A Busca

30 Citando Megumi


Notas iniciais
Um breve resumo da convivência de Rumiko ao lado de Megumi

Era uma bela manhã de primavera quando aquela inusitada relação se iniciou. As árvores de cerejeira ao redor da hospedaria Nibutani estavam lindas, assim como todos os anos. E além de proporcionar beleza e trazer paz de espírito a qualquer apreciador que soubesse e quisesse apenas contemplá-las durante algum tempo de descanso, elas também eram convidativas, pois ficavam no interior do quintal murado e de frente para os belos portões da entrada central. Não era incomum, por exemplo, que pintores de Ukiyo-e e escritores de Haicai, quando apareciam na hospedaria durante o dia, apreciavam o ato de serem servidos ali fora, para se inspirarem enquanto observavam as horas passar.

Adentro, no enorme salão principal da hospedaria, duas das moças contratadas como gueixas há pouco mais de um ano, já estavam de pé e limpavam o piso do lugar com a energia habitual de toda a jovem, conversando, rindo, cantando. Enquanto que Megumi, a senhoria da casa, ainda estava em seu quarto, esparramada sobre a cama. A cabeça doía levemente e um cansaço a dominava. Sabia que precisava se levantar, e isso era uma coisa que no momento lhe exigiria um tremendo esforço. Ao longe, ela ouvia as meninas rirem escandalosamente antes de se darem conta de que sua chefa ainda dormia, então rapidamente tentavam se comportar. O barulho longínquo das moças se divertindo enquanto limpavam a casa não incomodava Megumi. Ela, no entanto, sentia-se desconfortável ao ficar na cama enquanto sabia que já tinha gente de pé, fazendo o trabalho que normalmente era dela.

Abrindo apenas um dos olhos e focalizando um relógio na parede, convenceu-se de que ainda era muito cedo para sair da cama e usou isso como desculpa para cochilar mais uns trinta minutos, jogando a grossa fronha sobre o rosto.

Em um antecipado e ignorante ponto de vista, acreditava-se que a dona da hospedaria sempre amanhecia cansada porque, se levado em consideração as suas qualidades, pensava-se que ela era a mais requisitada da casa. Megumi era de longe a mais inteligente, educada e instruída da hospedaria. Alguns ainda diziam que era a mais bela, embora isso não fosse totalmente verdade e até mesmo ela discordasse disso, já que competia com moças mais novas e esbeltas. Mas havia algo, realmente, que dentro dos limites da hospedaria, ela era incomparável. Megumi era a única a ter conhecimentos na arte e nos segredos da esgrima, tendo inclusive o respeito de outras praticantes de Kendô da região, que vez ou outra apareciam ali para pedir conselhos ou lhe propor um desafio amigável. Isso acontecia por diversos motivos que provinham desde a inveja à admiração, mas em primeiro lugar, era porque elas sabiam que quem ensinava Megumi era ninguém menos que Gengetsu, o senhor do castelo Gen-Bu, cujo poderio crescia a cada dia. E a fama de um guerreiro, por melhor que ele seja, sempre permanece sob a sombra de seu mestre.

Esse conhecimento marcial e esse respeito adquirido por outras mulheres atraía clientes selecionados, cujas preferencias também eram voltadas à esse assunto. Havia poucos homens assim, mas eram uma parte importante da gama total de clientes, o que realmente fazia de Megumi a companhia mais cobiçada da casa. Contudo, não era todo pobre coitado ou mesmo um micro empresário qualquer que tinha a honra de passar a noite em companhia da proprietária da estalagem. Portanto o motivo de seu enorme cansaço não era esse.

O que acontecia era que, em todas as noites, Megumi sentia a necessidade de fazer companhia para as suas meninas que ainda estavam sozinhas, aguardando alguém ou simplesmente passando o tempo. E assim ficava, até que o último dos clientes fosse embora e a última das moças voltasse para sua casa em segurança, ou decidisse dormir no local. E na noite passada em particular, a casa estava fervilhando, devido um acordo financeiro sobre algo que não lhe dizia respeito, mas que também não lhe ofereceria perigo, que foi fechado entre homens da alta classe. Eles decidiram comemorar ali, bebendo, jogando e conversando, alguns com suas esposas ou amigas, outros, em sua maioria, sozinhos. Foi uma noite lucrativa. Foi uma noite cansativa. E agora Megumi, agradecida por suas meninas terem dado conta de oferecer atenção e companhia à todos, se via no direito de homenageá-las, mas antes, precisava descansar.

