A Busca
4 Instituto Melodia

Depois de dois dias inteiros viajando em um trem que cruzava de uma cidade à outra, a mocinha sorridente vaga a pé, e algumas vezes quando possível de micro-ônibus, por mais doze horas sem dormir direito, até que, no amanhecer do terceiro dia após sua partida, ela chega ao seu local de destino.
Rumiko agora tinha uma meta a alcançar e estava ansiosa para começar, mas antes precisava resolver uma série de tarefas que lhe foram incumbidas semanas antes de seu mestre morrer. E era chegado o dia de cumprir essas tarefas, pois o momento não poderia ser mais propício. Afinal, um vice-prefeito da cidade de Saltos estaria fazendo uma palestra ali por perto, naquele mesmo dia. Rumiko conhecia esse político e lembrava-se bem que seu nome era o primeiro da lista numa folha que ela arrancou do caderno de anotações de seu mestre Gengetsu. A missão de se encontrar com tal prefeito lhe foi dada muitos dias antes de ela sequer saber da existência de Galápagos, o qual entrou como prioridade para seus afazeres. Mas quando seu mestre morreu, ela ficou desanimada até para continuar vivendo.
Ela não estava pronta para perder Gengetsu ainda, por isso a possibilidade de ter seu mestre de volta lhe trouxe o carismático sorriso, a vontade de viver e, consequentemente, o ânimo de terminar todas as suas missões pendentes. E, se fosse mesmo possível reencontrar Gengetsu, ela faria tudo o que fosse necessário para realizar tal feito, então, antes de trazê-lo de volta, deveria, no mínimo, cumprir todas as tarefas que lhes foram passadas por ele.
A primeira tarefa seria razoavelmente fácil. Ela tinha consigo, também anotado num pedaço de papel, os dias aos quais o vice-prefeito estaria discursando. Na data atual, seria o penúltimo dia que ele falaria em público naquele semestre. Rumiko sabia onde ele estaria no dia seguinte. Seria longe, gastaria mais dinheiro com viagens e ela não queria adiar muito sua missão principal. Seu mestre odiava procrastinação e ela acabou aprendendo a não suportar também.
A moça passa a manhã inteira estudando algumas áreas do bairro, procurando por pontos que posteriormente poderiam lhe ser úteis e locais separados onde pudesse deixar suas coisas por enquanto. Ela encontra uma área onde a prefeitura local pretendia iniciar uma obra de encanamento de esgoto, em que tubos enormes de concreto e aço repousavam num terreno baldio. Por ser domingo e véspera de um feriado de segunda-feira, a obra estava parada e sem movimentação. Havia um banheiro imundo que ela nem pensou em chegar perto e um enorme container reservado para os operários trocarem de roupa. A mocinha mexe na porta do container e não acredita na sorte que teve. A porta estava aberta.
Rumiko vasculha e prepara o local minuciosamente, durante tantos minutos, que acaba memorizando até coisas e locais que talvez não fosse utilizar ou que não precisariam de tanta atenção. Quando achava que estava tudo pronto para mais uma “missão”, ela se lembrou que faltava só mais uma coisinha: saber exatamente aonde seria a conferência do vice-prefeito. Ela tinha a cidade, tinha o bairro, e tinha a área do bairro onde a conferência aconteceria, mas não tinha a rua exatamente. Precisava averiguar isso também.
Mas ainda era cedo e ela tinha um outro desejo, menos importante, a cumprir. Um desejo pessoal, embora não fosse de sua conta e que, apesar de ter sido comentado por Gengetsu em pessoa, ele provavelmente não queria que ela se envolvesse e definitivamente não concordaria com o que ela iria fazer. Um sorriso sapeca de menina desobediente lhe vem ao rosto quando ela pensa “mas meu mestre não está aqui”, e sai apressada pelas ruas da cidade de Saltos, procurando um ponto de ônibus qualquer.
Usando calças de moletom, tênis de uma marca fajuta e barata, uma camisa comum e pouco maior que seu número, uma blusa de zíper da UCLA, perceptivelmente “alternativa” e um gorro escondendo seus longos cabelos, Rumiko se misturou na multidão e iniciou sua tarefa, a princípio facultativa.
