A Busca
29 Atestado de Proficiência
Notas iniciais

Petruz sentia as pálpebras pesarem enquanto ainda observava o local do restaurante, abaixo e bem distante. Muito tempo havia passado desde que Rumiko foi fazer a loucura de dar de cara com seu suposto perseguidor e, pela demora, Petruz já estava começando a ficar preocupado. Rumiko até agora se mostrou tão imprevisível quanto o vento, pois era muito inteligente, mas também deixava transparecer sua inocência e ingenuidade. A essa altura ela já poderia ter sido descoberta e dado um jeito de fugir ou de enfrentar seus perseguidores. Ou pior, ter sido capturada. Não dava para Petruz ter certeza estando plantado ali. Só que ele também não queira sair e estragar os planos de Rumiko. Por fim, resolveu ficar, pelo menos por mais uma hora, que seria quando o dia daria início ao anoitecer.
Diante de seus olhos, a imagem do terreno abaixo lentamente escurece e Petruz, ainda meio consciente, desperta num susto ao ouvir a própria respiração soar mais alto, denunciando seu cochilo. Ele sacode a cabeça e se posiciona melhor na grama. Tinha dormido bem melhor e por mais tempo que Rumiko na última noite e por isso deveria estar bem mais descansado. Porém, por viver os últimos anos nas ruas como um mendigo, não estava acostumado a precisar ficar de alerta ao que acontecia ao redor nem fazer longas e extenuantes caminhadas. Por isso, seu corpo se acostumou à mandriice, sendo somente posto à fazer algum tipo de exercício quando a fome ou a sede o obrigasse a sair do lugar para saciar seus desejos.
E em pensamentos assim, recordando-se de sua sofrida vida recente, Petruz toma consciência de que está cochilando novamente e se esforça para manter atenção, aspirando e soprando o ar com força. Ele esfrega as pálpebras de um dos olhos e, com o outro, percebe uma movimentação ao seu lado esquerdo, há poucos metros de distância. Virou-se rapidamente e viu Rumiko, vestindo sobre a camisa branca o hanten, sua jaqueta japonesa com o símbolo oficial do arco dourado do Gen-Bu. Só aí Petruz percebeu que havia adormecido de novo e, ao que parecia, pesadamente e por muito tempo, visto que a mocinha já tinha tirado as roupas que ele lhe emprestou e vestido sua calça de moletom e calçado as sapatilhas. “Silenciosa como um gato” – ele admite em pensamentos antes de tentar se justificar.
─ Eu... Eu não estava dormindo.
Rumiko lança lhe um sorriso despreocupado, afasta as franjas do rosto, abrindo-as para os lados com os dois dedos mindinhos e abaixa-se, passando o cordão de sua bolsa nos buracos encontrados na abertura superior, para poder, enfim, fechá-la novamente. Como a moça não disse nada em resposta e não pareceu se importar com o deslize cometido, Petruz ergue seu corpo do chão e senta-se, questionando:
─ E então? Como foi?
─ O nome dele é Vargas – diz a moça com a soberba de um trabalho bem feito – É um senhor orgulhoso com, aparentemente, mais de cinquenta anos. Manca da perna direita, devido à um ferimento ou acidente ocorrido após o seu nascimento. E ao que consta, é detetive. Não um detetive particular comum. Ele trabalha para uma empresa grande e poderosa, que Rumiko não descobriu, pois não soube como lhe arrancar essa informação.
─ Putz! – Petruz coloca as mãos nos joelhos dobrados – Você perguntou tudo isso e ele respondeu sem desconfiar?
─ Na verdade, tudo o que ele disse foi o nome, que Rumiko ainda não sabe se é mesmo nome ou sobrenome. Ainda que Rumiko nunca tenha ouvido falar de alguém chamado simplesmente de Vargas.
─ Tem razão.
