A Busca
35 Araneídeos
Rumiko acordou exatamente às 06:00 hs. Seu companheiro Petruz, na outra cama, ainda dormia profundamente. Num pulo, a moça desceu da cama e se espreguiçou. Sentia-se ótima e completamente renovada, apesar de que o tempo que dormiu jamais supriria os dias perdidos.
Ela calçou suas sapatilhas vermelhas, pega sua mochila, tira sua nécessaire e vai lavar o rosto no banheiro que, por sorte, havia no mesmo vagão em que eles estavam. Pouco depois, o trem parou em mais uma estação de descanso. Rumiko não queria tomar o café servido no trem, então, manteve as cortinas fechadas para não incomodar Petruz e saiu para comprar alguma coisa.
Petruz realmente não a ouviu sair. Na verdade, dormia tão tranquilamente que, quando Rumiko veio à chama-lo, já eram quase nove horas da manhã. Ela estava com uma sacola de plástico numa mão e um pacote grande e gordo de papel na outra, ambas contendo lanches pesados como gordos sanduíches e sucos de polpa de fruta. Petruz ainda sentia o corpo pesado e dolorido, mesmo assim, levanta-se e também vai ao banheiro se lavar. Quando retorna, ele comenta distraído.
─ Caramba! Isso é quase um almoço.
─ Gomen nasai! Realmente, a próxima parada será durante a hora do almoço, mas Rumiko não pretende almoçar.
─ Chegaremos hoje, né?
─ Provavelmente.
Rumiko termina de trançar os cabelos, limpa as mãos com um macio guardanapo de papel e pega uma faca descartável no saco de sanduíches, cortando o seu lanche em três partes iguais. Então começa a se servir. Petruz não viu outra alternativa além de fazer o mesmo. Também começou a comer e permaneceu em silêncio durante todo o gordo café da manhã.
Quando terminam, Rumiko junta todas as sobras, dela e de Petruz, coloca tudo numa única sacola de plástico e leva para fora do cômodo, depositando-a num balde de lixo próximo da porta dos banheiros. Voltou e ficou em silêncio, trocando sua atenção entre ler um dos extensos panfletos de viagens do trem e a paisagem que corria pela janela. Parecia distraída e pensativa. Talvez até preocupada. Petruz observou Rumiko até que, por fim, decidiu perguntar.
─ Está a fim de conversar?
─ Hum? Claro! – a moça lhe sorri, ajeitando-se no banco – O senhor quer falar sobre o quê?
Petruz joga sua mochila de volta à cama de cima, senta-se no macio banco e questiona com os olhos brilhantes.
─ Você disse ontem que a cidade de El Dorado estava perdida há muitos anos. Eu quis saber mais a respeito, quando Margarida chegou. Lembra?
─ Uhn! Rumiko lembra-se desse evento. Na ocasião, Rumiko ia lhe falar sobre uma história que meu sensei me contou.
─ Exatamente!
─ Ainda quer falar sobre isso, senhor Petruz? Rumiko já disse que sabe pouca coisa sobre El Dorado.
─ Eu gosto desse tipo de conversa. Mas se isso te aborrece...
─ Oh, não, de maneira alguma. Bom... Rumiko não sabe muita coisa sobre a cidade em si, mas como prometido, vou lhe contar tudo o que meu mestre me disse sobre o nascimento da lenda, tudo bem?
─ Ótimo! Quer dizer, sim, por favor!
─ Yoroshii! Vamos lá então.
Petruz se acomoda no confortável assento do trem e se prepara para ouvir mais uma boa narração. Ele gostava do tom de voz de Rumiko. Gostava do brilho em seu olhar quando narrava uma história. E principalmente, gostava do fato de ser o único a receber as atenções da moça. Margarida lhe tomou esse prazer no dia anterior. Foi por pouco tempo, embora suficiente para que ele sentisse falta. Agora, poderia ter sua companheira de volta, só para ele.
