A Busca

16 A Inspiração de Amaro


Notas iniciais
Um capítulo explicativo.

Em 2.001, quando parou-se finalmente de atribuir qualquer evento violento da natureza ao fatídico Fim do Mundo, a humanidade iniciou uma nova luta contra um novo inimigo, só que desta vez um inimigo invisível.

Um vírus potente e de alta letalidade, que mostrou-se tão terrível e impiedoso quanto os castigos do clima. Recebeu um nome provisório, mas ficou mais conhecido pelo apelido dado pelos cientistas químicos e patologistas como o vírus de uma semana, ou “doença de dez dias”, daí o nome D4, pois seu prazo de letalidade após contaminar um organismo humano é de sete à dez dias. Transmitido pelo ar e altamente contagioso, chegou-se a comentar que a humanidade estava fadada a sumir de vez devido a essa praga. Até que, dois anos depois, foi divulgada uma cura, e os sobreviventes de até então tiveram um motivo para sorrir. Mas não foi um motivo que agradou à todos, porque, por ser uma praga determinada como alienígena, sua cura, na época, era um privilégio reservado apenas para os ricos, pois o único remédio, criado pela união de cientistas alemães e russos, custava uma verdadeira fortuna.

A explicação disso era que os supostos ingredientes usados na preparação da fórmula eram dificilmente encontrados na natureza. Por esse mesmo motivo, sua fórmula foi dada como altamente secreta, para que outras pessoas ou indústrias não criassem uma corrida pelos ingredientes e acabasse de vez com a matéria prima, seja ela qual fosse. E claro que os líderes das nações e grandes empresários de todos os ramos apoiaram essa decisão, afinal, julgando-se por sua posição social, eles tinham o direito de conseguir uma amostra do produto tanto para eles quanto para seus entes queridos e próximos. E os que não tinham esse direito, tinham dinheiro para tal.

Poucos meses depois, porém, outros patologistas, interessados em encontrar uma solução para o resto da humanidade mais carente, ao pesquisarem mais sobre a doença em laboratórios de vários lugares, perceberam uma coisa curiosa; todos os animais, de qualquer que fosse a raça ou tipo, não eram afetados pela praga. Um novo rumor, desta vez de casta religiosa, dizia que a doença era um castigo de Deus aos humanos.

Outros diziam que era a vingança final da mãe natureza, referindo-se ao fato de que não só os animais eram imunes ao vírus, como também ocorria que plantas, árvores, frutos e flores, cresciam de modo mais rápido e se apresentavam tão ou mais belas que antigamente. Lugares destruídos pelo homem e, obviamente, abandonados por eles depois por não haver mais recursos naturais para sugar, agora voltavam à vida em sua totalidade. Em casos mais intensos, chegava-se até a comentar de que novos tipos de plantas e flores estavam sendo criados pela mãe natureza. Também estava comprovado de que esse excêntrico fenômeno de reflorestamento natural só acontecia em lugares onde o vírus D4 mais matava seres humanos. Assim, a essência maléfica do vírus agora não era mais só alienígena, como também divina e natural.

Mas cientistas não podem se dar ao luxo de crer em algo tão improvável e, por isso, em todo o mundo, biólogos e peritos em química orgânica, começaram a fazer os testes mais cruéis com variados tipos de animais, injetando-lhes o vírus alienígena diretamente em suas correntes sanguíneas. E para a surpresa de todos, foi-se constatado que os anticorpos naturais de cada animal, apesar de não atacar e destruir o vírus, também não o permitia que ele evoluísse ou se espalhasse. Ele ficava em um estado que se assemelhava ao de quarentena, só que por um período bem mais curto de tempo. E em cerca de dez ou quinze dias depois, o corpo invasor era tratado pelo organismo como lixo e então encaminhado para ser eliminado, seja pela urina, fezes e até mesmo saliva, dependendo do tipo de animal. Com essa descoberta sendo elevada à máxima importância nas mídias jornalísticas, os patologistas mais importantes dos EUA e Afeganistão, novamente se uniram e decidiram se basear nos anticorpos animais para tentar criar uma possível fórmula de cura.

