A Busca
28 A Rata e o Falcão – Lado B
Petruz observava Rumiko ao seu lado, petrificada como a estátua de um colonizador focalizando o horizonte. Ele não sabia que horas eram, mas deveria se passar e muito das duas da tarde, pois já estavam ali há bastante tempo. Tanto que ele já estava entediado e com tanta fome que, para disfarçar, Petruz pensou em iniciar uma conversa qualquer:
─ Rumiko...
─ Shhh! Eles chegaram, senhor.
Num susto, Petruz recolhe-se rapidamente, deitando a cabeça na grama, de olhos fixos e assustados, focados em Rumiko.
A moça aperta mais os lábios, emocionada. Pelas aberturas das janelas, viu rápidos movimentos no quarto. Vultos na verdade. Provavelmente estariam vasculhando o cômodo com rapidez e cautela antes de começarem a averiguar com mais calma por vestígios e pistas. Rumiko esperou ansiosamente até que as visitas deduzissem que ela saiu por uma das janelas e fossem até ali averiguar.
A moça abre levemente a boca quando um rosto aparece na janela, cerca de cinco minutos depois que se iniciaram os movimentos no quarto.
─ Aí está você! – ela diz, com intenção de que Petruz à ouvisse.
“Ela tinha razão...” – Petruz admite – “Tinha mesmo alguém atrás de nós”.
─ Está vendo ele? – o ruivo pergunta.
─ Hai! Está exatamente na janela que usamos para fugir.
Numa primeira impressão, o homem na janela passava a silhueta de ser um senhor já de idade, de cabelos grossos e grisalhos. Ele apoiava-se no parapeito da janela com apenas uma das mãos e olhava para baixo. Alguns segundos depois, começou a se expressar, fazendo gestos para alguém abaixo. Não dava para Rumiko ver quem era porque, antes do fim da escadaria de incêndio, entre o hotel e a floresta em que ela estava, havia um casarão, vizinho ao Genevie, que pegava da metade do hotel até o final da lateral do restaurante. “Então tem alguém lá embaixo?” – questiona-se Rumiko, que logo de início quis saber se eles teriam a inteligência de subir por ali ou ao menos deixar alguém de prontidão – “muito sensato, senhor perseguidor. Agora vamos lá... Ergue a cabeça, por favorzinho...”.
Como se ouvisse as súplicas de Rumiko, o homem vai erguendo o rosto, bem lentamente, causando um suspense que Rumiko quase gritou de excitação. – “Isso! Olha para Rumiko...”.
Quando os olhos do homem chegaram ao nível mais elevado do terreno, exatamente onde Rumiko e Petruz se escondiam, ele fixa o rosto e força o olhar, como se tentasse enxergar através das folhas, galhos e sombras que via adiante.
Era realmente um senhor. No mínimo cinquenta anos, rosto cansado, enrugado, sério e, no momento, parecia estar muito bravo. Trajava-se muito bem para um mero policial à paisana, assemelhando-se mais à um desses investigadores particulares americanos.
Nos raros segundos em que aquele homem focalizou o terreno adiante, Rumiko aproveitou para delinear seu rosto. O alcance de sua luneta era tão eficaz que ela pode perceber o velho apertando as pálpebras, provavelmente ajustando o foco natural de sua visão já debilitada pela idade. E agora que tinha uma visão perfeita do rosto dele, Rumiko diz a palavra “clique”, em alusão à sua memória fotográfica, guardando aquela face misteriosa.
Rumiko percebe outro homem se aproximar ao fundo. Não viu o rosto, mas do peito para baixo estava fardado como policial. Comentou alguma coisa e se manteve à distância. O velho à janela, então, olha para a escada de incêndio à sua esquerda.
─ A-há! Um dos nossos amiguinhos acabou de notar a nossa rota de fuga, senhor Petruz. Já devem saber que nós fugimos para essa floresta.
─ E agora? – ele pergunta.
─ Bom, já que aqui na cidade de Saltos não tem uma divisão de policia ambiental ou guardas florestais. Eles teriam que chamar uma equipe de outra cidade ou o corpo de bombeiros para auxiliá-los nas buscas pelas matas. Coisa que não vão fazer porque quando encontrarem o nosso almoço, eles vão descobrir que nós saímos há mais de uma hora. Então eles vão vir nos procurar pessoalmente.