─ O resto das informações Rumiko apenas supôs. Os cabelos altamente entremeados de fios brancos, sem nenhum tingimento para encobrir sua vida longeva, denunciaram um valor mínimo à se perscrutar sobre seus anos de idade. O jeito de andar e a bengala que Rumiko viu ao seu lado deixaram claro sua empáfia, por suportar as dores de sua perna defeituosa e não trocá-la por uma mecânica, coisa comum hoje em dia para os que vivem defendendo a lei e perdendo braços e pernas ao lutar contra esses marginais de atualmente, que andam armados com uma espada ou variantes delas.
─ Talvez ele não ganhe tanto pra uma operação dessas. Fiquei sabendo que há próteses maravilhosas hoje em dia, mas que custam uma fortuna.
─ Se ele for mesmo um agente especial da polícia, daqueles que atuam na linha de frente, então não precisaria pagar. O governo é obrigado a aposentar um indivíduo assim em qualquer idade que lhe acontecer o acidente e, se ele desejar a operação, o governo cobre qualquer gasto requerido.
─ Humm. E porque acha que ele é detetive?
─ Seu jeito de falar deram à Rumiko opções de sua profissão. Ele estuda o que vai dizer. Analisa seus trejeitos a cada pergunta, seja ela direta ou indireta. Rumiko foi inconspícua e, mesmo assim, ele não denunciava, mas parecia sentir quando Rumiko fabulava. E quando Rumiko finalmente lhe perguntou, de modo direto, se ele exercia a profissão de detetive, ele simplesmente negou ao invés de inventar uma profissão para si, o que só corroborou as suspeitas.
Rumiko termina de arrumar sua mochila, apruma-se e a joga nas costas.
─ Ele pode ser qualquer coisa – continua ela – Pode exercer qualquer função que exija que ele fique atento aos mínimos detalhes que o cercam. Mas o senhor Vargas ser um detetive foi a primeira suposição de Rumiko. Por isso, ele é detetive.
Petruz continuava boquiaberto, sem saber o que dizer. Não sabia quem era mais brilhante, o tal de Vargas por encobrir sua identidade ou Rumiko, por tê-la descoberto. A moça observa o ruivo, sentado no chão e de olhos espantados.
─ Vamos indo senhor. Não temos mais nada à fazer aqui.
─ É... pelo visto, não.
─ Ah, Rumiko se esqueceu de dizer e já pede perdão antecipadamente, mas ela sujou as calças que o senhor emprestou.
─ Tudo bem.
─ Rumiko promete lavá-las assim que chegarmos num local propício à isso.
─ Sem problema.
Petruz ergue-se, bate as mãos nas calças e na blusa para tirar os pedaços de grama e poeira. Pega sua mochila com um ar tão pesado na cabeça que ele quase gritou, pois só agora tinha se dado conta do perigo que correu:
─ Rumiko. Como... Como você sabia que estávamos sendo seguidos?
─ Paranoia, senhor. Rumiko já era esquizofrênica. Meu mestre era paranoico. Então já dá para imaginar o que Rumiko se tornou.
A moça disfarça um sorriso. Percebe, porém, que Petruz não engoliu aquela explicação. Havia um quê de verdade no que disse, no quesito da paranoia, mas não foi uma resposta completa. O olhar de Petruz, quase tristonho e curioso, dava a clara impressão de que ele sentia o menosprezo da moça por sua inteligência. O que não procedia e, por isso, Rumiko decide revelar:
─ Foram os sinais, senhor.
─ Os sinais?
─ Uhn! Eles raramente são tão claros. A gente teve muita sorte.
─ Gostaria de poder entender o que está insinuando – Petruz estaca no lugar, absorto.
Rumiko também interrompe a caminhada, pouco adiante, e o rapazinho continua de olhos abaixados:
─ Não quero forçar um mágico a revelar os seus truques, mas já percebi que eu não penso tão rápido quanto você. Talvez seja por causa daquilo que você disse, que nossos mundos são diferentes. Mas agora que estamos no mesmo barco... Bom, eu pensei que... Achei que você dividiria suas preocupações comigo.
