A Busca

5 Citando Petruz


Notas iniciais
Mais um trecho desta que será uma longa história. Críticas positivas inspiram o autor à continuar e críticas negativas o ajudam a melhorar. Por isso, por favor, fiquem à vontade.

A fome daquele rapaz já estava insuportável quando passou, pela primeira vez em sua mente, o pensamento de furtar alguém. Seu braço esquerdo tremia de dor por causa de um ferimento que já devia ter se curado se tivesse recebido o tratamento médico necessário. Não recebeu nenhum e estava inclusive perto de necrosar, o que provavelmente o levará a perder esse braço. Suas pernas estavam fracas devido à fome e sua cabeça girava em pensamentos de arrependimento e punição, fortalecidos pela fé em sua religião. Uma religião da qual ele inevitavelmente fazia parte, mas não a exercia.

Seu nome era Petruz. Bom, não era bem o seu nome e sim o da linhagem de sua família. Seu rosto, no momento quase esquelético, exibia pele clara, cabelos ruivos escurecidos de sujeira e olhos castanhos. Estava sentado num chão frio em um lugar qualquer de uma praça enorme, conhecida como a Praça dos Heróis, onde estátuas feitas de cimento e gesso, de deuses e heróis de várias crenças diferentes, se espalhavam por todos os lados.

Quem o visse hoje enxergaria apenas um garoto de rua, que provavelmente nasceu nesse meio e já estava acostumado com a vida que levava. Mas, por mais incrível que possa parecer, Petruz era filho do governador mais admirado e mais bem pago da Ilha de Vera Cruz, que em seu tempo ainda se chamava Brasil. E por ser filho de um político, ele deveria ter dinheiro. Muito dinheiro. E realmente tinha, mas a verdade é que ele já está vivendo nas ruas à quase oito anos e, nesse período, ele teve de converter suas cédulas de dinheiro para a nova moeda do mundo, a bedina, para poder se virar, pois essa era a moeda que, aos poucos, dominava o poder monetário global. Fora o fato de que boa parte desse dinheiro foi gasto na vacina, caríssima, porém obrigatória, que impedia as pessoas de contraírem a nova e mortal praga que assola o mundo, o vírus D4. Hoje ele pensa que deveria ter gastado o dinheiro com mais comida, porque ao que parecia, a compra da proteção desse assustador vírus não salvou sua vida, só alterou o dia de sua morte. Preferiria morrer infectado que faminto, é o que ele pensava.

Petruz morava em um edifício luxuoso num bairro de classe alta, que hoje, muitos anos depois, ainda se encontra aos destroços. Seus poucos bens imobiliários sofreram uma investigação, a qual comprovou que toda a posse de seu pai foi adquirida pelo dinheiro que provinha dos cofres públicos e, portanto foram tomados por um grupo de oposição ao partido do governador. E a fortuna de sua família, assim que a morte de seu pai veio à público, foi confiscada em nome de um esquema feito entre políticos e advogados, que deixaram o garoto sem direito à nada, a não ser uma moradia que seria definida pelos mesmos homens que se beneficiaram com a morte do governador. Na época Petruz tinha ainda 11 anos, portanto não entendeu o que aconteceu em sua totalidade, mas sabia que seu destino já havia sido traçado e não seria para um bom lugar. Seria jogado num orfanato qualquer em algum lugar onde ninguém o conhecesse e de lá não sairia nunca mais. Ele sabia disso porque seu pai, talvez premeditando que algo ruim fosse acontecer, lhe revelou alguns segredos e lhe confiou uma senha, formada por números baseados em sua data de nascimento e portanto, fácil de decorar.

Após o sumiço e morte comprovada de seu pai e durante a rápida virada de eventos em sua vida, Petruz decidiu sumir do cerco político que insistia em querer “cuidar do bem dele”. E o dinheiro, que ele teve de pegar escondido no cofre de seu próprio pai para poder fugir, depois de anos só gastando e sem adquirir, um dia acabou, inevitavelmente.

