A Busca
15 Diferentes Mundos
Notas iniciais
No saco de lixo, Rumiko levava as roupas sujas e rasgadas e os sapatos velhos e furados de Petruz. Aquela manhã estava fria então, não demorou muito para Rumiko achar o que procurava: um latão de lixo, com brasas ainda incandescentes, que os mendigos do local usavam para se aquecer durante a noite. Ela se aproxima do latão e joga as roupas de Petruz dentro. Em minutos, um fogo se inicia timidamente, ganha altura e pouco tempo depois diminui. Rumiko ficou ali, esperou que o fogo se intensificasse e retirou de sua mochila a shikomizue quebrada quase ao meio. Ela colocou a arma no latão e acompanhou a destruição das peças de roupa, para ter certeza de que seriam consumidas completamente. O calor não era intenso o suficiente para destruir a espada, mas o fogo cumpriria com o propósito desejado por Rumiko.
Feito, ela caminha até uma pequena área conhecida como praça de alimentação. Queria comer alguma coisa, qualquer coisa, desde que fosse nutriente o suficiente para mantê-la sem fome até a tarde, pois não tinha a intenção de parar mais tarde para almoçar. Ao passar por um pequeno estabelecimento que vendia pastéis e porções de calamares e de yakisoba, Rumiko parou e ali ficou
Uma bela moça, mestiça de japonesa, atende Rumiko prontamente. A moça pede um prato caprichado de yakisoba, escolhe um banco específico e senta-se, de modo que pudesse olhar os transeuntes na rua. Depois do acontecido na madrugada anterior, ela não estava mais com aquela sensação de estar sendo seguida, mas gostava de olhar as pessoas comuns, com suas vidas comuns e suas preocupações comuns. Elas eram... fascinantes, para não dizer simplórias, vulgares e ingratas pelas vidas felizes que levavam. Nisso, Rumiko se recorda de Petruz, ainda adormecido no motel. “Bem que ele poderia gastar alguns dias a mais com Rumiko” – pensa ela. Uma vergonha imensa fez seu coração acelerar quando se lembrou do convite descarado que fez à Petruz. Sabia que foi isso que o assustou e se culpou por tê-lo posto contra a parede. Não deveria ter feito isto.
─ Rumiko parecia uma adolescente – diz ela baixinho, sorrindo de olhos fechados e recordando-se da cena.
Lentamente o sorriso de Rumiko vai se apagando e um semblante triste aparece em sua face:
─ Bobona – ela sussurra para si.
─ Só mais uns minutos – lhe grita a mestiça de japonesa, perto da chapa.
E Rumiko replica num sorriso festeiro:
─ Tá bom!
**********
No motel, as coisas já começavam a ficar agitadas. Casais e acompanhantes contratados para passarem a noite, desciam das escadas com rostos assustados, mas nada comentavam. Só queriam sair daquele lugar. Enquanto isso, funcionários do hotel subiam, com toalhas, baldes e lençóis, também de modo ordenado e rostos curiosos.
Dentro do quarto número seis, onde Rumiko pernoitou, o silêncio ainda imperava. Fazia tanto tempo que Petruz não dormia tão bem e, se não fosse incomodado pelo barulho da correria no corredor, ele provavelmente dormiria até tarde. Estava num quarto quentinho, sobre uma cama não tão macia para o seu nostálgico gosto, mas muito melhor que o chão frio e os bancos de praça com os quais ele já estava quase se acostumando.
Ao ouvir murmúrios agitados e nervosos, o garoto esfrega os olhos e se prepara para se levantar, quando, de repente, percebe que o lado da cama onde Rumiko deveria estar deitada se encontrava vazio. Num pulo, o rapaz se levanta e procura a bolsa cilíndrica da menina, mas também não encontra. Uma rápida olhada para o banheiro também não ajudou, porque a porta estava aberta e, portanto, não havia ninguém lá. Petruz então, pega as sacolas com os seus pertences e, no ato, um embrulho ligeiramente pesado, formado por um lenço, cai de modo barulhento no chão. Petruz não precisaria abrir para saber que eram algumas moedas, mas o fez por imaginar que o embrulho não foi feito à toa, já que Rumiko poderia simplesmente colocar as moedas soltas dentro da sacola. E no embrulho, junto à três moedas de ouro, encontra um pedaço de papel com os dizeres: “Isso é tudo o que posso lhe dar. Desculpe pela pouca quantia, mas sei que fará bom proveito”.