─ No ano de 1600 e poucos – começa Rumiko – uma esquadra de 8 enormes galeões espanhóis cruzavam o mar abarrotados de riquezas incalculáveis. Essa frota, liderada pela nau capitânia “Nuestra Senõra de Atocha”, carregava uma montanha de barras de prata de quase 20 metros de comprimento. Também tinha três enormes baús com 180 barras de ouro, rubis, esmeraldas. Um dos outros 7 navios era o “santa Margarita”, que também conduzia uma fortuna. O restante eram apenas companhias, e embora também carregassem uma pequena soma, serviam mais de segurança. Eles partiam de Havana, em Cuba, e iam para a Espanha, só que esses navios nunca chegaram ao seu destino.
─ Por quê? O quê aconteceu?
─ É que, de repente senhor Petruz, um furacão se chocou sobre o “Atocha”, o “Margarita” e todo o resto da frota. Os oito galeões vão a pique, levando seus 60 tripulantes. Ninguém sobreviveu. Então, quando a tempestade se acalmou, jaziam, à 15 metros de profundidade, os navios e uma das maiores riquezas que o mundo já viu. As lendas e os livros de história pirata dizem que, dezesseis anos depois, um homem chamado Mel “alguma coisa” (1), encontrou todo esse tesouro. Mas os livros estavam errados numa coisa. E é aí que entra o conhecimento de meu Sensei.
Petruz se afasta um pouco e se acomoda o melhor que pode, para ouvir algo que nem os historiadores sabiam ou, se acaso sabiam, escondiam da sociedade e da mídia, coisa que não era rara de acontecer. Rumiko continua:
─ Todos os anos, esses mesmos oito navios faziam essa rota. Todos os anos, por questão de confiança, os mesmos marinheiros tomavam conta do tesouro. E todos os anos, todo o tesouro era carregado no Atocha, o maior dos oito navios. Quando Mel encontrou o navio e voltou para terra firme, ele trouxe consigo uma fortuna considerável, que declarou ter encontrado no Atocha. Mas o que ninguém sabia até meados de 1800 é que esse navio já estava vazio antes de Mel o encontrar.
─ Alguém o encontrou antes desse tal de Mel?
─ Iie! O Atocha partiu de Cuba vazio, senhor Petruz. Ele não continha sequer um níquel.
Rumiko sorri ao notar os olhos de Petruz se abrindo mais, já bastante curioso com os fatos:
─ O tesouro encontrado por Mel estava no “Santa Margarita”. Era só uns 10 por cento de tudo o que deveria ter sido encontrado, mas como ele encontrou o Atocha vazio e como não havia provas de que o tesouro estava em outro navio, ele então desistiu da busca. Agora, voltando alguns meses antes do naufrágio, foi-se descoberta uma mina ou caverna secreta, de localidade ainda desconhecida, com uma quantidade incalculável de ouro, moldadas entre moedas, barras, objetos em formas de móveis e estátuas perfeitas de seres humanos, e que fora roubada ou escondida por civilizações antigas. Uma lenda dizia que o ouro tinha dono, um rei muito famoso, malvado e poderoso, que conseguia fazer com que tudo que tocasse se transformasse em ouro – Rumiko coloca o dedo indicador na testa e fecha os olhos – Deixe Rumiko tentar lembrar o nome dele...
─ Midas! – diz Petruz de olhos bem abertos.
─ Orô? O senhor já ouviu essa história?
─ Quando eu era criança, meu pai me contou uma lenda sobre um rei com poder parecido. Mas continue.
─ Bom, o fato é que todo esse ouro era amaldiçoado. Mas o senhor conhece os europeus quando são influenciados pelo poder do dinheiro. Eles não temem nada, seja humano ou não. Então, a quantidade de ouro se tornou imensurável e por isso, nesse dia, a frota não contava apenas com oito, mas sim com nove navios. O nono navio, o maior e mais potente da frota, levava tudo o que podia dessa fortuna amaldiçoada e o restante foi dividido entre as outras naus. Adivinha qual era o nome desse nono navio?