Assim, foram pesquisados, fabricados e postos à venda, medicamentos alternativos que, por serem mais baratos, eram mais acessíveis ao resto do povo. Esse remédio, que existe até hoje já que pode ser feito de qualquer criatura viva, desde que não seja humana, e que também não é preciso matar o animal para ser fabricado e, desse modo, não foi proibido de ser produzido, surte o mesmo efeito do original russo, porém, com dois graves defeitos. Sua eficácia funciona de modo efêmero e, portanto, deve ser tomado regularmente. Além disso, por ser feito de dna de animais, pode causar algumas contra indicações nada agradáveis, como náuseas, febre e, em casos mais graves, cegueiras ou paralisias musculares. Isso deixava os consumidores com um pé atrás em relação ao medicamento. Era um tiro no escuro saber se o remédio faria mais mal do que bem. Nisso, a droga não foi totalmente aceita, resumindo-se apenas aos mais humildes e miseráveis, que não tinham condições de manter suas vidas seguindo os protocolos de prevenção. Já o povo de classe média tinha como se virar, mas também não poderia viver com medo da contaminação para sempre e precisava de outra solução.

Foi exatamente nessa época, em contraste com a corrida contra o D4, que muitas casas de adoção foram construídas unicamente para receber e cuidar de inúmeras crianças, aquelas consideradas mais vitimadas pelo fim do mundo, e que agora moravam nas ruas por terem perdidos seus pais e familiares. Uma das casas mais famosas, que hoje não se pode dizer que é uma fama boa, foi o Orfanato Saint Exupery, fundado e erguido pelos esforços do ex-prefeito da cidade de Saltos, o homem chamado Rudolf.

O nome do Orfanato era uma homenagem à um autor famoso, do qual Rudolf gostava muito, e que escrevia livros infantis. Nesse campo, ele achou que o nome seria apropriado. A fama do local, logo de início, veio por ser uma obra inteiramente em nome de Rudolf, que investiu boa parte de sua fortuna na ideia, mostrando todo seu altruísmo e compaixão para os mais desafortunados com os castigos climáticos. E essa sua enorme bondade deixou seu nome registrado, para posteriormente ser citado como um dos favoritos no futuro plano dos Honoráveis, a criação de um Líder Supremo.

E durante quase dois anos, essa enorme casa acolheu centenas de crianças de vários bairros, tanto da cidade de Saltos quanto de cidades vizinhas. Havia dias em que, estatisticamente, pelo menos uma criança chegava a cada três horas, trazidas por enfermeiras especiais da casa, contratadas pessoalmente pelos homens de confiança do prefeito.

Só que aí surgiu uma pequena suspeição: A fama da casa só crescia. O número de crianças registradas aumentava infinitamente, mas o orfanato, mesmo sendo o maior de Vera Cruz e um dos maiores do mundo, não chegava nunca à um estado de lotação limite. E isso, por qualquer ponto de vista que se olhasse, positivo ou negativo, era estranho.

Uma reportagem dirigida por um famoso canal de TV foi feita no intuito de engrandecer ainda mais o orfanato e entender como ela funcionava de fato. Aí se foi descoberto que a casa, tanto quanto recebia, também enviava crianças para outras famílias, das quais a política da casa impedia de dar informações a respeito, e também para outras casas ou orfanatos, em que seus hóspedes, crianças e adolescentes, se sentissem mais à vontade. Essas outras casas também eram mantidas em segredo pela política do Orfanato Saint Exupery. Segundo o que diziam, era para proteger e manter o bem estar da criança.

Essas informações, obviamente, chegaram aos ouvidos da imprensa, que dali partiu para o conhecimento da polícia. E depois de algumas semanas de investigações, a polícia chegou à conclusão de que ninguém saía do orfanato, embora pessoas ainda continuassem entrando e sumindo.

A lei brasileira, como sempre acontece nos casos onde alguém da política está envolvido, demorou muito para agir e investigar o orfanato mais a fundo. Até que chegou, desta vez aos ouvidos do delegado da cidade local, uma denuncia anônima de que o orfanato Saint Exupery estava usando crianças como cobaias num experimento médico tenebroso. Sem provas e sem o apoio das autoridades mais elevadas, que mantinham vínculos com o prefeito, o delegado não poderia fazer nada, então encaminhou a denúncia para alguém mais competente. E uma famosa corporação de defesa entrou no caso, liberando documentos que assumiam sua total responsabilidade e que permitiam a polícia local de agir. Foi só aí que uma força tarefa invadiu o local de surpresa, embora que um mandato de busca e apreensão já tivesse sido expedito, e após revirar o local de cima à baixo, foi descoberta e desmantelada uma quadrilha de médicos, enfermeiras e ajudantes gerais, que atuava clandestinamente nos porões do enorme orfanato.

