A Busca
3 A Partida

Mozu e Nezuo observavam calados enquanto a pequena mocinha, aparentemente animada apesar dos recentes ocorridos, colocava seus pertences numa bolsa de academia em formato cilíndrico, de cores branca e azul. Ambos haviam ouvido a absurda, ridícula e inacreditável história da moça, sem fazer sequer uma interrupção, tão embasbacados que ficaram. Foi quando finalmente um deles decide perguntar:
─ É isso mesmo que você quer fazer, Rumiko?
A moça sorri e faz que sim com a cabeça. Ela percebeu que, após terminar sua narrativa, seus colegas com certeza pensaram que ela era doida ou algo parecido. Mas nada a iria fazer parar agora que ela tinha um objetivo na vida. Podia ser um objetivo vazio e sem futuro, mas ela não iria desistir antes de tentar.
A moça se aproximou de seu colega Nezuo com um rostinho piedoso e pergunta com sua voz doce:
─ O senhor viria comigo, Nezuo-Sempai?
─ Mas nem brincando! – responde o homem pouco antes de respirar fundo – Você é inocente demais para saber, mas o mundo lá fora é um lugar perigoso. Mesmo para pessoas como nós.
─ Mas é por isso que Rumiko quer que o senhor venha. Nós dois juntos poderemos...
─ Rumiko! Estamos em liberdade condicional. Não vou arriscar minha liberdade, talvez até minha vida, por um desejo infantil de uma garotinha manhosa.
─ Gomen Nasai – Rumiko abaixa a cabeça, entristecida.
─ Não vê que o que está fazendo é burrice? – continua Nezuo – Por que não volta para o Japão conosco e nos ajuda a dirigir o Gen-Bu?
A menina sorri, embora que desapontada, e pede novamente desculpas em japonês:
─ Gomen. Rumiko promete que vai voltar, mas não agora. Não por enquanto.
Ela tentou esconder seu desapontamento, mas sua animação de antes ficou visivelmente alterada porque considerava Nezuo como a coisa mais próxima de um amigo que ela já teve na vida e, portanto, tinha quase certeza que ele não se recusaria à acompanha-la nessa missão. Ela olha para Mozu, mas não se atreve a fazer o mesmo convite à ele, porque sabia que o homem não gostava dela. No entanto, em sua educação infinita, ela não deixa de se aproximar dele e se curvar, despedindo-se formalmente. Mozu, de rosto virado e desprezando a despedida de Rumiko, começa a resmungar.
─ Não vê o quão tola e absurda é essa idéia, Rumiko? – ele dá uma forte “dedada” na testa da mocinha – Você quer procurar cegamente por alguém que poucos afirmam que existe e que praticamente ninguém viu.
Rumiko sorri concordando com o homem. Porém, uma das qualidades de Rumiko, muito admirada por seus comandados, é que ela é do tipo de pessoa que não dá importância para comentários ofensivos ou desanimadores. Qualidade rara nos dias de hoje, pois para muitas pessoas, a esperança de dias melhores ainda era algo inexistente. Os dois capitães saem do quarto, dando espaço para Rumiko terminar suas preparações e se trocar se acaso achar necessário e deixam, ainda no ar, conselhos para ela desistir.
Rumiko escuta os conselhos, acena com a cabeça, mas não deixa escapar sequer uma vaga possibilidade de que vai segui-los. Então começa a se despir. Por mais estranho e ridículo que possa parecer quando se tratando de uma garota, é fato que Rumiko adorava se trajar com roupas orientais, com preferência àquelas usadas em dojos de esgrima ou academias de artes marciais. Era esse o tipo de roupa que ela usava no momento. Mesmo assim, decide se trocar e pôr algo mais... “normal”. Em seguida, com aquela sensação de que “estava faltando alguma coisa”, comum à todos que estão para viajar, Rumiko pega sua bolsa em formato cilíndrico, para conferir o que já tinha guardado.
Com uma grossa listra azul cortando-a pela metade na vertical, essa bolsa, na verdade uma mochila-saco, continha algumas roupas, objetos variados para ocasiões específicas, 20 moedas de ouro dentro de uma bolsinha em forma de urso panda, um mapa mal desenhado e desatualizado do território do Amazonas, nova capital de Vera Cruz, produtos relacionados à higiene pessoal e, por fim, três espadas médias.