“Nosso almoço?” – Petruz tenta imaginar qual a ligação. Demorou para perceber que Rumiko se referia ao calor do prato que, agora frio, daria para se fazer um cálculo do tempo de fuga. Petruz não conseguiria fazer esse cálculo, mas julgou que Rumiko sim, saberia deduzir. Por isso estava tão certa do que dizia.
─ São quantos? – quis saber o ruivo.
─ Pelo menos três pessoas, senhor Petruz. Dois estão no cômodo e tem mais um na escada de incêndio que... Opa!
Rumiko nota um quarto homem se aproximar ao fundo, também vestido como civil. Ele diz alguma coisa e o senhor na janela finalmente se move, saindo da visão de sua observadora. Não faz mal para Rumiko. Alguma coisa lhe dizia que o homem que ela “foto-memorizou” era o mais importante de todos.
Os vultos ficam a poucos centímetros da janela, conversam alguma coisa e saem em disparada. É aí que Rumiko nota que o velho senhor andava de um jeito dificultoso. Parecia mancar.
─ Senhor Petruz! – chama Rumiko com altivez – fique de olho no beco.
─ No beco?
─ Sim. Aquele pelo qual nós saímos. Se eles vierem nos perseguir, Rumiko já tem uma ideia do que fazer, mas ela precisa saber primeiro por onde eles vão começar. Por isso, Rumiko não pode perder o foco do que acontece naquele quarto. Qualquer movimento fora do hotel o senhor avisa Rumiko.
Petruz ergue um pouco o pescoço e começa a fazer sua parte, observando um beco formado entre uma casa comum e o casarão, que ficavam atrás do hotel e davam numa rua de barro.
Mais de dez minutos se passam e Rumiko, baseando-se no que aprendeu sobre os trâmites de uma investigação, achou que demorou muito até que ela visse os vultos novamente. O que eles estavam esperando para iniciar as buscas? Já deveria estar claro de que não havia ninguém no quarto.
Quando reavistou os homens, só havia dois deles. Os dois bem vestidos, provavelmente investigadores, policiais à paisana ou, no máximo, detetives. Ao que deu para perceber, sentaram-se nas camas despreocupadamente.
─ Nani ôô...? – Rumiko se ajeita na grama – O que estão esperando para vir nos procurar?
Petruz permanece na sua função, observando o beco ao longe. De sua posição, dava para ver, localizada à direita do hotel, um bom pedaço da avenida principal, que ia se afastando numa longa e larga curva, ganhando distância da floresta no alto do relevo. Dessa avenida, havia uma estrada separada que passava às portas do hotel. E é lá que Petruz vê dois homens, tão distantes que pareciam formigas de uniforme policial, entrando em uma viatura.
─ A polícia! – ele diz em voz alta – Eles estão entrando no carro.
─ Orô? – Rumiko caça a viatura com a luneta e encontra o automóvel policial. E os vê iniciando um movimento, se afastando do hotel.
Rumiko os acompanha, completamente confusa com as ações de seus perseguidores. E quando a viatura entra na avenida principal e finalmente desaparece, deixando claro de que não iriam voltar ou chamar reforços, Rumiko decide retornar a atenção para a janela. Antes, porém, analisa tudo ao redor com sua luneta de longo alcance.
Ela vê uma banca de jornal, uma mercearia com lona listrada de branco e azul, várias casas de pessoas comuns, um pequeno campo de futebol improvisado e, por fim, bem afastado dos comércios comuns, ela vê uma barraquinha simples, onde uma senhora bem idosa vendia flores e cartões de celebração para diversas ocasiões aos transeuntes que raramente passavam por ali.
Por último, sua visão chega ao beco por onde saíram, segue até os pés do hotel e sobe até a janela do quarto onde outrora estavam. Mesmo não vendo os dois homens no quarto, ela sabia que ainda estavam lá por causa das sombras que moviam-se lentamente por trás dos vidros de canto das janelas, gesticulando como se conversassem tranquilamente. Pouco tempo depois, os suspeitos se levantam.