─ Droga, Rumiko!
O rapaz se veste rapidamente, agarra suas coisas e corre para a porta. Pretendia passar pelo corredor apressado, mas logo diminui o passo ao cruzar pelo quarto onde havia alguns homens de preto e azul olhando e fotografando quatro cadáveres que foram encontrados ali logo de manhã. Petruz, claro, sabia o que aconteceu e passa devagar pela porta, a fim de não levantar suspeitas e não ser chamado para interrogatório. Ao alcançar as escadas, ele torna a acelerar o passo e desce correndo até o salão principal.
Um rapazinho, que exibia uma face de quem estava satisfeito com alguma coisa, limpava o balcão com uma flanela enquanto dançava ao som de uma música que recebia pelos fone de ouvido. Petruz aproxima-se eufórico do balcão e questiona ansioso.
─ Onde está ela?
─ Onde está quem, senhor?
─ A minha parceira. A moça que dormia no meu quarto.
─ Quê quarto, senhor?
─ O quarto... – Petruz pensa por um segundo – o de número seis. No segundo andar.
─ Ah, sim. O quarto número seis... – o balconista presta atenção em Petruz e vê que, em contraste com a menina de outrora, o ruivo também era só um garoto – Esse mundo tá mesmo mudado...
─ O quê?
─ Nada... Sua parceira... Era uma jovem, baixinha e branca, de olhos grandes e jaqueta marrom?
Petruz não poderia dar certeza que fosse Rumiko, mas as características eram únicas demais para não ser ela.
─ Essa mesma. Onde ela está?
─ As meretrizes só têm permissão de ficar aqui à noite senhor. Se quiser esperar até as seis...
─ Idiota!
Petruz bate no balcão e sai correndo pela porta do hotel, olhando ao redor. Lá dentro, o balconista avisa gritando:
─ Hei, senhor. Volte sempre ao nosso...
O balconista não tem tempo de terminar a frase e assim que Petruz some de sua vista, ele sussurra sozinho enquanto sorria:
─ Espero que volte novamente, seu otário. Também quero rever sua amiguinha.
Petruz correu para as ruas de modo tão afobado que quase se esbarrou num homem alto, de terno, sobretudo e chapéu de abas largas, apoiado num cajado de marfim, e que fumava um cigarro enquanto esperava por alguma coisa do lado de fora, perto da entrada do motel.
─ Hei, cuidado, moleque! – bronqueia o senhor.
─ Desculpa!
Desviando do homem, o ruivo correu para um lado à esmo, até imaginar ou perceber que a moça não teria ido por ali, então ele dá a volta e corre para outro lado. Havia pessoas demais nas ruas, com os comércios abrindo e trabalhando a todo vapor. Muitos micro-ônibus transitavam por ali também. Petruz rezava para que a moça não tivesse pegado nenhum ainda, porque se tivesse, ele jamais iria encontrá-la de novo.
Ele foi entrando no meio das pessoas, procurando e imaginando como fazer para pedir informações sobre a moça, sem levantar nenhuma suspeita de quem ela era na realidade. Até que num dado momento, já cansado de correr, e ainda tendo de levar sua sacola nas mãos, ele se senta em um banco de esquina. A moça havia sumido e ele sequer agradeceu por tudo o que ela fez por ele.
Subitamente, tem uma ideia. O garoto sai em disparada para uma região conhecida naquela área como praça alimentação, não muito longe dali, e pensa em recomeçar sua procura por lá, indo em pequenas barracas, cujas especialidades eram cafés da manhã e lanches rápidos. E assim que chega na pequena praça, seu coração quase salta pela boca quando vê, já indo embora do local, uma mocinha de cabelos negros e longos, envoltos numa única trança, usando roupas nipônicas, distintamente diferentes das pessoas ao redor. De costas, exibindo seu Hanten rosa com o símbolo do Gen-Bu, suas calças nipônicas de cor clara e sua mochila-saco nos ombros, Petruz não tinha dúvidas. Era Rumiko.
O ruivo respira fundo, feliz por não ter que procurar mais e grita o nome que, durante toda sua existência, ele ouviu pela primeira vez não havia nem 24 horas atrás:
─ RUMIKOOOOOOO...!
A moça adiante interrompe a caminhada e olha vagarosamente para trás, desacreditada.
─ Senhor... Petruz?
