A Busca
27 A Rata e o Falcão – Lado A
Vargas sobe os degraus devagar, com o policial seguindo-o de perto e Francisco bem mais atrás. O corredor no fim da escadaria estava vazio e todas as portas encontravam-se fechadas. Vargas segue até o apartamento de número três, sempre em absoluto silêncio, olhou para o policial e fez um gesto para ele se posicionar.
Os homens enviados pelo delegado Maurício, da primeira delegacia de Germano, vieram com todos os equipamentos que atualmente são necessários para um embate com criminosos. Cassetete, capacete com visor, algemas cromadas de aço temperado, spray de pimenta e uma pistola de choque Taser de 50 mil volts, que era a alternativa para os que não poderiam ou não queriam portar as espadas pertencentes ao quadro do armamento policial que resumiam-se em, ou um sabre francês, baseado no Briquet, espada da infantaria francesa durante as guerras napoleônicas, ou uma cópia muito da sem-vergonha da katana, considerada por aqueles que se diziam entendidos do assunto como a melhor espada japonesa que há.
Quanto à Vargas, ele portava sua pistola .40. As únicas armas de fogo usadas atualmente eram as Berettas M9, cujo porte só era permitido aos policiais da Deadluz, um tipo de força de elite, e os agentes secretos do governo. Alguns poucos homens, no entanto, recebiam permissões super especiais para portarem armas de gosto pessoal, que era o caso de Vargas e sua calibre .40.
O detetive meneia a cabeça, encarando o policial e este ergue sua pistola de choque à altura do rosto, quase encostando-o nos lábios. Não tinha absoluta certeza que os suspeitos eram quem procurava, por isso Vargas não poderia entrar sem avisar. Então, dá um sinal ao rapaz do hotel, que enfia a chave reserva na porta bem suave e silenciosamente. Em seguida, o detetive bate na porta por duas vezes e grita:
─ Aqui é a polícia! Preciso que abram a porta e saiam com as mãos na cabeça ou entraremos com força total. Respondam agora.
Silêncio. Vargas não queria perder nem meio minuto ali fora, então repete cinco segundos depois:
─ Aqui é a polícia. Respondam agora ou entraremos à força!
O silêncio se segue. Então, Vargas acena a cabeça, dando autorização. O policial destranca a porta e entra rapidamente, com toda a sua pompa de tira americano, apontando a pistola Taser para todos os lados e andando recostado às paredes. Só faltou mesmo rolar no chão ou se jogar atrás do sofá.
Vargas balança a cabeça num gesto de desaprovação e calmamente manda o balconista descer para o saguão e ficar de alerta. Só então entra devagar, mancando, com a mão direita firmemente agarrada na bengala e com sua arma erguida a frente, na outra mão, pronta para apontar e render. E atirar, se acaso preciso.
A primeira coisa que fez ao cruzar a porta foi olhar a fechadura do lado de dentro. Imaginou que o suspeito poderia já ter ido aos andares superiores para se esconder ou pior, fazer reféns. Descartou essa hipótese ao notar que a chave ainda estava ali, o que significava que ela foi trancada por dentro. Resumindo, eles não saíram do quarto. Ao menos não por aquela porta.
O detetive fechou a porta e vasculhou o quarto à passos curtos e cautelosos. Viu logo de entrada uma mesa quadrada com quatro cadeiras, um sofá de dois lugares e um vão que dava aos fundos do cômodo. Adentrando mais e tentando não perder a porta de saída de vista, ele viu uma cozinha pequena, separada por uma parede fina de gesso, ao lado direito de quem entra pelo corredor, com um balcão de cimento alto e bem acabado. Mais à frente, após o espaço reservado da cozinha, enxergou duas camas grandes de solteiro, com um criado mudo entre elas.
Vargas ficou no entremeio das camas, próximo aos pés das mesmas. Reparou que elas estavam pouco bagunçadas, uma mais que a outra, e que não foram arrumadas às pressas. Deduziu com isso que os suspeitos ficaram pouco tempo ali. Já estava claro para ele que o local estava vazio, mas Vargas não poderia descartar a possibilidade de que os indivíduos poderiam estar escondidos.
