A Busca

36 Um Encontro Religioso


Nagasaki, ilha de Kyushu no Japão. Por ser uma cidade localizada na ponta mais desprotegida do arquipélago japonês, Nagasaki era um dos municípios que mais tempo ficou na lista de cidades com sérios riscos de desaparecer, pois toda a área à sua volta foi praticamente destroçada e varrida pelos tsunamis provenientes do Fim do Mundo. Quinze anos depois, no entanto, já não aparentava ter sofrido tanto.

Ao sul da cidade de Nagasaki, num vasto campo florestal que circundava uma bela montanha de baixo porte, encontrava-se um antiguíssimo e famoso pórtico. Conhecido no país como Torii, esses pórticos serviam de portões de entrada para templos religiosos, lugares sagrados e , em alguns casos, túmulos de imperadores. O torii em questão guardava o atualmente maior e mais belo, porém menos visitado templo do país, o templo Jimmu, erguido, obviamente, após o Fim do Mundo.

À poucos passos desse torii estava o padre Karras. Vestia-se todo de preto, com sapatos de couro, roupas sociais de tecido leve e o inconfundível colarinho romano sob a gola da camisa, identificando sua profissão e estilo de vida. Usava também um chapéu preto de aba circular, modelo antigo, óculos retangulares de cantos arredondados e trazia nas mãos a sua maleta de couro.

Sentiu-se na vontade de evitar passar por entre as barras do pórtico, consideradas como a porta de purificação para uma estrada sagrada. Contudo, deixou o orgulho de lado e passou por dentro do arco sem dar muita importância às crenças nipônicas. Após o pórtico, subiu muitos degraus até chegar aos portões principais do templo Jimmu, onde parou para descansar um pouco.

Entrando no templo, Karras prontamente procurou por alguém que lhe informasse sobre o dono do local. Viu duas moças bem vestidas ao longe, e acenou. Conhecidas como mikos, um tipo de sacerdotisa que ajuda com os afazeres do templo, as duas vieram ao seu encontro, e a mais velha delas, ao reparar as vestimentas de padre de Karras, o questiona brutamente:

─ O que você quer?

Karras reparou o motivo da rudeza, pede desculpas pelos trajes, e dirige-se à outra miko, mais jovem, e que não pareceu ficar tão irada. Na verdade até riu do incômodo de sua companheira.

─ Eu gostaria de falar com o monge Kyoshiro, por favor.

─ O monge Kyoshiro é o senhor do templo.

─ Sei disso.

─ Então deve saber que ele não recebe qualquer um sem motivo ou sem marcar uma visita prévia.

─ Sim. Sei disso também. E tenho uma boa razão para vê-lo.

Após ouvir as explicações e o motivo de Karras estar ali, uma das mulheres, após uma mesura, faz um sinal com as mãos, dando permissão para Karras adentrar ainda mais ao templo, seguindo-a.

O lugar era de uma beleza encontrada somente em lugares sagrados do Japão ou da China. Com pilastras grossas apoiando um teto alto e de pouca luminosidade, estátuas imensas com detalhes minuciosos. Um piso lustroso que estava sempre limpo. Tecidos enormes, de cores claras, pendurados no teto e que iam quase até o chão, grafados com letras orientais que simbolizavam mantras ou palavras sagradas. Tudo era de se admirar, mas o que roubou a atenção total de Karras, no entanto, foi uma estátua enorme, a maior de todas avistadas por ele durante o caminho e que, pelo que supôs Karras, representava o Deus supremo do lugar.

De corpo musculoso, um rosto retorcido de fúria, pele em tom avermelhado, segurando uma espada numa das mãos e uma corda na outra, a imagem se mostrava com retoques de fundo que sobressaíam ao seu redor, dando-lhe a impressão de que estivesse mergulhada em chamas. Era a estátua de Acala, uma entidade do budismo. Apesar de ser uma poderosa divindade protetora, um dos cinco reis da sabedoria e de ser respeitado e honrado em várias das seitas pelas quais o budismo original se dividiu, para os olhos de cristão de Karras, aquela imagem não era muito diferente do que ele sabia ou ouvira falar sobre o Diabo.

Karras persigna-se, de modo discreto e involuntário, mas seu gesto não passa despercebido por outros membros presentes no salão e fora dele. Alguns poucos, em sua maioria mulheres, riram por detrás das mãos que usaram para esconder os lábios. Outros, visivelmente ofendidos com os gestos do padre, mostram-lhe uma cara enfezada ou de desaprovação.

