Notas iniciais
Noto que tenho vários leitores, mas poucos deles retornam de algum modo às minhas histórias.
Peço que comentem - ou mesmo me mandem mensagens privadas dizendo o que gostaram no capítulo.
A opinião de vocês me motiva e anima!

CAPÍTULO QUATRO

O Sol ainda não raiara no horizonte, colorindo os campos nevados de dourado à luz da aurora, mas ali, entre livros e pergaminhos antigos, não era possível distinguir a passagem do tempo se não pelas velas que iam se consumindo por completo a cada hora, quase com exatidão, um artifício para que os intendentes não se deixassem esquecer-se de seus deveres.

- Aí está você... Achei que tivesse se perdido – Jon passou pelo arco baixo que levava do túnel ao átrio da biblioteca subterrânea. Outrora, deveria ter sido uma sala esplendida de se contemplar: alta, bem iluminada e um dos poucos lugares na Muralha que poderia ter sido parte de um palácio, com suas pinturas e relevos nas peças de mobília. Nos dias atuais, havia poeira, pouca luz e a arte nas paredes e estantes agora estavam desbotadas e envelhecidas.

- De certa forma, acho que me perdi, Jon. – Sam riu – É como estar em outra época aqui em baixo, vê – e entregou delicadamente um pedaço de pergaminho – São registros da Muralha, provavelmente da época dos pais de nossos pais.

- Não parece que a dieta dos patrulheiros mudou muito desde aquela época... – ele riu ao ler a lista – Ainda temos leite, peixe salgado, carne seca, vinho,... Bem, exceto pelo hidromel, que é um luxo que não se destina a todos nós!

- Jon, veja a quantidade de mantimentos que recebíamos – Samwell colocou-se ao lado dele, passando os dedos pelos números do papel – É quase quatro vezes o que possuímos hoje. Provavelmente os irmãos da época não tinham mais fartura, muito pelo contrário, pelo que ouvi falar da Muralha, esperava emagrecer aqui, com o frio e a comida racionada! – ele sorriu, passando a mão pela barriga – Naquela época, as refeições eram de tanta ou menos comida que as de hoje, a diferença é que a Patrulha era muito mais numerosa! – exclamou, com brilho nos olhos, mas logo afastou-se para guardar os livros que tirara do lugar.

Um arrepio percorreu a espinha do bastardo. Pensar que a Muralha jamais estivera tão vulnerável não lhe ocorrera antes, pelo menos não daquela forma. “O Inverno está chegando”, o lema dos Stark ressoara em sua mente, e aquele pequeno grupo poucos homens era tudo que defenderia Westeros do que quer que estivesse além dela.

Então sentiu algo gelado tocar sua mão, e imeditamente lembrou-se daquela noite nos aposentos do Velho Urso, daqueles olhos azuis, gelados e terríves, e sem pensar virou-se rapidamente, levando a mão ao cabo de Garralonga. Ao invés dos olhos azuis, havia um par de olhos vermelhos o observando, tranquilos, quietos, como os olhos de quem esconde um enigma.

- Jon, algum problema? – Sam veio apressado detrás de uma das grossas estantes de carvalho, hesitante – Pelos Sete, guarde isso! Ele é um bom Fantasma... – ele riu, nervoso, ao ver Garralonga, ainda na bainha, mas seu punho na mão do amigo.

- Eu sei, foi só... uma impressão, Sam...

O jovem Tarly aproximou-se, deixando com cuidado a pilha de livros que carregava sobre uma das escrivaninhas e pegando a vela que lhe acompanhara a leitura, enquanto encaminhava-se para fora da biblioteca.

- É sobre aquela noite?

- É – admitiu Jon. Eles haviam tornado-se próximos o suficiente para entender o que o outro dizia sem muitas palavras. Além disso, não havia nenhuma outra noite que pudera se comparar a aquela, até então.

- Você foi corajoso, e agiu rápido. Aquela coisa – o que quer que fosse – você a destruiu e salvou a vida do Senhor Comandante.

- Há muito mais daqueles lá fora, Sam, e os deuses sabem o que mais pode haver.

- Mas não virão até aqui... E se vierem, acho que vamos conseguir vencê-los – Sam retorquiu, em voz hesitante.

- Nunca fomos tão poucos, e o Inverno é próximo.

- Então é melhor que o afastemos com um pouco de leite quente e doce. – o rapaz roliço concluiu, com uma risadinha nervosa.

Jon o olhou e sorriu, acenando positivamente. Agora sentia a consciência pesar por compartilhar seus pensamentos com Samwell, um “covarde declarado”. Subiram juntos a escada em espiral para o nível térreo da muralha, e então foram juntos ao refeitório, sentando-se lado a lado para tomar o desjejum. Não falaram nada o caminho inteiro, e também nada ouviram a não ser a própria respiração de Sam, ruidosa pelo esforço de subir as escadas subterrâneas.

