A Busca

37 O Biênio de Eva


Os vinte soldados de Lomar não só compactuavam com os crimes de seu senhor, como também participaram ativamente de cada ato criminoso do homem. Não formavam o grupo pessoal e preferido de Lomar por outro motivo se não esse. Por isso, mesmo sem conhecê-los, Rumiko nutria um rancor pessoal por cada um deles. Ainda assim, ela tentou fugir do estacionamento sem ser notada, valendo-se das mesmas sombras que a ajudaram a entrar. Se conseguisse, os homens sairiam ilesos de seus crimes, mas seu chefe pagando pelos seus atos já estava de bom tamanho.

Após uma curva feita ainda pelos cantos das paredes, a moça já pode ver o portão de saída alguns metros à frente. Entretanto, notou também a movimentação e aproximação de sombras e ouviu conversas à distância, que logo ficariam entre ela e o portão. Para piorar, seu dom congênito lhe chama a atenção para outra coisa, fazendo com que ela diminuísse seu ritmo até parar. Um segundo depois, a maçaneta da porta de um trailer velho de cor marrom pouco à frente faz um barulho, indicando que logo iria ser aberta por dentro.

Sem tempo ou paciência para pensar em outra coisa, Rumiko se posicionou e esperou tranquilamente, com as duas mãos nas costas, escondendo o estimado sabre de Lomar e a confissão do embaixador enrolada em canudo. Assim que os soldados a viram, eles se assustam com a presença da moça se aproximam cautelosa e ameaçadoramente. Rumiko os espera, estática e sorridente, até que todos os soldados se encontrem e se reagrupem, formando assim oito adversários.

─ Quem está aí? – Diz um dos soldados em inglês.

Rumiko inclina a cabeça de lado, mostrando não entender o idioma. Dos soldados que estavam atrás, um deles reparou isso e, em bom português, ordena:

─ Essa é uma área restrita, moça. Identifique-se!

─ Espere um pouco, amigo – ordena outro mais a frente – é só uma menina. Deixe comigo.

O soldado dianteiro se aproxima de Rumiko com um florete inglês na mão, ficando bem próximo da menina e perguntando com um rosto severo.

─ Quem é você e o que quer aqui?

─ O nome é Rumiko. E o desejo de Rumiko era matar o embaixador da Nova Inglaterra, Lomar “Arumu-alguma-coisa”, por seus atos realizados aqui em Vera Cruz. Os senhores são cúmplices e, como tal, também merecem ser castigados. Mas isso não é problema de Rumiko, então, se afastem, por favor.

Abismado, o soldado aperta seu florete na mão direita e coloca sua mão esquerda no queixo. Não fazia ideia do que aquela mocinha estava falando, mas com certeza não eram coisas que qualquer um poderia sair falando por aí. Ele mantém a calma e tenta ganhar mais algum tempo, até decidir o que fazer.

─ Entendi. Se é assim, perdeu seu tempo. Nós não vamos deixa-la passar, portanto, não poderá matar o embaixador.

─ Oh, não se preocupe quanto à isso, senhor – Rumiko ergue a mão e mostra-lhe a confissão de Lomar – O embaixador Lomar já está morto. E como vê, antes de morrer ele se arrependeu.

─ O... O quê?

A moça fecha os olhos num sorriso juvenil e simplório enquanto o homem lia por alto as palavras do papel exibido por ela. Qualquer um poderia ter escrito aquelas bobagens, não fosse por detalhes importantes como a folha de impressão oficial do embaixador, a assinatura de Lomar, autenticando as palavras e o pior, um endereço, até então considerado secreto por todos ali. Embora não citasse o nome de nenhum dos soldados, aquele documento seria comprometedor para a relação deles com o futuro embaixador, acaso Lomar realmente estivesse morto, e também seria vergonhoso para seu país e seu rei.