Eles andaram muito, por entre salas interligadas e corredores escuros, até que chegam, enfim, à outra grande sala, de forma pentagonal, iluminada por candeias de querosene. No fim da sala, bem de frente com a porta de onde vieram, via-se outra daquelas estátuas asiáticas, também enorme, sobre um piso elevado.

Sentada de pernas dobradas numa espécie de folha de lótus, de olhos fechados numa face serena e com um pequeno pórtico sobre a cabeça, semelhante ao que serve de entrada para o terreno daquele templo, aquela era Benzaiten, uma deusa Hindu, adotada pelos japoneses pouco depois que ela e a história de suas origens chegaram ao país, entre os séculos VI e VIII, durante as traduções do sutra da Luz Dourada.

A sacerdotiza sobe no palanque onde a estátua de Benzaiten repousava e convida Karras à fazer o mesmo. Ele a obedece calado, sobe no alto relevo e, por indicação da miko, vai para as costas da enorme estátua, que estava por quase dois metros afastada da parede. Naquele pequeno espaço, entre a estátua e a parede às costas dela, havia um tipo de alçapão. Karras não precisou esperar a ordem ou permissão da miko para abrir aquela porta e, como era de se esperar, encontra uma escada, que descia até ser engolida pela escuridão abaixo. Ao observar a mulher se afastar e ficar de costas, tanto para ele quanto para a estátua, Karras percebeu que dali em diante era por sua conta.

O padre desce as escadas devagar, de braços abertos e tateando as paredes, mais por receio de tropeçar que por medo do que encontraria lá embaixo. No fim da escadaria, à esquerda, um tipo de quarto largo e profundo, cercado por paredes feitas de pedras e o piso todo em madeira encerada. De móveis, Karras viu três mesas, também feitas de pedra de cor branca, e cadeiras de madeira, com pés de balanço. Notou alguns suportes nas paredes, onde se viam livros, pastas e papéis presos em lotes por fitas vermelhas. A sala era iluminada à luz de várias velas, sobrepostas num baixo muro que corria por toda a sala pelos cantos das paredes.

E no meio do quarto, sobre um tapete redondo, via-se um homem sentado, de costas para abertura de onde descia a escada. Usava roupas largas e brancas com retoques vermelho nas mangas, ombros e barras da calça. Na cabeça, um ornamento alto e pontudo, como um chapéu de algum culto religioso. Ao que parecia, fumava alguma coisa, cujo cheiro exalado e impregnado no ar não era conhecido por Karras. Propositalmente, o homem de branco manteve-se em silêncio, deixando que Karras visse tudo ao redor e se acostumasse com o cômodo. Até que o padre decide perguntar.

─ Senhor Abe no Seimei?

─ Humm... As pessoas por aqui me chamam de sacerdote Kyoshiro. Ou monge Kyoshiro, do templo Jimmu.

─ Foi como cheguei aqui. Meu suserano disse que assim deveria procura-lo, se um dia eu viesse até Nagasaki e desejasse falar com o senhor Abe no Seimei.

─ Seu suserano? Só uma pessoa ostenta esse título no Japão hoje em dia. Está aqui em nome dele?

─ Não, senhor Abe no Seimei. Estou aqui...

─ Chame-me apenas de Seimei, senhor João “John” Karras.

─ Hein? Você sabe quem sou eu?

─ Sou um onmyōji. Eu sei o que é preciso saber.

─ Sabe então por que eu vim aqui?

─ Imagino. Mas quero ouvi-lo dizer.

─ Então vou falar sem rodeios. O senhor Gengetsu está morto.

O homem à frente aspira o ar de modo lento, afastando sua mão para o lado. Em seus dedos, Karras pode ver algo que parecia ser um longo cachimbo.

─ Eu sei – ele replica – amada Amaterasu me disse.

─ Ela... lhe disse?

─ Não diretamente, é claro. Os deuses falam por oráculos.

─ Amaterasu... É a deusa do sol, não é? – Karras passeia os olhos pelo local – Falando nela, não a vi por aqui ainda.

─ Nem deveria. Isso não é um templo Xintoísta. Mas ela decerto está por aqui. Seria estranho esse templo levar o “nome de imperador” de Iwarebiko sem respeitar sua lenda (1).

O homem de branco deixa o cachimbo sobre um pote à sua frente e levanta-se devagar, apoiando-se nos joelhos, continuando de costas. Logo, mexe a cabeça uma vez, para esquerda e direita, relaxando pescoço. Só então é que ele, finalmente, se vira para Karras e abre os braços, mostrando-se. Karras olhou bem para o homem à sua frente, ajeitando os óculos para não fazer um falso julgamento.