Petruz dá de ombros, fazendo biquinho. Queria ouvir e aprender e não fazer suposições que demonstrassem sua ignorância. Quando Rumiko revelou a resposta, ele sentiu-se envergonhado por não arriscar.
─ “El Dourado” – ela diz, dando enfoque a palavra “dourado”, deixando claro a diferença entre os nomes do navio e da cidade.
Rumiko deixa um espaço de tempo para Petruz absorver o que foi dito ou fazer algum comentário. Como o rapaz não diz nada, a moça continua:
─ O El Dourado nunca foi encontrado pelos humanos, mesmo tendo-se uma base do lugar onde ele supostamente deveria ter afundado. Tudo indica que a tempestade, por alguma obra da natureza, afastou e muito esse navio da esquadra espanhola antes de enterrá-lo no mar. Daí nasceu a lenda da cidade de ouro de El Dorado, também supostamente localizada em algum lugar depois dos confins dos mares.
─ É uma história bacana.
─ E o mais misterioso disso tudo é que não existem fotos, documentos ou informações do navio El Dourado. É praticamente uma nau fantasma. Tudo o que se sabe foi passado de boca em boca, por membros da tripulação que, temerosos pela maldição do rei Midas, desistiram e se demitiram de seus cargos. Eles foram condenados à morte, degolados por ordem de um ministro do Rei da época, acusados de sabotagem.
─ Sabotagem? Por quê?
─ Vai entender – Rumiko dá de ombros – E quanto à cidade de El Dorado, dizem que ela nasceu e se localiza num lugar inalcançável e mortal do oceano, e que era protegida por Leviatã, uma espécie de deus dos mares. Ninguém sabe ao certo se é verdade. Pelo menos ninguém que Rumiko conheceu.
─ Caramba, Rumiko! Se essa cidade existir e a gente achar, vamos ficar ricos – Petruz afia um sorriso desafiador.
─ Essa cidade não se encontra em Vera Cruz, senhor Petruz. Se quiser encontra-la, terá de viajar o mundo, como muitos que acreditam na lenda fazem.
─ Você também acha que é uma lenda?
─ Dame! Rumiko acredita em qualquer coisa.
─ Qualquer coisa? A história do Rei Midas é uma lenda, se você não sabe.
─ É verdade. E não são muitos que acreditam na existência de Oz também.
─ É mesmo. Eu me esqueci disso. Oz, de certa forma, também é um mito.
─ Rumiko vai encontra-lo – a moça fecha os olhos num sorriso simplório – Rumiko tem muita sorte na vida.
Ao término da narrativa, Rumiko tornou olhar para a janela, de expressão ansiosa e esperançosa. Petruz não ousa dizer ou perguntar mais nada. Simplesmente a deixa fantasiar sobre a lenda de Oz e curtir a paisagem que deslizava pelas janelas. Especialmente naquele momento, a linha de trem corria sobre uma extensa ponte de ferro, madeira e aço, localizada muitos metros acima de um grande rio que ligava dois morros rochosos, mais altos que muitas coisas ao redor, inclusive das inúmeras árvores. Dava para se ver várias belezas espalhadas no cenário ao lado de fora com uma visão bastante ampla.
O estado do amazonas já foi mais belo, mas mesmo depois do acidente climático ele não ficou tão ruim. Nos dias que procederam ao Fim do Mundo, a fauna e a flora estranhamente ganharam uma nova força. E aquele estado, que sempre foi um dos mais preciosos e abundantes nesse quesito, hoje competia com outros estados, outrora não tão verdes, e ainda sobressaía com folga. Pássaros exóticos e animais terrestres fugiam do barulho e da aproximação do trem, enfeitando o cenário ainda mais. Era por isso que, sempre que passavam diante de florestas, lagoas e morros floridos, Rumiko admirava o cenário em todos os seus pequenos detalhes, com seus olhos esbugalhados e seu sorriso radiante. E embora ainda fantasiasse com a lendária cidade feita de riquezas, Petruz tentou fazer o mesmo, procurando absorver as mesmas belezas das quais Rumiko tão prazerosamente se deliciava.