A moça observa Petruz, paralisado e de olhos vagos, direcionados ao chão. Ela não queria contar suas maluquices e esquizofrenias, pois não desejava que Petruz ficasse preocupado com a insegurança de seus próximos passos. A insegurança era real, contudo, não concernia à Petruz. Isso era problema dela e ela estava ali para se encarregar disso. Entretanto, Rumiko também não queria que o rapaz ficasse matutando sobre cada episódio ocorrido, porque isso poderia deixa-lo assustado, às vezes com coisas tão absurdas quanto uma sombra, e que não mereceriam tanta atenção. O melhor a fazer era lhe explicar os tais “sinais” de uma forma bem ao estilo guerreiro, para que ele entendesse que não precisava se preocupar à toa. Então, ela aproxima-se de Petruz e abaixa-se, para olhar nos olhos castanhos do rapaz e ele, ao notar o rostinho curioso e sapeca de Rumiko tentando ganhar-lhe a atenção, se endireitou. A moça também se endireita e começa sua explanação:
─ O senhor lembra o que o balconista do Genevie nos disse quando chegamos no hotel?
─ Vagamente.
─ Ele disse que nos alugaria um quarto com os requisitos de confidencial, mas não poderia nos manter anônimos se estivéssemos na mira de detetives particulares de forças especiais.
─ Isso mesmo.
─ Esse foi o primeiro sinal.
Petruz balança a cabeça, concordando. Rumiko continua.
─ Quando Rumiko viu a matéria sobre o assassinato de Rudolf, percebeu outra coisa. Nenhum político de canto algum do mundo é morto sem que se faça um alarde. Todos os olhos do país são voltados para tal acontecimento e nenhum tipo de investigação policial sobre o fato pode ser decorrido em sigilo. O maior inimigo disso é a televisão, que não mede esforços para passar aos espectadores detalhes sobre o assunto. Só que o caso do prefeito Rudolf foi colocado em investigação privativa. E só há um meio de fazer com que isso aconteça.
─ Colocando um detetive particular no caso? – Petruz tenta antever.
─ Colocando um detetive particular de uma força especial – completa Rumiko.
─ Meu Deus! – Petruz fica abismado. Realmente, estava tudo na cara.
─ Um detetive de forças especiais tem certos poderes fornecidos pelo poder legislativo que só podem ser usados para auxiliar em sua missão. Assim, o detetive Vargas nos terá sobre controle por, pelo menos uma semana, antes dos jornalistas e investigadores de outras forças policiais exigirem a quebra do sigilo de informações ou, se já obtiverem, a reprodução e exibição dos materiais. O senhor Vargas também nos tem em suas mãos enquanto permanecermos aqui, em Saltos, porque esse é o limite de seus poderes. Ele pode sitiar qualquer cidade que queira com uma simples ordem direta de seus superiores, desde que ele próprio também esteja nela, e assim, poder contar os passos de seus perseguidos. Assim, em qualquer lugar que nos hospedarmos aqui em Saltos, receberemos uma visita do senhor Vargas ou de algum de seus comandados. Ele deve ter emitido uma ordem à todos os locais que oferecem quartos de pernoite. Precisamos sair de Saltos se quisermos dormir em uma cama ou comermos num restaurante.
─ Então não poderemos alugar um quarto perto da estação de trem?
─ Infelizmente não. Rumiko sente muito, senhor.
─ Bom – Petruz encolhe os ombros – Você avisou que poderíamos dormir ao relento. Eu concordei, lembra?
─ Hai! – a moça sorri – Rumiko se lembra.
─ Então vamos. Acho que dormir aqui, nessa floresta, também não deve ser uma boa ideia.
─ Iie! – Rumiko faz um gesto com a cabeça, chamando Petruz para começarem a caminhar – Não mesmo.