─ É agora! – Rumiko morde o canto esquerdo do lábio inferior.
Os homens andam calmamente até corredor improvisado do quarto, que separava a área de dormir da sala de entrada. E desaparecem. Não dava para saber se saíram do quarto. Contudo, Rumiko decidiu arriscar, levantando-se num pulo.
─ Fique aqui, senhor. Rumiko já volta.
Como um raio, Rumiko se embrenhou na floresta, pela sua direita, e chegou aos limites da área, descendo outro pequeno morro, muito mais íngreme e menos gramado daquele lado. Saltou a cerca que rodeava a área reservada e logo chegou à avenida principal, com três faixas de ida e de volta.
Lá, atravessou a movimentada avenida e seguiu pela esquerda até chegar no ponto desejado. Notou que ficava bem em frente à uma mercearia que preparavam lanches rápidos. Aproveitou e pediu um lanche grande para viagem, com tudo que seus olhos puderam ver de pré pronto na vitrine do freezer. Pediu também duas garrafinhas de suco de laranja. Um dos funcionários pergunta se ela não estava com frio. Rumiko acena com a cabeça, respondendo que sim.
Enquanto a atendente preparava o lanche, ela saiu da mercearia distraidamente, abriu sua luneta e ficou de frente para o hotel, situado do outro lado da avenida. Disfarçou, levou a luneta aos olhos e procurou seus alvos.
Rumiko os encontrou no restaurante, que, por sorte, tinha pouca gente. Aliás, deveria estar vazio, já que não era mais hora do almoço. Para se certificar, ela analisou bem o homem de sobretudo, viu que era da mesma cor do perseguidor que invadiu seu quarto, tinha cabelos altamente grisalhos e rosto envelhecido. Era ele mesmo. E seu companheiro, vendo melhor agora, era um asiático, provavelmente japonês.
Ao que lhe pareceu, os homens procuravam um lugar para se sentar. A moça riu desacreditada, impressionada com a calma dos policiais, se é que eram mesmo policiais.
Ela fecha e guarda a luneta, e volta para dentro da mercearia. Seu pedido fica pronto em pouco mais de cinco minutos e, assim que paga pelo lanche, ela sai apressada do local, cruzando os braços e se encolhendo, na intenção de fazer com que as pessoas ali entendessem que ela corria por causa do frio.
Voltou velozmente ao encontro de Petruz, retirou e abriu uma das garrafas de suco e entrega ao ruivo a sacola com o lanche. Para desviar a preocupação do garoto, Rumiko lhe diz que comeu alguma coisa no caminho. No momento, a satisfação de Petruz lhe era mais importante. E após beber todo o suco, Rumiko prepara seu próximo passo.
Ela pega sua mochila saco e retira um lenço de um dos bolsos externos, colocando sobre um dos ombros. Depois desamarra e retira o grosso barbante que era usado para prender a boca de sua mochila.
─ O que vai fazer? – Petruz estranha os gestos de Rumiko.
─ Tem um senhor interessante nos perseguindo. Rumiko quer saber quem ele é.
─ Ah, é? E como vai descobrir? Vai até lá perguntar o nome dele?
─ O senhor conhece um jeito melhor de se conhecer as pessoas?
─ Você... está falando sério?
─ Rumiko sempre fala sério, senhor Petruz. Me empreste uma de suas calças, por favor.
─ O quê?
─ As calças que o senhor comprou. Empreste uma delas para Rumiko. A de pano jeans, de preferência. Quero uma camisa social de mangas curtas e um par de tênis também.
Petruz fica estático, sem entender o que a moça pretendia. Mesmo assim, decide pegar as peças requisitadas de roupa de sua mochila campestre. Ele retira também o par de tênis que usava, entrega para a moça e vira-se de costas ao perceber que ela iria trocar de roupas ali mesmo, sem qualquer cerimônia. Poucos segundos depois, Rumiko lhe chama a atenção:
─ Como Rumiko está?
