A Busca

31 Dead Man’s Chest


Vargas chegou à casa de Katou exatamente às oito e meia da noite. De frente ao portão da enorme casa, cercada por muros altos e um portão prateado muito bonito, Vargas aperta o interfone e diz seu nome para uma voz feminina que perguntou quem era o visitante. Um “click” é ouvido no portão, indicando que agora estava destrancado. Antes de Vargas entrar, ele vê o seu amigo japonês sair na porta de casa e se aproximar. Usava uma calça social preta, de linho, camisa branca e, por cima, um roupão ao estilo japonês, também preto.

─ Detetive – diz Katou, inclinando-se numa mesura nipônica.

Vargas espera ele terminar e estende a mão, retrucando enquanto seu companheiro lhe cumprimenta:

─ Senhor Kato.

─ Vamos entrando, por favor.

Os dois seguem um estreito caminho até a porta, onde Vargas é convidado a entrar por uma mulher, também japonesa, esposa de Katou, que ele só conhecia por telefone e fotografias. Fabiana Katou era seu nome, uma sansei, neta de japoneses, que morava em Vera Cruz desde os tempos em que ele ainda era conhecido por Brasil. Após rápidos cumprimentos, ela informa que o jantar já está servido e os leva até a luxuosa sala de refeições.

Momentos depois, sentados à mesa e experimentando um bom vinho, seguiu-se um silêncio profissional entre ambos até que a esposa de Katou serviu os pratos. Não comeram comida italiana, como brincou Katou ao telefone. Mas também não se serviram da gastronomia japonesa. Vargas odiava comida japonesa e Katou sabia disso. O prato foi pato assado com batatas cozidas e carne moída, com muitas verduras e legumes. O tempero, embora fosse ao estilo das terras do sol nascente, estava ótimo, mas Vargas sentiu falta de sal.

─ O que descobriu? – pergunta Vargas subitamente, em meio ao jantar e durante um gole na taça de vinho.

─ Tenho algumas suspeitas, senhor. Mas como deve saber, devemos debate-las juntos.

─ Estou ansioso para isto.

─ Até porque... – Katou faz um suspense, mastigando a comida da boca por um momento antes de engolir e expressar com um sorriso – ...tenho um convidado muito especial que pode ajudar. Ele está nesse exato momento tirando suas conclusões finais à respeito das fotos.

Durante os momentos seguintes Katou tentou levar uma conversa comum de dois amigos que se conheceram por acaso. Nesse tipo de conversa, Vargas também não era muito bom, então limitou-se a concordar ou corrigir seu colega de trabalho.

Assim que terminam a sobremesa, Katou chama o detetive para ir até sua biblioteca, onde as fotos e o misterioso convidado aguardavam. Vargas espera a mulher se levantar e começar a recolher os pratos, para também se erguer e dizer:

─ O jantar estava delicioso, senhora Katou. Obrigado.

A mulher faz um aceno com a cabeça, satisfeita, e Emiliano sorri ao notar que o detetive usou de forma absolutamente certa o leve fonema do nome “Katou”. Percebeu ali, que ele falava seu nome errado de propósito, com certeza para aborrecê-lo.

A biblioteca de Katou situava-se numa sala grande, mas era escassa em livros. O que mais se notava eram revistas espalhadas sem ordem pelas prateleiras, livros escolares, e alguns livros grossos, relacionados à faculdade em que Katou finalmente obtivera tempo e dinheiro para se dedicar.

Ao fundo, perto das prateleiras de livros, encontravam-se dois sofás de três lugares e duas poltronas. E em uma dessas poltronas, um vulto levantava-se com dificuldade e agora caminhava em direção aos dois recém-chegados. Era um homem bem velho, de feições asiáticas, cabelos rasos e brancos. Usava uma roupa totalmente oriental, com sandálias de palha e meias brancas grossas, calças prateadas, uma blusa nipônica azul escuro, muito bonita e um uma espécie de sobretudo negro reluzente, com enfeites redondos, brancos e macios, um em cada lapela, sendo ligados por um barbante prateado. O velho homem parecia um lorde das épocas medievais do Japão. Andava arrastado, encurvado e com dificuldade, e ao se aproximar o suficiente, Vargas viu seu rosto, com bolsas grandes debaixo dos olhos e rugas por todo o rosto.