Foi quando reparou, na parede mais adiante, duas janelas, ambas escancaradas, que davam para um campo aberto, com a vista para um punhado de árvores e matas. “Um bosque”, pensa Vargas, ao julgar pelo cheiro longínquo de alguma flor que invadia o quarto. Era o odor de uma flor já “catalogada” pelo seu olfato treinado de detetive, mas que ele, no momento, não conseguia identificar.
De volta à ala de entrada, o policial gira a mão no ar, chamando a atenção do detetive, e aponta para baixo. Ele estava na mini cozinha, atrás do balcão. Vargas caminha até ele, se depara com uma espécie de armário baixo e, sobre ele, uma bandeja que continha os dois pratos do almoço pedido pelos visitantes. A redoma, que servia como tampa da bandeja, era de vidro, portanto, dava para ver ambos os pratos, ainda com seus mantimentos intocáveis e os talheres fornecidos ainda enrolados em folhas de guardanapos. No centro da bandeja, dois copos altos, de isopor, provavelmente de suco ou refrigerante, ainda tampados. Notou, por último, que a tampa estava meio suada devido ao calor inicial da comida, agora fria.
“Eles não almoçaram...” – calcula Vargas. A tampa nem foi removida, do contrário não estaria embaçada. Por módico sentimento detetivesco, Vargas observou os cantos da tampa, à procura de alguma pista. E percebeu algo curioso, que o fez retirar um lenço do bolso, enrolar no dedo e passar embaixo da pequena parte da bandeja que estava para fora do armário.
─ Está molhada.
─ Molhada? – questiona o policial – Deve ser por causa do calor.
─ Não! Uma bandeja de alumínio reforçado não esquenta o suficiente para suar na parte inferior, a ponto de ficar tão úmida assim – Vargas se ereta e encara o policial – Ela foi lavada. E deixada molhada propositalmente.
─ Por quê?
─ Por que será, não é? – Vargas revira os olhos, aborrecido com o lento raciocínio do policial.
Era óbvio que a bandeja foi lavada para limpar as impressões digitais do suspeito. Vargas agora tinha certeza: o assassino do prefeito Rudolf esteve ali e, de alguma forma, descobriu que receberia uma visita inesperada.
Com cada canto do aposento averiguado, Vargas faz gestos ao policial para que ele fosse até o banheiro, o último lugar que faltava. Enquanto isso, ele caminha até a janela e de lá, olha para baixo e vê o outro policial, de pistola Taser numa mão e cassetete noutra. Ele ergue os braços, balança a cabeça para os lados, negando ter visto qualquer coisa. Vargas gesticula para ele ir à casa em frente, que formava o beco com a parede do hotel, e perguntar sobre qualquer movimento suspeito.
Assim que o homem entende os gestos do detetive e se vai, Vargas ergue o olhar, bem lentamente, vasculhando cada metro de distância entre a casa e a paisagem à frente. Quando seus olhos finalmente chegam ao topo do morro que se estendia adiante, ele percebeu que não era um bosque e sim o início de uma densa floresta, protegida como reserva florestal. Vargas percebe que o cheiro de flores não era mais intenso ali do que dentro do quarto. O que era estranho.
Ele mantém o rosto reto e os olhos espremidos e fixos na floresta por quase um minuto, tentando captar alguma coisa de anormal. Seu faro de detetive lhe dizia que tinha algo naquela floresta. Nisso ele percebeu que o ponto mais alto daquele terreno elevado dava na mesma altura do 1º andar do Genevie. “Será que fugiram por ali?” – ele pensa. Não era muito longe. E à princípio, dava até pra ver que tinha uma trilha que subia o morro e se perdia entre as árvores. Uma boa ideia seria chamar uma equipe da polícia ambiental e fazer uma busca naquela floresta. Mas mesmo que tivesse fugido por ali, se o assassino não tocou na comida, significava que já tinha, no mínimo, duas horas de vantagem, e à essa altura ele poderia estar longe. E o pior, se não tivesse fugido pela floresta, uma equipe de busca seria um desperdício de esforço e de tempo, pois em Saltos não havia uma divisão de polícia ambiental.