O garoto abre um sorriso largo, diminui o passo e se aproxima devagar. Ao chegar perto de Rumiko ele apoia a mão num poste de luz e recupera um pouco de fôlego antes de perguntar:
─ Por quê... Por quê você não me acordou? O que pretendia fazer?
─ Are? Rumiko fez conforme o combinado, senhor. Rumiko disse que o deixaria em paz a partir de hoje, não foi?
─ Mas eu... eu...
─ Não se preocupe. Rumiko já tomou conta de tudo o que poderia incriminá-lo. Tudo que liga o senhor aos atos de Rumiko foi destruído.
─ NÃO...
Petruz toma um pouco mais de ar, depois pensa por uns minutos no que ia dizer.
─ Não é isso. Eu pensei... Eu pensei que a nós íamos ficar mais tempo juntos.
─ Rumiko adoraria, senhor. Gostaria de verdade. Mas depois do acontecido no motel, seria perigoso para o senhor continuar ao lado de Rumiko.
─ Eu sei mas...
O ruivo encara os olhos grandes da moça, ali a sua frente e de antebraços enfiados nas mangas do seu hanten, esperando seus motivos. Só que Petruz não tinha motivos. Não tinha planos de sair de Vera Cruz e nem de encarar outra noite como aquela que acabara de sobreviver e que só sobreviveu porque Rumiko estava lá. Ele queria ir com Rumiko unicamente por querer ficar com ela. E Rumiko, por seu lado, realmente adoraria que Petruz continuasse com ela, mas desta vez, movida mais pela preocupação do que por seus desejos infantis, ela não poderia consentir isso, pois sabia que corria risco de vida.
─ Senhor Petruz... olhe as pessoas ao redor.
─ O que?
O ruivo espera por um momento antes de olhar distraidamente para as pessoas caminhando apressadas para todos os lados. Mulheres com crianças de colo ou ainda pequenas, homens com suas esposas, namoradas ou mesmo amigas, vendedores gritando, engraxates oferecendo seus serviços, funcionários de lojas de roupas ou sapatos chamando fregueses e convidando-os para entrarem em seus estabelecimentos. Petruz olhou para cada um deles e Rumiko, como se visse pelos olhos do Ruivo, deduziu que seria o momento de continuar.
─ Atualmente, existem três tipos de realidades nesse mundo. A do senhor, que é essa ao redor, onde pessoas vivem a trabalhar, enamorar, casar, crescer e envelhecer. Seus maiores problemas são as contas, as notas na escola ou as greves dos meios de transporte que os impedem de ir trabalhar ou estudar.
Petruz olhava as pessoas indo e vindo, sem focalizar ninguém em especial, até que sente a mão de Rumiko encostar em seu rosto e o fazer olhar para ela.
─ Existe a realidade de Rumiko – ela diz entristecida – onde todos os seus problemas também se fazem presentes, mas para nós isso é só um pequeno aborrecimento. Pessoas de minha realidade convivem com monstros em pele de humanos, do tipo que pessoas como o senhor jamais gostaria de encontrar. O senhor teve um gostinho do amargo mundo ao qual Rumiko faz parte, não foi?
Também entristecido, ele observa Rumiko, gesticula um sim, então abaixa os olhos e depois a cabeça. A moça coloca o dedo indicador no queixo de Petruz e lhe ergue novamente o rosto. Rumiko força um sorriso aconchegante.
─ E existe um terceiro mundo que até mesmo Rumiko desconhece, que é ainda mais perigoso. É onde Rumiko vai, se tiver sorte, encontrar Oz. Agora diga, não seria melhor viver como essas pessoas ao redor? Não seria melhor esquecer a prévia da vida que o senhor iria ter ao lado de Rumiko?
─ Porque está fazendo isso? Pensei que queria que eu fosse com você.
─ Rumiko quer. Rumiko quer muito.
─ Então porque está me desencorajando?
─ Por que Rumiko também quer que o senhor saiba que é mais seguro ficar. Sempre é mais seguro não se arriscar. Por isso, seria melhor para o senhor se esquecer de que Rumiko existe.
─ E você vai se esquecer de mim também, obviamente.
─ Senhor Petruz, não se preocupe com isso. Mesmo que nos separemos, Rumiko nunca vai esquecer o senhor. O senhor foi a primeira pessoa com quem Rumiko interagiu e caminhou lado à lado, sem a influencia de meu mestre. O senhor não entende o quanto isso é importante para Rumiko, tampouco entende o quanto também é importante que o senhor fique seguro e bem.