Sem mais dúvidas, o homem subitamente move seu braço direito com velocidade e tenta acertar o pulso de Rumiko. O intento era usar o florete para cortar no braço da moça, tomar-lhe e rasgar o papel. Porém, no mesmo instante, Rumiko puxa o braço, gira o corpo e, num mesmo movimento, trás o sabre à sua frente, desembainha a folha de aço e acerta mortalmente seu inimigo, que cai lentamente e permanece imóvel.

─ Opa! – exclama a moça, pegando a folha que deixou cair no chão – Desculpe Rumiko por isso!

Desta vez ela dobra o papel em duas partes e o guarda num bolso interno de seu hanten. Em seguida, se afasta um pouco mais e torna a se posicionar. Os sete homens não se assustaram com a cena, mas foi só ver o sabre de Lomar nas mãos da moça que eles perceberam, não só o perigo em que se encontravam, como também a veracidade das palavras ditas por aquela menina, que agora se desculpava:

─ Senhores. Desculpem por isso. Ainda há tempo de desistirem. Só precisam permitir que Rumiko vá emb...

Um dos soldados que estava com uma baioneta nas mãos, responde Rumiko com o agressivo gesto de lhe apontar a arma. Rumiko se cala, ergue a espada de lado, segurando-a pela bainha e pouco acima da empunhadura. E prepara-se para correr. Outro dos homens diz algo em inglês e aquele que lhe apontava a baioneta, executa um disparo. Absurdamente, a moça se joga de lado e corre em direção dos homens, cortando o primeiro que alcança e enfiando-se no meio dos outros. Um confronto de apenas alguns segundos sucede e logo jazem, no chão, os oito soldados ingleses.

O erro foi que, ao se juntarem para se proteger, não viram espaço para lutar quando Rumiko, de modo desenfreado, se atracou no meio deles. Assim, a velocidade, força, flexibilidade e preparo físico foram vitais para a vitória daquela menina, de estatura mais baixa que o mais baixo dos homens ali.

Rumiko sabia que, pelo fato de um dos guardas terem disparado, os outros soldados devem provavelmente ter ouvido o tiro e logo estariam ali, por isso ela não podia perder tempo. Embainhou a sabre suja de sangue e correu em direção da saída. Chegou rápido aos portões e se agarrou às suas barras, mas não teve tempo de escalar as suas grades para fugir. Em menos de cinco segundos, os soldados restantes alcançam o portão e a encontram na metade do caminho de sua escalada. Sem pensar em mais nada, eles partem até ela com suas espadas em punho, enquanto outros dois preparavam os disparos de suas baionetas.

Rumiko era bem rápida e poderia fugir dos soldados sem ter de lutar, mas não poderia escapar dos soldados com baionetas nas mãos e em posição de tiro. Então ela larga as barras do portão e usa a força de suas pernas para se jogar e cair o mais distante possível. Em seguida corre em direção do grupo.

Novamente, um dos atiradores grita para ela parar. Mas ao invés disso, a mocinha acelera ainda mais e solta um grito de ataque. No pânico, os espadachins abrem um espaço e Rumiko, sem olhar ou se importar com eles, passa no meio. Ficou claro que a estratégia de Rumiko era, primeiramente, eliminar os inimigos com maior alcance de ataque, no caso, os atiradores. Eles levavam mais tempo para se armar, porém poderiam acertar seu inimigo à distância e com um único golpe fatal.

Um dos soldados atira em Rumiko e, no momento do disparo, valendo-se da escuridão e das sucatas, a moça desaparece como mágica diante dos olhos dos homens que a miravam com suas baionetas. Outro soldado que estava em postura de tiro olha para cima e vê Rumiko caindo em sua direção e em agressiva posição de ataque, com sua espada já desembainhada em punho. E essa, foi a última cena ele que viu em sua vida.

O primeiro soldado que executou o disparo, vira sua arma para Rumiko, já rente à ele e, no instante seguinte, vê seu braço ser decepado e ir ao chão ainda segurando firmemente a baioneta. Ele olha para a moça assustado e, antes que pudesse gritar, um outro golpe, rápido como o vento, ceifa lhe a vida.