O ruivo volta-se devagar e vê Rumiko vestida com suas roupas. A análise foi inevitável. Rumiko tinha cintura fina, então prendeu as calças de Petruz com o barbante retirado da bolsa. A camisa social ela a pôs por cima da que já usava, deixando-a aberta na frente e ficando, assim, com duas camisas. E os tênis, por ser de número pouco maior que o pé de Rumiko, ficou claramente folgado. Por fim, o lenço, que ela pôs em volta do pescoço, como se fosse um babador. Petruz balança a cabeça para os lados, censurando.
─ Está parecendo uma mulher relaxada, que não sabe se vestir.
─ Perfeito! – Rumiko faz um sinal de positivo com o polegar – Agora, se der tudo certo, Rumiko estará de volta em quinze ou vinte minutos.
─ Tudo bem. E eu? Espero aqui?
─ Sim, por favor. E senhor Petruz... – a moça demonstra sua inevitável preocupação – Por favor, tome cuidado. Se vir ou ouvir qualquer coisa estranha, se esconda ou fuja.
─ Está bem. Entendi.
Deixando o ruivo, Rumiko acelera o passo, saindo da floresta aos tropeços por causa do tênis grande. Depois de saltar a cerca, Rumiko se aproxima da barraquinha de flores, olhando descontraída para os lados, e pergunta para a velhinha, dona da barraca:
─ Bom dia, doce senhora. Quanto custa cada uma dessas rosas?
─ Uma bedina, minha querida...
A velha mulher, que estava sentada num banco de madeira, tenta se levantar para atender melhor a educada cliente. Rumiko lhe põe as duas mãos nos ombros dela e pede para que não se levante.
─ Sinto muito, mas a intenção não é comprar nenhuma e sim, lhe oferecer uma proposta, que lhe poderá ser interessante.
─ Uma proposta?
A ideia de Rumiko era deixar uma nota de 10 Bedinas e levar quinze flores e um caixote. Rumiko lhe diz que irá tentar vender as flores num restaurante ali próximo, depois voltaria para pegar seu dinheiro de volta. E garantiu que devolveria as rosas não vendidas e o dinheiro das que foram, se acaso conseguisse vender alguma. Se não vendesse nenhuma, devolveria todas. Num resumo, a velha senhora não perderia nada se a moça fosse honesta e realmente voltasse, ou perderia cinco bedinas se ela sumisse com o caixote. Era um tiro no escuro. A idosa, porém, gostou do rosto daquela estranha e foi cativada por sua voz doce e seu sorriso brilhante. E como os negócios iam mal mesmo, ela decide dar uma chance para o azar.
─ Tudo bem. Acho que posso confiar em você.
─ Arig... – Rumiko finge um pigarro para corrigir seu sotaque – Obrigada.
Rumiko prepara um caixote com quinze das rosas mais cheirosas e bonitas que encontrou, de cores sortidas entre vermelhas e brancas, e se vai, deixando a senhora com ar de confusa sobre o que acabara de fazer. “Acho que perdi 5 bedinas” – conclui a velha senhora, imaginando que a mocinha era louca de pedra.
Pouco antes de atravessar a rua que dava acesso ao edifício Genevie, Rumiko faz uma parada rápida para colocar o lenço no rosto, prendendo-o ao topo de trás da cabeça e cobrindo sua boca e nariz. Somente seus grandes olhos ficaram de fora.
Localizou seus alvos assim que passou na porta do restaurante. Não poderia ir direto à eles porque provavelmente levantaria suspeitas, mas também não poderia enrolar muito, senão eles iriam embora, e as suspeitas se levantariam no momento em que ela os abordasse e os impedisse de sair. Nisso, começou a vender as rosas aleatoriamente para os poucos clientes que estavam no lugar.
Sempre observando de esguelha as suas vítimas, Rumiko usou de todo o seu carisma para poder vender as rosas. Recebeu elogios pela sua voz suave de umas moças bonitas numa mesa e comentários bondosos pelos seus belos e grandes olhos por um casal não tão jovem, sentados perto da saída. Não tinha realmente nenhuma esperança ou intenção de vender alguma rosa, mas se empenhou ao máximo e admirou-se que, em pouco tempo, das quinze rosas emprestadas, cinco já haviam sido negociadas. Imaginou que, se o restaurante estivesse cheio e todos os clientes fossem tão simpáticos quanto os que ela abordou, teria vendido todas as flores.