Hoje, tudo o que lhe restou de importante depois do Fim do Mundo foi essa senha, que ele guardava na memória e que abria um cofre em num lugar só conhecido por ele, assim como também só ele sabia o que tinha dentro. Mas mesmo tendo a consciência de que, se bem aproveitado, o conteúdo do cofre poderia, pelo menos por alguns dias, salvá-lo da miséria em que vive, esse ato se tornava inexequível, pois o objeto se localizava muito longe dali, numa outra cidade. E ele, que não tinha dinheiro nem para comer, não poderia ir tão longe. Pensando agora e levando em consideração a vida sofrida que levava, ele chega a conclusão que não seria tão mal viver como indigente num orfanato de quinta categoria.

Petruz agora estava sozinho no mundo. Tinha apenas um parentesco a quem poderia ter recorrido por socorro há muitos anos atrás. Um tio, irmão de sua falecida mãe, cujo qual Petruz não se dava nada bem com ele, sentimento adquirido por extensão da antipatia existente entre esse tio e seu pai. E mesmo se tivesse afinidade, Petruz não saberia se esse tio o aceitaria como hóspede ou sequer sabia se ele estava vivo. Poderia arriscar já que conhecia o local de moradia do seu tio. Porém, o lugar aonde ele vivia era muito longe, na mesma cidade em que se localizava o misterioso cofre de seu pai. Sem dinheiro, ninguém ia à lugar algum a não ser que fosse à pé, e Petruz não tinha condições nem vontade de fazer essa longa caminhada por um objetivo tão pequeno.

Seu estômago retorce e ronca enquanto ele tenta expulsar o pensamento de se tornar um reles ladrãozinho, o tipo de gente que ele sempre odiou em sua vida de fartura. Sabe que logo só terá duas opções: roubar ou se render à fome...e morrer.

Sentado junto a uma estátua do deus Loki de Asgard, Petruz se pergunta a que ponto o mundo vai chegar. Tudo está desabando, tudo está se desvanecendo... Contudo a vida continua. Às vezes, mergulhado em sua ira pela indiferença da humanidade, Petruz pensa que seria bom se o planeta todo explodisse de uma vez e desse um fim à agonia de milhares de terrestres que, assim como ele, perderam tudo após aquele acidente climático ocorrido anos atrás.

Usando uma camiseta cinza imunda, calças azuis desgastadas e um sapato velho e furado, de número maior que seu pé, tudo o que o garoto tinha para se proteger naquela tarde fria era um cobertor roxo, remendado e sujo, que ele se agarrava com firmeza enquanto observava as pessoas à passar por ele como se nem existisse. Antigamente, em países ricos e abastados, havia homens solidários, que faziam festas com artistas famosos de várias classes ou shows beneficentes para ajudar crianças e povos que passavam fome. Só que agora que a economia quebrou e o ouro, a prata e a maldita Bedina comandam o giro capital do mundo, o rapaz acreditava que esse tipo de homem não mais existe em parte alguma. Mas nesse quesito, que direito Petruz tinha de poder reclamar? Ele não era diferente. Não é e nunca foi um garoto solidário ou caridoso, atitudes que o judaísmo, sua religião de berço, via como virtudes necessárias de um verdadeiro seguidor da doutrina.

No passado, Petruz achava ridículo que seu pai lutasse tanto pelos pobres. Quando se tornou governador então, o caso piorou. Petruz via seu velho acordar cedo, dormir tarde e raramente passar um fim de semana sequer ao seu lado, sempre trabalhando em projetos que visavam melhorar a vida de pessoas mais necessitadas. Ele não concordava porque achava que os problemas da classe baixa não eram de responsabilidade de pessoas que batalharam tanto para obter uma vida melhor.