Lentamente, Rumiko direciona seus olhos grandes para os 10 soldados restantes, todos portando espadas francesas, e vê que eles sequer demonstravam que iriam fugir. Visivelmente entristecida, ela lhes pergunta:

─ Os senhores... querem continuar?

Um deles grita algumas palavras em inglês. Pelo agressivo tom usado na voz, Rumiko viu que não precisava conhecer o idioma para imaginar que eles não iriam desistir. A mocinha sorri simpaticamente para os rostos duros e malvados dos ingleses e toma posição. Os homens novamente gritam alta e furiosamente, então correm em direção de Rumiko, todos ao mesmo tempo, rangendo os dentes e de espadas em riste.

Minutos depois, bem longe dali, Petruz, que ainda esperava sua parceira numa praça próxima da estação de trem, sorriu aliviado quando viu Rumiko a aproximar-se calmamente, sem muita pressa de fugir. Não estava armada. Achou por bem se livrar da sabre do embaixador no caminho. Petruz joga sua mochila nas costas, pega a de Rumiko com os dois braços e caminha até a moça alegremente. Seu rosto de felicidade logo se apaga quando vê Rumiko de perto. Estava cabisbaixa, com uma face meio entristecida, e tinha manchas de sangue em algumas partes da blusa e da calça.

Petruz larga as duas mochilas, corre até ela e olha bem para suas roupas, procurando algum corte ou coisa parecida.

─ E aí, conseguiu?

Rumiko esforça-se para mostrar um sorriso despreocupado e responde com a voz quase falhando:

─ Hai! Tudo terminado, senhor Petruz.

─ Isso... é sangue, não é? Você está ferida?

─ Dame! – a moça pega na gola de seu keikogi e o estica com a ponta dos dedos – Esse sangue não é de Rumiko.

─ Que bom. Eu estava preocupado.

─ Preocupado? Por que, o que aconteceu?

─ Não! Eu fiquei preocupado com você, oras.

─ Com Rumiko?

─ Claro! Com quem mais?

─ O senhor ficou preocupado com Rumiko por quê?

─ Porque... porque... Ah, deixa pra lá.

Petruz volta alguns passos, pega as mochilas e entrega a de Rumiko em mãos.

─ Arigato!

─ Vamos procurar um hotel? Ou é perigoso ficar por aqui?

Rumiko balança a cabeça negativamentee sugere a primeira alternativa fornecida por Petruz. Então ambos começam a caminhar pelo local, procurando um lugar onde pudessem passar a noite.

Não demora muito e Petruz vê uma estranha área, parecida com um sítio, cercado por um muro baixo feito de pedras e muitas cabanas de madeira e tijolos por dentro, com placas de plástico informando que há vagas.

─ Acho que aqui é um bom lugar não é?

─ Sim. Esse lugar está ótimo!

─ Tem certeza? Não quero que pense que estou escolhendo qualquer lugar só pra sair da noite.

─ Oh, não, senhor. Este lugar é perfeito, já que temos de passar a noite perto da área onde fica a embaixada inglesa.

─ Hein? Por quê?

─ Porque assim saberemos o resultado de nosso trabalho logo pela manhã.

─ Acho que não entendi, Rumiko.

─ Vai entender amanhã, senhor Petruz. Venha, vamos ver se tem algum lugar vazio por aqui.

No interior do estacionamento de trailers, tudo o que se encontrava no momento era sangue por toda uma trilha e os corpos de 20 soldados britânicos. E dentro de um trailer luxuoso, o cadáver de um grande e nobre inglês, chefe do conselho político de Londres e um dos homens mais importantes da Inglaterra. Num dado momento, os portões são arrombados. Caminhonetes do exército entram com seus faróis altos e homens pulam da carroceria, espalhando-se pelo local com rifles em punho. A cena lembrava muito uma operação do exército em tempos de guerra.

Eles se espalham, vasculham o local agilmente e, logo, um deles grita que encontrou um sobrevivente. Outros soldados ajudam a colocar o ferido na caminhonete e o levam dali, em direção ao hospital mais próximo. Dentro da caminhonete, durante o transporte, ele foi previamente interrogado, para dar detalhes do que acontceu. Mas tudo o que ele conseguia balbuciar era uma palavra sem sentido. Parecia um nome. O nome “Rumiko”.