Por conter um rosto que expressava simpatia e um corpo de mocinha que atiçava a imaginação dos homens por estar escondido em roupas tão fora de moda, Rumiko chamava a atenção de rapazes ainda na flor da idade e de velhotes tarados que achavam que ela ainda estava entre os seus quinze anos. Com a mesma rapidez com que era notada, ela também era facilmente esquecida por essas mesmas classes de pessoas, tanto pelo seu jeito “moleque” de se trajar quanto pelo seu estilo evasivo de se defender dos olhares indiretos e dos gracejos impertinentes.
Quando chegou aonde queria, Rumiko esperou que o ônibus parasse e abrisse a porta para finalmente se levantar-se e sair às pressas do coletivo. Queria se certificar de que seria a última a descer e, enquanto disfarçava no local do desembarque, ficou observando o veículo para ver se ele não pararia fora do ponto poucos metros depois. Não parou. Ela então caminhou pelo local, atenta à tudo ao redor, procurando por algo e se informando em bancas de jornais e pontos de táxi. Até que finalmente encontrou o lugar que queria.
Era um casarão enorme, de paredes brancas, mas que já estavam marrons de tanta sujeira, cercada por uma grade de ferro de quase cinco metros de altura, que, no fim dos dois extremos, se juntava à um muro que dava a volta por trás. Ela procura pelo nome do local numa placa pregada ao muro e encontra também o número de telefone, que faz questão de memorizar por enquanto. Depois procura o acesso ao interior do local. Como esperava, o portão principal estava aberto ao público, e embora não fosse tão simples para alguém comum entrar sem ser percebido, Rumiko conseguiu se infiltrar sem muitos problemas. Ela se esgueirou o máximo que pode entre as pessoas e pilastras do local, sempre tentando ficar invisível mesmo quando em campo aberto. Logo, estava dentro da instituição, na sala reservada aos enfermos.
Os corredores eram frios e largos. Muitas janelas com vidros quebrados. Muitas portas entreabertas rangiam com a brisa vinda de fora. E apesar de ser uma instituição médica, havia bem poucos funcionários. O que tinha bastante eram pessoas idosas, algumas caminhando lentamente apoiando-se em andadores, outras sentadas em cadeiras e bancos recostados às paredes. Um velhote sentado numa cadeira de plástico apoiando as duas mãos uma bengala, sozinho num corredor do térreo, seguiu Rumiko com os olhos quando ela deslizou por uma escada apertada e escura e desapareceu no primeiro andar da instituição, reservado às pessoas com câncer. De lá, foi até o corredor final que, segundo as placas informativas que viu pelo caminho, seria onde estaria a sala principal da gerência do hospital.
Nisso, ela ouviu vozes vindas de um corredor à esquerda, pouco mais à frente. Vozes femininas. Ela se recosta na parede e vai se arrastando rapidamente até a porta mais próxima, onde entra em silêncio. Lá dentro, dois leitos perto das janelas do quarto, eram ocupados por duas pessoas. Uma delas estava coberta com um lençol médico, dos pés a cabeça. A outra, uma menina de camisola de hospital, com olhos verdes bem claros, sentada de lado sobre o colchão, observava Rumiko com uma face assustada. Rumiko põe o dedo indicador nos lábios, gesticulando para a menina ficar em silêncio, e exprime em seguida um sorriso de despreocupação. De cabelos raspados devido ao câncer, de olhos profundos e de corpo magérrimo, a menina concorda com a cabeça.
A porta se abre e uma mulher alta, magra e já de idade, estica a cabeça para dentro e olha ao redor desconfiada. Atrás dela, outra mulher, bem mais jovem, fica do lado de fora, esperando. A velha senhora também não chega a entrar. Fica na porta observando o lugar, como se procurasse alguma coisa.
─ Tudo bem aqui? – ela pergunta para a menina na cama.
E esta faz que sim com a cabeça.
─ Pensei ter visto um fogo-fátuo – diz a mulher sorrindo e tentando arrancar também um sorriso da menina.
