CAPÍTULO UM

O sol já esmorecia no poente, uma brasa que ainda ardia sob as águas do mar. Sua luz inundava a terra e o mar em tons de ouro e silêncio grandioso. Paxter olhava pela janela, pensando em como deveria falar com a filha. Sentia o coração pulsante, a garganta apertada. Em toda sua vida sempre tivera facilidade em lidar com seus iguais, Lordes, senhores menores, e até mesmo seu suserano sempre lhe ouvia com atenção e seguia seus conselhos.


Relvados verdes desciam até a beira-mar, onde, pouco a pouco, iam dando lugar a praias de areias brancas. Podia-se ouvir, ao longe, o som de uma harpa, e então o estalido da fechadura se abrindo, mas não ouviu passos, somente pode sentir uma pequena e tenra mão tocar a sua própria.



– Pai...


Lord Redwyne virou-se, olhava a filha de cima, era aproximadamente uma cabeça mais alto que a jovem. Não pode deixar de sorrir ao vê-la. Pequena e delicada, como as flores silvestres, brancas, que teimavam em brotar nos bosques da árvore, onde as videiras ainda não haviam tomado conta. E aqueles olhos verdes, que o miravam com coragem, que suavidade encontraria neles aquele que os fosse amar...

– Pai, eu sei o que vai me dizer, e a resposta é não. Não quero que escolham alguém pra me casar. – ela o surpreendeu ao tomar à dianteira, assim, impondo-se como jamais havia feito.

– Des, como você soube? – Paxter passou a mão calejada pelos longos cabelos da filha. Castanhos, da cor das nozes, cor da terra fértil da Árvore.

– Achei que seria o único motivo para minha vó se dar ao trabalho de enviar um mensageiro, desde Jardim de Cima até aqui. Ela poderia ter enviado uma ave, mas provavelmente temia que perdesse a carta. – Seus olhos estreitavam-se enquanto ela falava, embora ainda falasse com suavidade. – Não me importa o que vocês estão decidindo, não vou aceitar...

– Desmera, você própria é fruto de uma união arranjada. – Paxter a olhava inquieto – É natural que duas Casas de linhagem nobre se unam para formar alianças, compromissos, e não há melhor jeito de selá-los que com um casamento... Não seja egoísta, Des...

– Não sou egoísta, pai, VOCÊS é que são! Egoístas, mesquinhos, e manipuladores, todos vocês, especialmente você e minha avó!!

– Desmera! – Lord Redwyne avançou, numa frustrada tentativa de acalmar a filha e evitar que os criados a ouvissem. – Não será ruim, talvez você até possa conhecê-lo antes, ou quem sabe escolher algum primo ou irmão que mais lhe agradar... Ainda nem sabemos com quem poderíamos lhe casar!

– Pai, lembra quando Lord Tarly mandou o filho pra Muralha? Lembra como ficou indignado e como sentiu pelo rapaz? Ora você ofereceu a ele um lugar como escudeiro de Horas.

– Desmera, a situação era completamente diferente...

– Não, pai, não era... Samwell foi embora por interesse político, o herdeiro mais fraco deu lugar ao mais forte, e...

– Eu não tenho um hedeiro mais fraco, Desmera! – Lord Paxter sorriu envolvendo o rosto da filha nas mãos. – Vocês são fortes, você e seus irmãos... Fortes, intensos, mas ainda sim suaves, como nossos vinhos...

Desmera suspirou levemente, olhando diretamente nos olhos do pai. Os mesmos olhos eles tinham, verdes, profundos, marcantes. Nos dele, carinho e preocupação. Nos dela, incredulidade e desacordo.

– Não, meu pai, minha mãe não lhe deu filhos fracos. Mina Tyrell lhe deu três herdeiros valorosos, três peças poderosas para jogarem seus jogos astutos.