O policial retorna desanimado do banheiro. Encontrou um box de vidro, vazio. Vargas não se vira para encarar o policial. Já esperava por isso e já havia admitido que estivessem lidando com um assassino profissional e não com um mero “matador”. Nesses muitos anos de profissão, Vargas tinha aprendido que há uma diferença intelectual enorme entre os dois tipos de homicidas.
O detetive olha para a esquerda e vê a escada de fuga de incêndio que Francisco havia falado. Calculou que estava à cerca de dois metros e meio de distância. Não estava tão longe assim. Vargas sabia que, em sua idade atual, não teria condições de pular aquela distância. Porém, um jovem rapaz, robusto e atlético, faria aquilo brincando. “Sim, um rapaz atlético e forte conseguiria na boa. Mas e quanto à menina?” – questiona-se Vargas, recordando-se da moça que está com o ruivo.
Ele olha para baixo de novo e mede a distância da queda. Da janela ao chão dava, talvez, uns quinze ou vinte metros. Um rapaz ousado pularia da janela àquela escada de incêndio com um sorriso no rosto e adrenalina pulsando no coração. Mas uma moça não. Mulheres, não no geral, mas normalmente, têm medo de altura. Seria arriscado demais se ela tentasse pular e caísse. “Como tirou a menina daqui, seu maldito?” – Vargas morde os lábios. Súbito, uma voz conhecida interrompe seus devaneios.
─ Detetive Vargas, senhor!
─ Senhor Kato – responde Vargas sem se virar de imediato.
─ O balconista me disse que estava aqui. E aí? O que aconteceu?
─ Eles fugiram, Emiliano. De algum modo eles fugiram.
─ Humm... E deixaram alguma pista?
─ Não! Nenhum rastro. É como se nem tivessem passado por aqui. Eles sequer tocaram no almoço.
─ Almoço?
─ O ruivo pediu comida, chegou a descer para buscar, subiu para o quarto e não comeu – Vargas abaixa o rosto, fazendo uma careta – E não deixou que moça que o acompanha comesse também. Isso é muito... ...Hum?
─ Estava com os vidros suados – interfere o policial, de dedo indicador direito erguido, chamando a atenção do detetive – O “box blindex” do banheiro. Estava suado de vapor.
─ Quer dizer que os indivíduos tomaram banho antes de sair. E daí?
─ Tem uma mensagem no vidro. No suor do vidro, na porta corrediça.
O perito criminal Katou e o detetive Vargas vão até o banheiro conferir e encontram, em letra de fôrma e perfeitamente legíveis, os caracteres “L” e “A”.
─ Será que poderíamos...
─ Impossível! – retruca Vargas, adivinhando os pensamentos de Katou – Não dá pra tirar impressão digital de um objeto molhado. Além do mais ele não encostou o dedo, ele arrastou na intenção de escrever isso. Se bem que...
Vargas aproxima-se mais. O deslize era muito fino para ser o dedo de um homem, mesmo esse homem sendo tão jovem. Se foi o ruivo, então usou outra coisa para brincar naquele vidro. E se foi a garota, o que será que ela quis dizer? Um pedido de socorro talvez? Uma forma de avisar onde estão ou para aonde vão? Se fosse isso, porque um enigma tão difícil? Poderia ter escrito algo que deixasse o tema da mensagem mais claro.
─ Los Angeles? – questiona o policial em tom convicto, enquanto Vargas estudava as letras.
Vargas olha o policial, sem responder. As letras poderiam dizer qualquer coisa, inclusive “Los Angeles”. O que eles não poderiam era simplesmente especular. Vargas nota que as letras estavam quase desaparecendo em meio ao vapor que parecia já ter muito se dispersado. Significava que o banho tomado naquele box ocorreu há muito tempo. Talvez foi até antes do almoço de duas horas atrás.