As duas moças no salão conversavam justamente a respeito da noite anterior, que percorreu metade da madrugada. Falavam dos homens mais jovens, dos mais bonitos e dos estrangeiros, americanos em sua maioria, que fizeram parte do acordo entre uma empresa japonesa e outra estadunidense. Súbito, o pequeno sino na porta ao lado de fora do salão, tilinta suavemente, avisando que alguém se dirigia às portas do salão principal. As moças se aprumam e observam boquiabertas, enquanto que pelas portas centrais, vem surgindo a figura onipotente de Gengetsu. Uma delas conseguiu sair do transe que o homem impunha e correu para os fundos da hospedaria. Dois curtos lances de escada depois e ela chega ao andar superior, onde ficava o quarto da dona do lugar.

─ Megumi-san, Megumi-san... – gritava a moça, esbaforida.

A mulher resmunga alguma coisa e se revira na cama, envolvendo a cabeça nos braços, enquanto a moça abre a porta corrediça com pressa e nervosismo. Ela explica o motivo de estar ali e Megumi responde calmamente que já vai descer.

─ Certo! – replica a moça, saindo às pressas do quarto para dar o recado ao ilustre visitante.

O desgaste da noite anterior foi tanto, que Megumi se jogou na cama ainda com as roupas que usava na noite anterior, retirando apenas os longos e pesados casacos vermelhos que lhe cobriam a parte mais exterior do corpo. Por isso não precisou se vestir muito para sair do quarto. O rosto também estava pesadamente maquiado, embora que meio borrado por causa das poucas horas de sono. Mas ao invés de retocar a maquiagem, ela simplesmente lavou o rosto com bastante água morna e retirou todo o cosmético da face. Também soltou os longos cabelos negros, desfez as pequenas tranças que lhe desciam pelos lados da face e ajeitou-os com as mãos.

Com a cara sonolenta, os roupões brancos, levemente escorridos em seu corpo esguio e os cabelos negros, soltos e sem nenhum adorno, ela se olhou no espelho e sentiu-se como a própria personificação de um Onryō, um fantasma vingativo, daqueles tipos muito vistos atualmente nos filmes de terror asiático.

Gengetsu estava em pé, ainda próximo da porta de saída, estático e sério, como sempre se apresentara onde quer que fosse. Usava roupas asiáticas, tradicionais de um samurai e mantinha as mãos à frente dp corpo, apoiadas em seu obi. Não fez nenhum gesto nem disse algo a respeito da aparência da mulher que estava acostumado a ver sempre carregada de maquilagem e trajada como uma esposa de imperador chinês em festas de gala.

─ Meu senhor – ela diz inclinando-se, com as mãos juntas e abaixadas, na base da cintura. Os cabelos soltos escorregaram das costas e caíram-lhe pelos ombros, de modo encantador – perdoe minha aparência, mas não quis deixa-lo esperando até me aprontar. Se me der mais dez minutos...

─ Preciso de um favor – ele diz, interrompendo as escusas de Megumi.

Gengetsu esperou a mulher se aprumar, depois girou e inclinou o corpo, como se fosse pegar alguma coisa que se escondia no chão à suas costas. Logo, voltou-se para frente, erguendo e exibindo um corpinho miúdo, de uma menina aparentemente ocidental. O homem a segurava pelas golas das roupas, como se fosse uma boneca de pano. O braço reto e estendido à altura dos ombros, somado ao tamanho do corpo de Gengetsu, deixava a menina à uma distância considerável do chão. Mesmo assim, ele a solta sem nenhum consentimento. A menina cai, dobra um dos joelhos e apoia-se no chão com uma das mãos para amortecer a queda, depois ergue-se e cruza os braços, virando o rosto de lado, visivelmente emburrada.

─ Quero que me ajude na educação dessa macaquinha.