Com o porte de tal objeto permitido e até recomendado para defesa pessoal, havia inúmeras produtoras de espadas em praticamente todos os cantos do mundo, que entraram de cabeça nesse novo comércio, visando mais os curiosos do que os guerreiros em si. Assim sendo, era perfeitamente normal que houvesse também as de boas e de más qualidades. As espadas do Gen-Bu eram originais japonesas e, no quesito qualidade, eram algumas das melhores que se podia encontrar, ao lado das produzidas pela China, França e Rússia.
As três que Rumiko possuía, consistia em uma Wakizashi, uma Shikomizue comum em formato de bastão, encontrada em qualquer loja de armas brancas especializadas em armamento oriental. E outra Shikomizue considerada especial, também em formato de bastão, a qual ela nomeou de Shiko-Mizu-no-Ryuu, que lhe foi dada por seu mestre e que era, sem sombra de dúvidas, seu pertence mais precioso. Feita com um material de absurda resistência, essa shikomizue que possuía nome era uma das espadas de nível mais avançado que Gengetsu, seu mestre, já havia forjado na vida. O homem teve muito trabalho para encontrar o material, escolher o ingrediente de reforço, o tipo de forno do qual seria necessário para produzir o calor desejado, além do grande acúmulo de tempo que usou para que essa espada ficasse perfeita. O resultado lhe foi satisfatório, tanto que a arma se tornou, para o histórico do Gen-Bu, uma das três espadas que representavam o tesouro do seu império, ao lado da Tachi do próprio Gengetsu, que ele chamava de Makaze, e a Izanami no Odachi, que foi encontrada por Gengetsu em sua longa e misteriosa viagem de dois anos e que hoje se encontrava no lugar de maior honra do dojo.
Apesar da importância que sua arma acrescentava ao currículo de poderio de seu mestre e de seu império, a Shiko-Mizu-no-Ryuu era, para Rumiko, um item bem mais valioso que isso. Diziam que antigamente, quando as espadas eram feitas de forma manual e exaustiva, corria uma lenda de que um forjador de espadas colocava um pouco de sua alma na lâmina e, quanto mais de sua alma ele empenhasse na fabricação, mais potente e útil num combate esta espada ficaria. Essa lenda é um motivo muito usado pelos puristas de hoje, que defendem a tese de que as espadas atuais se quebram à toa, por melhor que seja a empresa que se especializou nesse tipo de fabricação. Somente baboseiras e supertições nos dias de hoje e Rumiko concordava com isso, mas era fato que aquela espada foi o 1º e único presente de coração que Gengetsu lhe deu na vida, então ela acreditava e tinha para si que, com aquela arma em punho, ela não poderia se dar ao luxo de perder ou desistir.
O porte de armas cortantes, de vários tamanhos e formatos, era livre devido à uma lei imposta pelos Honoráveis, que a princípio visava, ironicamente, diminuir a violência combatendo-a com violência. Nisso, coma proibição total das armas de fogo, dezenas de empresas e fábricas entraram nesse novo ramo de construção de armas brancas. Mesmo com o porte de tais objetos livre, era preciso, porém, portar um documento que autenticasse a pessoa como responsável pelo seu uso, tal qual era na época das armas de fogo, no caso da pessoa quiser entrar num ramo em que o uso das mesmas fosse necessário. Guarda-costas, policiais de forças especiais, mercenários ou mesmo assassinos contratados por empresas obscuras que queriam se ver livres de certos inimigos, mas que também não quisessem envolvimento, possuíam esse documento. Sem ele, eram apenas bandidos infringindo a lei.
Rumiko não tinha esse documento ao alcance das mãos, mas foi ao lembrar-se dele que ela percebeu o que esquecia. Ou “pensava” que esquecia, porque o papel que ela procurava, chamado de Atestado de Proficiência de Estilo, já estava entre os seus pertences. Então ela rapidamente faz os preparos finais e sai do hotel, sorridente e decidida, com sua enorme bolsa de academia em formato cilíndrico nas costas.
Pelas escadas, ela desce os três andares abaixo da suíte de seu mestre, que ficava na cobertura do prédio de apenas seis andares. Sozinha e com um sentimento de que estava “abandonando o barco”, ela novamente se lembra de Nezuo, que negou acompanha-la numa jornada que, mesmo que seja inútil, beneficiaria não só os dois se acaso resultasse em sucesso, como todo o império. E mesmo que não desse em nada, seria bom viajar junto de alguém conhecido nessa jornada. Era uma pena, porque gostava de Nezuo. E uma das muitas frases de Gengetsu que Rumiko guardava com carinho na mente, dizia: “a amizade é tão valiosa quanto o mais puro ouro, com a importante diferença de que, para se ter o ouro, você não precisa merecer, mas tem que ter dinheiro. Já para se ter amigos, você não precisa de dinheiro, mas tem que merecer”. Rumiko sinceramente achava que ela e Nezuo estavam nesse nível de comprometimento. “Realmente, Rumiko é muito inocente”, pensa ela enquanto caminha de cabeça baixa.