O velho inclina-se, bem devagar e Katou o apresenta.

─ Senhor Vargas, esse é meu avô, Goro Katou.

─ Senhor Goro – diz Vargas, também se inclinando – é uma honra finalmente conhece-lo. Seu neto disse que aprendeu tudo com o senhor.

─ Ele não fala português – avisa Emiliano – Não muito. Está estudando, mas não tem mais idade para absorver muita coisa.

─ Entendo. Então a conversa vai se dar em japonês?

─ Não se preocupe – Katou ri por um momento – Vou traduzir tudo o que vocês disserem um pro outro. Além do mais, meu avô só não forma frases em português, mas consegue entender uma coisa ou outra.

─ Certo. Maravilha.

─ Vamos nos sentar. Temos muito que conversar.

Katou apoia seu avô, levando-o até a mesa ao centro da sala, onde o ajuda a sentar-se. Depois senta-se ao lado dele enquanto Vargas se acomoda pouco a frente. O velho japonês coloca seus óculos demoradamente enquanto Katou pega as fotos sobre a mesa e as ajeita, separando cada caso e colocando-as espalhadas sobre o móvel.

─ Meu avô veio passar duas semanas comigo – explica Katou – Por uma incrível coincidência, ele vai embora amanhã. Então aproveitei seu último dia por aqui, expliquei à ele suas suspeitas e pedi que ele desse uma olhada.

─ E o que ele descobriu?

─ Também estou curioso – Katou faz um sorriso maroto – queria que ouvíssemos juntos o que meu avô tem a dizer, por isso pedi para ele não me contar nada até o senhor chegar.

Vargas mostra um sorriso no canto dos lábios. Estava olhando para um homem formado, estudado, pai de família, que trabalhava como inspetor numa organização que só pegava casos cabeludos e onde muitos homens sérios sonham em trabalhar. E mesmo assim, ainda não tinha perdido seu senso de moleque. Isso era compreensível. Vargas já participou de casos em que ele viu a morte de perto. Foi num desses casos que ele sofreu o acidente que o deixou manco para o resto da vida. Mas antes de seu primeiro caso assim, ele também vivia incrédulo, achando que todos os crimes que pegasse pudessem ser resolvidos da noite para o dia. O “Bem sempre vence o Mal”, era a filosofia de moleque dele.

─ Pois então – Vargas estende a mão, dando permissão para Katou fazer ao seu avô as perguntas que achar necessário.

Katou faz a primeira pergunta o seu avô, e ele responde poucos segundos depois, sempre de olhos baixos, voltados para a mesa. Assim que termina, Katou volta-se para Vargas:

─ Eu lhe perguntei se ele achou alguma semelhança nas fotos. E ele disse que sim. Que a maior semelhança nas fotos é que todos os golpes, com exceção de um, havia sido feitos por uma mesma arma.

─ Com exceção de um? Qual deles?

Katou pega uma das fotos sobre a mesa e entrega para o detetive, que a observa atentamente. Vargas reparou que, apesar de ser um corte comum para quem não tem a habilidade perceptiva de Emiliano e muito menos a de Goro, era possível notar uma leve diferença na ferida. Parecia que foi feita de modo desajeitado ou amador. Ficou claro para Vargas que foi ali que a espada finalmente se quebrou, imaginando que aquele homem foi o último a ser morto e, naquele momento, a arma não mais resistiu. Daí o fato dele ter achado no local os pedaços que formavam a parte frontal da arma e não a parte do punho.

Ele expõe claramente sua teoria, e Katou traduz para o idioma japonês, direcionando ao seu avô em forma de pergunta. O longevo homem, no entanto, balança a cabeça lentamente, negando a suposição do detetive e apresentando outra teoria, que Vargas teve de esperar Emiliano traduzir:

─ Meu avô disse que há uma coisa muito estranha no caso. E explicou que os cortes são de armas que deveriam ser parecidas, mas que uma delas tinha uma particularidade incomum.

