A Busca
14 Morte na Penumbra

Rumiko vê o vulto do primeiro invasor, acima da cama, erguer os braços e tentar perfurar as costas de Petruz com sua arma de corte. A moça agarra os ombros do rapaz e, com tremenda força, o empurra para o lado num giro, ficando por cima dele e evitando que o rapaz fosse acertado pelo golpe.
O agressor dá um passo atrás, ganhando espaço, mas permanecendo sobre a cama. Então Rumiko se levanta sem pressa ou apavoro e, enquanto esfrega o olho esquerdo, pergunta com um rosto ainda sonolento e com uma voz mole e quase incompreensível.
─ Anatagata wa dare?
O homem prepara outro golpe e passa a sua espada num movimento largo e rápido, da esquerda para direita. Na velocidade e força com a qual aplicou o golpe, ele teve a nítida impressão de que deveria ter acertado. Porém, errou feio. E antes de se reerguer e preparar seu terceiro ataque, Rumiko incrivelmente lhe toma a espada de um modo que ele mal percebeu e, com essa mesma arma, ela pisa na beirada da cama, usa-a de apoio para impulsionar um salto e, durante o movimento, retira a vida do agressor, acertando-lhe um golpe que se choca com tanta força em seu corpo, que ele é erguido da cama, caindo na outra beirada do móvel e termina jogado aos pés de seus comparsas mais ao fundo.
A shikomizue trinca e, vendo que não teria mais serventia, a moça joga a arma de lado. E como se fosse feita de vidro, a arma se parte quase ao meio assim que toca no chão frio. Em seguida, Rumiko pede à Petruz que fique deitado no chão, dá a volta ao redor da enorme cama, até ficar de frente aos outros três invasores. E, para ver se obteria alguma resposta, questiona novamente, agora em português:
─ Quem são... – a moça boceja longamente – Quem são os senhores?
Os invasores se afastam um passo atrás. Eles foram avisados que Rumiko era uma espadachim. Porém, apesar de já terem visto muitas lutas de espadas nas ruas, sempre acreditaram que a força física e um pouco de sorte eram determinantes para vitória. Nunca imaginariam que alguém pudesse ser morto tão facilmente pela falta de técnica. Rumiko era a prova de que eles estavam enganados e que, dali em diante, não poderiam vacilar, então, todos eles se preparam para atacar, e ao que parecia, seria ao mesmo tempo. Nesse momento Petruz, na posição em que estava, ainda sentado no chão, pode ver claramente a bainha da Shiko Mizu no Ryu de Rumiko embaixo da cama, iluminada pela sua cor clara. Num mergulho, Petruz se joga em direção à arma e, assim que a agarra, ele grita.
─ Rumiko! Sua espada!
A mocinha olha para trás e vê Petruz arremessando a arma em sua direção. Ato contínuo, dois dos homens também veem nesse segundo o momento perfeito de atacar e partem para cima com toda a fúria. Rumiko agarra a shikomizue no ar ao mesmo tempo em que se desvencilha dos ataques inimigos. Seguidamente ela desembainha sua arma e, num movimento único, cujo raio de luz pareceu desenhar algo no escuro, ela também manda esses dois agressores para o outro mundo. Petruz arregala os olhos num espanto e sussurra “– incrível”.
Agora só faltava um. O último inimigo fitava os olhos sonolentos de Rumiko, sem saber se fugia ou se a enfrentava. Fugir significava dar as costas para ela e isso seria perigoso. Por outro lado, também sabia que seu contratante não estava brincando quando disse ser burrice qualquer um deles enfrentar Rumiko sozinho. E agora ele estava sozinho, cara à cara com um capitão armado do famoso Gen-Bu, por isso precisava redobrar sua atenção e habilidade. Reconhece também, acima de tudo, que a situação atual era por culpa de Petruz, pois se não fosse por ele, Rumiko agora estaria desarmada e, portanto, seria um alvo mais fácil.
“Garoto maldito” – Ele lança um olhar tão furioso para Petruz que o ruivo, mesmo ajoelhado do outro lado da cama, quase cai para trás, recostando-se na parede.
─ Vou rasgar o seu pescoço depois – diz o invasor à Petruz, se preparando para o combate.