Ao passar pelo corredor do andar onde ficavam os soldados, Rumiko notou que nenhum deles estava ao lado de fora de seus respectivos quartos para lhe prestar as últimas reverências. Não que fizesse falta, já que nunca gostou da reverência obrigatória que era símbolo do Gen-Bu, mas ela gostaria de ver os rostos deles naquela que, quem sabe, poderia ser a última vez.
Antes de pegar o elevador no terceiro andar e ir para o andar térreo, uma voz, que ela reconheceu de imediato, lhe dirige a abundante palavra:
─ Teichou! – era a voz do soldado e “contador de histórias”.
Rumiko se vira e vê o homem se aproximar rapidamente e se ajoelhar. Com um meio sorriso, ela lhe explica:
─ Que bom que já voltaram.
─ Sim. Como milady disse que não estaria mais na cabana quando nós voltássemos, eu vim direto dos correios aéreos para cá. Meu parceiro voltou à cabana para buscar nossos pertences.
─ Rumiko sabia que podia contar com os senhores. Correu tudo bem?
─ Sim! A encomenda já está a caminho.
─ Ótimo! – Rumiko se abaixa e pega no cotovelo do homem, dizendo – agora, por favor, levante-se soldado. Rumiko não é mais sua...
Nisso, ela vê o homem lhe esticar um embrulho de pano, envolvendo algo que lembrava um pequeno bastão. Ele abre disfarçadamente, mostra à Rumiko sua Tantô, uma espécie de adaga japonesa. Ainda de cabeça baixa, o soldado sussurra:
─ Teichou... tome muito cuidado.
Rumiko pega a arma e enfia ao lado da cintura, por debaixo da blusa.
─ Anata no namae wa nandesuka?
─ Hum..? – o homem fita os olhos grandes da moça – Meu nome? Renaud, senhorita.
─ Renaudo-san... Arigato!
Mesmo com o estranho sotaque de Rumiko, o soldado sorri ao ouvir o seu nome ser pronunciado pela boca de alguém que já ocupou o lugar de um capitão da guarda de Gengetsu. Porém, sua atenção é tomada quando o som do elevador avisa que o mesmo havia chegado ao andar, e seus olhos logo se enchem de pavor ao notar e reconhecer um vulto que aparece pouco atrás de Rumiko. Ele se levanta rapidamente, faz uma mesura e dita, antes de se retirar:
─ Teichou!
Rumiko ergue-se devagar e olha para trás, visualizando o vulto parado e recostado na parede, ao lado da porta do elevador, e que a observava com um sorriso debochado no rosto. Era Klaus, o poderoso ichigou de Nezuo. E ao lado dele, outro homem, segurando a porta do elevador. Um homem já de idade, baixo, um pouco obeso e que usava barba rasa, mas raspava o bigode. Rumiko não conhecia, e não precisou pensar muito para deduzir que era um empregado do hotel ao notar o uniforme que usava. No momento em que seus olhos se encontraram, o velho senhor abaixou a cabeça, escondendo o rosto na aba do boné com o logo do hotel. A moça caminha até a cabina móvel e cumprimenta Klaus com um aceno de cabeça. E este comenta com risível fingimento:
─ Teichou! Fomos informados que a senhorita não vai voltar conosco. É uma pena.
A moça olha para o soldado de esguelha, após absorver uma ponta de hipocrisia em suas palavras.
─ Isso mesmo, Ichigou – ela lhe sorri – Rumiko tem uma coisinha para resolver antes.
─ Entendo – continua Klaus – Faça uma boa viagem, então!
─ Sankyu!
Rumiko entra no elevador e é seguida pelo outro homem, que fica pouco atrás dela, ainda se escondendo de um olhar direto da moça.
─ Vou leva-la até a estação, senhorita. – ele diz assim que a porta se fecha.
─ Não é preciso, senhor.
─ Sim, é preciso, senhorita. São ordens superiores.
─ Claro que são... – Rumiko olha para o teto do elevador e, sentindo como se ainda estivesse sendo vigiada pelos olhos penetrantes de Klaus, repete – Claro que são.
Assim que o subordinado do hotel, por ordem direta de Mozu, acompanha Rumiko num táxi até estação ferroviária e espera até que ela pegue um trem qualquer e parta, desejosa e ansiosa de chegar a seu primeiro destino, o velho procura uma cabine telefônica mais próxima e passa as informações do acontecido, como; o nome da estação, destino do trem e horário de partida.