─ Senhor...? – a mulher observa a menina, que evitava olhar diretamente para ela – Meu senhor, não deve chamar uma pequena dama de macaquinha.

─ Pra mim, quem morde a mão de alguém quando este lhe aponta os dedos são cães e macacos.

─ Ela... mordeu alguém? Quem?

─ Rudan.

─ Ru... Rudan-san? – Megumi ri sem querer – Humm, já gostei dela. Rudan-san é um... não sei como dizer isso sem ser rude.

─ É um idiota sem dúvida.

Megumi faz um sim com a cabeça. Gengetsu continua:

─ Mesmo assim. O comportamento dessa macaquinha foi inaceitável e é preciso poli-la.

─ Claro... – Megumi ajoelha-se, ficando de frente para a menina – Como é seu nome, gracinha?

Toda a conversa até ali havia se dado em japonês. E assim que Megumi direciona suas atenções para a pequena garota, Gengetsu lhe avisa.

─ Ela não fala japonês. Está aprendendo, mas ainda não entende muita coisa. E vai entender muito menos você, com esse seu sotaque de Aizu.

─ Oh? Mas então...

─ Ela fala português – diz Gengetsu em japonês, depois troca para o idioma brasileiro – Como você e eu.

─ Hum. Então ela é de Portugal?

─ De Vera Cruz.

─ Do Brasil? – Megumi pareceu incrédula.

A cara de Rumiko não negava que ela era estrangeira, mas a pele rosada, os cabelos lisos e os olhos grandes não combinavam com o que Megumi sabia sobre o povo brasileiro. Isso, claro, tinha uma explicação lógica. Ao se falar em Brasil, tudo o que ela sabia, tudo o que via em sua mente, era que aprendeu nos filmes e revistas de turismo. Os costumes da Bahia, os cenários do Pão de Açúcar, a imagem do Cristo Redentor, as belas e bronzeadas moças das praias do Rio de Janeiro ou das praias de Santos. As lindas e voluptuosas negras e mulatas das escolas de samba em épocas de carnaval. De qualquer forma, foi por uma intensa vontade de ver isso de perto algum dia e de entender o idioma que a fascinava, inclusive as letras das músicas cantadas nos desfiles, que Megumi se interessou pelo país e pela língua que lá era falada.

─ Hum, mas fácil ainda... – Megumi também troca o idioma – consegue me entender agora?

Os olhos da menina mudam o brilho. Sua atenção também pareceu afiar e ela balança a cabeça afirmando, mas ainda não volta a face para sua futura anfitriã.

─ Que legal. – a mulher bate palmas levemente, como uma criança animada – é bom que assim eu também treino o meu português.

Megumi coloca a mão no rosto da menina e tenta fazê-la virar para frente. Ao conseguir o feito, ela se assusta ao ver uma vermelhidão na têmpora esquerda da menina, motivo do porque ela não encarava Megumi de frente. Gengetsu percebe que não poderia evitar falar sobre aquilo e inicia sua explicação.

─ Isso é...

Antes de terminar, a menina atropela Gengetsu e começa a falar desesperada.

─ O senhor Gengetsu ia pôr Rumiko de castigo, então Rumiko fugiu e, no caminho, tropeçou e caiu de cara numa pedra. Foi isso – a menina cobre a marca com uma das mãos – Não é nada de mais.

Megumi olha para Gengetsu e este dá de ombros, concordando. Era óbvio que aquilo tinha sido uma agressão e tanto. E conhecendo bem Gengetsu, Megumi não se espantaria se soubesse que ele foi o autor. Aquela provavelmente foi a punição que a menina recebeu por morder a mão de um idiota.

Mas o que espantou mais a dona da hospedaria, foi um nome dito pela moça de modo arbitrário: Rumiko. Assim como aconteceu com Nezuo, o padre Karras e todos aqueles que são próximos à Gengetsu, Megumi também faz uma face que misturava espanto e curiosidade ao ouvir esse nome pela primeira vez. Ainda olhando para o grande senhor às costas da garotinha, a mulher questiona de olhos esbugalhados.

─ Rumiko?

─ Sim. É o nome dela. O que é que tem? Não gostou?

