CAPÍTULO TRÊS

Além de suas bebidas – os mais diversos vinhos e o famoso hidromel – a Árvore também guardava outros tesouros, estes mais particulares, como as Termas da Rainha, um pequeno recanto ao Sul da Ilha onde da terra úmida e fria afloravam fontes de água quente.

É dito que há séculos, uma rainha Targaryen vinha frequentemente visitar as Termas, pois se acreditava que as águas quentes tinham poderes especiais, especialmente o de trazer a fertilidade e saúde às mulheres que não conseguiam engravidar.

Mas naqueles dias, as estações termais estavam esquecidas. Trepadeiras dominaram a fachada do prédio, dando-lhe um ar rústico e selvagem. Os moradores não visitavam mais aquele lugar, apenas velhas senhoras vinham se banhar, buscando alívio para as dores da idade, e Desmera, que gostava de sentir a água quente abraçá-la e acariciar sua pele.

Deitada na pedra dura e cinzenta da piscina termal, a menina Redwyne encontrava-se em um estado quase que adormecida. Tudo que ouvia era o som da água corrente, e os pássaros cantando ao ocaso, até que num sobressalto, Desmera percebeu uma figura parada há poucos metros. Rapidamente, afastou-se, cobrindo os seios com os braços nus, embora as vestes finas e molhadas grudadas ao corpo mostrassem perfeitamente o contorno de suas curvas. Não conseguiu gritar, mas podia ouvir as batidas aceleradas do próprio coração.

Mas então viu que conhecia o dono daquela silhueta que a assustara. Ele trazia uma toalha, e vestes secas para ela. Seu semblante era cansado, provavelmente viajara os últimos dias para chegar até ali, mas o sorriso em seus lábios era inconfundível.

Desmera aproximou-se e enrolou na toalha que ele trazia, para depois abraçar o irmão como não fazia havia tanto tempo. Sentia os braços de Hobber lhe apertarem, mais quentes que as águas termais, e mil vezes mais confortáveis contra a pele de seus braços e costas.

- Sentimos sua falta, Batata. – ele disse, sem soltá-la. – Horas ficou, ainda está como cativo. Ele foi “convidado” a ficar. É provável que seja libertado caso nosso tio Mace case Margaery com Joffrey. Vim para buscá-la para irmos juntos à ter com nossa avó, ela gostaria de lhe apresentar à corte, acredito que a Senhora Olenna deseja estudar os herdeiros de Westeros antes de entregá-la.

- Nosso pai quer que eu me case também – ela disse, com falso pesar. Estivera pensando a respeito, e talvez não fosse má ideia. Sua avó arranjaria, de certo, um cavaleiro de alto nascimento, com terras e riquezas, e teria filhos e uma vida confortável. Mas antes, planejava conhecer a opinião dos gêmeos sobre o assunto.

- Lord Paxter já lhe disse com quem pretende casá-la, se eles têm alguma ideia? – Hobber respondeu, enquanto observava as luzes do povoado, ao longe, na escuridão que aos poucos se adensava.

- Não, mas eu soube que a Senhora Olenna foi quem teve a ideia – Desmera respondeu de trás do biombo, enquanto trocava o vestido molhado pelas vestes secas que o irmão trouxera. Um vestido leve e delicado, em tons purpúreos.

- A maioria das Casas na Campina é juramentada aos Tyrell, embora reforçar alianças sempre seja algo a se pensar. No entanto, pode ser que estejam à procura de um vínculo novo, e então talvez o Norte, as Casas que ainda não juraram à Stannis...

Ao terminar de se vestir, fez um aceno para que uma das criadas que lhe acompanhava buscasse o vestido molhado e o levasse mais tarde. Cavalgaria com Hobber para casa, queria conversar à sós com ele.

- Tem medo, Des? Medo de ir para o Norte?

– Eu não gostaria de viver minha vida longe do lugar onde nasci... Além disso, as pessoas dizem... Dizem que há um novo rei no Norte, é um Stark. O Jovem Lobo é como o chamam. Ele pode mesmo se transformar em um lobo gigante, cinza como aço, e devorar as hordas inimigas? Ouvi dizer que comeu e aleijou centenas de homens...

O riso do cavaleiro ressoou grave. Dos gêmeos, sempre fora o mais espirituoso, dado tanto aos flertes das cortes quando às brigas de tavernas.

- Não creio que deva acreditar em tudo que ouve. Nunca conheci Robb Stark, mas seu pai me pareceu um homem bastante comum. E creio que não teriam no matado se os Stark pudessem assumir a forma de lobos. – obervava Desmera cavalgar em sua égua negra ao lado dele – Ajeite essa postura, minha senhora... Nenhum senhor deseja uma dama que não tenha postura apropriada – gracejou, aprumando-se no dorso do garanhão cinzento.