Como não conseguiu, ela pergunta se a menina queria alguma coisa. A menina sentia fome, mas, como todos ali, ela sabia da situação do instituto, então faz que não com a cabeça. A velha senhora sai e puxa a maçaneta. Rumiko, que havia se encolhido atrás da porta, espera por alguns segundos a mais antes de respirar aliviada. Ela se aproxima da menina na cama e passa sua mão no rosto da pequenina.
─ Arigatou!
─ Hã? – a voz da menina era quase inaudível.
─ Quer dizer “obrigado” em japonês.
Rumiko olha para o leito ao fundo, depois acaricia um pouco mais o rosto da menina.
─ Você fala japonês? — quis saber a menina.
─ Uma ou duas palavras. Aquela pessoa ao fundo... ela está...?
Rumiko não termina a frase, mas a menina entende o que ela queria dizer.
─ Não... Só está doente e com fome. Muita fome. A comida e os remédios... são poucos aqui.
─ Rumiko sabe disso, meu amor.
─ Há quatro dias que não nos dão nada além de água. E pão, mas o pão não vem todos os dias para as mesmas pessoas.
─ Sim... Rumiko quer saber o porquê, senhorita.
A menina sorri, com os lábios partidos e um olhar de sono.
─ “Senhorita?” – ela repete, gostando do tratamento recebido.
─ Sim, senhorita – brinca Rumiko, com seu sorriso aconchegante.
Rumiko abraça a menina, com um afago quase materno e, durante as carícias, ela sentiu seu coração apertar e a emoção quase lhe sugar ao ar ao praticamente sentir, na ponta de seus dedos, os ossos da menina sob a pele.
─ Rumiko vai tentar fazer algo por você, meu amor. Por todos vocês.
─ Mas quem é essa Rumiko que você tanto fala?
Como resposta, a menina recebe outro abraço, mais apertado e aconchegante. Era triste demais ver crianças e idosos naquela situação, mas o que machucava ainda mais Rumiko era que aquela instituição não era a única que sofria com a falta de comida e remédio. Havia um total de 4 clínicas de tratamento de câncer e vítimas do Fim do Mundo, só na cidade de Saltos. Em todo o Amazonas, deveria haver no mínimo umas duzentas casas iguais àquela. E o pior era que todas estavam em iguais situações. Muitas delas inclusive, já haviam sido fechadas, para inaugurar em seu lugar, casas de jogatinas, cadeias de aluguéis ou outros comércios mais rentáveis. Nos dias atuais, tudo o que dava dinheiro era permitido, porque ajudava na reconstrução do País.
─ Está na hora de ir – sussurra Rumiko olhando diretamente para a criança.
Ela beija-lhe duas vezes, um em cada bochecha e sai apressada, seguindo seu caminho em direção da sala do chefe da instituição. Mais por falta de dinheiro para o concerto da fechadura que por sorte, Rumiko consegue entrar na sala da gerência e vai até os arquivos guardados em diversas gavetas de vários móveis encostados na parede, onde procura rapidamente pelas finanças da instituição. Era de conhecimento de todos os cidadãos, que lugares com aquele tinham a obrigação de serem mantidos pelo governo do estado. Se isso não estava acontecendo, obviamente tinha alguma coisa errada.
Rumiko procura, gaveta por gaveta, o mais rápido que pode. Mas nada encontra. Na mesa do chefe, também havia algumas gavetas. Não era possível que estivesse ali, mas também não tinha outro local para procurar naquela sala. Ela então pega na primeira gaveta e nota que está trancada. Precisaria arrombar e não queria fazer isso. Foi então que ela notou dois telefones sobre a mesa. Ambos estavam conectados à um aparelho que transmitia o som do toque via rádio para todo o instituto, assim, a pessoa responsável em atende-lo, poderia ouvi-lo tocar de qualquer lugar do estabelecimento. Rumiko se recordou que, antes de entrar, tinha reparado no número da instituição abaixo do nome da casa, usado para fazer doações por telefone. O que era meio raro, pois, nos dias de hoje, todo mundo só queria ganhar dinheiro e não dar. Rumiko pega um dos telefones, puxa da mente o número que memorizou e disca. O aparelho dá como ocupado. Ela desliga o aparelho, pega o outro e faz o mesmo. Nisso, o telefone anterior começa a tocar e ressoar por todo o lugar onde havia uma caixa de som. E assim, ela o deixa tocando, intermitentemente.