─ Oh, não. Não é isso. Eu gosto. Mas é que...

─ Vai aceitar meu pedido?

─ Claro!

─ Vou deixa-la aos seus cuidados então. Ela ficará com você pelo fim da tarde até à noite. Isso vai te ajudar a se manter longe daqueles bêbados inconvenientes, que insistem em ter sua companhia.

─ Isso seria muito bom, senhor, mas... E na parte da manhã e início da tarde?

─ Não se preocupe quanto à isso. Rumiko tem outras atividades. Aulas de japonês, hipismo, alpinismo e natação. E Kenjutsu de segunda à sábado.

─ Kenjutsu? O senhor quer dizer... Esgrima?

─ Existe outro tipo de Kenjutsu, Megumi-sama?

Megumi abaixa a cabeça, olhando para os pés descalços da menina, que involuntariamente se mexiam incomodados com o chão frio, recém-lavado pelas moças.

─ Bom, então... – Megumi pega Rumiko nos braços e a ergue, como um grande bebê – pelo o que eu entendi, aos domingos ela será só minha?

─ Não precisa se incomodar. Ela pode passar o dia no dojo, trabalhando em alguma coisa. É lá que ela tem ficado mesmo.

─ Não e não! Se é para mim ensinar alguma coisa, eu quero que ela fique aqui.

─ Como queira – Gengetsu dá meia volta e caminha em direção à saída, parando no primeiro degrau para calçar suas tradicionais sandálias de madeira.

Ele olha de esguelha para a dupla e finaliza, de olhos raivosos e fixos em Rumiko, ainda nos braços de Megumi:

─ Comporte-se, macaquinha. E vê se aprende a ser gente.

A menina fecha os olhos de raiva, enche as bochechas rosadas e mostra a língua para Gengetsu. Apesar de ser um gesto ofensivo e comum de qualquer criança, aquilo deixou Megumi novamente assustada e de olhos esbugalhados. Ela conhecia Gengetsu há muito mais tempo que qualquer uma ali. Não chegava a ter medo dele, mas sua presença sempre a deixava tensa. E agora, depois do ato de Rumiko, ela sentiu um frio gelar sua espinha. Sabia que Gengetsu era sério, centrado e inteligente. Mas também sabia que ele tinha um pavio curto, que não era de aceitar ou fazer brincadeiras. Tanto que nunca tinha visto ninguém lhe pregar uma peça ou fazer-lhe um comentário malicioso no intuito de fazê-lo rir. Mesmo porque ninguém tinha coragem para tanto. Por isso o gesto de Rumiko, apesar de simples, deixou Megumi abobalhada. E mais abobalhada ficou ao ver que Gengetsu aceitou o ato sem demonstrar que tinha se ofendido ou se aborrecido. Ele simplesmente dá as costas e se vai.

Megumi ficou petrificada no lugar e, quando Gengetsu desapareceu totalmente, ela respirou aliviada.

─ Parece que tenho uma arma secreta nas mãos – ela diz, sorrindo para Rumiko, colocando-a de volta no chão – vamos procurar umas sandálias para você.

Daquele dia em diante, o tempo pareceu voar. Megumi e as outras mocinhas da casa se acostumaram rápido com a presença de Rumiko. Ela era receptiva, curiosa e alegre, e aprendia tudo o que lhe era ensinado sem muita dificuldade. Em pouco tempo, ela começou a servir bebidas e aperitivos para os visitantes.

Com o passar dos anos chegou, inevitavelmente, a adolescência. Rumiko não cresceu muito e não ganhou as formas majestosas das mulheres ocidentais das quais Megumi tanto admirava, mas o rostinho de menina, que estranhamente não envelheceu com o tempo, e o corpo esguio, que ficava bem com qualquer tipo de roupa, cativava alguns dos clientes mais rústicos e fechados, até os mais ricos e exigentes. Megumi até pensou em fazê-la desistir dos treinos de esgrima e se tornar uma gueixa. Rumiko, porém, já tinha uma meta a alcançar, que era se tornar uma espadachim hábil o suficiente para fazer parte do exército de Gengetsu e, assim, ficar sempre ao lado de seu senhor, tal qual Nezuo, Mozu e Yuen Shun. Sua insistência nisso era tanta, que em muitas vezes ela chegava à hospedaria com leves feridas ou arranhões provenientes dos treinos. Em ocasiões assim, todas as moças presentes e livres na casa no momento, se empenhavam em ajudar a curar e tratar de suas feridas, e lhe aconselhava a desistir. Rumiko sempre as escutava. Contudo, jamais as ouviu de fato. Adorava cada uma daquelas gueixas, mas se tornar uma jamais lhe passou pela cabeça.