─ Não entendi.

─ Os golpes foram feitos por uma mesma arma. Um shikomizue. Mas foram dois shikomizues diferentes.

─ Um shiko...? O que é isso?

─ É uma espada, tipicamente japonesa, que se assemelha à um bastão, cajado ou guarda chuva. Era usado para ataques surpresa, por causa de sua forma disfarçada e da facilidade de ser portada.

─ Certo, mas o que tem de tão estranho nisso?

─ Meu avô disse que um shikomizue é uma espada que se quebra com facilidade. Por isso, para conseguir esses cortes... – Katou pega as outras fotos do quádruplo homicídio e empurra para Vargas – ...e conseguir cortar de um único golpe o braço grosso de um homem forte, a pessoa precisa ter desenvolvido uma técnica muito boa, a fim de fortalecer o frágil e quebradiço aço de uma espada assim.

─ Achei que toda espada fosse capaz disso. Até um machado tem esse poder.

─ Um shikomizue, além de frágil, é também muito leve. Por isso, diferente de um machado, o peso de tal espada não ajuda muito na hora da incisão. Os cortes feitos por um shikomizue precisam ser realizados do mesmo jeito que se corta com uma faca de lâmina reta. É preciso “deslizar” sobre a superfície para se provocar um corte mais profundo e eficaz. Daí o porquê das chamadas Katanas serem as preferidas pelos assassinos, devido ao seu formato curvo.

Vargas pareceu “se perder” por um momento. Explicar o funcionamento de um revólver, com seus tambores, cão, gatilho e coronha, era bem mais fácil de entender do que uma arma que lembrava a irmã maior de uma faca de cozinha. Para o raciocínio ocidental e limitado de Vargas, a espada se resumia à duas partes; a parte que corta e que se empunha. Desistindo de processar tudo o que ouviu, Vargas encaixa outra pergunta:

─ E quanto ao prefeito? O que seu avô tem a dizer sobre o caso de Rudolf?

─ Bom, Rudolf foi morto por uma katana fajuta.

─ Uma espada japonesa, você quer dizer?

─ Tecnicamente, “espada japonesa” é um termo vago, já que nós damos nomes à todos os modelos de espada. A katana usada em Rudolf era falsa, embora que letal o bastante para trespassar seu coração com tamanha força que, mesmo que o prefeito não tivesse morrido na hora, ele não sobreviveria.

─ Certo, certo. Mas e os soldados? Eles foram feridos por uma... – Vargas gira a mão no ar, dando passagem para a intervenção de Emiliano.

─ Katana! – responde o técnico pericial – Realmente, não creio que foram feridos por uma katana fajuta. Mesmo porque, se acaso forem os mesmos, e se esse assassino é tão bom, ele não teria deixado três soldados vivos.

─ Porque diz isso?

─ A katana, mesmo a fajuta fabricada aqui em Vera Cruz e nos Estados Unidos, é desenhada com uma curvatura que auxilia no corte e, consequentemente, no assassinato de pessoas. Uma shikomizue é uma espada reta, como senhor já deve saber. E sendo uma espada reta, ela não é muito boa para cortes semicirculares, que foi o caso dos golpes recebidos pelos soldados de Rudolf. Para se matar alguém com um shikomizue o senhor tem que pensar nela como uma faca grande. E cortar o adversário usando a arma como tal.

─ Enfiando-a em pontos vitais.

─ Exatamente!

─ E o que o seu avô acha disso?

─ Provavelmente a mesma coisa, senhor. Eu já disse, foi ele quem me ensinou tudo, lembra?

─ Lembro sim. Agora, fale pra ele tudo o que você me disse, e diga que eu perguntei o que ele acha.

Katou não entende a falta de confiança em suas palavras, mas leva a ordem adiante e passa um tempo conversando com seu avô numa língua que Vargas se irritava só pelo fato de não entender uma palavra sequer. O velho apenas acenava com a cabeça, com seus olhos miúdos e a boca semi aberta, parecia concordar com cada frase terminada de Emiliano. Mas quando foi a vez de Goro falar, o rosto de Emiliano foi mudando de um tom convencido para outro meio assustado e surpreso. Assim que o velho terminou, ele olhou para Vargas, que o esperava traduzir o que foi dito.