Os olhos finos, encurvados para cima, a boca meio rosada num rosto pálido e rechonchudo. Bigodes finos e longos em conjunto com uma barba na ponta do queixo, também longa. Karras não pode deixar de notar que Seimei, no que dizia respeito à suas feições asiáticas, era bem diferente dos japoneses com os quais já se encontrara.

─ Surpreso? – questiona Seimei.

─ Aliviado. Achei que fosse uma pessoa mais... “comum”. Mas o senhor tem cara de um grande mestre. Um grande sábio.

─ Fala de minha aparência? Tento me parecer com alguém a quem admiro. Um mestre de verdade. O filósofo chinês, Confúcio.

─ Ouvi falar.

─ Devo dizer que também estou desapontado com sua aparência, senhor João “John” Karras. Por ser membro de um grupo exclusivo de padres sob os olhos do Vaticano, achei que fosse mais imponente, como os "super-padres" da Primani.

─ A Primani não existe, senhor Seimei. É só uma lenda.

O homem de branco faz uma careta, desapontado com o que acabara de ouvir. Sua careta de homem desconfiado não passa despercebida pelo padre, que pensou em argumentar alguma coisa. Antes disso, porém, o homem de branco junta as mãos nas costas e argumenta.

─ Considerando sua fé, que vocês associam à teimosia em acreditar em algo sem provas, deve ter sido muito difícil para o senhor passar pelo guardião principal sem se benzer.

Agora sim, Karras pareceu surpreso. Como aquele homem poderia saber daquilo, se não saiu daquele quarto para recebê-lo? Seja qual fosse o truque, a resposta estava naquela sala.

─ Não vou me desculpar por isso.

─ Oh, não... Não quero suas desculpas. Quero uma explicação, se é que tem uma.

─ Me sinto mais seguro na presença do meu senhor, por isso precisei lembra-lo de que estou ao seu lado, então pedi-lhe proteção.

─ Persignando-se?

─ Não quero ser indiscreto, senhor Seimei, mas isso não lhe diz respeito.

─ Não. Realmente, à mim não. Mas aquele no salão principal, senhor João “John” Karras, é o grande deus Acala, a mais importante deidade guardiã do budismo antigo. Coisas como se ajoelhar, prostrar ou mesmo mesurar diante dele são sinais de respeito, mas não preciso fazer isso diante de um deus que não respeito, para lembrar Acala de que eu não o abandonei ou o rejeitei, porque ele sabe disso.

─ Entendo seu ponto de vista, senhor Seimei.

─ O senhor pode não acreditar nas minhas bobagens, mas quero que saiba que o senhor já está protegido, não só pela força, mas pela astúcia. Então, quando adentrar à um templo que homenageie Acala, não é preciso se benzer, senhor João “John” Karras.

─ Entendo. Estou envergonhado pelo meu ato desrespeitoso e sinto muito por isso.

─ Tudo bem. Sem cerimônias, por favor. E antes de me dizer o que veio fazer aqui, eu vou buscar uma água para nós – o onmyōji passa ao lado de Karras – ou você prefere algo mais forte? Um vinho ou sake?

─ Não. Um pouco d’água está ótimo.

─ Fique à vontade. Eu não me demoro.

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Protegida por uma noite sem luar, Rumiko invade o terreno reservado à embaixada britânica pela área mais escura e difícil. Possuía informações de que seu alvo estava para partir de Vera Cruz e só voltaria dali uma semana, por isso não podia perder tempo.

A moça chega ao fim do alto muro que cercava a embaixada britânica e desce um longo morro gramado, que se embrenhava num matagal alto. Sabia que quem ela procurava não estava na embaixada, embora fosse o lugar aonde sua profissão exigisse que ele ficasse. No fim das matas o morro, agora capinado, continuava à descer e ela, enfim vê o que procurava; um estacionamento enorme, amontoado de trailers, com um muro circular e algumas árvores, tanto dentro quanto fora do cerco.

Rumiko retirou sua luneta retrátil do bolso do hakama e averiguou o local. Segundo as informações que possuía, deveria haver vinte soldados britânicos, rondando por ali. Em seguida, procurou um luxuoso e gigantesco trailer, onde o embaixador britânico deveria estar. Encontra um único trailer com as luzes ainda acesas. Não era o mais luxuoso, nem o maior, e ela dá de ombros. Se não fosse ali, seria muito azar, e ela não acreditava no azar, embora acreditasse na sorte.