Num certo dia, quando Rumiko já disputava embates sérios com outros colegas, um problema aconteceu durante as aulas de esgrima. Gengetsu a tirou das aulas de Nezuo, avisando que ela ficaria seis meses sem tocar em um shinai, a típica espada de bambu usada nos treinos. Depois a instruiu a correr em todas as manhãs de todos os dias da semana, e a colocou sob a tutela de uma nova professora, que lhe dava aulas de balé e ginástica. Megumi nunca adivinhou o porquê de uma mudança tão drástica e não queria perguntar, pois gostou de saber que, assim, Rumiko passaria mais tempo na hospedaria.

Alguns meses depois, quando Gengetsu retornou à Nibutani e levou a mocinha consigo, ele disse à Megumi que Rumiko voltaria a duelar e que, naquele dia, seu futuro seria definido. Com seis meses longe desse tipo de atividade, praticando balé em vez de esgrima, Megumi temeu pelo estado de saúde de Rumiko. E daquele dia em diante, ela achou que jamais veria a mocinha novamente. Contudo, o destino lhe surpreendeu mais uma vez, quando ela recebeu a visita de Rumiko vários meses depois, agora como um membro do exército de Gengetsu. E não no posto de um soldado, mas sim com o cargo de um capitão. Rumiko alcançou sua meta. Ficaria do lado de seu mestre para sempre, mesmo em momentos de paz, já que os soldados rasos só tinham a obrigação de ficar no Gen-Bu em tempos de crise.

Ao lado de Gengetsu, ela realizou importantes tarefas e participou de grandes feitos e, em pouco tempo, toda Hokkaido pertencia ao senhor do Gen-Bu. Agora dono de um estado inteiro e respeitado em quase todo o país, Gengetsu, enfim, anunciou o que queria fazer da vida; ser o líder do mundo. Tinha dominado e posto sob seu poder os bairros e cidades no exterior de Hokkaido, mas não tinha a intenção de derrubar o Prócer do Japão. Ele sabia que isso acarretaria num confronto direto com os Honoráveis e ninguém no planeta tem poder para peitar esses donos do mundo. Ninguém além do Leviatã. E ele seria o Leviatã, nem que para isso tivesse que fazer o que fez a vida toda. Lutar.

O único problema é que, ser o Leviatã por meios tradicionais levaria muito tempo, já que o cargo era decidido em períodos determinados e, quando enfrentava qualquer problema, era adiado em prazos anuais. Gengetsu então arquitetou um plano que, se obtivesse sucesso, lhe pouparia muito tempo. Em sua última visita à hospedaria, ele revelou o que tinha em mente para a única mulher com quem conversava sobre seus passos futuros. Ele iria para Vera Cruz. A batalha final de sua longa jornada de sangue e violência seria realizada lá. Megumi ouvia a tudo de coração apertado. Sentia algo diferente em seu senhor. Sentia que ele não estava totalmente bem, mas tinha consciência de sua posição e sabia que não poderia interferir, nem opinar. Eles passaram a noite juntos. E aquela foi a última vez que ela o viu.

A notícia de que Gengetsu foi morto chegou aos seus conhecimentos uma semana depois. “Rumiko agora ficará sozinha” – foi o primeiro pensamento que ela teve no momento da notícia. Sabia que Rumiko precisaria de ajuda e decidiu que a apoiaria no que ela precisasse. E hoje, infelizmente, lhe veio a notícia de que Rumiko também está morta.

─ E tantas coisas lhe faltaram ser ditas – diz Megumi, voltando de suas recordações, de olhos lacrimejantes.