O destino dos jovens agora era o terminal de ônibus. Lá, deveriam encontrar um lugar para se esconder e passar a noite até o dia seguinte, quando pegariam um veículo até a estação de trem, poucos quilômetros à frente onde, finalmente, sairiam de Saltos. Só que Rumiko teve uma ideia mais inoportuna. A sensação de que poderiam estar sendo esperados no terminal de ônibus era constante, então Rumiko perguntou se Petruz não gostaria de andar os quilômetros restantes até a estação ferroviária. O ruivo concordou, não por adivinhar os pensamentos de Rumiko, mas porque sabia que, depois do episódio de hoje, ambos deveriam ser mais cautelosos, para dar mais trabalho aos seus perseguidores antes de serem capturados. Segundo o que Petruz aprendeu nos filmes e seriados de TV americanos, ninguém escapa de um bom detetive, então imaginava que, mais cedo ou mais tarde, eles seriam pegos. Já Rumiko não estava tão pessimista assim. Aliás, estava bem mais confiante agora que tinha o rosto de Vargas guardado na memória.
\\\\\=//////////
Hokkaido. 07h30min da manhã.
Assim como foi a manhã de Vera Cruz, o sol também encontrou dificuldades para brilhar nas terras do Japão, principalmente na Vila Nibutani, cidade de Hidaka. A manhã fria das estradas era acentuada pelas brisas geladas, provenientes das muitas florestas e bambuzais que dominavam o local.
Nesse cenário, uma caminhonete antiga, especialmente adaptada para carregar madeiras ou sacas de cereal e que vinha em alta velocidade, de repente diminui e encosta na lateral de uma larga estrada de terra, poucos metros antes de chegar a uma abertura que dividia a estrada ao meio, levando cada um dos lados para distâncias e lugares bem distintos. Ao volante, um homem robusto, com um dos olhos defeituosos, bem mais aberto que o outro. Ele observa seu companheiro, no banco do carona e questiona:
─ O que foi, senhor? Porque me mandou parar?
Por todo o caminho até ali, Mozu veio calado e extremamente irritado, tanto que mal conseguia se controlar. Já havia lido, com bastante ansiedade e entusiasmo, o os arquivos da técnica secreta de Rumiko e que ele, assim como tantos outros, queriam muito saber o fundamento. Entretanto, alguma coisa naqueles documentos acabou com sua alegria. Agora, de braços cruzados e o olhar fixo na bifurcação à frente, sentia-se profundamente incomodado com o sentimento ambíguo que lhe corroía.
A estrada à direita dava em um vilarejo onde havia uma pousada especial para homens insatisfeitos com suas vidas e que querem um pouco de laser e diversão. O caminho à esquerda os levaria para a via principal, onde poderia seguir para um porto marítimo qualquer, pegar uma embarcação e sumir do Japão. Seus homens, inclusive, já estavam à caminho do próximo ponto onde ele havia combinado de se encontrarem.
─ Senhor Mozu? – chama-lhe novamente Malakai, seu ichigou.
─ Estou pensando...
─ Pensando senhor? Está pensando em desistir?
Mozu fecha os olhos por uns longos instantes.
─ Tenho algo para fazer – ele revela por fim, com um olhar de soslaio assustador – Já que viemos até aqui, vamos fazer uma visita à hospedaria de Megumi.
─ Sim, meu senhor.
Dando ignição na velha caminhonete, Malakai pega a pequena trilha à direita, embrenhando-se nas árvores até chegar, em poucos minutos, numa pequena aldeia. Já era dia, mas mesmo assim, luzes fortes em altos postes lumiavam a estrada feita de tijolos fincados no barro. A estrada seguia reto, cruzava o vilarejo de ponta à ponta, e ia até um local sem saída para carros, onde começava-se novamente uma trilha de mata e rochedo. Antes de seu fim, uma outra estrada a cruzava, levando à outros vilarejos e bairros vizinhos. Havia uma extensa cerca de madeira grossa nas duas saídas da estrada central, indicando os limites daquela vila onde agora estavam. Em cada cerca, um portão alto e largo, de forma circular e, no topo do batente das duas entradas, uma enorme peça redonda, também de madeira, onde se via claramente um desenho com bordas feitas em queimadura, com seu interior pintado de branco. Era o símbolo que representava o arco do Gen-Bu.
