminando os quartos cujas janelas se situavam na parte alta de qualquer edifício. E aquele em que Petruz estava era um deles. Havia apenas uma janela naquele quarto e a única coisa que servia de proteção eram as grades de madeira da própria janela e uma cortina rasgada e suja. Fora o barulho dos carros, que chegavam e saíam à todo momento. Eram longínquos e não acordariam alguém com sono pesado. O problema era que o ruivo ainda estava acordado, então, tudo era empecilho para chegada de seu sono. Petruz se pergunta como é que se pode dormir num inferno de luzes e barulho como aquele, mas logo se recorda de que estão num motel, e raras pessoas vão para um quarto de motel simplesmente para dormir. Mas pelo menos a noite até agora tem corrido tranquila.

O relógio de ponteiros na parede à frente, com o desenho de um sabiá no centro, conta os segundos com tiques barulhentos e intimidadores, como se quisesse anunciar que algo está chegando. No entanto, já são quase três da manhã e os homens que os seguiam ainda não deram as caras. “Você se enganou, Rumiko”, pensa Petruz esperançoso, desejando que os homens só os atacassem quando fosse dia. Seria mais sensato e menos covarde da parte deles.

Os olhos de Petruz começam a ficar cansados e ele tem leves sessões de cochilo, vendo o quarto luminoso embaçar e escurecer vez ou outra. O sono estava chegando. Ele percebia isso e achava ótimo, porque se dormisse, aquela noite passaria num minuto. Já tinha se convencido de que não seriam atacados de madrugada, pois se fossem, Rumiko, cautelosa como aparentava ser, não estaria dormindo tão despreocupadamente. Aceitando isso como certo, Petruz se entrega à sonolência quando, de repente, ele vê um vulto abrir suavemente a janela e passar por ela. No início pensou que fosse uma impressão, ou uma rápida recordação de um sonho, causado pelos cochilos. Logo, ele viu que não era. Seus olhos pesados despertam, mas na pouca claridade proporcionada pelos letreiros luminosos, ele não vê nada. Seu medo volta de modo tão afiado que ele não encontra coragem para se levantar e acender as luzes.

Petruz aperta os punhos abaixo do cobertor e os encosta sobre o peito, tentando abafar o som de seu coração que lhe parecia ensurdecedor. É quando seus olhos se acostumam com a meia escuridão e ele vê a sombra de um homem puxando lentamente um objeto de dentro de outro, separando-os. Era algo que parecia ser um fino e comprido pedaço de ferro, mas que brilhava como uma faca afiada. No momento seguinte ele percebe que aquilo era, na verdade, um shikomizue, do qual Rumiko tanto falava. Aquele, no caso, havia sido disfarçado de guarda chuva.

Atrás desse primeiro invasor, na janela, um segundo e um terceiro suspeito, já dentro do cômodo, ajudavam um quarto a subir. Quando um dos invasores notou que o ruivo estava acordado, um brilho sinistro de um sorriso maléfico lhe brota na face, então ele inicia uma aproximação sorrateira. Nesse momento Petruz também começa a se debater e se afastar ainda sobre a cama, sem encontrar um jeito de se levantar. Era com se suas pernas e braços estivessem anestesiados e se mexessem de modo desordenado sobre uma superfície escorregadia. Ele vai se agitando e recuando desesperadamente sobre a cama de casal que parecia nunca terminar, até que, quando vê o homem subir e ficar em pé sobre o colchão, o ruivo, num giro desesperado, tomba para trás, caindo de cara para baixo e em cima de Rumiko. Os seus rostos se encontram e a mocinha abre lentamente seus grandes olhos, fitando com serenidade e um tenro sorriso a face assustada de Petruz, tremendo e suando frio. Ainda sem forças para se levantar e sair de cima de Rumiko, o jovem balbucia em desespero.

─ Eles... eles chegaram, Rumiko... Eles estão aqui!

A moça encara os olhos claros de Petruz e responde com suavidade.

─ Wakatteru yô!

Notas finais
Wakatteru yô! = Já é notório que Rumiko nunca pronuncia o pronome "Eu" quando se refere à si mesma (será explicado num futuro), por isso, ela faz uso de frases e palavras em que esse pronome não existe, mas já vem discriminado (o sujeito oculto). Assim sendo, Wakatteru significa "Eu sei". O "yô" no caso é só uma particularidade dela, usada em quase todas as suas sentenças ditas em japonês.