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Karras aproveitou os poucos minutos que ficou sozinho na sala de Seimei para olhar ao redor com mais atenção, mas não encontrou o que procurava; uma televisão, câmera ou qualquer outro aparelho que pudesse estar transmitindo imagens do salão de orações. Mesmo assim, o padre ainda se recusava a acreditar que aquele homem era mesmo Abe no Seimei, personagem do período Heian do Japão, que viveu no entremeio dos anos 900 e 1000 e que tinha, dentre outros poderes, o dom da adivinhação.

Quando o “suposto” Seimei voltou, trazia entre os dedos duas garrafas de água mineral, uma mesinha de pernas retráteis embaixo do braço, e uma sacola na outra mão, com uma garrafa de vinho de um litro e copos de vidro. Informou que, apesar do padre ter dito que não queria vinho, ele não achou que um gole ou dois lhe faria mal. Karras suspirou num sorriso, agradeceu a hospitalidade e foi ajuda-lo na descida. E durante a degustação do vinho, delicioso por sinal, Seimei avisa que, se acaso lhe abrisse o apetite, poderia pedir que preparasse também um banquete.

─ Então, senhor João “John” Karras... Qual o seu plano? E vá do início, por favor. Quero saber o que descobriu, o que o motivou a trair seu novo suserano e o que pretende fazer para sair ileso dessa. Porque o senhor há de convir, será caçado por aqueles que te respeitavam.

O padre toma um derradeiro gole de vinho, pega uma pasta de documentos em sua maleta e acomoda-se melhor no macio tapete.

─ O senhor não tem motivos para acreditar no que vou dizer, então vou mostrar provas do que descobri, do que coletei e contar o que vi e ouvi ao longo dos últimos meses, antes da queda de meu suserano.

Os papéis que Karras trouxe foram lidos rapidamente por Seimei sem a devida atenção, que se interessava mais com o que Karras narrava durante sua leitura, talvez para dar mais fidelidade ao que ali estava escrito. Para Seimei, entretanto, eram só papéis e não serviam como prova, já que qualquer pessoa mal intencionada poderia escrevê-los para prejudicar uma possível investigação sobre o futuro do Gen-Bu. Afinal, Gengetsu era amado por muitos, e qualquer pessoa assim também é, inevitavelmente, odiada por tantos outros.

Seimei tomou o último gole de seu último copo de vinho e ergueu a cabeça, respirando profundamente e de modo satisfatório antes de pronunciar:

─ Tirando toda essa verborragia e indo direto ao ponto, você quer trazer Rumiko de volta ao Japão e quer que eu te ajude nisso.

─ Sim... num supra resumo é isso mesmo.

─ Eu só não entendi uma coisa... Por que quer trazê-la de volta? Apesar dos infortúnios, o passado é passado. E na presente situação, o Gen-Bu está em boas mãos, Rumiko está perseguindo um sonho. E Gengetsu está descansando em paz. Se trouxer Egao de volta ao Gen-Bu antes que ela realize o que seu coração lhe impele, isto pode balançar esses três seguimentos do destino.

─ Bem... Mozu nos deixou. Nezuo pode até ser um grande líder, mas está sozinho à frente de um império que era conduzido por um chefe, dois subcomandantes e uma auxiliar, que era Rumiko. O senhor Nezuo não sabe ainda, mas ele precisa de Rumiko.

─ Essa é a aprte de Nezuo. E quanto à interromper o sonho de Rumiko?

─ Bem, eu achei que tinha deixado claro que a presença de Rumiko é fundamental para o andamento do dojo.

─ Não. Você não citou nada que me fizesse pensar por esse prisma. Além do mais, segundo o que me consta, Egao tem o prazo de um ano para encontrar Oz. Então, ano que vem, provavelmente nessa mesma época, ela já deve estar de volta.

─ É, mas... Em um ano muita coisa pode acontecer.