A caminhonete parou em frente à um casarão de fachada vermelha, com portas largas de batentes grossos, pintados de um amarelo quase dourado. Apesar das cores berrantes, era o lugar mais luxuoso da aldeia, com um salão interno principal grande o suficiente para se dar uma festa à todos os visitantes que por ali passavam diariamente. Como era de se esperar, o lugar era bem vigiado, por homens fortes, mal encarados, armados com katanas e lanças. Eles ficavam dentro dos muros da casa, mas do lado de fora do casarão principal, localizado alguns passos depois da entrada com batentes dourados. Ainda era cedo e o lugar não recebia visitas antes do horário de almoço. Porém, os seguranças não fizeram nenhuma objeção, pelo contrário, até se inclinaram ao ver o homem, vestido com trajes de samurai e uma espécie bem atípica de capacete sobre a cabeça, seguido de seu companheiro, pouco menor, mas também ostentando superioridade.
Adentrando ao casarão, que só possuía uma porta de entrada, eles se veem numa sala ampla de baixa iluminação, que servia de primeira parada para os turistas e visitantes. Era dali que as moças do lugar viam qualquer um que entrasse na hospedaria e, também ali, a pessoa seria recebida pelas atendentes que estivessem disponíveis. No momento, só havia uma. A mais ilustre dama da casa e proprietária do lugar. Ao ver e reconhecer os homens que acabaram de entrar, ela vem caminhando rapidamente, embora à passos curtos, na direção de seus clientes.
─ Bem vindo, senhor – ela os recebe com uma longa mesura de corpo.
Ao ver a face melancólica da mulher, Mozu se adiantou.
─ Creio que soube do infortúnio que nos atingiu, senhora Megumi.
─ Soube sim. Sinto muitíssimo e por isso peço desculpas, pois manterei a casa fechada em memória de nosso suserano por, pelo menos, uma semana.
─ Não creio que seja uma boa ideia para o seu sustento e o das moças que dependem deste lugar, mas agradeço à honraria em nome do dai-sensei.
─ Agradeço eu por aceitar minhas humildes homenagens.
─ Hunf! – faz Mozu com arrogância.
─ E como vai a pequena Rumiko? Ela que o amava tanto.
─ Tanto o amava que estão juntos, minha senhora. Rumiko também está morta.
Os olhos finos da mulher se arregalaram e sua pele, mesmo atrás do branco pó de arroz, demonstrou-se empalidecer.
─ Como é? Eu... eu não fui informada sobre isso.
─ A morte de um suserano é mais importante que a de qualquer um de seus vassalos.
─ Sim, mas...
─ Portanto há de se entender que ninguém deu atenção à uma reles ajudante. A perda de Rumiko não fará falta à ninguém. Já a de Gengetsu ficará marcada com tristeza em toda terra de Hokkaido.
─ Claro! Mas eu...
─ Sua morte será notada não só em Hokkaido, mas em todo o Japão. Mas não há com que se preocupar. Todos os locais que ainda ostentarem o arco do Gen-Bu continuarão a ser protegidos pelo novo suserano que, no caso, será Nezuo.
“Não é uma boa escolha, mas a melhor, com certeza” – pensa a elegante mulher sem ousar proferir em voz alta. Mozu abana a mão, como se espantasse uma mosca e continua:
─ Mas deixando isso de lado, vim de muito longe para lhe pedir uma gentileza.
O capitão retira seu capacete e, sendo mais alto que a mulher, ele inclina-se, aproximando dos ouvidos da dona do lugar, ainda estupefata com a notícia da morte de Rumiko. Ele dá-lhe algumas instruções e depois apruma-se, ajeitando sua armadura nipônica sobre o peito e aguardando a resposta. A mulher entrelaça os dedos na altura do estômago.
─ Bom, quanto à isso e, dentro dessas condições, imagino que não tem problema. Desejam beber alguma coisa enquanto esperam?
O 2° capitão do gen-Bu troca olhares e gestos com seu lacaio, depois nega com a cabeça.
─ Como queiram. Vou providenciar seu pedido agora mesmo, senhor. Com licença.
