A Breath of Snow and Roses
7 Capítulo 5
CAPÍTULO CINCO
Paxter Redwyne sugerira aos filhos que rumasse à leste com a galé para atravessar o Estreito Redwyne e chegar à Vilavelha antes do sol se pôr, para que naquela noite pudessem desfrutar de algum descanso antes de pegarem a Estrada da Rosa até Jardim de Cima no dia seguinte.
Ao invés disso, Hobber e Desmera decidiram ir para o Norte, subindo à costa da Campina até as Ilhas Escudo. A fragata* de Hobber Redwyne, Lady Ladwys, faria o percurso em menor tempo pela água, e assim encurtariam o trajeto até a sede da Casa Tyrell. Também Desmera queria apreciar o céu noturno em alto mar, coberto de estrelas sob o manto negro da Noite.
- Ainda estamos indo Norte, Des? – Hobber perguntou, ao fitar a irmã observando o firmamento.
- O barco está alinhado ao Punho da Espada** – ela respondeu, apontando uma estrela azulada – Mas creio que talvez já devêssemos virar um pouco a estibordo.
- Mais algumas milhas, irmãzinha, até avistarmos a primeira das Ilhas.
- E lá está ela, Hobber – a jovem virou-se, com um sorriso petulante e desafiador.
Sempre quando saía para navegar, jovem cavaleiro fazia questão de controlar a embarcação, embora fosse melhor guerreiro do que navegador – acaba prestando mais atenção em seus devaneios do que no controle da embarcação. Lord Redwyne incomodava-se muito em relação a isso, pois fazia questão de que os filhos fossem tão bons no mar quando em batalhas em terra firme.
Parecia estar no sangue da família o gosto pelo ar marinho. Os quatro passaram a maior parte da viagem junto da tripulação, com olhos atentos para as mudanças na água e a passagem do tempo contada nos astros celestes.
Havia algo nos Redwyne da Árvore que os tornava semelhantes às videiras, símbolo de sua Casa. Uma maneira peculiar de adaptar-se a terrenos inóspitos e ambientes áridos, retirando dali tudo que precisassem para prosperar e frutificar, mesmo quando para qualquer outra forma de vida pudesse parecer impossível.
E a fragata que carregava as sementes de uma nova videira ancorou à meia-noite em Vilavelha. Paxter não esperava recepção por parte da Casa Hightower, mas foram surpreendidos por uma pequena comitiva que lhes aguardava no Porto, que os escoltaram até a Torralta, onde a senhora Rhea Florent, uma mulher de estatura mediana e olhos sem expressão, esposa de Leyton Hightower, Senhor de Vilavelha.
- Sejam Bem-vindos à Vilavelha, com os cumprimentos de Lord Hightower – sussurou ela, cortês.
- A Casa Redwyne agradece a hospitalidade do Senhor de Vilavelha e da Casa Hightower – Lord Paxter respondeu, no mesmo tom de voz.
A noite já ia alta quando sua anfitriã os deixou em seus aposentos. Mina Tyrell agradeceu e beijou à jovem Rhea no rosto ao despedirem-se, como era costume entre as damas de alto nascimento na Campina. “Poderia ser filha do velho Leyton”, refletiu. Casamentos arranjados sempre pendiam a balança pra um lado, mas neste caso era difícil de decidir para qual: Os Florent ganharam uma aliança e Rhea um título importante na Campina, enquanto Leyton obtivera um corpo jovem para lhe aquecer a cama, embora ainda não tivesse lhe dado herdeiros. “Uma troca quase justa”, Mina riu ao fechar a porta atrás de si e tratar ela mesma de aquecer o Senhor da Árvore.
–x-
Avistaram uma gigantesca forma, branca e resplandecente sob o Sol da manhã. Eram incontáveis andares erguidos em rocha firme e alva, e também incontáveis torres nas quais pairavam bandeiras verde e douradas com o símbolo da Rosa. E aos pés da fortaleza, como que num cinturão verde, grandiosos jardins e labirintos verdes espalhavam-se numa beleza desordenada.