A próxima parada seria a penúltima, onde o trem faria um tempo para o almoço. E Rumiko já avisou que não almoçaria. Depois, viria enfim, o destino final deles. Ainda que faltassem muitas horas e por mais que tentasse esconder, Petruz estava começando a se sentir meio nervoso. Ele olha para a moça por um momento e vê que ela está tão sossegada e despreocupada que nem parecia estar indo cometer mais um crime. “Deve ser uma coisa bem normal para ela”, pensa o rapaz, tentando se imaginar no lugar de Rumiko.
Súbito, a moça lhe tira de seus pensamentos:
─ O senhor disse antes que não queria a política em seu futuro, mas ser um político é uma coisa boa para quem quer ganhar dinheiro fácil.
─ O que é isso? Ainda pensando no que eu disse sobre encontrar El Dorado? Acho que me expressei mal, eu não sou tão obcecado por dinheiro assim.
─ Gomen nasai! Rumiko não está julgando o senhor. Por favor, perdoe Rumiko se o senhor entendeu assim.
─ Hã? Ah, não... Tudo bem – Petruz agita as mãos no ar, “apagando” o que disse – Nós nos desconversamos, então vamos começar de novo. Eu não queria ser político no futuro, porque tinha outros planos menos ambiciosos.
─ Rumiko entende, senhor. Mas a ambição é uma coisa boa, desde que seja usada a seu favor e de modo que não prejudique outros.
─ É... você tem razão. E posso dizer que esse era o meu caso. Eu já tinha planos para terminar a escola e estudar sobre uma coisa que eu queria muito fazer no futuro. Eu queria ser biólogo.
─ Biólogo?
─ Sim, biólogo. Isso é estranho?
─ Não mas... Com suas excelentes atuações nas quadras de tênis, Rumiko imaginou que iria querer seguir o caminho desportivo.
─ Você sabia que eu jogava tênis?
─ Mochiron! Rumiko já estudou sobre o senhor e já lhe disse isso.
─ Ah é... você me disse.
─ O senhor tem uma técnica nas quadras de tênis que é única. Rumiko a viu em VHS e, apesar de não entender nada de tênis, Rumiko ficou muito impressionada.
O rosto de Petruz deveria ser de orgulho, mas ele parecia entristecido.
─ Caramba! Você se sabe de coisas que nem meu pai lembrava.
─ O senhor seu pai era um homem ocupado senhor Petruz. A política não é fácil para quem é honesto. Aliás, nenhuma profissão é!
─ De qualquer forma, eu também não queria ser tenista. Isso era só uma atividade a mais que eu fazia para melhorar meu desempenho nos esportes, já que nunca fui bom em nenhum outro, como futebol ou basquete. No fundo eu também não gostava de jogar tênis, só o fazia porque meu pai insistia.
─ E qual seria sua área na biologia?
─ Eu gostava muito de... – Petruz faz uma pausa, com medo de que Rumiko não entendesse bem seu interesse, mas logo segue – eu adorava a anatomia dos insetos. Queria estudar e me formar especialista num em especial. Eu tinha um interesse no mundo especial e sombrio dos araneídeos.
─ Araneídeos? O senhor quer dizer aranhas?
─ Sim. – Petruz fecha os olhos e balança a cabeça em modo afirmativo, exibindo-se.
─ Se a paixão do senhor é essa, o senhor deve saber muito a respeito.
Era a brecha que Petruz queria. E valendo-se disso, ele diz à Rumiko que pode contar à ela tudo o que sabe, do mesmo modo que ela o faz, quando lhe é questionada alguma coisa.
Rumiko dá de ombros e replica.
─ Rumiko quer ouvir.
─ É sério?
─ Mochiron! Porque não? Rumiko quer saber tudo o que o senhor sabe sobre as aranhas.