─ Com Rumiko ou com o dojo?

─ Com ambos. Entenda, Rumiko é só uma criança. E eu não estou pedindo que dê uma bronca ou uma surra nela quando a encontrar. Só acho que, se ela vir dois de seus conhecidos, pedindo para que volte, talvez desista dessa bobagem de... de... enfim, dessa blasfêmia.

─ Ressuscitar os mortos? – Seimei sorri de modo sinistro.

─ Senhor Seimei... Não somos obrigados a nos amar como irmãos nem aceitar a religião um do outro como certa. Mas não podemos acreditar nessa bobagem porque nós dois sabemos que isso é impossível.

─ E em mim, senhor João “John” Karras? O senhor acredita em mim? Na minha existência?

─ Não compreendi.

─ O senhor estudou sobre minha pessoa, não foi? Provavelmente deve estar achando que eu sou louco por insinuar ser Abe no Seimei.

O padre não responde de imediato. Ele realmente leu tudo o que pode encontrar sobre um dos mais famosos onmyōji do Japão. Karras não sabia o que exatamente era ou fazia um onmyōji e, como sua religião lhe induzia, ele não deveria se misturar com bruxos, feiticeiros, ou qualquer outro tipo de homem que mexesse com magia. E depois de ter lido todas as lendas que acercavam aquele homem, essa era exatamente a visão que Karras tinha de Seimei: um bruxo.

Karras muda a posição das pernas, incomodado com as câimbras que iam e vinham a cada vez que mudava de lado. Levanta-se, espreguiça-se e põe as mãos no ombro, girando o pescoço. Seimei o observava, como uma estátua sentada de um Buda sorridente.

─ Tem razão, senhor Seimei – revela o padre – Eu estudei sobre o senhor antes de vir para cá. Queria estar preparado.

─ Eu já sabia. E o que descobriu sobre mim?

─ Não foi nada de muito pessoal, se é o que está pensando. Eu estava mais interessado no período em que você nasceu e em que tipo de pessoa você foi. Ou ao menos, como você era visto pelos seus fiéis e seguidores.

─ E então?

─ Seimei foi um homem interessante, com passagens em sua vida que dariam uma boa história. Mas no fundo era um homem comum, diferenciado por ter uma boa lábia.

─ Com uma boa lábia – Seimei cruza os braços – Está me chamando de enganador de pessoas?

─ Estou dizendo que as pessoas foram levadas a depositar sua fé num homem comum, como se ele fosse um deus andando sobre a terra. E só um homem andou por essa terra com esses requisitos. O verdadeiro e único filho de Deus. O senhor Seimei, o qual você insiste em dizer que é, pelo que entendi, não chegou sequer a ser considerado como santo.

O homem de branco ri, balançando a cabeça. Percebia que Karras era um homem culto, humilde e educado, mas devido sua crença numa religião cujo principal defeito era prejulgar a religião dos outros, ele não conseguia evitar falar sobre assuntos como fé e devoção sem por um peso de desaprovação em suas palavras. Entretanto, Seimei gostava disso. O jeito como o padre e, em geral, todos os devotos em um deus vindo de Israel, não espiavam o que acontecia ao redor. Não se interessavam por fatos importantes, ocorridos fora das cortinas do hoje chamado cristianismo. Apenas agarravam tudo de bom que ela oferecia e fingiam que tudo de ruim que ela fez e faz nunca existiu.

─ Me diga por que você quer que Rumiko desista de seu sonho, senhor João “John” Karras.

A velha pergunta de novo. Era só isso que Seimei queria ouvir. A resposta certa para essa pergunta. Resposta que Karras ainda não sabia como dar, sem ter de revelar seu verdadeiro intento, seu verdadeiro temor.

─ Porque é um sonho absurdo – ele responde irado – Além de ser uma ofensa à Deus.

─ Viu só? Essa é uma resposta que sua fé lhe induz. Quero a resposta certa. A resposta do homem. A resposta de seu coração.