Poucos minutos depois, a velha mulher de antes, de nariz meio caído, rosto magro e enrugado e os cabelos brancos enrolados e presos acima da cabeça, entra correndo, quase tropeçando em seu vestido velho e tão longo que lhe ia até os pés. Demonstrava no rosto seu cansaço, mas também sua esperança, e implorava mentalmente para que não fosse mais uma ligação feita por engano, um trote ou pior, ofertas de compra do lugar, que lhe eram passados praticamente todo mês. Só que, pouco antes de atender, a pobre senhora nota o outro telefone fora do gancho e fica petrificada. Ninguém poderia ter entrado naquela sala além dela e de outra enfermeira, que estava com ela no térreo tratando de um paciente quando o telefone tocou. Num instinto guiado pelo medo, ela coloca o gancho do outro telefone no lugar e o primeiro aparelho interrompe sua insistente campainha. E nisso, um outro som é ouvido. O da porta de sua sala, batendo atrás de si.
A velha olha assustada para trás e vê uma mocinha jovem, de cabeça baixa com uma das mãos ainda na porta, segurando-a.
─ Q-quem é você?
─ O “fogo fátuo”! – responde a mocinha erguendo mais o rosto e revelando sua face rosada e sorridente.
À primeira vista, a velha deduziu instantaneamente que, pelo jeito de se vestir, ela só poderia ser uma ladra, procurando por algum trocado para depois se drogar. Mas agora, vendo a face da moça, a senhora percebeu que ela exibia uma aparência saudável demais para alguém que tivesse a cara de uma viciada em drogas. Só poderia então, ser uma delinquente. A velha mulher se endireita, ainda resfolegando devido a corrida e, com toda a educação que pode se utilizar dentro daquela esfera de medo, ela pergunta:
─ Po... Posso ajudar, senhorita?
─ Não precisa me chamar de senhorita. E sim..., a senhora pode ajudar.
As duas se encaram por vários segundo e, nisso, alguém bate à porta. Uma terceira moça, provavelmente uma ajudante. Rumiko retira sua Tantô da bainha e mostra para a velha senhora, que arregala os olhos de pavor. No entanto, contrariando qualquer intenção de uma ameaça, a intrusa novamente insinua um gesto de silêncio, levando o dedo na boca e dando uma piscadela simpática.
─ Sim? – grita a mulher para a pessoa ao lado de fora.
─ Senhora? Aconteceu alguma coisa?
─ N-Não!
─ Quem estava ao telefone?
─ Foi engano de novo.
─ Sinto muito. Quer que eu entre?
─ Não! – a mulher grita, mas logo se controla — Por favor, não eu... eu quero ficar um pouco sozinha para me recompor. Pode ajudar a dona Rosa no andar térreo?
─ Claro!
─ Avise que vou descer em minutos.
─ Está bem.
Rumiko escuta os passos ao lado de fora se afastando, caminha lentamente até uma cadeira próxima, depois volta para a porta e usa a cadeira para travar o trinco e não correr o risco de ser interrompida. Só então é que ela guarda sua arma cortante e fica de frente para a velha senhora, do outro lado da mesa.
─ Você disse que queria...? – instiga a mulher
Ela ainda tremia, sem saber direito o por quê. Mesmo assim convida moça a se sentar.
─ Meu nome é Rumiko – diz a moça, puxando outra cadeira e sentando-se – Estou procurando os papéis que dizem respeito à verba que vocês recebem do governo.
─ Você também?
─ Orô? O que quer dizer com isso, senhora?
─ Os homens de Eron Hassan já vieram aqui atrás desses papéis. Já estão com eles há meses. O que mais vocês querem de nós?
─ Eron Hassan... – diz Rumiko, mais exclamando que perguntando.