A voz da mulher ao final estava fraca e soluçante. Não restou dúvidas à Malakai de que a notícia sobre Rumiko acabou com as pilastras que Megumi se agarrava para não desmoronar em choro. Pilastras as quais ela buscou refúgio quando recebeu a notícia da queda de Gengetsu. Ao que a mulher se retirou, Malakai argumentou.
─ Devia contar a verdade para ela, senhor. Que Rumiko ficou em Vera Cruz e está viva!
─ Não ficará assim por muito tempo. Não depois que eu concluir minha vingança.
─ Vingança? – Malakai enfia as mãos nas mangas do hanten negro que usava e questiona desconfiado – Que tipo de vingança, senhor? Contra quem?
─ Egao-san.
─ Egao? Sua vingança é contra Rumiko-teichou? O que ela fez, senhor?
─ É por culpa dela que o dai-sensei está morto! – exclama o capitão com ódio na voz, segurando-se para não gritar.
─ Ah é?
─ Claro! Se não fosse por ela e suas... suas...
Mozu gira a mão direita no ar, tentando encontrar algum argumento que fosse convincente o bastante para trazer aos olhos do seu soldado o brilho de concordância que ele tanto ansiava. Sabia que, se tinha alguém no Gen-Bu que não merecia ser suspeito da morte de Gengetsu, esse alguém era Rumiko. Sabia que, se ela não estivesse ausente no momento exato do fato, com certeza teria morrido junto à seu mestre, tentando defende-lo até o fim. A maioria dos soldados do Gen-Bu deveria pensar assim. Inclusive o seu ichigou, Malakai. E por essas e outras é que Mozu não conseguia pensar em nada que justificasse o seu ódio por Rumiko a ponto de querer acometer-lhe uma vingança. Nada além de uma infantil e fútil inveja.
─ Enfim – Mozu enfatiza, num ato de se recompor – Eu tenho contas à acertar com Egao. E as razões de minha vingança são pessoais, por isso não lhe diz respeito. Mas gostaria de ter o seu apoio, como sempre.
─ Claro senhor. Desculpe.
Retirando uma pasta de dentro das roupas, Mozu a entrega ao seu ichigou e dá uma última ordem antes de sair:
─ Eu quero que você dê isso à Megumi-sama e peça para que ela os destrua.
─ Destruir, senhor?
─ Sim! Rasgue e queime. Destrua-os por completo. Eu já li, já vi o que tinha de ver e já sei o que queria saber.
─ E o que são? – o ichigou faz menção de que iria abrir, mas tem seu ato brutalmente interrompido por Mozu.
─ Não mexa nisso! Nesses papéis estão o atestado de proficiência e a autorização do uso da "Espada Sorridente".
─ O q...? – o ichigou arregala os olhos, engasgando e observando o documento em suas mãos.
─ Isso mesmo que você ouviu. Entende agora porque quero isso destruído?
Dito isso, Mozu joga um enorme casaco nos ombros e sai, deixando seu mais confiável lacaio com as mãos tremendo de ansiedade. Dentro do termo “artes marciais do Gen-Bu”, o estilo de luta de Rumiko era considerado o maior segredo do império, a ponto de Gengetsu achar por bem disfarçar o nome do estilo por “espada sorridente”, em alusão aos sorrisos e ao otimismo de Rumiko, mas a bem da verdade esse apelido era para dificultar o rastreio e descoberta do nome original. E considerando que numa potência como o Gen-Bu, famosa por criar ótimos guerreiros, saber que pessoas como Nezuo, Mozu e Rumiko estavam nos postos mais altos por causa de um simples amontoado de papéis, isso significava que os segredos de Rumiko iam além de sua afinidade com o soberano Gengetsu. Significava, sobretudo, que seu capitão estava enganado quando dizia que o temor da divisão de Rumiko provinha de uma identidade falsa.
Com água na boca e o coração acelerado, Malakai observa seu capitão cruzando o quintal e saindo pelo portão, espera um minuto mais e posiciona-se num lugar mais reservado.
─ Qual é? – ele sussurra para si – Já que é para destruir, uma olhadinha antes não vai fazer mal.
Fale com o autor