Uma verdadeira ala médica, com instrumentos e maquinário pesado e até mesmo uma sala de produtividade química, funcionava a todo vapor nas partes mais profundas da casa. Corpos de crianças e adolescentes eram usados como hospedeiros do vírus D4, no intuito de combater os sintomas conforme eles fossem aparecendo, e assim descobrir uma outra cura, alternativa à dos russos, igualmente boa e sem efeitos colaterais, que seria vendida à um preço mais justo para pessoas mais humildes.

Valendo-se de todo o tipo de medicamentos e procedimentos, eles trancavam semanalmente de três à quatro vítimas de vez numa cela de vidro, e lá ficavam enquanto durasse o tratamento. Essa sonhada cura, porém, nunca foi descoberta ou desenvolvida. E nisso, dezenas de crianças foram sacrificadas em vão.

Outra coisa que igualmente assombrou os policiais foi que, às portas da nefasta ala médica, uma placa de madeira, acima da única entrada dizia: “Inspiração de Amaro”. Descobriu-se depois que tal nome era uma referência ao livro “O Crime do Padre Amaro”, escrito por Eça de Queiroz. Outro autor do qual Rudolf gostava muito. Tanto que esse livro em questão já havia até sido citado em suas palestras, de modo à tentar impressionar seus eleitores demonstrando seu interesse pela cultura.

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Pereira, que acompanhava o texto na tela de um computador da sala reservada ao descanso e entretenimento dos clientes e funcionários do hospital, interrompe a leitura por um momento e puxa da memória a palavra “Amaro”. E se recorda de ter ouvido a moça que o atacou no dia anterior usar essa palavra exatamente nessa sentença; Inspiração de Amaro.

Mais uns vinte minutos de navegação, leituras e pesquisas, ele minimiza a tela do computador e esfrega os olhos. O dia já estava clareando e ele estava acordado desde as quatro da madrugada, simplesmente porque não conseguia dormir. E não conseguia dormir porque não aguentava esperar até o dia amanhecer para poder usar um computador. Mas o maior motivo de ele ter tirado os olhos da tela era porque ele havia chegado num ponto onde o endereço web que pesquisava, lhe dava um link para o mais visitado website criminal do mundo: o da DeWars, a corporação de Lei e Ordem mais poderosa e importante do planeta.

O endereço Web da DeWars era visitado por muitos jornalistas, repórteres, fofoqueiros e pessoas que simplesmente queriam saber das coisas, porque seus escritores e editores não tinham rabo preso com ninguém. Portanto, não tinham medo de acusar, incriminar ou denunciar as pessoas responsáveis pelo delito em questão, fossem essas pessoas importantes ou não.

Havia várias fotografias de crianças e pré-adolescentes no endereço eletrônico criminalista da DeWars, que foram vítimas da sala “inspiração de amaro”. Ele se recorda que sua única prima morreu no evento do Fim do Mundo e o filho dela, na época com 4 anos, não tinha aonde ficar. Ele não estava com tempo ou desejo de ficar com o garoto na época, mas, como tinha uma certa proximidade com o dono do orfanato, no caso o seu patrão, ele conseguiu fazer com que o garoto fosse rapidamente aceito na casa de adoção.

Pereira fez questão de conhecer o lugar antes de deixar seu sobrinho lá. E gostou muito do que viu porque, aparentemente, as crianças eram muito bem tratadas, o lugar era limpo e bonito e tinha à vista de qualquer visita as qualidades que colocaram o lugar como uma das melhores casas de adoções do mundo.

Após isso, porém, ele nunca mais visitou o menino, mas tinha planos de tirar ele dali algum dia, quando se acertasse na vida. Ficou sabendo, meses depois, que o garoto havia sido adotado por uma família de estrangeiros, a qual a instituição, honrando a política da casa, se recusava a falar. E agora, diante daquele montante de fotos, Pereira ficou com medo de acabar se esbarrando num rosto que lembrasse o garoto, que era o primeiro e, por enquanto único, membro de sua já pequena família, que ainda estava na fase da infância.