─ Sim!
─ A prefeita Eron Marie Hassan?
─ Exatamente! Não foi ela quem lhe enviou?
Rumiko ergue-se devagar, rindo baixinho e balançando a cabeça para os lados.
─ Meu senhor, você é incrível. – diz ela de si para si, referindo-se à Gengetsu.
A mulher também se levanta, enraivecida.
─ Do que está rindo? Nós já sofremos demais com esse seu decreto maluco.
─ Rumiko não está aqui em nome de Eron Hassan, senhora.
─ Não? – a mulher senta-se novamente, devagar.
─ Claro que não – a moça fica de frente para a dona do estabelecimento, apoia-se com as duas mãos sobre a mesa e olha bem no fundo dos olhos da mulher – Rumiko obteve algumas informações sobre lugares como esse. Por isso, Rumiko quer que a senhora responda diretamente o que vai lhe perguntar. Sem rodeios, sem mentiras e sem tergiversar.
A velha senhora ergue uma das sobrancelhas. Era estranho ver aquela mocinha falar de si mesma em terceira pessoa. “Isso é coisa de psicopata”, ela pensa antes de Rumiko lhe proferir a primeira pergunta:
─ Quanto o documento estipula que o governo oferece de suporte para essa instituição?
─ Quanto? Apenas $450 bedinas.
─ Resposta errada! – Rumiko respira fundo e balança a cabeça para os lados, demonstrando seu aborrecimento – Responda de novo, por favor.
A mulher fica de olho na arma, coma ponta do cabo aparecendo timidamente por debaixo da blusa da moça. Nunca tinha visto uma adaga japonesa antes, mas sabia que se tratava de um objeto cortante, mesmo estando dentro da bainha. Estranhamente, porém, não sentia que seria novamente ameaçada por aquele objeto.
─ Duas mil... – responde ela voltando a encarar Rumiko – Duas mil bedinas.
─ Certo. E quantos vocês recebem?
Nesse momento, a velha mulher percebe o jogo de Rumiko. Se ela realmente não estava com Eron Hassan, agora era a hora de usar a resposta anterior.
─ Quatrocentas e cinquenta Bedinas.
─ Doushite?
─ Como é? – a velha mulher frange o cenho.
Rumiko leva dois segundos para pronunciar a palavra em português.
─ Por quê?
─ Os homens de uma construtora, por ordens de Eron Hassan, vieram aqui. Disseram que queriam construir um cassino ou uma boate nessa casa, para aproveitar melhor o terreno.
─ E a senhora não aceitou?
─ Está brincando? Se tivesse só idosos doentes, já seria doloroso desistir, mas tem crianças doentes aqui também. Crianças famintas. Crianças abandonadas. Não posso aceitar isso.
─ E você está sustentando doentes, crianças e idosos, com 450 bedinas?
─ Bom, eu sou aposentada. Recebo 430 bedinas de aposentadoria.
─ A senhora usa sua própria aposentadoria para ajudar a manter essa instituição?
─ O que posso fazer? Para manter essa casa em pé eu faço qualquer coisa. Os agiotas, estelionatários ou seja lá quem sejam os monstros humanos que trabalham para Eron Hassan, conseguiram um esquema com a unidade de auxílio do governo, para desviar as $ 1.550 bedinas restantes para os bolsos da prefeita.
─ Mas o governo não sabe desse esquema – afirma Rumiko, sem sombra de dúvidas no olhar.
─ Não... acredito que não. Aqui no Amazonas, todo o dinheiro destinado às casas de ajuda às vítimas do fim do mundo, sai das mãos do governo e ficam aos cuidados de Eron Hassan. Você sabe quem é o filho dela, não sabe?
─ Rumiko sabe sim. Porque a senhora nunca denunciou?
A mulher olha novamente para a adaga de Rumiko e, sem tirar os olhos dela, explica:
─ Essa não é a primeira faca que me mostraram. Pra dizer a verdade, essa daí até que não assusta tanto quanto às que eu senti encostada na minha garganta ou... – os olhos da mulher lacrimejam quase instantaneamente – ...ou na barriga de nossas crianças.