Nesse momento Rumiko abaixa a ponta da espada, ficando em pé mais por necessidade do que por vontade. Suas pálpebras pesadas a faziam, de vez em quando, perder a visão do inimigo à sua frente. Esse último homem, sendo um assassino experiente e vendo na sonolência de Rumiko uma chance de ouro, se posiciona bem e espera o momento certo para atacar. Petruz percebe o plano do inimigo, mas não sabia o que fazer para ajudar Rumiko a despertar por completo. Novamente se lembrou que a mocinha já não dormia há dias, por isso estava naquele estado lastimável. “Vou rasgar o seu pescoço”, foram as palavras que lhe vieram à mente e deram à Petruz sua primeira carga de coragem. Se Rumiko fosse morta, ele inevitavelmente seria também. Então ele decide que deveria lutar, não no lugar de Rumiko, mas ao seu lado, afinal, seu pescoço também estava na mira do assassino. Por isso ele tinha de fazer alguma coisa.
Mas assim que ele se levanta, o agressor também vê que era a hora perfeita de atacar Rumiko, que no momento parecia estar dormindo em pé. Ele corre à dois passos largos e rápidos na direção dela e tenta acertar um golpe de perfuração no rosto da moça. Um milésimo antes, Petruz pensa em gritar, mas sua voz não sai e, mesmo se saísse, não teria dado tempo de avisar.
Rumiko, porém, apenas se esquiva para o lado esquerdo e o homem passa vazado, quase tropeçando. Quando se dá conta da esquiva majestosa da moça, já era tarde demais. Rumiko desliza para as costas do inimigo, pega nos cabelos da parte traseira de sua cabeça e a puxa para trás e abaixo, encostando a nuca do homem sobre seu peito. Como era mais alto, ele ficou praticamente arqueado, quase caindo de costas. Na sequência, ele sente o fio áspero e gelado da lâmina de Rumiko encostar-se à sua jugular. O homem fica imóvel, sem saber o que fazer. Nessa posição, a moça o força a andar para os lados, ficando perto de uma das paredes do quarto. Não queria que o homem ficasse de frente à Petruz, pois também não gostaria que o ruivo visse o que iria acontecer, por isso o levou o mais longe possível.
─ Nunca mais ameace o senhor Petruz – diz ela com sua voz macia e aveludada.
─ Vá pro inferno. Vocês dois.
─ Não vai mesmo dizer quem são?
─ Prefiro morrer.
Rumiko dá uma longa e preguiçosa bocejada e, assim que termina, ela solta os cabelos do homem e rapidamente segura a testa dele, para ter melhor apoio, então lhe rasga o pescoço. Um jato de sangue voa na parede à frente e o inimigo escorrega aos pés de Rumiko, morrendo segundos depois.
Observando a moça, agora de braços largados, rosto baixo, entristecida e de olhar apagado, Petruz tremia abismado. Rumiko era perigosa. Mesmo com efeitos de sonolência, Rumiko era uma assassina perigosa, perfeita, mortal. Ele ficou encolhido no canto da parede atrás da cama, de olhos arregalados e tremendo. Não sabia por que tremia, mas tinha certeza que agora era mais de medo. Um cheiro de sangue invadia o local, mas as narinas do garoto ainda não podiam sentir.
A moça respirou fundo, caminhou até a cama e se sentou próxima do local onde Petruz estava, colocando sua shikomizue de lado. Em seguida, enquanto apoiava o cotovelo no joelho e a afundava a cabeça sobre as mãos, ela pede ao garoto:
─ Por favor, senhor Petruz. Vá até a recepção e solicite uma troca de quartos.
Como não ouviu uma resposta, ela olhou para o garoto e o viu assustado e de olhos esbugalhados. Naquele momento Rumiko soube que havia destruído qualquer laço de amizade que pudesse fazer com o ruivo. Talvez fosse melhor assim, porque Petruz ainda não estava preparado para ver o mesmo mundo que lhe foi apresentado, quando ela ainda tinha dez anos. Rumiko ergue a cabeça e lamenta entristecida:
─ Senhor Petruz? Desculpe por ter visto isso. Se o senhor quiser...
─ Troca de quartos? – questiona o garoto subitamente, como se acordasse de um transe.
E a moça assente com a cabeça:
─ Ee! Por favor. Rumiko dormiria aqui sem problemas. Mas esse quarto agora é fúnebre demais para o senhor e por isso Rumiko não quer que o senhor fique aqui. E leve todo o dinheiro de Rumiko porque provavelmente não será um serviço gratuito.