Quando se encontrou a poucos passos dos dois homens que representavam seu objetivo, Rumiko olhou para eles e respirou fundo, controlando suas emoções. E assim, com um largo sorriso no rosto, que não seria visto mas se expressaria pelos seus olhos, ela se aproxima da dupla, ergue o caixote dos cheirosos botões de rosas para disfarçar o aroma da passiflora, exalado de seu corpo, e questiona primeiramente o asiático.
─ Boa tarde, senhor. Poderia comprar uma rosa para me ajudar?
─ Não! Não quero – responde o homem asiático, agitando a mão com notável rudeza.
─ Tem certeza? – ela insiste – aqui tem rosas brancas também. Se não quiser as vermelhas...
─ Mocinha, estamos tendo uma conversa particular aqui.
─ Melhor ainda. O senhor pode comprar uma rosa para ajudar na reconciliação dos senhores.
─ O quê?
Rumiko nota que o homem mais velho riu de seu comentário sem sentido e sem malícia. Ficou feliz em sentir que ele não era tão bravo quanto a imagem que sua face transmitia.
─ Querida, não somos amantes – explica o homem de cabelos grisalhos – É uma conversa particular entre dois homens, você entende?
O senhor tinha uma voz bonita, sem acentuação, alta e pesada, porém de nítida sonorização. Um timbre perfeito para dublar galãs de filmes americanos ou atores de novelas mexicanas.
─ Estão falando de futebol? – questiona Rumiko, com o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça e que se encaixava no contexto “conversa entre dois homens”.
E como sua língua muitas vezes pensa mais rápido que seu cérebro, antes dos homens replicarem, ela já se pronuncia com uma possível explicação da pergunta.
─ Porque se os senhores não são namorados, então só podem estar falando de futebol, de mulher ou de automóveis – (fale de um namorado) aconselha sua consciência – É só disso que meu namorado fala o dia todo com meu irmão. Uma vez eles...
─ Mocinha – o homem japonês corta suas explicações, batendo na mesa – não temos nenhum interesse em sua vida familiar.
O jeito que o homem olhou para Rumiko deu a impressão de que ele iria bater nela se acaso insistisse em continuar a conversa. O melhor a fazer seria parar, mas ela precisava saber quem eles eram, principalmente quem era o velho senhor do outro lado. Até porque, à suas costas, ela sentia os olhos do homem de cabelos grisalhos lhe analisar, como se fossem mãos revistando seu corpo com dedos gelados. Era alguém interessante, disso ela já não tinha mais dúvidas.
Porém, sua energia intrínseca, excepcionalmente sensível à reação dos sentimentos alheios, lhe avisa que o homem asiático está começando a ficar irado. Desse modo, ela não poderia tirar os olhos dele. Mas também não poderia desistir e sair. Então atiça:
─ Ah, mas essa história é muito boa. Escute só...
Antes de dar início à uma história fictícia, que ela seria obrigada à contar na base do improviso, Rumiko escuta outra gargalhada do velho, dessa vez mais alta e alegre. Em seguida, o homem asiático levanta-se de modo abrupto.
─ Com licença! – diz ele com raiva – Vou ao banheiro. E quando eu voltar...
O homem japonês aponta o dedo para Rumiko, ameaçando-a de alguma coisa que, seja lá o que fosse, não significava nada para ela. Da última vez que alguém lhe apontou o dedo, Rumiko lhe aplicou uma dentada tão bem servida que quase arrancou fora o indicador do indivíduo. Isso foi há muitos anos, e ela ainda lembra-se claramente que, na ocasião, foi um gesto perigoso, porque ela ainda era uma menina. E mesmo justificada, ela foi severamente advertida por Gengetsu, que lhe puniu por isso, e teve de aprender a controlar seus impulsos e não deixar que eles a controlem.
─ Ele tá muito bravo – repara Rumiko, enquanto observa o homem japonês se afastando – O time dele perdeu?
─ Esquece ele. Mas é melhor você sumir antes de ele voltar.