Ele maximiza a janela novamente, somente para fechá-la. Não estava pronto para ler aquilo. Não por enquanto. Então ele se põe a pensar, e puxa da memória mais fragmentos da conversa que ouvira entre seu patrão, o prefeito Rudolf, e seu executor, a “mocinha de trança”. Sabia que tinha mais uma coisa para pesquisar, mas não lembrava exatamente o quê.

Súbito, lhe vem à cabeça as palavras “Tecedeira de anjos”.

─ É isso! – ele estala os dedos.

Pereira recordava-se que Rudolf ficou atordoado e assombrado quando a mocinha pronunciou tais palavras. Tão atordoado, que Rudolf praticamente confessou seu envolvimento, mesmo que indiretamente, com pedidos de desculpas e perdão.

Pereira não sabia o que era uma tecedeira de anjos. Nunca tinha ouvido falar naquelas palavras, mas após uma pesquisa na internet, ele, assim como Rudolf, também ficou assustado ao descobrir. O homem cobre a boca com a mão esquerda enquanto lia os casos ocorridos inúmeros anos atrás, em épocas quase medievais. Ele descobre que era difícil imaginar que as pílulas anticoncepcionais de hoje em dia substituíram o aborto. E que este, por sua vez, substituiu as tais tecedeiras de anjos, que eram, num resumo, enfermeiras de idade ou mesmo moças, treinadas para matar o recém-nascido assim que viesse ao mundo.

─ Que horror! – exclama Pereira, fechando a página que falava sobre o tema.

Não queria mais saber daquilo. Não queria ler mais exemplos passados nem casos recentes. Ele simplesmente esquece o que acabara de ler e vai para um website que guardava cópias antigas de vários jornais impressos de Vera Cruz, chamado Tribuna Livre. Por mais que os websites informativos fossem escritos por pessoas estudadas ou mesmo professores, Pereira era um homem das antigas e só confiava em jornais impressos, porque sabia que escrever besteiras na internet e corrigi-las depois era muito fácil. Então considerava o jornalismo impresso mais sério e profissional. Era chegada a hora de saber o que fazer e, para ter sua decisão final, ele precisava saber o que, num resumo geral entre todos os veículos jornalísticos da época, se foi dito a respeito desse caso nefasto.

Pereira pegou todos os jornais que mais deram importância para o caso, fez o comando para o navegador transformar tudo em arquivos de texto comum, depois deu os comandos para chavear e procurar as palavras “Tecedeiras”, “anjos”, “assassinato de crianças” e “enfermeiras”. Depois filtrou todos os tópicos que satisfaziam sua pesquisa, separou-as num documento à parte e começou a ler rapidamente. Os jornais abordavam o assunto de formas variadas, mas o resultado final era sempre o mesmo; Havia um total de três mulheres, que trabalhavam como “assassinas de fetos”, mas que, até pouco antes da casa ser descoberta, fechada e derrubada, essas mulheres não haviam sido encontradas. Os jornais mais recentes, que relembravam o tema eram datados de 2008, e ainda mantinham a mesma resposta sobre o paradeiro dessas mulheres; desaparecidas.

─ Será que ela...? – Pereira tem uma visão da moça que matou o prefeito, encontrando e dando à essas mulheres um fim parecido.

Ele sinceramente gostaria e muito que isso tivesse acontecido, mas, mesmo assim, precisaria descobrir para fazer seu coração acalmar a fúria pelo qual estava tomado agora. Então volta a concentrar-se em sua leitura, para ver se não perdeu nada de vista, e nota algo curioso. Um nome. Um que ele já ouviu antes.

A pessoa em questão era a responsável por ter conseguido e enviado à polícia, uma permissão de invasão ao Orfanato Saint Exupery. Também era responsável pela última matéria sobre o caso Inspiração de Amaro. Além de ser o autor e fornecedor das matérias utilizadas na reportagem feita em 2.008. Era por sua causa que o fato era constantemente relembrado. Essa pessoa era um detetive. O nome era Vargas.

─ Que mundo pequeno... – profere Pereira.

A matéria deixava claro que seu responsável, o detetive Vargas, não descansaria enquanto não finalizasse aquele caso. E isso só significava uma coisa. Que as tais Tecedeiras de Anjos ainda estavam à solta e, se duvidar, ainda na ativa.