Petruz não argumenta. Ele simplesmente se levanta, pega a mochila de Rumiko, retira a bolsinha com o dinheiro, evitando ao máximo de olhar para os cadáveres, e sai apressado. Queria sair dali o mais rápido possível.
Apesar de saber que eram apenas quatro inimigos e que todos jaziam mortos, ele foi até a recepção com o coração na mão, olhando desconfiado para todos os lados.
─ Uma troca de quartos? – pergunta o recepcionista – E por que quer isso? Houve algum problema naquele em que você estava?
─ Hã... sim. Pode se dizer que sim.
─ Serão duas centopeias, por favor.
─ O quê? Mas esse é o mesmo preço de mais uma noite. Nós já pagamos por um quarto, só queremos trocar.
─ Escuta aqui. Eu não sei que tipo de merda você fez no seu quarto atual, mas, seja lá o que for, quem terá de resolver pela manhã seremos nós. Por isso, ou vocês assumem a porra que fizeram, ou pagam um novo quarto.
Petruz fica sem saber o que fazer, mas tem a certeza de que não vai querer dormir no mesmo lugar onde estão quatro cadáveres. Então ele decide aceitar aquele absurdo e pede para o recepcionista adicionar na mesma conta.
De volta ao segundo andar, ele encontra Rumiko no corredor, sentada no chão e encostada na parede com a cabeça para baixo, quase que deitando no chão de tanto sono. No meio de suas pernas, a sacola de compras de Petruz e, ao lado dela e colocados no chão, todos os pertences da moça, que já haviam sido arrumados dentro de sua mochila-saco e retirados do quarto. Rumiko tinha pego também a espada do agressor, que havia se partido, por alguma razão desconhecida por Petruz. O ruivo engole em seco e se aproxima, mostrando a chave do novo quarto:
─ Foram mais duzentas bedinas. Esses ladrões sujos e aproveitadores.
─ Daijobu desu, Petruz-san! É só dinheiro. Um dia vai acabar de qualquer jeito.
O ruivo pega as coisas dela, levando a moça até o novo quarto, agora de número "seis", onde Rumiko entra cambaleando, cai de bruços na cama e não se move mais. O garoto tranca a porta, senta-se ao lado oposto da cama e brinca:
─ Hunf, não disse que não gostava de dormir em colchões macios?
Rumiko resmunga algo indecifrável, mas que, como é de praxe, não pareceu ser ofensivo. Petruz também se deita sobre a cama, ao lado de Rumiko e observa o ventilador enorme no teto. Em seguida, Petruz vira o rosto devagar para focalizar a face angelical de Rumiko. No entanto, Rumiko estava com o rosto voltado para o outro lado e já dormia profundamente.
O ruivo respirou profundamente e foi só aí que notou uma coisa curiosa. Rumiko havia se deitado e virado para o exato lado onde ficava a janela daquele quarto. Não havia mais inimigos, mas se acaso houvesse, o único lugar que dava para entrar sem fazer barulho seria por aquela janela. Petruz se lembrou que, no ataque anterior, quando os homens adentraram no quarto e ele caiu sem querer sobre a moça, ele percebeu que Rumiko estava de olhos fechados, mas não estava dormindo tão completamente a ponto de acordar desnorteada. Além disso, ela já sabia de alguma forma que eles entrariam em ação naquela noite.
Nessa mistura de pensamentos, Petruz percebeu que, apesar de Rumiko dizer que não gosta de dormir em camas por causa da maciez do colchão, ela se deitou ali para fazer com que ele ficasse despreocupado e pudesse dormir sossegado. Isso fez o rapaz se sentir um covarde inútil, mas ao mesmo tempo, ter vontade de querer crescer e fortalecer. E em poucos minutos, adormeceu pesadamente.
**********
Eram pouco mais das seis e meia da manhã quando Rumiko abriu os olhos. Sentia que não havia dormido o suficiente para suprir sua carência de sono, mas precisava acordar. Lentamente ela pôs a mão no chão, depois o pé, e só depois é que ela se levantou, bem devagar, para não acordar Petruz, deitado ao seu lado. Era uma lástima ter dormido tão pouco, mas pelo menos ela não sentia dores por ter dormido numa cama macia, como normalmente acontecia.