Ocultando-se nas sombras e matas, Rumiko vai descendo ao mesmo tempo em que circula o local, examinado todos os pontos possíveis do estacionamento. Estudou o portão principal, de cara para a subida do morro, e os fundos do estacionamento, do lado onde o terreno descia ainda mais até se misturar à um lamaçal. O posicionamento dos guardas, em grupos afastados, mas quase todos com suas atenções voltadas ao portão de entrada, davam a ideia de onde o trailer Lomar deveria estar.

Havia de fato 20 soldados ingleses no local, alguns portando baionetas e outros, espadas francesas. A moça escolheu uma trilha onde 8 dos 20 soldados ficavam de guarda. Era a mais livre e ia até os fundos do estacionamento sem muitos obstáculos. Sua luneta não avistou câmeras de segurança e o terreno era meio bagunçado, com peças de trailers espalhados. Uma invasão por ali seria perfeita.

Em pouco mais de trinta minutos, ganhando terreno pouco a pouco, Rumiko enfim recostava-se ao muro. Na descida ela agarrou um pedaço de galho qualquer, que fosse pequeno, porém pesado. Ela arremessou o galho no ramo de árvore mais frondoso e mais adentro do terreno da garagem que encontrou. Imediatamente depois, valendo-se da ajuda de uma outra árvore ao lado externo, subiu os altos muros do estacionamento sem dificuldade. Espantou-se ao ver que os oito soldados foram vasculhar o barulho feito pelo galho que caiu dentro dos arredores. Não era essa a intenção de seu feito, mas já que resultou nisso, ela não se importou.

Rumiko salta em silêncio para dentro do terreno gramado e de lá, avança até o canto escuro mais próximo do muro. Dali, retira sua tantô, uma espécie de adaga japonesa, e a coloca na boca, prendendo a lâmina entre os alvos dentes. E espera, imóvel, por trinta segundos. Tempo suficiente para um cão de guarda a encontrar ou latir avisando da presença de um intruso. Não apareceu nenhum cão e latido algum se fez ouvir, então, como uma pantera rastejando até uma presa distraída, ela avança veloz e sorrateiramente pela escuridão até chegar ao trailer que supunha ser de Lomar e lá, procura um lugar para se esconder. O melhor que pensou foi acima do veículo, e ela subiu nele silenciosa e habilmente, evitando qualquer ponto que pudesse ser usado como janela pelo embaixador. Feito, ela aguarda pelo próximo evento. Um graveto não se “atira sozinho”. Os soldados muito provavelmente iriam até ali para ver se está tudo bem com o embaixador antes de voltarem aos seus postos e redobrarem a atenção. Rumiko tira a adaga dos dentes e a embainha novamente, deitando de costas no trailer e olhando para o céu estrelado e sem luar. E espera pacientemente.

Não portava nenhuma arma além de sua adaga japonesa, e não tinha planos de sair dali com ela. Por isso, se tiver de entrar em combate com os homens de Lomar, terá de contar com sua sorte e suas habilidades até conseguir tomar de alguém uma daquelas espadas francesas.

Momentos depois, como previra, três soldados vieram ao trailer, bateram na porta perguntando se estava tudo bem. Lomar abriu a porta, saiu e trocou algumas palavras com seus homens, que Rumiko não entendeu por falarem em inglês. A conversa é rápida e desrespeitosa por parte de Lomar, que demonstrou não gostar de ter sido interrompido por subordinados.

Assim que o embaixador entra, seus homens se afastam devagar do trailer, esperam mais alguns minutos, averiguando o local e logo voltam aos seus postos. Quando tudo parece livre, Rumiko salta de cima do trailer, direcionando sua queda para trás do veículo, caindo próxima do muro. O chão gramado e a sapatilha especial que usava lhe permitiu cair em silêncio. Ela vai até à porta da frente, coloca uma mão no trinco e outro na adaga. Iria usar a arma para arrombar a porta, mas ao girar a maçaneta, para sua sorte, viu que a mesma estava aberta. O embaixador devia ter se esquecido de trancar quando recebeu seus soldados. Num rápido movimento, Rumiko se joga para dentro do veículo, fechando e trancando a porta atrás de si.

Lomar, que já cochilava tranquilamente sentado em sua cadeira atrás da mesa, quase perde a fala ao ver uma moça que nunca vira antes. Apoiando-se nos braços da cadeira, na intenção de se levantar, ele pergunta com o seu melhor português:

─ S-santa Deus! Q-quem ser você?