As palavras cravaram em Paxter como punhais de gelo. Suas mãos escorregaram daquele rosto alvo, escorregando pela tez macia, e caíram ao lado do próprio corpo, inertes. Em sua juventude, conhecera o mundo, viajara de Lançasolar até a grandiosa Muralha, enfrentou ameaças e angústias que jamais pudera imaginar, e gabava-se disto constantemente em suas histórias, durante os famosos banquetes de Lord Redwyne. Mas os deuses tinham seu senso de humor estranho, às vezes. Naquela noite, Lord Paxter Redwyne foi acometido por uma dor que jamais sentira, um golpe fulminante que, sabia, jamais cicatrizaria em sua angustia e pesar.

Mais tarde, naquela noite, abraçara Mina com pesar e tristeza, e pedira à esposa que falasse com a filha, que lhe incutisse juízo, ou então pelo menos bom senso. Beijaram-se, e uniram-se. Depois, Paxter observou-a dormir por alguns minutos, plácida em seus sonhos, serena como um lago no Inverno.

Pensar no Inverno o inquietou. Vestiu-se de trajes simples e desceu para o pátio, sozinho. Quando criança, Desmera costumava caminhar com o pai durante a noite. Herdara-lhe talvez a falta de sono, talvez o amor pelas noites quentes na Árvore, e, toda vez que ouvia ruídos no jardim, espreitava-se pra fora de seus aposentos de menina, driblando amas e criadas, para encontrar o pai nos majestosos jardins.

Observavam estrelas e cantavam juntos sob a luz do luar. Desmera sabia o nome de todas as plantas, e conduzia o Lord Redwyne por entre os labirintos verdes buscando aquelas que durante a noite exalavam seu cheiro mais intensamente. Traziam comida e vinho doce da cozinha e faziam piqueniques sob o luar. Sempre tivera uma relação muito carinhosa com a filha, mas agora, aquelas lembranças pareciam simplesmente frias, distantes.

Ele sentou-se na relva, embaixo de um grande represeiro, uma rara árvore-coração ao Sul de Westeros. A madeira exalava um cheiro forte, mas agradável. Ali, com os Deuses, na natureza, não era mais do que um homem comum. Fitou aquele rosto enigmático, grave e sério.

A fé dos Sete se popularizara rapidamente, era mais forte,mais difundida, porém, havia algo naquelas árvores pálidas, gélidas e em seus ramos rubros que o atraía fortemente, como o pai que chamasse pelo filho de volta à casa, às origens. Seu pai orava aos deuses antigos, quando era vivo, embora a mãe tivesse preferido à fé dos Sete.

Lembrava-se do pai a explicar, pacientemente, as diferenças entre os cultos dele e da esposa, e dizia, que não importava a fé que um homem seguisse, desde que ela lhe fizesse ser alguém melhor, nenhuma crença poderia ser considerada superior a outra de forma alguma.

Odhram Redwyne também costumava lhe dizer que, há certos momentos, em que cada pensamento é uma oração, não importasse a posição do corpo físico, desde que a alma estivesse de joelhos. Eram momentos como aquele.

Paxter respirava ruidosamente, e encarava com seriedade àqueles olhos acusadores. O coração ainda lhe palpitava forte em função da discussão daquela noite. O olhar do represeiro fazia-o sentir-se culpado, indiciado de crimes como o de Lord Tarly e tantos outros – ora, dar à filha como moeda de troca para os jogos da avó.

Olenna havia, sempre, sido generosa para com ele. Lhe dera a própria filha em casamento, alianças políticas e incontáveis outras benfeitorias. A ela, deveria parecer um preço justo haver a neta em retorno. Era uma mulher sensata, embora um tanto ardilosa, mas era avó de sua Desmera, e sendo assim como poderia pensar que lhe causaria algum mal?

Olhava para seus pés quando deu-se conta de que as mesmas flores silvestres, alvas e perfumadas, com as quais gostava de comparar a filha, cresciam dentro do bosque sagrado. Desmera sempre estivera com ele, de certa forma, nos momentos de reflexão, e agora os deuses antigos o lembravam disso.

Não lhe parecia certo o que estava prestes a fazer. Nem aos seus olhos, nem aos olhos dos Deuses Antigos.