Chegaram à Jardim de Cima antes de o Sol erguer-se alto, ao meio dia. Acompanhavam à família Redwyne sua pequena escolta, vinda da Árvore, e também os membros da Casa Hightower que naquela noite compareceriam aos eventos daquela noite. Era possível discernir o estandarte de várias casas da Campina e também de outras terras mais distantes, espalhados ao longo da área da cidadela, e Desmera as observava e tentava distinguir cada uma das casas que conhecia através dos estandartes. Mas, no fundo, ela sabia que pouco importava quem estivesse ali fora, nos acampamentos, e dentro das paredes brancas da fortaleza era onde de fato conheceria seu destino.
E foi em meio a devaneios como este que a futura noiva foi surpreendida ao ter as rédeas de seu baio tomadas de si por um homem loiro e alto, que lhe sorria de modo quase infantil e inclinava-se sobre uma das pernas. De qualquer maneira, não foram os cabelos dourados ou o sorriso que fizeram Desmera encantada, foi olhar naqueles olhos azuis profundos e receber o quente toque da mão dele na sua enquanto a ajudava a desmontar que trouxeram a ela lembranças de um amor inocente de menina.
- Minha Dama, é um prazer vê-la novamente. – e beijou-lhe a mão.
- Meu Senhor, o contentamento que sinto em tê-lo perto mais uma vez não poderia ser expresso em palavras de forma alguma – Desmera respondeu, sem saber se estavam brincando, como quando eram crianças, ou se, no fundo, realmente sentiam aquela exaltação incomum dentro de si próprios.
Willas Tyrell ofereceu à prima o braço, e acompanhou-a até o interior do prédio, depois de cumprimentar os tios e primos. Vestia-se em uma simplicidade direta, espontânea, mas ainda assim parecia tão radiante, elegante quanto seu pai, Lord Mace, em seu veludo verde e seus bordados de ouro.
A jovem reduzira o passo para que pudessem caminhar com mais conforto, em função da perna manca dele. Pouco a pouco as figuras à frente diminuíam de tamanho, afastando-se, e então o jovem casal se viu sozinho.
- Se importa de tomarmos um rumo distinto? – indagou Willas , apertando levemente a pequena mão ao lado da sua.
- Nunca me importei, nem mesmo quando tinha medo que algo pudesse acontecer – Desmera riu com graça – Sempre acreditei que pudesse proteger você.
E então o herdeiro Tyrell a levou por um pequeno corredor de pedra que passava por debaixo de uma das torres de vigília da fortaleza, e foram dar em um pequeno e simples jardim, de relva macia e pequenos arbustos frutíferos. Na parte central do terreno, havia uma construção alta e de forma oval, sem cantos, quase como uma torre de vigília, mas em altura reduzida.
Ela abriu a porta de entrada, pequena e com entalhes de rosa na madeira. Ao adentrarem no recinto, pode sentir no ar um odor peculiar e selvagem, difícil de identificar, até o momento em que uma sombra escura voou para o braço de Willas. “Falcões”, ela sorriu.
- Este é Shaw, Des – ele sussurou, enquanto olhava com admiração à magnífica ave.
- Esplêndido – concluiu que esta seria a única palavra que poderia descrevê-lo.
- E é um animal muitíssimo inteligente também! – o jovem continuou, exultante – Vamos deixar que voe um pouco, para que possamos observar a maneira como plana entre as correntes de ar, e as rasantes, e investidas. E há algo que desejo lhe dar.
Dirigiram-se juntos ao pátio, novamente, e então a ave levantou voo sob o comando de seu mestre. Shaw planava acima deles, acompanhando-os de longe enquanto caminhavam até a parte mais antiga de Jardim de Cima. Conforme aproximavam-se, ruídos indistinguíveis iam se tornando mais altos.
- Por favor, sente-se e aguarde, Des. – Willas pediu, quando chegaram à beira de um lago onde ninfeias brancas e róseas flutuavam sobre a água tranquilamente, e libélulas esvoaçavam aqui e ali, e o aroma de lírios selvagens enchia o ar densamente.
Desajeitado e carregando um grande cesto de vime, retornava Willas Tyrell para o lugar onde havia deixado sua prima. Desmera o observava ao longe, alto e esbelto, e particularmente harmonioso em seu jeito de andar e portar-se, apesar da perna que mancava. Ele sorriu ao notar que ela o observava, e a jovem Redwyne não pôde deixar de fazer o mesmo.