─ O que vamos fazer? – Katou pergunta – Já chamou um grupo de apoio para ajudar nas buscas?
─ Não. E nem será preciso. Eles já têm duas horas ou mais de vantagem, então eu arriscaria dizer que, no máximo, eles já estão em outra cidade.
Nesse momento o celular de Vargas vibra. Ele pede alguns segundos à Katou e o atende. Era o outro policial. Vargas troca rápidas palavras com ele e desliga.
─ Que horas são? – questiona ele, colocando o celular no bolso.
─ São... Katou observa em seu relógio de pulso – 15h40, senhor.
─ Humm... Por acaso você já almoçou?
Katou ergue os ombros e faz um “não” com a cabeça em reposta.
─ Ótimo! Vamos comer alguma coisa, então – Vargas vira-se para o policial, de prontidão perto da porta – e vocês já almoçaram?
─ Sim, senhor.
─ Então estão dispensados. Chame seu amigo e podem ir. Eu assumo daqui.
─ Sim, senhor.
O rapaz bate continência e desce na frente, deixando os dois companheiros no cômodo, pensativos. Assim que o policial desaparece nas escadarias, Katou ajeita seus óculos com a palma da mão.
─ Não quer nem saber se o outro descobriu alguma coisa?
─ Eu sei que ele não descobriu nada. Era ele ao telefone de agora há pouco.
Vargas caminha até as camas e senta-se pesadamente sobre uma delas, suspirando desanimado. Poderia pedir à perícia de Saltos que fosse até ali e jogasse um “pozinho” em todo o cômodo. Com certeza achariam os dedos do criminoso. Mas era um quarto de hotel que alugava seus cômodos por apenas uma noite. Deveria haver dezenas de impressões digitais diferentes e sem nenhuma pista, dificilmente saberia em qual impressão se focar primeiro. Muitas pessoas que já dormiram ali poderiam inclusive nem estar mais no país.
Com a cabeça pesada de tantos pensamentos conspiratórios, Vargas vira o rosto de lado e nota as revistas no criado mudo. Ele inclina um pouco o rosto, para melhor ler o título da que estava por cima.
─ “Alpinismo e Educação: Montanhas do Fim do Mundo”... – Vargas pega a revista e a folheia distraidamente – Esses organizadores de quarto de hotel devem enfeitá-lo de acordo com seus gostos pessoais. Afinal, quem iria querer ler uma revista sobre alpinismo?
─ Existe interesse para tudo, senhor.
─ É disso que estou falando. Quantos clientes que alugaram esse quarto não gostariam de encontrar uma revista de sacanagem ao invés de um de esportes ou automóveis?
─ Entendi – Katou solta uma risada.
Vargas observa algumas fotografias onde rapazes, com todos os apetrechos necessários para uma escalada perigosa, se preparavam para peitar uma montanha.
─ Isso é que é vida. Se eu ainda fosse jovem e tivesse algum dinheiro, arriscaria fazer parte de uma aventura assim.
─ É verdade que o senhor gostava de escalar?
─ Sim. Mas nunca fui assim tão alto, nem tão longe.
Vargas espera passar alguns segundos, olhando mais algumas páginas da revista antes de dizer subitamente.
─ Estou com medo de estar certo, mas acho que estamos lidando com um profissional, senhor Kato.
Katou olhou para o detetive e retornou com argumento de apoio.
─ Bom, nunca se sabe. E se não temos mais nada a fazer aqui, então vamos descer. Quem sabe não temos mais sorte na parte de baixo, ou nas redon... dezas.
Katou diminui o ritmo das palavras ao ver o detetive fechar os olhos e erguer a mão espalmada, como se pedisse um minuto de silêncio.
─ Está sentindo esse cheiro? — Vargas questiona.
─ Cheiro? De quê senhor?
Vargas gesticula para Katou se aproximar e sentar-se na outra cama, de frente para ele. O perito criminal o faz e, após alguns segundos, sorri descontraído. Um odor floral maravilhoso lhe invadiu as narinas de modo fraco, porém insistente.