─ Os... Os assuntos que me movem à deter Rumiko são pessoais e podem soar ao senhor como egoístas e infantis. Posso até lhe dizer, mas também quero saber quem é o senhor, já que não acredito que seja o mesmo Abe no Seimei das lendas do Japão.

Seimei sorri, mostrando os dentes envelhecidos.

─ Sinceridade... Agora sim, estamos falando a mesma língua.

─ Estou sendo sincero desde o início.

─ Humm... O senhor sabe quem é aquela deusa no fim da escadaria, senhor João “John” Karras?

Karras solta um suspiro, sentando-se pesadamente no chão, já prevendo o início de outra conversa sem sentido, e responde desanimado.

─ De acordo com Rumiko, ela é Benten Sama. Uma deusa da sorte, não é?

─ Benzaiten-Sama – corrige Seimei – Benten é um outro nome que, embora seja válido, é errôneo. E é mais usado em forma de carinho e proximidade para com a deusa.

─ Carinho e aproximação... é bem a cara de Rumiko, já que ela a adora.

─ Não sei se adoração é a palavra certa, mas eu também gosto dessa deusa.

─ Imagino! Quando cheguei, vi alguns de seus fiéis vindo para cá homenageá-la. E ao “tal” do Acala também.

─ Fiéis? Eles não são fiéis, padre. São em sua maioria curiosos ou... "adoradores", como o senhor mesmo disse. Mas muitos vêm aqui com a pretensão de descobrir os segredos de uma possível sociedade secreta religiosa. O senhor já ouviu falar sobre isso no seu meio também, não?

─ Sobre isso... o que?

─ Sociedades secretas religiosas.

A pergunta soava em tom de desafio. Como se quisesse forçar o padre a dizer algo que só ele, ou poucos deles, tivessem conhecimento. Felizmente, como palestrante em eventos multi religiosos, Karras tinha uma resposta pronta para esse tipo de abordagem.

─ O senhor está falando da Opus Dei, Maçonaria e essas coisas?

─ Não me ofenda com essas babaquices escandalizadas e mal interpretadas de Hollywood, padre. Estou falando de algo mais sério e... “profundo”. Os segredos dos cátaros, o ritual dos essênios, o saber oculto de Cristo, que só foi passado aos alentinianos e ofitas e... – ao notar os olhos confusos de Karras, Seimei questiona – quer que eu continue?

─ Fique à vontade. Tirando os cátaros, eu nunca sequer ouvi falar de nenhuma dessas outras seitas que mencionou.

Seimei bufa alguma coisa e ajeita-se na cadeira, retorcendo os lábios. Não adiantava mesmo forçar um padre à quebrar seus votos de sigilo, se é que Karras estava mesmo escondendo alguma coisa.

Impaciente, o sacerdote bate os dedos em cadencia sobre mesa antes de continuar:

─ Deixa pra lá. Vamos voltar ao assunto, sim?

─ Por favor.

Karras decide tomar um bom gole do vinho branco, cruza os braços e fecha os olhos, puxando da memória as perguntas e argumentos mais importantes que tinha para fazer.

─ O senhor diz ser Abe no Seimei, que viveu antes da virada do 1º milênio.

─ Sim? – Seimei parecia sedento pela pergunta que viria.

─ Só que... existe uma data para sua morte, registrada como oficial.

─ Sim. Eu tinha pouco mais de oitenta anos na época. Foi no dia 31 de outubro de 1.005. Dez anos antes do biênio de Eva.

─ Certo, e... O biênio de Eva?

─ Sim. O biênio que mudaria a história do mundo de modo drástico. Feliz ou infelizmente, pouquíssimos homens sabiam disso na época e alguns outros não deixaram que isso acontecesse. Mas enfim, essa foi a minha “Primeira Vinda” e...

─ Espere, espere... Que história é essa de biênio de Eva?

─ Não importa.

─ É a mesma Eva da bíblia?

─ Hunf! O senhor conhece outra Eva, mundana e problemática o suficiente, para ter seu nome num evento tão grandioso quanto um biênio, senhor João “John” Karras?

─ Eu... Eu quero saber mais a respeito. Por favor.