“Agora que estamos sozinhos?” – Rumiko sorri mordendo a ponta da língua – “Nem pensar”.
─ Claro senhor. Mas antes... O senhor não quer comprar uma rosa?
─ Não querida. Eu não tenho pra quem dar uma rosa. Porque você está com esse lenço no rosto?
─ É gripe, senhor – mais uma vez sua língua agia mais rápido que seu pensamento – Vender rosas é o que me sustenta, mas o cheiro me causa alergia. E para não espirrar nas rosas e nem na comida dos clientes, esse pano ajuda.
─ Tem alergia ao produto que tem contato o dia todo. Que vida dura hein?
─ É! Mas não fuja do assunto, por favor, senhor – Rumiko repara a aliança de ouro, na mão esquerda do homem – Todo mundo tem alguém a quem dar uma rosa. O senhor poderia dar para sua esposa. É casado, pelo que vejo no seu dedo. Um anel de...
Rumiko se cala. “O que foi agora?” ela se pergunta intimamente. Seu instinto lhe avisa previamente de uma agressão, provida de um sentimento de fúria que eclodiu do nada. O melhor a fazer seria reagir, mas ela deixou a decorrência dos fatos seguirem seu curso. Um segundo depois, um homem trajado com o uniforme do Genevie agarra seu braço com tanta força e brutalidade, que Rumiko vê algumas rosas irem ao chão, juntamente com o dinheiro recém-adquirido pela venda das mesmas. No empurrão seguinte, ela sente um dos sapatos de Petruz lhe escapar do pé. “Quem mandou ter pé de moça?” – Rumiko se culpa enquanto o rapaz a empurra mais uma vez.
─ Não pode vender nada aqui – ele lhe diz, com a voz ainda de um garoto.
─ Desculpa, desculpa... – replica Rumiko, pensando num jeito de tirar proveito da situação.
Não poderia desistir agora que estava entrosada na conversa com seu suposto alvo. E enquanto lutava contra o garçom, gesticulando que queria voltar para pegar as rosas e seu dinheiro no chão, Rumiko nota uma garçonete conversando com o senhor grisalho. Agora ela estava numa situação difícil. Tinha de fingir que lutava com todas as suas forças para se livrar, quando na verdade não usava de força alguma. E se o garçom a tirasse do restaurante estaria tudo perdido.
De repente, Rumiko escuta a voz do velho senhor ditar uma ordem ao garçom que a segurava. O rapaz solta o braço de Rumiko, olhando de modo confuso para homem sentado à mesa. No momento seguinte, eles iniciam uma pequena discussão, com o velho bronqueando e os funcionários se justificando. Rumiko também estava confusa, mas agora, livre, aproveita para se arrumar. O lenço não chegou a cair, mas quase foi arrancado do seu rosto. Ela força umas tossezinhas falsas para disfarçar enquanto desata e refaz o nó do lenço sobre a cabeça. Terminado o ato, ela ficou observando o velho, ainda boquiaberta, ao passo que ele a defendia dos funcionários do hotel. Por fim, ambos funcionários se desculpam e saem de cena.
Numa perna só, Rumiko volta aos pulos e recoloca o tênis. Depois se abaixa perto da mesa do velho senhor, pegando as rosas e o dinheiro que caíram. E só agora, ali abaixada colhendo as rosas, é que ela reparou uma bengala. Uma bengala comum de um homem manco. Rumiko resolve agradecer antes de se levantar.
─ Obrigada senhor. Acho que devo sair daqui para não causar mais transtornos, né?
O homem permanece calado. Totalmente sério.
“Me peça para ficar” – roga Rumiko mentalmente, ficando propositalmente mais tempo que o necessário no chão. Quando não tem mais como ganhar tempo, ela se ergue lentamente e cabisbaixa.
─ Não se preocupe quanto à isso – lhe diz o velho senhor – Está tudo bem com você?
Rumiko sorri por detrás do lenço. Como um peixe que morde a isca e luta para se soltar, ela usaria aquela pergunta como anzol. E também lutaria, porém, não para largar e sim, para alongar aquela conversa ao máximo possível.
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