─ Meu avô disse... – Katou interrompe-se por um momento e recomeça – Meu avô não tem dúvidas de que esses soldados do prefeito e os criminosos do motel foram feridos pela mesma pessoa.

Vargas abre mais os olhos, lentamente. Deixou transparecer a impressão de que já sabia daquela informação, contudo, esperava que estivesse errado. O detetive coloca as mãos sobre os joelhos e inclina-se mais para perto da mesa. Os olhos sérios e atenciosos, completamente focados no idoso.

─ Explique melhor – ele diz.

o\°//////////o

Japão.

Em outro lugar de Hokkaido, numa das montanhas do Grupo Vulcânico de Tokachi, se localiza o portentoso império Gen-Bu, formado pela mansão de Gengetsu, suas pequenas casas e seus estabelecimentos, espalhadas adentro de seus muros altos e, claro, pelo seu impenetrável dojo de artes marciais que, outrora, era constantemente visitado, ora por guerreiros de outros povoados e escolas, querendo provar sua força, ora por pessoas que queriam se aliar ao exército de Burashi.

Em seu interior, no Kamiza do dojo, ou seja, no local de maior honraria da sala principal do Gen-Bu, o novo líder, Nezuo, mais uma vez contemplava com apreensão a espada de Izanami, uma bela e adornada nodachi, dependurada na parte mais alta da parede atrás do assento central.

O objeto ostentava beleza para os colecionadores e admiradores de uma espada bem feita, exigia respeito aos que sabiam se portar quando estando em um kamiza de qualquer dojo ou castelo, e tinha o poder de fazer prostrar-se ou ao menos mesurar a cabeça diante dela àqueles que sabiam de sua importância religiosa. Para Nezuo, ela não lhe sugava tanta admiração e nem lhe fazia desviar os olhos em respeito. No entanto, enviava uma sensação nova e inquietante, que podia ser resumida em uma incômoda frase: “Vocês vão se arrepender...”.

Desde que invadiu a Himitsu, a sala secreta que se localiza nos subterrâneos do Gen-Bu, Nezuo ouvia seu subconsciente dizer-lhe essa frase todas as vezes que se dava conta de que agora ele era o novo dai-sensei. Atribuiu essas palavras à Amaterasu a partir do momento em que viu, na Himitsu, a estátua da deusa xintoísta em tamanho real. E embora não fosse um religioso fanático, era sabido que seu mestre tinha certo respeito e grande admiração pela deusa xintoísta do sol. "Mas o que tinha a ver um com o outro?", ele se perguntava. Izanami, que tirando o fato de ser esposa de Izanagi e este, por sua vez, ter criado Amaterasu ao lavar seu olho esquerdo após seu retorno do Yomi, o mundo dos mortos, em mais nada tinha a ver com a admiração de Gengetsu pela deusa solar. Então não era seu subconsciente que o feria. Era outra coisa mais... sobrenatural.

─ Um espectro! – murmura Nezuo abaixando os olhos – Só pode ser isso.

─ Teichou! – A voz súbita e esbaforida acertou-lhe o coração como uma faca.

Atualmente no Gen-Bu, somente o seu ichigou tinha permissão de lhe reportar qualquer coisa. Também era o último dos soldados que possuía essa capacidade de se aproximar sem fazer barulho. Nezuo, contudo, manteve o sangue frio e não demonstrou que havia se assustado.

─ Sim, Klaus – ele replica sem se virar.

─ Recebemos a carga enviada por Rumiko. O senhor, como sendo o único membro do arco dourado presente no momento, precisa ir lá para receber.

─ A carga de Rumiko? – Nezuo passa os cinco próximos segundos em total imersão de confusos pensamentos, olhando para Klaus, até que arregala os olhos num espanto – O corpo de Gengetsu!