Não havia chegado nem ao fim das informações separadas, quando encontrou algo que o deixou irritado. Por ser um homem que não tolerava os maus tratos com crianças e idosos, Pereira não passou na academia de polícia de sua cidade porque demonstrava um ódio muito intenso e comportamento imprevisível em casos que envolviam esse tipo de crime. Por esse motivo, teve de se contentar em ser um segurança. E agora ele lia que as tais Tecedeiras de anjos tiveram a sorte de escapar, mas não durante a invasão da polícia. Elas escaparam, porque poucos dias antes, aceitaram uma proposta melhor de salário para fazer, em outro lugar, exatamente o que faziam no Orfanato.

─ Malditas! – Pereira morde os lábios de raiva – Não perdem por esperar.

Em seguida, ele fecha o documento, que pede um nome para ser salvo. Ele escreve “Rudolf – parte1” e volta para os variados jornais que estavam abertos na página da tribuna livre.

Uma outra pesquisa com as palavras “Rudolf”e “culpado”, e Pereira tem as mesmas respostas em todos os jornais; “O maior culpado” – “O único responsável” – “O maior suspeito”... todas as acusações apontavam para Rudolf como o cabeça da quadrilha. E o resultado da investigação também dava as mesmas e injustas respostas, a de que o homem só escapou por causa de seu currículo político, que lhe dava o direito de negar e, negando, ele se inocentava de qualquer acusação que não tivesse provas contra ele, mesmo com a maioria das pessoas que foram presas confessando ou entregando-o.

Rudolf talvez não tivesse participado em nenhuma das experiências e talvez não recebesse nenhuma notícia do total de fracassos ou acertos do grupo de médicos que atuavam em seu nome, mas a julgar pelo tamanho do laboratório que foi construído abaixo do orfanato, era impossível que ele realmente não soubesse de nada. O próprio website da DeWars era taxativo: “Rudolf é o culpado e disso, nós da DeWars não temos nenhuma dúvida. E assim que obtivermos uma prova ele será, não só preso, como destruído”. Pereira não sabia o que o termo “destruído” queria dizer, mas imaginava que se referia à carreira política de Rudolf, já que ele atuava em nome de Vera Cruz e nesse país, todos os políticos corruptos que foram presos ou denunciados, continuaram atuando na carreira política assim que foram soltos. E enquanto uma prova não surgia, Rudolf continuava com sua carreira, negando e, portanto se safando de qualquer acusação.

─ Mas diante de seu algoz você confessou, não é safado?

Pereira copia todos os parágrafos que falavam do assunto de seu interesse, abre o documento anterior; Rudolf – parte1, e salva as novas informações em formato de arquivos de texto neste mesmo documento. Depois, sem nem ele mesmo saber o porquê, os envia para o correio eletrônico do soldado que teve o braço decepado e que, assim como ele e alguns outros conhecidos que trabalhavam para Rudolf, também tinham um parente ou conhecido no temível Orfanato do prefeito.

Pereira volta para a única página que continha as fotos das crianças desaparecidas e dadas como mortas. E recomeça a vê-las, devagar, uma a uma, nome por nome, página por página. Precisava ter certeza de que seu medo era justificável ou não. Não poderia viver o resto da vida na dúvida.

Não precisou de mais de dez minutos para chegar à terceira página e ver o rosto que lhe trouxe lágrimas aos olhos. O rosto de um garotinho, com um largo e lindo sorriso na face. Pereira clica em “mais informações”, para ver o nome, data em que chegou ao local, e a data da suposta “adoção”, e vê que o nome da criança também batia com o nome que ele tinha na lembrança, o qual tanto rezava para não ver listado ali. Não tinha mais como fugir. Não tinha mais como negar. Não tinha mais como voltar atrás.

Pereira tapa os olhos com as duas mãos e respira fundo, segurando-se para não chorar. De tristeza e de raiva. Era duro descobrir só agora que trabalhou durante anos para Rudolf. Só agora descobriu que pôs sua vida em risco para salvar um monstro que devorou seu sobrinho.

Há um minuto atrás ele ainda estava na dúvida do que queria fazer, mas agora já tinha uma opinião formada. É nesse momento que uma mão pousa em seu ombro, suavemente.

─ Tudo bem senhor? – pergunta uma enfermeira que passava ali por acaso.

─ Sim... – o homem olha de lado, tentando esconder os olhos vermelhos e vê, ao lado do teclado, seu telefone celular.

─ Tudo bem mesmo? – a moça insiste.

Pereira pega o aparelho e esfrega os olhos antes de completar:

─ Tudo bem, enfermeira. Obrigado!