Ela põe as mãos nos olhos e limpa as lágrimas rapidamente, lamentando.
─ Desculpe...
Rumiko abaixa a cabeça e esconde melhor a sua adaga embaixo da blusa. Após se acalmar, mulher continua.
─ Eles me disseram: “se quer tanto viver nesse lixo infectado de pessoas doentes, não vamos forçá-la a sair. Mas vai viver em condições tão ruins que terá de desistir e sair por conta própria”. No início eu não entendi. Achei que eles iriam cortar a luz ou a água da casa, que são pagos pela prefeitura. A luz foi cortada, mas o que fizeram depois foi bem pior.
─ Foi sim... – Rumiko coloca a mão direita no bolso de sua calça de moletom – A senhora tem acesso aos seus guardas daqui desta sala?
─ Hã? Tenho sim. Por que pergunta?
─ Porque Rumiko precisa sair pela porta da frente. Mas não quer que nenhum deles me veja.
A dona do estabelecimento leva um tempo para entender, mas logo pega seu telefone e disca um número que dá acesso ao guarda da guarita ao lado do portal central de entrada.
─ Sim, madame – vem a voz do guarda.
─ Guarda, parece que temos um intruso aqui. – a velha senhora olha para Rumiko, que não pareceu se preocupar com o que ela iria dizer – Preciso que envie todos os seus homens que estão posicionados na frente do casarão... para o subsolo.
─ Um intruso?
─ Pode ser só um moleque qualquer, mas é bom prevenir, não é?
─ Claro, mas... todos os guardas? Nós já não somos muitos.
─ Sim. Envie todos. Não quero que deixem esse intruso escapar. Quero ter uma conversa com ele.
─ Claro, madame.
A mulher desliga o telefone e torna a dirigir o olhar à Rumiko, que a observava de olhos grandes.
─ Espere só mais um ou dois minutos, aí você pode sair tranquilamente – a senhora abaixa os olhos e explica – Não sei se você viu, mas tem um portão menor na ala leste do muro. Ele só é trancado com uma tramela na parte de dentro e fica fora do campo de visão da guarita. Feche-o quando sair e deixe que eu invento uma desculpa do porque ele estava destrancado.
─ Arigatou!
─ Só peço... Só peço que não machuque nem assuste nenhum de meus pacientes.
Rumiko abre um sorriso brilhante, dá a volta na mesa e se aproxima da velha senhora. E com suas duas mãos, agarra-lhe o rosto enrugado com bastante carinho e beija-lhe a testa. Essa ação foi tão inesperada e confusa, que a mulher ficou sem saber o que dizer. Rumiko afasta o rosto e continua sorrindo:
─ Como se chama, senhora?
─ Me... Melody!
─ Melody... Que nome lindo. A senhora reparou que é parecido com o nome do instituto?
─ Não brinca comigo. Você deve saber que é o mesmo nome, só que em outra língua.
─ Ah é? Bom, Rumiko gostou muito da senhora e quer que saiba que jamais a machucaria.
─ Ah é? Então porque me assustou tanto?
─ Rumiko pede desculpas por isso, Melody–san.
─ Hã?
─ O modo como a senhora veio correndo atender o telefone... foi porque achou que era alguém querendo fazer uma doação, não é?
─ Hunf! Foi sim, e daí? Essa casa também vive de doação. Quando se é uma instituição séria, não há vergonha nenhuma nisso.
─ Que bom ouvir isso. Mais uma coisa – Rumiko enfia as mãos nos bolsos novamente, procurando alguma coisa – Rumiko tem mais uma última pergunta.
A moça coloca sobre a mesa da mulher uma de suas moedas de ouro, a única que levou consigo, no valor de $1.000 Bedinas:
─ Quanto tempo a senhora consegue manter essa casa com isso?
A pobre senhora ficou pasma e calada. Era uma moeda de ouro. De ouro de verdade. E ela engasga por muitas vezes antes de proferir uma frase completa.
─ Bom... há quase meio ano vivemos mensalmente com $ 450 bedinas...