─ Ah, sim. Senti algumas vezes. Achei que fazia parte do aroma do quarto – Katou ergue o rosto e observa os cantos das paredes – Mas não há nenhum daqueles sprays automáticos ou purificadores de ambiente.
─ Não mesmo. E eu gostaria, mas não consigo me lembrar de que flor é esse maldito aroma.
Katou sorri. Um bom detetive como Vargas era obrigado a sentir, decorar e, por vezes, saber distinguir uma variedade enorme de perfumes e odores. Vargas já era de idade, mas não deve ter usado muito esse ensinamento durante seus vários anos de carreira. Katou inclina-se um pouco para a frente, olhando seu parceiro de face enrugada, olhos fechados e cabeça baixa, e lhe responde:
─ Passifloracea.
Vargas abre os olhos, num choque de recordações. Era exatamente isso. Katou repete devagar.
─ Passifloracea. Chamada por alguns poucos como “A Paixão de Cristo”.
─ A Paixão de Cristo... A Flor da Paixão... – Vargas levanta-se – É o odor da flor de Maracujá!
─ É isso aí senhor.
─ Senhor Kato, o senhor é incrível.
─ Que nada. Minha avó é botânica e adora o perfume da flor do maracujá. Ela diz que é “enfeitiçante”, se é que essa palavra existe. Por que o senhor acha que sei dessas coisas?
O detetive olha o carpete no meio das duas camas, com sua atenção redobrada, e pousa sua bengala ao lado de dois minúsculos círculos mais escuros, próximos um do outro, que manchavam o pequeno tapete como duas gotas.
─ Não é o cheiro de uma flor em si, mas sim de um perfume. O perfume dos últimos hóspedes que estiveram aqui.
Katou ajeita os óculos com a parte inferior da palma da mão, imitando um personagem de uma revista em quadrinhos japonesa que ele lera quando adolescente, e só então percebe os pingos no chão, um maior que o outro. Não havia dúvidas que o odor vinha dali. Sentiu-se lisonjeado quando Vargas disse que ele era incrível, mas obviamente estava longe de ser como seu tutor, pois jamais teria dado tanta atenção à um odor de quarto.
Vargas dobra levemente a cintura, encurvando-se e apoiando as mãos sobre a bengala.
─ Mas porque é tão forte? Quero dizer, o cheiro não incomoda, mas está tão intenso que parece que o quarto foi pintado com uma tinta que tem esse odor como particularidade.
─ Isso eu também posso explicar – Katou abaixa-se e põe o dedo sobre a mancha, já seca – minha avó me contou um tempo atrás que adoraria vir à Vera Cruz porque aqui seria mais fácil de se encontrar essa flor, para ela poder sentir o cheiro original, direto de suas pétalas. O maracujá é natural da América do sul, o senhor sabe.
─ Sei sim.
─ Ela disse que, uma vez por ano, uma quantidade enorme dessa flor é levada para a África do Sul, onde sofrem um processo de desodorização das flores. O produto final é transformado em um líquido de aroma tão potente que chega a fazer mal ao olfato quando inalado diretamente. Após o longo e trabalhoso processo, pequenos vidros desse produto são vendidos para o resto do mundo, exclusivamente para empresas responsáveis na preparação de perfumes e colônias.
─ Mas se fazem mal...
─ Aí é que está a mágica senhor. Cada vidro contém cerca de 300 ou 350 ml desse potente produto. Esse pequeno frasco é despejado numa quantidade maior de outra substância química baseada em álcool, água e outros ingredientes necessários para a fabricação de perfumes. Daí nasce para uso o perfume com cheiro de flor de maracujá.
─ E esse processo final elimina o teor tóxico do produto primário.
─ Na verdade não é tóxico, nem prejudicial, mas causa algumas complicações se inalado diretamente. Por isso a quantidade da substância onde o produto é despejado é enorme e inodora. Ouvi dizer que um pequeno frasco de 300 ml do produto primário é usado em tonéis de mais de cem litros do produto final.