Em seu início de vida como morador de rua, ele percebia as outras crianças se ajudarem, dividindo até um pedaço de pão que encontravam em latas de lixo. Ele, no entanto, quando ainda caminhava com dinheiro nos bolsos, não cedeu sequer um centavo para as outras crianças que conheceu durante suas andanças sem rumo nas ruas de Saltos. E acha que é por esse motivo que atualmente vive sozinho, sem nenhum amigo sequer. A razão era compreensível. Ele não se misturava porque tinha medo de ser roubado e tinha muita esperança de que o sofrimento em que estava mergulhado logo acabaria. Porém isso não lhe dava o direito de ser esnobe. Só hoje Petruz reconhece isso.

As pessoas continuavam a caminhar apressadas para lá e cá, no intuito de correr atrás de seus respectivos prejuízos. Com a morte de quase metade da população da terra, o desemprego diminuiu bastante, mas ainda é necessário ter boas qualificações para arranjar um trabalho que seja decente. Petruz sabe bem disso, pois ele já tentou conseguir emprego inúmeras vezes. Ele tem estudo, boa formação familiar e sabe até dirigir, pois conseguiu fazer com que um mecânico, à troco de um bom dinheiro, o ensinasse ainda na idade de seus 13 anos, porque achava que isso seria importante para conseguir um emprego qualquer num futuro próximo. No entanto, por ser órfão de pai e mãe, ele precisava ter a idade de 21 anos para ser considerado “cidadão responsável”, e essa idade ele ainda não tem. E hoje, sujo, maltrapilho e raquítico, sabia que ninguém teria coragem de chegar perto dele, muito menos lhe dar um emprego e manchar a aparência do comércio. Petruz se irrita toda vez que pensa nessa bobagem, afinal, com o mundo se reconstruindo, toda a ajuda deveria ser aproveitada, mesmo a de um garoto como ele. “A culpa é dos políticos desse país”, pensa ele apertando os olhos de ódio, “se meu pai estivesse vivo, não estaríamos assim...”. Mal sabia ele que, em Vera Cruz, essa situação só acontecia no Amazonas, pois era um estado aonde os políticos do mundo todo se reunia e, portanto, precisavam manter a aparência de estado modelo e evitando, por exemplo, trabalho escravo e exploração de menores.

Petruz acaricia seu braço esquerdo com o dorso da mão direita. A dor estava voltando. Ele deduz que é por causa do frio e usa uma parte menos esburacada do cobertor para cobrir o braço. Nisso, ele volta a olhar entristecido para as pessoas, ainda ocupadas e a correr, e percebe uma garotinha em meio à multidão. Ao que parecia, ela estava tentando pedir uma informação, mas ninguém sequer lhe dava uma olhada ou uma palavra do tipo “agora não, estou atrasado”, ou “tenho pressa...” nada, nada.

Aquela área era uma região comercial bastante movimentada, com lojas pequenas, médias e enormes, aglomeradas em galerias ou edifícios, todos afastados um do outro. Também tinha muitas empresas e agências de empregos para os mais variados tipos de trabalho e uma variada cadeia de hotéis e casas de pernoites para os visitantes. Por causa disso, as pessoas andam de modo ligeiro e desrespeitoso, quase sempre com seus celulares ao pé do ouvido ou suas sacolas grandes e cheias de produtos, como se nada mais importasse a eles naquele momento. “Brasil, Brasil... em que ponto do decorrer do tempo ficamos tão mal educados?”. Petruz tenta, mas não consegue descobrir a resposta para essa pergunta.

Num dado momento, um homem obeso, de bigodes finos e trajando um terno barato, passava por ali. Com uma cara irritada, o suor escorrendo na testa e balançando de lado à lado, ele move-se um pouco mais lentamente que os demais, devido ao seu tamanho e proporção. Exatamente por isso, aquela moça que tanto lutava por atenção, achou apropriado pedir informação a ele enquanto andava. Mas ao se aproximar e tentar chama-lhe a atenção com palavras gentis, o grande homem pousa sua mão gorda e pesada no ombro magro da mocinha, aperta com força e a joga de lado com brutalidade, resmungando.