Ao lado de fora da mansão, dois japoneses vestidos com roupas luxuosas, porém fúnebres, esperavam ao lado de um enorme carro negro. Dentro do veículo, outros três homens aguardavam nos bancos traseiros e, em sua carroceria, trazia um grande caixote de madeira, etiquetado com vários adesivos que indicavam o lugar em que o objeto deveria ser entregue. Um dos homens ao lado de fora do carro segurava uma prancheta e um envelope nas mãos. Constantemente olhava para o relógio no pulso.

Nezuo levou mais de dez minutos até aparecer no portão de saída dos muros principais. Após uma rápida conversa e desviando as ladainhas de sempre, como as lamentações e os pêsames considerados pelo capitão como pura falsidade, ele ordena que o carro entre e deixe a “encomenda” no terreno central, diante da entrada principal do dojo.

O veículo transita até o local indicado, os cinco homens descem e começam a descarregar o caixote. Assim que realizam o ato, o responsável do grupo entrega um documento para que Nezuo assinasse, comprovando o recebimento e, em seguida, lhe entrega uma carta de recomendação, que vinha acompanhada com a entrega. Depois se despedem e saem simplesmente, sem as devidas considerações finais pelo defunto.

Nezuo olha ao redor e vê que apenas quatro de todos os soldados e funcionários restantes do Gen-Bu estavam a par da chegada do corpo de seu mestre.

Então, puxa seu ichigou pelo ombro e diz para ele repassar aos presentes que era para espalhar, somente no dia seguinte, que o corpo de Gengetsu chegou e que foi enterrado com honraria máxima num lugar cujo qual deveria permanecer em segredo, para homenagear seu nome e, por conseguinte, evitar que o túmulo fosse violado ou blasfemado. O lugar de seu túmulo não deveria representar apenas um ponto num único lugar da nação, mas sim uma enorme mancha em todo o país, tal qual foram e ainda são os túmulos secretos de Vlad III ou Genghis Khan.

Klaus retransmite a mensagem e os homens concordam com a cabeça.

─ Agora podem ir – diz Klaus assim que os homens terminam a mesura.

Ao ficarem novamente a sós, Nezuo abre o envelope e encontra apenas um bilhete, que ele lê de cima a baixo por duas vezes.

─ Uma carta de Rumiko. Ela diz para levarmos incontinenti o caixão do dai-sensei para a caverna do sussurro.

─ A caverna do sussurro?

─ A própria.

O Gen-Bu, por escolha pessoal de seu dono, foi construído no entremeio de uma montanha de alto porte, o Monte Biei, com seus mais de 6.700 pés de elevação. Durante a subida havia várias bifurcações e caminhos, muitos deles feitos e refeitos pelos desastres naturais que abalaram o Japão durante o Fim do Mundo, e que não levavam à lugar algum, além de paredes rochosas e algumas cavernas rasas. A mais profunda delas, poucas centenas de metros abaixo do nível onde situava-se o Gen-Bu, era conhecida por caverna do sussurro. Um lugar escuro, o ar respirado tinha cheiro de rocha molhada, a temperatura era sempre baixa, mesmo em tempo quentes, e o silêncio só era quebrado pelo som das águas que desciam pelos cantos das paredes. Água que, por algum fenômeno esplendoroso da natureza, era jogada ao topo da montanha, provinda de um lençol aquático que se alimentava no mar de Okhotsk e cruzava os subterrâneos do morro, produzindo um som baixo, parecido com um silvo. Daí seu nome.

Nessa caverna fora construído, ou melhor dizendo, fora adaptada uma sala que era usada para meditação, exercícios psicológicos e para treinamento espiritual, relacionado à união da alma do esgrimista com a essência de sua espada. Era a parte mais profunda, difícil e demorada do aprendizado de Kenjutsu e, por isso, também era a menos praticada do ensinamento. Não foi de se estranhar que, aos poucos, todos os interessados nesse tipo de treinamento foram desistindo até que, no fim, a sala ficou sempre livre e, portanto, Gengetsu teve a ideia de reservá-la apenas para ele e sua pupila.

─ E porque ela quer que o corpo do dai-sensei seja colocado naquela caverna?