Enrubescido, Petruz sorri e começa a explicar tudo o que havia estudado sobre tais insetos. E o garoto ficou realmente tão cheio de si, que para responder algumas perguntas simples de Rumiko, ele deixou a explicação básica de lado e decidiu partir para a mais aprofundada. Então pegou uma folha de guardanapo na mesa do centro do cômodo e pediu o lápis de Rumiko emprestado, para desenhar algo que lembrava ser uma aranha vista de cima. Em outro guardanapo, o ruivo faz outro desenho que assemelhava à um aracnídeo de perfil. Depois rabisca uns traços em certas partes dos dois desenhos e, em cada ponta dos traços, ele escrevia um nome diferente, exibindo, embora que mal feita, a anatomia completa dos araneídeos. Petruz então estufa o peito e inicia sua explicação, parte por parte.
A tarde chegou, o trem parou por duas horas para o almoço, partiu novamente e, assim, logo escureceu. De início a viagem prometeu ser longa, porém, quando deu por si, Petruz não acreditou que passou um dia inteiro dentro de um trem tão confotável, a sós com Rumiko, num vagão só deles, e tudo o que falou foi sobre insetos, política e filmes de televisão. Fora os muitos momentos de silêncio em que poderia aproveitar para encaixar algum assunto mais íntimo, para saber mais sobre a vida pessoal da mocinha, mas que acabou não conseguindo obter coragem para tanto. “Maldita timidez” – ele dá um soco na perna, arrependido do tempo perdido – “Ela agora deve estar achando que você é só uma criança que gosta de brincar com insetos”.
No momento, encontrava-se sentado num banco de praça feito de cimento e sem recosto, sozinho e próximo de um dos poucos postes iluminados do local, ainda nos arredores da estação ferroviária de onde desceram. Eram quase nove horas da noite quando chegaram à Jaú e a primeira coisa que Rumiko fez foi ir até o local onde, segundo ela, seu próximo alvo a aguardava. E ele, Petruz, à pedido da moça, ficou de esperá-la ali, ao ar livre da noite.
Com a bolsinha de camurça em forma de ursinho panda, firmemente seguro às mãos, contendo moedas de ouro e notas em dinheiro de valores altos e baixos, o ruivo olhava desconfiado à todos que passavam pelo local, com medo de ser assaltado ou abordado por algum tipo de meliante. Se isso acontecesse, sua única defesa seria fugir. E tendo de levar sua enorme mochila de acampamento e a pesada mochila-saco de Rumiko, ele não iria muito longe. Uma boa ideia seria sair dali antes do pior acontecer e, valendo-se de que estava em posse do dinheiro de Rumiko, alugar um quarto de pernoite, guardar os seus pertences e só então voltar para o local indicado. Porém, sentindo-se preso ao acordo combinado, ele não poderia sair dali até a moça voltar. “Volta logo, Rumiko”, ele torcia vez ou outra em pensamentos, enquanto mexia uma das pernas de forma nervosa e inquieta.
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Lomar Armstrong, por ser inglês, deveria estar na embaixada a qual ele representava e que era protegida diplomaticamente por seu país, a atual Nova Inglaterra, hoje liderada pelo poderoso Rei Henry, e dona dos três países que antigamente representavam a Grã-Bretanha. Entretanto, ele estava agora sentado numa cadeira de madeira rara, dentro de um trailer enorme, situado numa das áreas reservadas da cidade de Jaú, muitos metros morro abaixo do local da embaixada.
Era um tipo de estacionamento de vários metros quadrados, cercado por um muro de tijolos vermelhos, onde muitos outros trailers de aluguel também repousavam vazios. Esses veículos pertenciam ao governo e foram emprestados à algumas poucas pessoas da classe alta como solução alternativa enquanto suas casas e edifícios eram reconstruídos em áreas mais seguras. Conforme foram voltando para suas casas, os trailers foram sendo devolvidos e acumulados em terrenos também pertencentes ao governo amazonense.