Rumiko mostra sua pequena arma cortante e gesticula um pedido de silêncio. A princípio ela ficou admirada. Lomar tinha tudo o que ela sabia dos ingleses da classe nobre. Um rosto esticado, olhos pequenos, queixo protuberante, cartola sobre a cabeça, um monóculo preso por corrente ao lado esquerdo do rosto... A moça sorri graciosa, imaginando que para completar a cena do que ela sabia sobre britânicos, só faltava nas mãos de Lomar uma xícara de chá ou um cachimbo, daqueles gordos, bonitos e fumacentos.

─ Senhor Lomar – ela aproxima um passo, ameaçadoramente – Meu nome é Rumiko!

─ Ru -Rumiko? O que você querer?

─ Rumiko está aqui para mata-lo, mas antes, tem umas perguntas para fazer.

─ Isso ser absurdo!

O homem ameaça se erguer, mas subitamente, os olhos brilhantes e carinhosos de Rumiko mudam para uma forma mais sinistra e assustadora.

─ Calma, senhor. Não se levante – ela aponta a adaga para ele – Não grite e sem movimentos bruscos.

─ O... O quê?

Lomar acomoda-se novamente, agora sem o relaxamento de antes. A forte sonolência que o atingia também sumiu de vez. A moça afasta-se de costas, com os grandes olhos fixos em Lomar, vai até as janelas devagar e desconfiada, dando uma rápida olhada para fora e fechando as cortinas.

─ Rumiko já conhece as respostas das perguntas que vai lhe fazer, então o senhor não precisa se esforçar em mentir.

─ Por quê isso?

─ Umm... Rumiko só quer que o senhor saiba por que vai morrer.

─ Santa Deus... Santa Deus

Rumiko mantém sua tantô erguida e olha para os cantos do trailer. Era um veículo grande, com quarto, banheiro e até cozinha, todos de portas fechadas. Tinha guarda-roupas, armários, pia de cozinha, uma caixa d’água no teto... tudo num tamanho compacto, perfeitamente adaptado ao espaço que o trailer oferecia.

Perto de Lomar, numa cadeira afastada da mesa, Rumiko reparou um casaco elegante, dobrado e dependurado sobre o recosto do móvel. Também ali, uma espada, um tipo de sabre francês, aparentemente antigo, porém pouco usado. Rumiko afiou os olhos e vasculhou a mesa e os arredores, procurando por mais alguma coisa que ela sabia estar faltando.

─ Tem mais alguém com o senhor? – ela questiona.

E o homem balança a cabeça, negando. Rumiko aproxima-se da mesa, ficando do outro lado do móvel e de frente ao homem, e abaixa sua adaga, sorrindo para Lomar antes de lhe perguntar:

─ Ótimo! Então, senhor Lomar... Rumiko pode chama-lo apenas de Lomar? Seu sobrenome é muito complicado para Rumiko pronunciar.

O embaixador não diz nada. A boca meio aberta, os olhos finos por detrás do monóculo luxuoso, preso à uma corrente de prata que ia até seu paletó. As mãos cobertas por luvas brancas de caro tecido e uma cartola escura e lustrosa sobre a cabeça. O homem trajava-se como um lorde.

Rumiko pegou a pequena bainha da tantô e guarda a lâmina, segurando-a firme na mão esquerda.

─ Rumiko tem consciência do crime que o senhor cometeu e não interessa à ela saber porque fez isso, por isso vai direto ao assunto. O que Rumiko quer saber é: Quem o ajudou?

─ Quê?

─ Para o senhor ter conseguido fazer o que fez, deve ter conseguido ajuda de alguém daqui de Vera Cruz. Alguém grande e poderoso. Diga à Rumiko quem foi.

─ Eu não saber do que estar falando.

─ Senhor Lomar, Rumiko está meio sem tempo. Lembre-se que Rumiko já sabe as respostas, assim... – a moça balança a adaga, apontando para o embaixador – por ela tudo bem se o senhor não quiser conversar.

O embaixador permanece calado. As mãos na mesa começaram a tremer. Mas apesar de suar bastante, Lomar tenta se manter calmo e paralisado. Em uma das gavetas na sua mesa, ao seu lado direito, tinha uma arma de fogo guardada. Lomar pensou em, num momento de distração da invasora, abrir e pegar a arma. Não intencionava atirar nela, até mesmo porque não tinha treinamento pra isso. Ele só a possuía porque era um acessório essencial à um nobre inglês de alta patente militar, posto que antes foi de seu pai.