─ Eu quero ficar com você. – revela o garoto finalmente.
Nesse momento Rumiko tira o sorriso do rosto e, segundos de silêncio depois, ela questiona:
─ Doushite?
─ Hã? Quer saber o porquê? Bem... eu... – o ruivo pensa rapidamente numa desculpa qualquer e explica – eu quero ficar ao seu lado por enquanto, porque eu nem lhe agradeci ainda.
─ Agradecer Rumiko? Pelo quê, senhor?
─ Por tudo! Você salvou minha vida. Me deixa ficar com você mais um pouco, por favor.
─ Senhor Petruz, Rumiko ainda não sabe quem é que deseja a morte dela por aqui. Se ficar com Rumiko, o senhor pode se envolver. E o senhor fez tanto por Rumiko que...
─ Você pode me proteger? – Petruz atropela as explanações da moça – Do mesmo modo que fez no motel, você pode me proteger?
─ Senhor Petruz, Rumiko não assevera...
Petruz enche os pulmões e grita, olhando para o chão, de olhos e punhos fechados:
─ VOCÊ PODE OU NÃO? Apenas me responda isso!
A mocinha espera o rapaz se acalmar e volta a sorrir, respondendo:
─ Mochiron!(1) Rumiko pode defendê-lo de qualquer inimigo que vier.
─ Então está resolvido. Posso ficar com você? Só mais um pouco?
─ Ee! Rumiko vai ficar muito feliz com sua companhia senhor.
─ Que bom. Eu também.
─ Até onde vai com Rumiko?
─ Vou... – mais um momento de reflexão – Vou até o limite do estado.
─ Oro? Mas estamos no Amazonas, senhor Petruz. É o maior estado de Vera Cruz. O senhor irá caminhar com Rumiko por dias.
─ Tudo bem! – o rapaz faz um sorriso – Quanto mais tempo melhor, não concorda?
─ Sim, mas... – a moça coloca o indicador no lábio inferior – Tem certeza que quer ficar ao lado de Rumiko, mesmo sabendo dos riscos? Mesmo depois do que viu nessa madrugada?
A pergunta era necessária. Depois de ter visto o estado quase catatônico em que Petruz ficou ao presenciá-la em ação, Rumiko precisava saber se o ruivo não estava com medo dela. E para sua alegria, Petruz balança a cabeça afirmativamente.
─ Claro que sim. Não quero correr risco de vida, mas sei que isso vai acontecer de qualquer jeito, quer esteja do seu lado ou não. Ao menos ao seu lado eu acho que posso me fortalecer.
Rumiko faz um olhar afetuoso e se afasta um pouco, se inclinando numa mesura nipônica:
─ Então, por favor, senhor, acompanharia Rumiko por mais alguns dias?
─ Sim! Com muito prazer. A propósito...
O garoto retira o lenço de pano da sacola, embrulhado como um fardo de roupas e entrega para a moça.
─ Se vamos voltar a andar juntos, então é melhor você ficar com o dinheiro.
─ Hai! Grato pela confiança senhor.
─ Que confiança? Esse dinheiro é seu de qualquer jeito.
─ É nosso senhor! – replica a moça colocando as moedas dentro de seu ursinho de pano – Mas antes de se unir à Rumiko novamente, o senhor precisa...
─ Eu sei, eu já sei. Poderemos dormir no frio, passar fome, se perder, essas coisas.
─ Sim mas, não era isso que Rumiko iria dizer.
─ Então?
A moça pega no braço lesado de Petruz, enfaixado com a gaze que ela pôs no dia anterior.
─ O senhor precisa fazer um tratamento mais apropriado nessa ferida.
─ Ahn, claro. Vamos fazer isso agora. Assim poderemos partir o quanto antes. Está com pressa, não está?
─ Uhn! Não precisamos correr, mas seria bom não perdermos tempo com trivialidades.
─ Certo!
Os jovens começam a seguir viagem até que, num dado momento, Petruz pede meio sem jeito:
─ Eu posso... Levar esse seu bastão? Eu gosto de ficar com ele nas mãos.
─ Não é um bastão, senhor Petruz – a mocinha retira sua adorada espada de estimação da bolsa e entrega para o garoto – é um Shikomizue. O nome dela é...
─ Okay, okay...!
Fale com o autor