─ Sai da frente, porra! Não enche o saco!

A mocinha cai de cócoras no chão, protegendo uma garrafa plástica que segurava em sua mão esquerda e usando um bastão na outra para manter o equilíbrio e não ir de cara ao solo. E ainda recebe ofensas e xingamentos vindos do gordo mal educado, que não a viu gemer de dor ou se machucar tanto quanto ele desejou que acontecesse. Em seguida, a moça levanta-se sem pressa, curva-se de um modo respeitoso para o homem obeso e lhe pede desculpas.

─ Que cara grosso – diz Petruz baixinho, entendendo que a mocinha se desculpava, quando deveria ser o homem à fazê-lo.

A moça limpa a sujeira da larga calça que usava e dá uma olhada ao redor. É aí que ela percebe, mais ao fundo do parque, uma estátua do deus nórdico Loki. A moça não o conhecia, porém isso não importava, pois o que lhe chamou a atenção mesmo foi perceber, aos pés da estátua e olhando para ela, um garoto que, julgando pelas vestimentas, deveria ser um mendigo.

Petruz, que por sua vez estudava disfarçadamente os berrantes trajes da moça, nota que, mesmo à distância, ela também olhava para ele, então desvia o rosto, envergonhado por ter sido pego encarando-a, e volta a ficar com seus pensamentos. A fome aperta mais uma vez e Petruz fecha os olhos. Como alguém que vivia na fartura agora vive na miséria? Era castigo divino? Mesmo sendo um judeu não praticante, era isso que Petruz estava sendo forçado a acreditar. Castigo pelos seus anos de egoísmo e desinteresse à dificuldade da vida alheia, coisa que, para um judeu, era um crime contra os ensinamentos do criador. Seu pai lhe falava tanto disso que ele agora não via outra explicação mais racional para seu infortúnio. Talvez por isso é que seu pai era tão amoroso com os pobres. Não por medo do criador, mas por honra à sua religião, já que o poder que lhe foi investido como político lhe dava mais condições de ajudar as pessoas.

Ainda de olhos fechados, Petruz aperta as pálpebras e sente a dor de seu braço queimar. Ele agarra o braço com mais força e toma uma decisão. Precisava acabar com a fome. Precisava acabar com aquela dor. Nem que precisasse roubar. E se for para morrer, que fosse tentando num ato de sobrevivência. Sim! Morrer seria uma boa. E não seria tão difícil. Estava numa praça localizada próxima de uma avenida importante, que cruzava abaixo de uma ponte trinta metros de altura. Petruz sabia como chegar lá e não via motivos para não ir. Não tinha, afinal, mais nada a perder além de sua vida. Então ele diz baixinho e segurando as lágrimas:

─ Elohim(1)... eu não aguento mais! Vou cometer uma loucura. Se é mesmo verdade que todos merecem o seu perdão mediante penitência, então peço antecipadamente que me perdoe. E se quiser que eu desista de meu intento, por favor me...

─ Ohayou(2)! – foi a súbita palavra que, proferida por uma voz suave, retirou o garoto de seu monólogo religioso.

Petruz abre os olhos, devagar, e nota a formosa figura da exótica mocinha, inclinada bem à sua frente.

─ me envie um sinal... – ele completa sua oração, embasbacado.

Notas finais
Mantendo a tradição dos post-script. 1. Elohim = “Deus” em hebraico. Essa é uma das muitas maneiras de um judeu se referir à Deus, pois seu nome (chamado por eles de JHWH) não pode ser pronunciado. 2. Ohayou = Cumprimento japonês usado pela manhã que significa “Bom dia”, mas que aqui Rumiko usou à tarde, se baseando no fato de que Petruz estava de olhos fechados e ela interpretou como se estivesse dormindo. Pra finalizar gostaria de dizer que não vi um jeito de resumir a introdução desse personagem sem retirar dados importantes, por isso peço desculpas aos que acharam longa demais.