Vargas abre a boca, no intuito de mostrar que achava aquela informação impraticável e exagerada.
─ Assim o produto se dilui e o seu odor se mistura... – Katou ergue as mãos e fecha sua explicação – ...garantindo um delicioso e duradouro aroma, mas perdendo potência e, consequentemente, o perigo.
─ Vocês japoneses são incríveis. Conseguem ouvir as histórias de suas avós e ainda decorar o que elas falam.
─ Minha avó tem histórias muito boas – Katou ri.
─ Isso não vai nos levar a lugar algum, mas agora sabemos, pelo menos, que tipo de perfume nosso suspeito usa.
─ Isso gera outro dilema. Aliás, dois.
─ Quais?
─ Bom, se esse agradável aroma vem dessa manchinha no chão, significa que ele tem um vidro do produto primário. Um ingrediente único do Passifloracea sem nenhum adendo. E há uma lei que proíbe que a matéria prima de produtos orgânicos seja vendida à preço de ouro para civis.
─ Quer dizer que não é vendido para pessoas e sim, para empresas.
─ E empresas grandes. Se a pessoa souber como usar, um único vidro desse produto pode durar anos.
─ Entendo. E qual o outro dilema?
─ O aroma de maracujá é um perfume feito para mulheres. Tem todo aquele misticismo de feitiçaria e magia hormonal feminina. Não que eu desgoste. Eu realmente acho envolvente e encantador, mas não compraria para mim e estranharia se meu filho usasse. Compreende o que quero dizer?
O detetive meneia a cabeça. Sabia aonde seu perito queria chegar e espera que ele dê início ao assunto. E Katou não demora a dizer:
─ Senhor... Essa moça que acompanha o suspeito... O senhor acha que ela está envolvida?
─ Não a princípio. Creio que todo crime tem uma pedra no caminho, que pouco ajuda ou muito atrapalha na investigação policial.
─ É uma observação coerente.
─ Tive uma conversa extraoficial hoje cedo, por telefone, com o atendente do motel aonde aconteceu o quádruplo homicídio.
─ E...?
─ E entre outras coisas sem importância, ele me disse que, no dia em que o ruivo foi embora, aconteceram alguns eventos suspeitos.
─ Tipo o quê?
─ Essa moça da qual falamos, desceu do quarto alguns minutos antes da polícia chegar, pagou 50 bedinas para que o balconista não acordasse o ruivo e saiu apressada, a fim de sumir da vista dele. Um bom tempo depois, o ruivo desceu atrás dela. Parecia desesperado em encontra-la.
─ Porque esse balconista não disse isso da primeira vez?
─ Porque ele recebeu para ficar de bico calado. Disse achar que iria ficar encrencado se o patrão soubesse que ele recebeu dinheiro fora do orçamento do motel. Sabe com é.
─ Sei... ganhar 50 bedinas só para não acordar um cliente é realmente um bom dinheiro.
─ A moça saiu antes de a polícia chegar, talvez porque sabia que havia acontecido um assassinato. Pagou para não acordarem o suspeito, porque queria que a polícia o prendesse ou, pelo menos, não deixasse ninguém sair antes de serem interrogados. Não sei o que você pensa e estou aberto à sugestões, mas acho que nesse dia essa mocinha estava tentando fugir do rapaz.
─ O que não deu em nada. Se ainda for a mesma moça, significa que ele a encontrou. E que agora estão juntos de novo.
─ Exato!
─ E porquê ele não a mata?
─ Essa, meu amigo – Vargas dá um tapa na coxa direita – é a pedra no caminho de nossa investigação.
Katou põe a mão na boca e fica em silêncio, ponderando sobre essa informação. Vargas, porém, desejou que seu parceiro não queimasse seu cérebro ainda. Ele próprio já bateu muito a cabeça em cima disso e não chegou à lugar algum, então interrompe os pensamentos do técnico pericial com o convite.
─ Vamos almoçar!
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