Antes de qualquer ato, antes mesmo de sequer se espreguiçar, Rumiko aproxima-se do garoto e observa seu rosto por um momento, até chegar à conclusão de que ele dormia profundamente, sem o menor sinal de que poderia acordar de uma hora para a outra.
Rumiko então, para evitar fazer barulho com o deslizar da porta do banheiro, decide se trocar ali mesmo, tirando a parte de baixo de seu pijama e colocando seu Hakama(1) coloca sua jaqueta por cima da parte superior do pijama, e põe seu gorro, escondendo sua trança embaixo dele. Tinha um último plano em mente e precisava coloca-lo em prática rápido.
Propriamente vestida, ela sai na ponta dos pés, calça suas pantufas de coelhinho e vai até o térreo, procurando saber quem estaria na recepção no turno da manhã. Rumiko sorri ao reparar no rapazinho lendo uma revista qualquer, com fone de ouvidos em uma das orelhas e mascando chiclete ou algo assim. “Jovens são ambiciosos” – reflete Rumiko, colocando um lenço ao redor da boca, deixando apenas seus olhos visíveis e caminhando em direção do balcão.
─ Bom dia, meu jovem – diz ela ao chegar na recepção.
O rapaz olha para a moça a sua frente e, deduzindo que não passava de uma criança trajando roupas maiores que o corpo, retira o fone do ouvido pensando “meu jovem?”.
─ Bom dia – responde o rapaz cruzando os braços e apoiando-os no balcão.
─ Por favor, à que horas esse estabelecimento começa a arrumar os quartos?
─ Começamos a limpeza matinal à partir das nove, mocinha. Porque esse lenço no rosto?
─ Gripe! Está muito frio por aqui. Mas enfim, preciso que me faça um favor.
─ Pode falar.
─ Tenho um companheiro no quarto número 6 do segundo andar. A nossa noite foi agitada e por isso ele ainda está dormindo.
O balconista sorri de modo malicioso. Ainda acreditava que Rumiko era nova demais para estar num motel, mas agora, ao balancear as palavras “noite agitada”, ele deduzia que o motivo de ela estar ali era porque estava trabalhando como acompanhante. A mocinha não compreende aquele estranho sorriso, mas não se importa e continua:
─ Gostaria que ele não fosse incomodado até o momento em que ele se sentisse descansado o suficiente para acordar.
─ Bom, isso vai custar um pouquinho. Cerca de, digamos... Dez bedinas para... Você sabe, para o café da manhã e...
Rumiko coloca uma nota de 50 bedinas na mesa, segundos antes de imaginar que o homem a chantagearia. Não queria gastar dinheiro com um favor tão simples, mas tinha de deixar Petruz livre de sua influencia e para isso, faria o que fosse necessário.
─ Opa... – diz o balconista – Acho que ainda não tenho troco.
─ Pode ficar com tudo, meu jovem. Só faça o favor que pedi.
─ Claro, claro. Pode deixar.
A moça se vira e volta até a escadaria, olhando para os lados, distraída e parando durante todo o caminho, como se olhasse para algum lugar ou alguma coisa. Mas na verdade, o que ela pretendia era que o rapaz atrás do balcão a visse o máximo de tempo possível, para que decorasse suas vestimentas e seu jeito de andar.
─ Que desperdício... – resmunga o rapaz atrás do balcão, que seguiu Rumiko com os olhos até vê-la subindo de volta para o quarto –...tão nova e já uma prostituta.
Ele estica a nota entre os dedos com um sorriso largo, pensando “mas até que paga muito bem”.
Rumiko entra no quarto, novamente no máximo silêncio, retira seu gorro, sua jaqueta e seu pijama superior, coloca tudo em sua bolsa e veste uma camisa amarela. Por fim ela veste seu Hanten, pega sua mochila e remexe nela por uns instantes, depois vai até a sacola de compras onde estavam as roupas de Petruz. Remexe um pouco por lá também. Em seguida ela volta até sua mochila e a joga nas costas com cuidado, saindo mais uma vez nas pontas dos seus pés, agora calçados com meias, levando em uma das mãos as suas sapatilhas, que vestiria quando saísse do quarto, e na outra um saco de lixo preto e pequeno. Antes de sair, ela olha para Petruz, que estava deitado virado para a porta, confortavelmente acomodado, e lhe sussurra com sua voz quase inaudível:
─ Sayonara, Petruz–san. Arigatou.
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