─ Não! – Rumiko interrompe o raciocínio da mulher – Em condições medianas, quanto tempo esse dinheiro pode durar, focando uma melhora na situação atual dessa casa?
─ Acho que se focarmos nossos esforços somente nos remédios e comprarmos comida para os mais necessitados... dá pra se viver um mês.
─ Ótimo! É tempo suficiente.
A moça pega a moeda da mesa e estende para a senhora à sua frente, que a recebe com as duas mãos.
─ Rumiko agradeceria muito se ficasse com a moeda, Melody–san.
─ Você disse tempo suficiente? – a mulher aperta a moeda nas mãos, ainda não acreditando no que estava acontecendo – Suficiente para quê?
─ Para a senhora ouvir falar de Eron Hassan novamente.
─ O quê? Mas você não disse que... Disse que não trabalhava para Eron Hassan.
Rumiko abre um largo sorriso, inclina-se ao estilo nipônico e se despede:
─ Sayonara!
A velha senhora observa Rumiko sair pela porta e sumir nos corredores do vasto casarão, de modo tão sorrateiro quanto entrou. Não sabia o que Rumiko insinuou com aquela frase sobre a prefeita Hassan, mas confiava naquele sorriso. Naquele largo e brilhante sorriso que parecia querer dizer “vai ficar tudo bem”. O mais importante naquele momento era o objeto dourado em suas mãos. Melody sabia e já estava até conformada de que esse mês, acaso não houvesse um ajuda exterior ou mesmo uma intervenção divina, ela iria perder, seja para a fome ou doença, no mínimo umas três vidas. Aquela moeda acabava de salvar essas vidas. Melody aperta o pequeno objeto dourado sobre o peito com as duas mãos e clama baixinho.
─ Deus... obrigado!
Minutos depois, enquanto fazia uma prece de oração em agradecimento, o homem da guarita retorna a ligação.
─ Madame, nosso homens disseram que não encontraram ninguém no subsolo.
─ Sim ele... ele já deve ter fugido. Pode mandar o pessoal voltar aos seus postos. Mesmo assim, obrigada guarda.
─ Disponha madame. Quer que façamos uma varredura no térreo?
─ Não precisa. Acho que... Acho que não vamos vê-lo de novo.
A mulher desliga o telefone.
─ Mas sinto que ainda vamos ouvir falar dele...
Já estava em cima da hora quando Rumiko finalmente voltou ao bairro em que o vice-prefeito faria a conferência da qual ela tanto queria participar. Ela se trocou novamente, vestindo suas roupas ao estilo oriental, e vai para rua tratar de seus negócios. Segundo o que lhe foi informado, a tal palestra seria à tarde, que era o horário mais propício de se fazer uma apresentação pública de planos políticos. Havia muitos atentados e poucos políticos com peito de sair às ruas, por isso, os discursos dos dias atuais eram feitos de modo rápido e sempre à luz do dia, porque era mais seguro.
Como não sabia exatamente onde seria e, temendo não chegar a tempo, Rumiko decidiu pedir informações aos pedestres que transitavam por ali. E aí ela esbarra em outro problema. Como Vera Cruz ainda está se reconstruindo por causa do grande acidente ocorrido há mais de dez anos, ninguém estava com tempo de parar e informá-la direito onde será o tal discurso.
Ela poderia simplesmente seguir alguém e torcer para dar de cara com o local, afinal, deveria haver pessoas com tempo para assistir o homem falar. Mas por estar numa praça em campo aberto, com pessoas indo e vindo de vários lugares, ficaria difícil saber se ela estaria se aproximando ou se afastando de seu objetivo.
Conseguir a informação através dos pedestres talvez não fosse a coisa mais sensata a se fazer, mas Rumiko não tinha muita escolha no momento, então ela não desiste de tentar parar as pessoas na rua. Ela tinha fé de que, no momento certo, alguém lhe cederia a atenção desejada. Tinha fé e acreditava em sua sorte. Muitas coisas boas que lhe aconteceram no passado foram atribuídas à sorte que ela tanto se gabava possuir. E mesmo desta vez ela tinha intuição de que não seria diferente.
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