O salão onde eram feitas as refeições era uma sala ampla e iluminada por altas janelas de vidro que davam para o Sul. O ar tinha o cheiro de comida, e as mesas eram compridas e dispostas lado a lado, paralelas, com bancos longos que as flanqueavam.

Grandes travessas e panelas de aço eram trazidas ao centro do salão, dispostas em uma mesa menor, onde os irmãos da Patrulha serviam-se, tudo para evitar o desperdício. A Patrulha da Noite nunca fora sinônimo de luxo, e cada migalha era contada. Ainda assim – e talvez por isso – os pratos servidos eram feitos com especial cuidado e cada refeição preparada com zelo e esmero, pois poderia ser a última para muitos patrulheiros.

Jon ajeitou-se em uma ponta de uma das grandes mesas, a ponta mais ao Sul. Era comum sentar-se ali com Sam, desde o primeiro dia em que comeram juntos. De certa forma, Sam parecia mais confortável naquela extremidade. “Mais perto de casa” — Jon pensava.

“Família” não era o tópico favorito do amigo sulista. O pai opressor o mandara para a Muralha sem pestanejar, mesmo depois de o rapaz ter servido de pajem para um cavaleiro da Árvore durante certo tempo. A mãe, pobre mulher, pouco pode fazer contra isso, mas lhe escrevia com frequência.

Mandava os corvos com mensagens até a irmã, uma tia de Sam que vivia no Vale, e esta os mandava para o sobrinho. Tinha muito medo que o marido descobrisse suas correspondências, mas jamais abandonaria o filho.

“Teve um destino cruel, pobre Sam... Mas pelo menos sabe quem são seus pais” – Jon refletiu amargamente, mas ao sentir Fantasma deitar-se sobre seus pés o coração apertou-se em remorso, pois percebeu o quão injusto estava sendo.

Eddard Stark sempre fora um pai presente e bondoso, criara-o como o filho que era. Não tivera seu sobrenome, mas ainda assim ganhou tanto carinho e zelo quanto qualquer um dos filhos de Lady Catelyn.

– Correspondência, Snow! – um Sam sorridente sentou-se ao seu lado – E dessa vez tem pra você também... – entregou um envelope selado com cera negra, e o selo da Casa Stark. Robb, pensou, ou talvez Winterfell... Havia recebido algumas cartas de Arya e do pai, no começo. E de Robb, antes dele se tornar o Rei Robb, o Jovem Lobo. Não o culpava, nem se ressentia. O herdeiro de Eddard certamente tinha pouco tempo para escrever cartas, especialmente para a Muralha.

– Mamã... Lady Doreen diz que meu irmão talvez se case em poucos meses – A ideia pareceu animá-lo. Gostava do irmão, e de maneira alguma o culpava pela conduta do pai – Lady Desmera da Casa Redwyne será apresentada à Campina, e Lord Tarly mandará Dickon para representar nossa Casa. Nossas irmãs também irão, para serem Aias de Lady Desmera, caso ela não goste de Dickon... Lord Tarly não tem muitas esperanças, depois do papel que prestei à Sor Horas e Sor Hobber. Os irmãos de Lady Desmera – ele completou, ao perceber que Jon o olhava sem entender – Servi a eles como pajem, mas passava grande parte do tempo com a Desmera. Ela gostava de mim, conversávamos, era uma moça muito delicada e gentil... Eu a ensinei a tocar harpa! – Sam apressou-se em dizer, ao ver o amigo lhe sorrir sugestivamente. Nenhum jamais havia tido experiências com mulheres antes de vir à Muralha, e também não haviam criado coragem para ir à Vila Toupeira.

– Você gostava dela, Sam?

– Quem? Ah, Desmy... Eu... Bem, Jon, acho que gostava mais dela do que dos irmãos...

– Acho que é um bom sinal... Lady Desmi – Jon riu, mesmo sem muita vontade de rir. Mexia na carta que recebera, e tinha medo de abri-la.

Já haviam terminado de comer quando as mesas começaram a encher-se. Eram sempre os primeiros a chegar pela manhã, Jon e Sam, e Fantasma, e à noite sempre eram os últimos. Os deveres de ambos requeriam que chegassem cedo para que o dia fosse aproveitado ao máximo.

Caminhavam juntos, Sam para o viveiro dos corvos e Jon para os aposentos do Velho Urso. Ambos dariam inicio às suas atividades diárias provendo comida a aqueles a quem serviam.

– Até mais, Jon – o intendente de Meistre Aemon despediu-se, e o escudeiro-intendente do Senhor Comandante acenou com a cabeça em resposta.

Notas finais
Dedicado à Breland e Lyanna!

O próximo será para Lady Snows e Lyla ;)