Como embaixador e chefe do conselho da Inglaterra, Lomar Armstrong tinha poder para mandar e desmandar no local e uma de suas últimas ordens foi querer ficar com toda a área daquele estacionamento somente para si pelo tempo que estivesse em Vera Cruz. O governo amazonense não gostou da ideia. Era arriscado, perigoso e, apesar de perto da embaixada britânica, não era dentro dos seus muros de proteção, vigiados vinte quatro horas por homens com permissão de porte de armas de fogo. Ainda assim, Lomar assumiu os riscos, afirmando não se preocupar muito com sua própria segurança, pois ele tinha seus próprios guarda-costas. Sempre que saía de sua área de conforto com alguma missão a realizar, levava consigo um time de soldados britânicos, escolhidos à dedo por ele e que sempre o acompanhavam. Outro motivo de Lomar preferir a privacidade era porque ele gostava de ler e só conseguia fazer isso em silencio absoluto, por isso, não gostava de vizinhos, especialmente os barulhentos.
No momento ele folheava um livro que reunia casos de corrupções que aconteceram antigamente no Brasil, onde muitas não chegaram às vias jornalísticas e foram arquivados sem solução. Ao contrário do que se pensa, a corrupção só é crime para quem é um “zé ninguém”. É preciso ser um homem público para ser um corrupto intocável. Pelo que entendeu do livro, o ato de corrupção era iniciado, as pessoas certas eram envolvidas e um plano seguia-se até que o objetivo, caso houvesse algum, fosse alcançado. Depois que o plano desse certo, aí sim, poder-se-ia relaxar, porque mesmo que a lei descobrisse as tramoias do parlamentar, precisar-se-ia provar. E provas contra homens de grande nome na política na Ilha de Vera Cruz era algo meio raro de se ver. E Lomar queria saber o quanto dessa podridão poderia ser reaproveitada e usada a favor da Inglaterra, retirando assim, a posição privilegiada que o país de Vera Cruz tinha como sendo um dos preferidos para o surgimento do líder do mundo, coisa que ele nunca entendeu.
O livro, escrito por um americano, falava também sobre comissões parlamentares de inquéritos que foram abertas sem motivo e que não chegaram a lugar nenhum. Queria saber como isso funcionava em Vera Cruz, como deveria funcionar na realidade e como era manipulado ou modificado à bel prazer dos poderosos para satisfazer outrem. Era um assunto delicado, que deveria interessa-lo a fundo, já que, além de político, era juiz de tribunais especializados em casos que envolvessem o povo contra o parlamento ou o povo contra o estado. Acima de tudo, Lomar queria entender o porque da falta de respeito e de atenção que as pessoas de Vera Cruz davam à assuntos tão importantes. De acordo com o livro, os brasileiros agarravam-se à um representante que, mesmo acusado de crimes de tráfico ou peculato, era rapidamente perdoado e esquecido se caso tivesse uma grande obra em seu mandato. “Roubar, todo político rouba. É preciso ver quem rouba e trabalha”. Era mais ou menos esse o slogan do livro, que punia dizendo: “Portanto, o futuro de vocês é o buraco”. “Mas falar mal do país dos outros é fácil” – pensava Armstrong, enquanto fazia umas anotações de lado, numa folha de caderno.
Lomar olha no relógio. Já era tarde. Ele precisava voltar para a Nova Inglaterra dali a três dias, como fazia todos os anos. Antes, passaria o dia de amanhã em companhia do governador do Amazonas e, se conseguisse combinar uma visita, iria dar uma passada no palácio central para dar seus cumprimentos ao Prócer de Vera Cruz. Por isso e por outras coisas, queria terminar o livro antes de amanhecer, mas pelo visto não iria aguentar por causa do sono. Fez mais um esforço e, nesse cansaço, ele começa a cochilar, então recosta a cabeça na ala e confortável cadeira forrada e aperta os olhos, permitindo que uma leve soneca lhe invadisse, sem imaginar que, aos redores daquela área, uma caçadora de cabeças políticas já estava à espreita.
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