Agora sozinhos, os guerreiros Mozu e Nezuo começam a pensar no que fazer com o Dojo Gen-Bu central, localizado no Japão, onde os maiores tesouros de Gengetsu repousavam sobre os cuidados do Padre Karras e de outros soldados fiéis do grande e respeitado sensei.
Apesar de Rumiko levar consigo vinte moedas de ouro, uma quantia até que considerável, seu mestre Gengetsu possuía outra quantia, ainda maior, em seu estabelecimento de Vera Cruz. Quando viajou para o que seria sua última batalha, ele imaginou que iria demorar muito mais tempo que o previsto até encontrar-se com seu destino e realizar seu desejo, então trouxe consigo uma parcela de seu tesouro cotado em moedas de ouro. Essa parcela foi guardado em um baú de aço reforçado e só duas pessoas possuíam a combinação; o próprio Gengetsu e o capitão da primeira divisão, Nezuo-Tsu.
Era um montante de 200 moedas de ouro e as lendas diziam que representava cerca de 20 por cento de toda a fortuna que Gengetsu escondia em seu Dojo. Era visto como uma lenda, porque na verdade ninguém sabia ao certo quanto era o total, já que a maioria de seus bens materiais ficavam guardados na famosa, porém nunca vista e proibida sala subterrânea, chamada Himitsu.
Essa quantia de 200 moedas era para ser usada somente no intuito de manter todo o seu efetivo de Vera Cruz bem alimentado e em um lugar confortável o suficiente para residir. Mas agora que Gengetsu se foi, os capitães da primeira e segunda divisão concordaram que nenhum centavo a mais seria gasto com eles. Inclusive agora que, por culpa de Rumiko e seu maldito senso de querer ajudar à todos do Império, fez a besteira de autorizar a movimentação da conta secreta do Gen-Bu para retirar uma soma notável e pagar a fiança de homens que, segundo Mozu, não serviriam para mais para nada agora que o grande comandante se foi. E ela ainda fez o favor de libertar a todos, sendo que poderia escolher somente os que se destacassem. Agora, tirando a quantia que foi gasta desde o dia em que chegaram em Vera Cruz, todo o dinheiro restante somava 134 moedas de ouro.
Mozu e Nezuo decidiram pegar essa quantia que restou e pagar suas despesas para voltar para casa. Também resolveram, após alguns minutos de protestos por parte de Mozu, usar uma parte desse montante para enviar o corpo de Gengetsu de volta ao Japão. Mozu protestou porque, já que Gengetsu não mais vivia, tanto fazia onde ele fosse enterrado e, se Vera Cruz não quisesse o corpo de um japonês sepultado em suas terras, então eles que pagassem o envio do corpo de volta ao Japão. Nezuo, por sua vez e segundo homem mais sensato do império, sabia que não seria uma boa idéia voltar para casa sem o corpo do criador do Gen-Bu para um enterro propício e nos moldes asiáticos.
Após todos os preparativos, os dois capitães encontram-se na suíte de Gengetsu no sexto andar para uma pequena reunião, onde iriam decidir o que fazer com a fortuna do Gen-Bu. Mozu então abre uma mala de viagem enorme sobre a cama enquanto repassava os planos com seu companheiro.
─ Bom... Vamos rever nossos passos. Agora que somos só nós dois, vamos contar o tesouro de Gengetsu para vermos quanto cada um de nós vai ficar, não é isso?
─ Certo! Dividiremos meio a meio depois que decidirmos o que fazer com o Dojo.
─ Ora Nezuo, isso é simples. Vamos pôr fogo e derrubar. Não vamos precisar mais dele.
─ Idiota! Suamos muito para reerguer o Gen-Bu. Destruí-lo do dia pra noite é a coisa mais imbecil de se fazer. Além do mais, ele é um patrimônio reconhecido e espalha respeito pelo país, esqueceu?
─ E o que você pretende fazer?
─ Bom, se você não vai querer o Dojo, vou ficar com ele só para mim.
─ Hunf... Faça bom proveito – Mozu tira um blusão nipônico de um armário e o coloca na sua mala de viagem – eu não tinha a intenção de ficar lá mesmo. Tenho outros planos.
─ Outros planos que não envolvem o Gen-Bu? – Nezuo se mostra curioso.
─ Quando partiremos? – Mozu corta-lhe a desconfiança.