Além disso, percebia que Rumiko não parecia ter nada além de uma adaga de vinte centímetros e estava do outro lado da mesa. Se ele conseguisse se armar, estaria no controle da situação, porque estaria com uma arma de maior poder e pleno alcance. Assim poderia dominar Rumiko e se mover livremente para chamar seus homens.

Só que aí aconteceu um problema. Seu olhar esperançoso para gaveta, mesmo que tenha sido rápido, não passou despercebido pela moça que, ato seguinte, caminhou até a lateral da mesa, ao lado de Lomar, sentou-se sobre o móvel e deixou uma das pernas sobre o trio de gavetas.

─ Pretende pegar sua arma? – pressagia Rumiko com um lindo sorriso – Rumiko sabe que o senhor tem uma.

─ Ah... não. Não pretender nada.

Rumiko estica o corpo e pega a espada de Lomar, na cadeira ao lado.

─ É um belo Sabre. Qual é o modelo?

─ S-sabre de cavalaria... P-Patton 1913.

─ 1913? Deve ser bem valioso.

─ Escutar... Se você ser enviada por um inimiga do rei, saber que posso pagar dobrado pelo que recebeu. Poder ficar com a sabre também. É muito valiosa. Muito valiosa mesmo.

─ Nhá. Rumiko não gosta muito de sabres. São curvos demais na empunhadura que por sua vez, é muito pequena. Na maioria dos modelos, a lâmina, também curva só que para o lado contrario, forma um “S” e isso resulta num desequilíbrio gritante entre o cabo da empunhadura e a folha de lâmina. Embora esse aqui seja reto e muito bonito, Rumiko não o quer.

A moça recoloca o sabre no lugar e, com a adaga ainda na mão esquerda, sem qualquer intenção de usá-la, inclina-se de lado sobre a mesa de Lomar, quase deitando no móvel, puxa uma gaveta e a remexe. Ao tornar a se endireitar, Rumiko coloca na frente do embaixador um papel branco de impressão, tamanho A4 e personalizado com características exclusivas de Lomar, como um cabeçalho de entrada mostrando saudações personalizadas, o cargo do remetente e um campo de assinatura no rodapé contendo seu nome completo embaixo. Depois ela pega uma caneta e entrega nas mãos do homem. Ele olha confuso para a folha em branco enquanto Rumiko explica.

─ O senhor vai escrever o nome do homem que lhe ajudou. E abaixo, o lugar de onde eles estão.

─ Eles? Quem ser eles?

A moça sopra um ar de irritação, já cansada daquele joguinho.

─ O tempo de Rumiko está acabando, senhor Lomar.

Lomar encara os olhos grandes da moça, depois volta-se para a folha em branco, ainda indeciso. Rumiko levanta-se da mesa, vai até as costas de Lomar e encosta o fio gelado de sua tantô na garganta do inglês, sussurrando em seu ouvido.

─ Rumiko sabe onde eles estão. Rumiko sabe quem o ajudou, dando-lhe permissão para fazer tal ato hediondo. O senhor vai escrever o lugar, escrever o nome da pessoa que lhe ajudou e assinar a confissão.

O embaixador segura a caneta com mais firmeza. Em seguida, logo após sentir mais pressão da lâmina em sua garganta, ele coloca a ponta sobre o papel e começa a rabiscar as informações requeridas, com Rumiko observando por sobre seus ombros. Era estranho que, mesmo sabendo que vai inevitavelmente morrer, a pessoa ameaçada faz tudo o que a outra manda sem tentar reagir. Quando termina, ele coloca a caneta de lado e as mãos sobre a mesa. Rumiko afasta novamente, fica de frente para o embaixador e lhe sorri.

─ Muito bem. Era só isso. Oyasuminasai!

Num átimo, a moça retira sua adaga da bainha e enfia a arma no crânio do homem, perfurando logo acima de seus olhos. Com a força do golpe, a cadeira se desequilibra e tomba. Lomar cai para trás, com a arma enfiada na testa e os olhos revirados de pavor. Rumiko coloca a bainha da tantô sobre a mesa, pega o sabre e sai do trailer, deixando a porta aberta. Hora de encarar os soldados.

Notas finais
(1) Iwarebiko = Kamuyamato Iwarebiko, cujo nome de imperador era Jimmu, foi o 1º imperador do Japão. Viveu entre os anos 660-585 antes de Cristo. Segundo as lendas, ele é descendente direto da deusa do sol Amaterasu.