─ É o melhor a fazer mesmo. A caverna do sussurro é fria e a umidade é constante, porém é ventilada, com quedas finas de água límpida escorrendo pelas paredes. Se existe um lugar aonde um corpo possa ser conservado antes de ser enterrado é lá.

─ Conservar para quê? Ela ficou em Vera Cruz, senhor. Não vai chegar a tempo do funeral. Quando o senhor pretende enterrá-lo?

Nezuo abaixa-se, próximo ao caixote, com a carta de recomendação de Rumiko nas mãos. Não havia nada de estranho no caixote. Nada de suspeito ou chamativo. O 1º capitão, e agora senhor do Gen-Bu, pensa por muito tempo antes de tomar uma drástica decisão.

Ele diz à Klaus para ir até os fundos do dojo, onde ficavam os estábulos e algumas cabanas que eram usadas para guardar ferramentas e utensílios para variados tipos de serviços e, com os olhos serrados, pede para seu ichigou trazer de um dos depósitos, um galão de gasolina.

─ Um galão... de gasolina? O senhor vai...?

─ Faça já o que eu disse soldado. Traga também alguma coisa para abrir esse caixote.

Klaus inclina-se numa mesura e se vai, sendo acompanhado pelos olhos furiosos de seu capitão. O ichigou sentiu certa vivacidade na ordem de seu mestre. Sempre que isso acontecia, sabia ele, não adiantava argumentar.

Assim que seu ichigou some de sua visão, Nezuo volta o olhar para o caixote enorme, depositado sobre o chão de pedra do terreno em frente ao Dojo. Dentro do caixote, estava um féretro com o corpo do homem que foi seu tutor, seu mestre, muitas vezes seu amigo e, se fosse um soldado mais sentimental, poderia até dizer que, por algumas vezes, foi até um pai. Mas Gengetsu agora estava morto e para Nezuo, mortos são todos iguais.

Entretanto, dali à um ano, Gengetsu seria ressuscitado. Isso dependia de certos fatores, que Nezuo acreditava impossíveis de serem realizados. Como o fato de Rumiko encontrar o lendário Oz, por exemplo. Mas mesmo sendo inacreditável, mesmo sendo um conto juvenil, havia muito adulto que passava boa parte da vida e gastava uma considerável quantia monetária em busca desse ser mitológico.

E é por temor de que Rumiko obtenha sucesso em sua missão e refletindo sobre a ideia de Mozu, a de dar um fim aos restos mortais de Gengetsu, que Nezuo decidiu se livrar do cadáver. “Sem corpo não há como ressuscitar. A não ser que volte como um fantasma”.

“Vocês vão se arrepender” – seu subconsciente o aborrece uma derradeira vez, assim que ele vê seu ichigou retornando com um galão de gasolina e um machado de cabo longo. Nezuo pega o galão e faz um gesto para que seu soldado número um comece a quebrar e partir o caixote que protegia o féretro.

O trabalho é feito em 15 minutos, o grande caixote de madeira vermelha é completamente aberto e destruído e um caixão de tampa completamente vedada, de cores marrom e bege, bem simples e barato, fica à vista dos dois homens.

─ Não que o morto se importe – observa Klaus – mas considerando o defunto que está aí dentro, esse caixão é de uma tremenda porcaria. Rumiko-Teichou deveria ter mais consideração.

─ Rumiko não tem a intenção de deixa-lo aí por muito tempo.

─ O que quer dizer, senhor?

Nezuo olha para seu ichigou e se recorda que ninguém além dele e Mozu ficaram sabendo da loucura que Rumiko pretendia fazer.

─ Esquece! – Nezuo destampa o galão – Vamos acabar logo com isso. Abra o esquife!

─ Abrir?

─ Eu quero ver o rosto de meu mestre uma última vez.

─ Entendo...

Pegando o machado novamente, Klaus arrebentou os quatro cadeados de aço do singelo esquife. Terminado o serviço, ele coloca o machado no chão e inclina-se em um dos lados do caixão, que ficava de frente para o seu capitão.

─ Pronto, senhor?

Nezuo respira fundo, subindo e descendo os ombros lentamente. E cerrando os punhos, ele assente:

─ Sim. Pode abrir.