- A maioria não se importa, desde que a dama tenha um bom dote. E você sabe disso! – Desmera devolveu – E você, quando casará?

- Eu nunca disse que pretendia... – rebateu instantaneamente Sor Hobber – Horas é o herdeiro de nosso pai, então creio que a mim resta adotar várias esposas de sal, como fazem os homens das Ilhas de Ferro. Essa guerra tem feito lindas e jovens viúvas... Gostaria de oferecer consolo às pobres mulheres!

- É cruel fazer gracejos com a guerra, você sabe disso, Nabo! – Desmera disse, meio séria, meio brincando.

Nabo, Aipo e Batata eram os apelidos pelo qual os irmãos se chamavam, na infância, e na vida adulta, quando sozinhos ou em brincadeiras. Os gêmeos chamaram Desmera “Batata” pois quando pequena era gordinha e doce, como as batatas que ela tanto gostava.

Lord Paxter, ao ver que a caçula não gostara da brincadeira, sugeriu que ela encontrasse bons nomes para chamar os irmãos. E assim Hobber se tornou “Nabo” e Horas, “Aipo”.

O primeiro, por sempre ter sido mais encorpado e menor que Horas, e também por ser mais doce e agradável. O outro ganhou a alcunha de “Nabo” por ser mais esguio e esbelto, e também por, à primeira prova, se mostrar em geral um pouco ácido, forte, mas com o tempo se acabava gostando dele.

– Des... – Hobber continuou, embora sua voz tivesse perdido o tom jovial – Des, mesmo que tenha medo, terá de vencê-lo, ou pelo menos contorná-lo. O Norte não é tão longe como lhe soa, vai perceber isso quando notar que as maiores distâncias estão dentro de si mesma... E com estas sim deve se preocupar.

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Das termas à pequena fortaleza ao Sul, cavalgaram juntos por quase meia hora. A noite era quente e os arbustos de Jasmim-silvestre exalavam um cheiro doce e inebriante, como pequenas estrelas brancas e perfumadas, sob a luz da lua cheia que coloria a ilha em nuances de prata.

Quando chegaram, foram recebidos os cumprimentos modestos dos pajens e cavalariços. Hobber desceu primeiro, entregando o garanhão à um dos rapazes mais jovens para ajudar Desmera a desmontar da égua negra, estendendo-lhe a mão de forma cortês, num primeiro momento, mas então puxando-a para si, como faziam quando criança. Carregou a irmã nos braços até a soleira da porta da cozinha, soltando-a delicadamente, observando os pequenos pezinhos da jovem tocarem o solado frio e duro de pedra.

– Vou pedir que preparem o nosso jantar e levem aos aposentos que usávamos quando criança – o cavaleiro disse, em um falso galanteio. – Minha dama deseja algo em especial para esta noite?

– Meu honrado cavaleiro, muito me agradaria poder deliciar-me ao teu lado com carneiro assado e batatas cozidas! Quando terminarmos, diga às cozinheiras que quero pudim de leite e mel – respondeu a moça com diversão.

– Suba as escadas e aguarde-me, então! Ordenarei que façam nosso jantar, e depois lhe encontrarei para acertarmos os detalhes de nossa viagem. Jardim de Cima será palco de uma grande celebração, nos próximos dias, e a levarei para que conheça seus pretendentes.

Despediram-se com um sorriso e um beijo no rosto. Desmera parecia satisfeita e animada com a ideia de visitar o continente, navegar o mar bravio que os separava do resto de Westeros e viajar pelos montes da Campina, e em especial nos mercados e feiras, onde encontrava especiarias, tecidos nobres e perfumes.

Por um momento, Hobber sentiu algo estranho dentro de si. Amava a irmã como nada no mundo, um amor inquestionável e inocente, diferente do que sentia por outras jovens, as moças com que se divertia e que lhe aqueciam o leito. Quando eram crianças, e ele e Horas brincavam de cavaleiros e aventuras, Desmera havia sido a primeira “princesa” que protegera – e agora sentia-se impotente e fraco por não poder salvá-la dos arranjos matrimoniais que a Rainha dos Espinhos preparava.

Não que acreditasse que Lady Olenna a fosse entregar para algum bárbaro devasso em troca de alguns soldados, mas o simples fato de saber que sua princesa se casaria fazia-o querer prendê-la em uma torre e jogar a chave no oceano, para que as ondinas guardassem seu tesouro por toda a eternidade.