- Aqui está – sentou-se levemente ao lado dela, e com delicadeza tirou de dentro do cesto um tufo de emaranhados pelos brancos, que olhava para cima com o rabinho abanando e amistosos olhos negros – Quero que a leve aonde quer que vá, para que sempre lembre-se de onde vieste, da Campina, e de mim, Des... – o jovem suspirou e sorriu ao colocar o filhote sentado no colo da moça, e vê-la tentar fazer com que o animalzinho ficasse sentado ao invés de tentar lamber seu rosto.
– Ela gosta de você, Des, como eu gosto também. – ele continuou — Quando era criança, e Margaery falava sobre casamentos, nunca quis ouvir ou prestar atenção, até que um dia ela me disse que queria poder casar no mesmo dia que você, na maior e mais grandiosa festa que a Campina já conheceu. Eu estranhei, pois não achava que fossem próximas, vocês duas... Mas minha irmã só queria me provocar dizendo que eu não poderia casar-me contigo, já que estaria ao lado dela, na cerimônia, como Protetor da Donzela***, além de ser seu primo. Fiquei furioso... E desejei que minha Casa pudesse adotar os costumes do Dragão, para que pudesse me casar contigo. Não, por favor, não se assuste – Willas apressou-se em dizer, ao notar os olhos arregalados da prima – não desejo, não agora, me casar com a Donzela das Uvas – ele riu ao chamá-la assim – Mas desejo que possa levar consigo a segurança e o carinho que um dia eu quis lhe dar. E assim, guardei esta Protetora para ti. Ela se chama Eldri...
As palavras do jovem Tyrell absoveram Desmera por completo. Arrastaram-na para outra realidade, como uma ilusão que se torna real diante de seus olhos, tão real que é possível tocá-la. Viu a si mesma quando menina, e as tardes quentes em que corria e brincava com os primos. Reconheceu o velado carinho de Willas por ela mesma, sempre tão gentil e afável, mas sem nunca aproximar-se demais. Deu-se por conta que havia despertado nele o sentimento mais nobre que era possível encontrar em um homem, e, de certa forma, soube que ela também fora tocada por Willas de uma maneira tão profunda quanto.
Quando a jovem já sentia os olhos cheios de lágrimas, seu primo a abraçou e aninhou-a em seus braços, como fazia na infância, por motivo de um joelho machucado ou espinhos nos pés.
– Prometo que só vou deixar que se case com um homem que for realmente merecedor de ti. Eu prometo. – ele murmurava no ouvido dela, enquanto seus braços ainda a envolviam.
–x-
As horas passaram com uma rapidez vertiginosa. Eldri aninhava-se no tapete ao lado de sua cama, enquanto ela alisava o vestido de linho nobre e seda que usaria naquela noite, de cor grená, forte e imponente, como os vinhos da Árvore. Sentou-se no chão ao lado da cadela que Willas havia lhe presenteado e o animalzinho colocou a cabeça sobre suas coxas.
- Vou lhe trazer um pedaço de faisão para a ceia, prometo... – Desmera sorriu ao acariciar o focinho escuro e gelado do filhote.
Eldri era muito maior que a maioria dos filhotes que já havia tido, mas era provável que não crescesse mais do que cães de caça comuns. Havia também seu pelo, claro e encrespado, diferente de qualquer outro animal que ela Desmera já havia visto. Lothar Tyrell, tinha um apreço imenso por cães e caçadas, e ensinara à menina sua neta um pouco do que sabia a respeito, e ela pegou-se pensando o que o avô acharia daquele filhote.
*Fragatas foram desenvolvidas à partir do século XVI e se popularizaram rapidamente por serem velozes e de fácil manobra, especialmente em guerras. No entanto, a maior parte da frota Redwyne, inclusive o Lady Ladwys, era composta de fragatas “primitivas”, e também galés.
**Punho da Espada = Estrela Rubidea
*** Protetor da Donzela = na tradição da Campina, o herdeiro da família da moça, responsável por cuidar e protegê-la e, no dia do casamento, levá-la ao altar.
Fale com o autor