─ Que tal amanhã? Todos os passos para o envio do corpo de nosso mestre estão prestes de serem concluídos. Nosso helicóptero de transporte para o aeroporto não está nem à vinte minutos daqui e se pegarmos o avião cedo, mesmo com escalas, estaremos no Japão em dois dias.
─ Você tem razão. E quanto a esta estadia? Temos direito de ficar aqui por mais dois meses.
─ Quer o dinheiro da estadia de volta?
─ Não! Vamos deixar para os nossos peões brasileiros. Eles não têm mesmo onde morar.
─ E onde vão ficar quando acabar a estadia?
─ Eles que se virem. Por enquanto vamos dizer para eles cuidar do lugar se caso a gente voltar aqui no futuro.
─ É só por mais dois meses. E eu garanto que não volto mais para esse fim de mundo.
─ Nunca se sabe. Bom, em todo o caso... – Mozu pega duas malas enormes, uma em cada mão, e chama seu companheiro –...eu quero sair desse lugar horrível antes que nos encontrem. Contate nosso piloto particular, estou indo para o heliporto agora mesmo, dar uma olhada nas condições de nossa nave.
─ Certo!
Assim que os dois capitães se separam, Mozu caminha até seu quarto, no andar abaixo, coloca as malas no chão, ao lado de sua cama e desce até o mais baixo andar onde ficavam os homens do Gen-Bu. É quando um soldado de roupas negras o vê passar e, após uma rápida troca de olhares, ele segue seu capitão até o salão principal de recepção, no andar térreo, sempre mantendo uma distância segura e livre de desconfianças. Lá, Mozu procura um lugar reservado, acende um cigarro e espera que o homem se aproxime. Logo depois, ambos se põem a caminhar lado a lado, saindo do edifício e se afastando do hotel para ficarem completamente a sós. Algumas dezenas de metros adiante, próximos de um chafariz desativado, eles interrompem a caminhada e Mozu pergunta sem dirigir o olhar para o soldado.
─ E então, tudo pronto?
─ Sim meu senhor. Os homens já estão no rastro da presa desde o momento em que ela entrou no trem. Estão aguardando minhas... quero dizer, suas ordens.
─ Quantos são?
─ Quatro, meu senhor.
─ Ótimo! Diga para eles nos manterem informados sobre sua localização e agirem somente quando forem ordenados. Eu quero que seja um acontecimento isolado.
─ Sim senhor. Ligarei para nosso contato agora mesmo e pedirei para informá-los. Posso perguntar uma coisa, senhor?
O capitão fica em silêncio e o soldado pergunta assim mesmo:
─ Como o senhor sabe para onde ela vai?
─ Gengetsu tinha um caderno que anotava nossas missões futuras. Não sei onde ele o guardou quando viemos pra cá, mas cheguei a ler uma página que continha nomes de algumas pessoas que estão aqui em Vera Cruz. Tenho quase certeza que esse caderno está com ela.
Mozu dá uma profunda tragada no cigarro e expele a fumaça ao mesmo tempo em que pergunta:
─ Eles são bons?
─ Senhor?
─ Esses homens que contratou... Eles são bons?
─ Bem, não tanto quanto o senhor, capitão Mozu. Mas estão em quatro e eu os avisei para que nenhum deles avançasse sozinho.
─ Maravilha! Os dois únicos que podem com ela sem precisar de ajuda são Nezuo e eu.
─ Não tenho dúvidas disso, meu senhor, mas... ela é só uma garotinha mimada. Não acho que...
O capitão dirige um olhar de fúria para o soldado e este interrompe seu desnecessário comentário, terminando por explicar as ordens que lhe foram dadas:
─ Teichou...desculpe!Mas não se preocupe, eu os avisei dos riscos.
Mozu entrega um embrulho de pano de cor azul para seu comparsa e, após dar meia volta e pegar novamente o caminho para o hotel, ele completa:
─ Por via das dúvidas, espere mais meia hora, volte para o hotel e tente não deixar que Nezuo perceba alguma coisa. Aquele idiota é um bom amigo, mas pode discordar do que estamos prestes a fazer.
─ Sim senhor! Tomarei cuidado com minhas ações.
─ Vou partir para o Japão amanhã. Quando chegar lá, eu ligo para saber dos detalhes.
─ Certo senhor! – o homem se curva – boa viagem e se cuide.
Mozu caminha em direção da área onde estava guardado o helicóptero que foi alugado por Gengetsu, enquanto o soldado vai dar uma volta para fazer hora, com um sorriso satisfatório no rosto devido ao embrulho em suas mãos, pequeno, porém pesado por causa das quatro moedas de ouro que nele havia.
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