Ela segurava em suas mãos um retrato de Rumiko, emoldurado com laterais feitas de vidro e bambu. A mocinha estava sorrindo, como sempre. Mas era um sorriso meio apagado, envergonhado. Megumi lembrava que Rumiko, acima de tudo, não gostava de ser fotografada. Lembrava-se de muita coisa sobre Rumiko, pois chegou a conhecê-la bem, como a filha que nunca teve. E tudo o que viveu ao lado daquela mocinha do retrato agora era passado, literalmente.

Súbito, a mulher se dá conta que perdeu tampo demais em seus devaneios. Ela pega um pedaço retangular de seda em uma gaveta, desce os degraus rapidamente e vai até o salão principal, onde havia deixado seus únicos clientes daquela manhã. Surpreendeu-se ao encontrar apenas Malakai.

─ O senhor Mozu...? — ela deixa a pergunta no ar.

─ Meu capitão não pôde mais esperar. Ele já foi para o carro.

─ Eu sinto muito.

─ Oh, não. Não foi culpa da senhoria. É que ele se lembrou de algo urgente e me pediu para lhe esperar. Isso é para ele?

─ Sim... – Megumi estende o quadro de Rumiko, enrolado num pedaço de seda bege – Aqui está.

─ Obrigado, dona. E isto é para a senhoria.

Malakai pega a pasta de documentos deixada por Mozu e entrega para Megumi.

─ Meu capitão disse que é para você destruir isso.

─ Está bem.

─ Destruir completamente.

─ Claro, como quiser. E por favor, me avisem quando será a cerimônia.

─ Cerimônia?

─ Sim... A cerimônia... O funeral simbólico de Gengetsu e Rumiko. É para isso que Mozu disse querer a fotografia, não é?

─ Hã? Ah, sim... claro, claro. Avisaremos sim.

─ Obrigada senhor.

─ Eu é que agradeço, dona.

Malakai sai apressado antes que Megumi lhe fizesse mais perguntas que ele não soubesse responder e se encontra com seu capitão, já dentro do carro, em frente da hospedaria. Mozu estava muito irritado e, por isso, o ichigou não disse nada. Simplesmente entrou na caminhonete, acomodou-se na direção e partiu para a estrada de terra adiante, que dava retorno para uma das muitas entradas à avenida principal.

Foi pouco mais de três quilômetros adiante que Mozu, finalmente, começa a resmungar.

─ Você viu?

─ O quê senhor?

Mozu o observa com seus olhos finos e Malakai, sabendo que ele falava do documento de Rumiko, percebeu que não adiantava fingir e confessou:

─ Sim, meu senhor. mas eu só dei uma olhadinha e...

─ E nada! Não tinha porra nenhuma escrita. Certo?

─ Sim... Que coisa, não é senhor?

─ Ougi, jutsu, kamae... estava tudo organizado, tudo especificado. E não tinha nada escrito. Sobre nenhum deles.

Mozu esfrega o queixo, segurando sua vontade de gritar.

─ E o senhor disse que aqueles documentos sobre Rumiko estavam num cofre da Himitsu. Por que o senhor Gengetsu guardaria um documento em branco dentro de um cofre que fica numa sala de acesso restrito?

─ Porque ele era louco, Malakai. Um velho senil e debiloide. Você trouxe o retrato de Egao?

O ichigou pega o objeto dentro da jaqueta nipônica e entrega ao seu capitão. Mozu retira o pano de seda, coloca o tecido sobre o colo e posiciona a moldura sobre ele. Segurando-a pelas extremidades com as duas mãos, ele entorta a moldura até que a peça se parta em dois pedaços e os cacos de vidro caiam sobre o lenço. Mozu retira a foto, impressa em papel plastificado, e joga todos os pedaços restantes da moldura pela janela.

─ Mudança de planos – ele diz com tom decidido – Na verdade, vamos voltar para o plano inicial e, para isso, precisamos achar um correio.

─ Tem um logo adiante, senhor.

─ Ótimo! Pode parar nele.

Mozu pega uma caneta no porta luvas e escreve em caracteres romanos o nome “RUMIKO”, com letras maiúsculas e bem torneadas, no verso do retrato.

─ Vou lhe dizer o que você vai fazer agora.