CAPÍTULO SEIS

Desmera estava no quarto que lhe fora reservada pelo tio, uma sala ricamente ornamentada e de amplo espaço, acompanhada de uma dúzia de outras mulheres: serviçais, casamenteiras e damas de companhia. Conversavam alto, falavam sobre seus maridos e filhos, sobre as dores do parto e sobre as amantes que lhe faziam rivalidade. Sufocante. Depois de hostilizar a proposta do pai em relação a um casamento político, decidira voltar atrás e aceitá-la de bom grado, mas por quê? Um pouco de atenção? Escarnecer do próprio destino? Ou quem sabe ser um pouco como Margaery e deleitar-se com cortejo e fascínio dos homens?



Naquele dia, desde o raiar do Sol, o cômodo em que dormira enchera-se de mulheres e de suas vozes. Despiram-na e banharam-na, penteando com cuidado as longas melenas castanhas e aneladas, e esfregando com vigor toda extensão de sua pele. Trajes simples foram trazidos, para que usasse até a hora do baile, em algodão cru, embora bastante marcantes no contorno do corpo.

Alerie Hightower veio ter com ela pouco antes do meio-dia, acompanhando Lady Mina Tyrell, que suspirou pesadamente ao olhar para a filha e imaginar o que seria feito dela ao final da noite. Mas ainda assim, sorriu, e ordenou que uma das criadas providenciasse um pouco de vinho doce e frutas frescas.

Beberam as três, Mina e Alerie para ter coragem de falar, e Desmera para conseguir ouvir sem titubear. Falaram sobre seus próprios casamentos, e como haviam sido promissores apesar de arranjados. A primeira noite, o despertar do amor no coração de um homem, a primeira gravidez, o parto, os filhos, e as virtudes e deveres de uma dama. Cada um destes tópicos fazia as entranhas da donzela revirar-se de nervosismo e medo, mas havia nela também um pouco de desassossego e ansiedade, queria vivenciar tudo aquilo, e esperava que fosse bom.

Quando saíram juntas para o almoço, a menina Redwyne cambaleou levemente ao tentar erguer-se da cadeira, recebendo o amparo da Senhora Tyrell.

– Acalme-se, querida, logo esse mar de emoções se acalmará e poderás descer em um porto tranquilo. Margaery ficou muito apreensiva em suas primeiras núpcias, com Rei Renly, que descanse em paz. Talvez devêssemos juntar-nos todas para a refeição do meio-dia?

– Creio que seria reconfortante para nossa jovem noiva ter a companhia de mulheres mais experientes neste dia tão importante. Sua avó está muito orgulhosa por sua decisão em casar-se, minha pequena, tenho certeza de que ela ficaria feliz em vê-la antes do baile. – Mina proferiu cada uma dessas palavras com os olhos fixos na filha, e acenando positivamente com a cabeça de forma quase obsessiva.

Assim que Alerie, sorrindo, deixou-as para cuidar dos preparativos do almoço, ela pôde abraçar sua criança e acariciar seus cabelos. Sustentavam uma à outra em seu abraço, engolindo os próprios soluços e aflições. Eram tão semelhantes no físico quanto diferentes em seu cerne. Tinham os cabelos dos Tyrell, castanhos como o tronco da nogueira, mas Mina tinha aqueles olhos claros, azuis e tranquilos, enquanto os olhos de Desmera eram de um verde escuro, selvagem e indomável como os de Lord Paxter.

Aqueles olhos tão distintos encararam-se por alguns momentos, e puderam enxergar um no outro o que havia também em si. Havia o medo e o embaraço, e a espera angustiante pela noite que se seguiria. E mesmo tão distintos, choraram como um só.

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A refeição que foi servida às mulheres da Casa Tyrell era leve e tentadora, apropriada para um dia como aquele, em que a noite deveria ser a hora de maior destaque. Desmera beliscou um pouco da ave, um faisão temperado com cravo e mel, e comeu também alguns figos. Sorriu para a prima, Margaery, radiante em sua beleza, e abaixou-se para cumprimentar com respeito à Rainha dos Espinhos antes de sentar-se ao lado da mãe.

Lady Olenna havia lhe feito perguntas que a deixaram inquieta. Sabia desde pequena que a avó tinha um jeito talentoso de manipular a conversa para conseguir extrair o que lhe era pertinente. Começava perguntando casualidades, como estava se sentindo, se já conhecera algum dos cavaleiros que lhe fariam a corte e se recebera alguma prenda. Depois lhe perguntava sobre questões femininas, vaidades, como a cor que usaria naquela noite, e lhe sugeriu o verde Tyrell que “evidenciaria estes lindos olhos”. E por fim, numa despreocupada conversação após o almoço, enquanto Margaery lia e Mina e Aleria conversavam na varanda, a donzela que observava as rosas seria ferida por seus espinhos.

– Querida, eu lhe direi: tive medo quando me casei com teu avô. Ouvi muitas histórias sobre ele, como trucidara inimigos e batalhava ferozmente, mas quando vi Luthor pela primeira vez, despido de sua armadura, diante de mim como um homem comum, jamais tive duvidas de que seria capaz de amá-lo com toda minha alma. Agora que lhe confidenciei um segredinho, diga-me Pequena Rosa, o que faria se não lhe agradasse seu futuro marido?

– Senhora Olenna, ciente de meus deveres como esposa e mulher, eu o obedeceria e respeitaria de qualquer maneira, amando-o ou não.

A Rainha dos Espinhos suspirou impacientemente, olhando para Margaery enquanto acariciava as próprias mãos.

– Responda-me o que lhe perguntei Desmera. Você poderá escolher seu consorte nesta noite, se me responder com honestidade. O que faria se, depois do casamento realizado e consumado, descobrisse que o homem com quem se casou não é quem aparentava ser?

– Caso eu soubesse de algo que me fosse bom e que fosse prejudicial à minha família, afastaria o que quer que fosse sem pestanejar. Se eu soubesse algo útil à minha família que não o fosse à minha pátria, a Campina, tentaria apagá-lo para que nunca viesse a acontecer. E se eu descobrisse algo que pudesse ao mesmo tempo prejudicar minha família e à Campina, mesmo que viesse a elevar meu nome e o nome da Casa de meu consorte, então não hesitaria em traí-lo e findar quaisquer fossem seus planos. – sussurrou em voz mansa, olhando a velha mulher nos olhos. Colocara firmeza em suas palavras, esperava poder convencer a avó disso.

– Excelente, eu não gostaria de esperar menos de uma Redwyne da Árvore. Leal e inabalável... Mas creio que não deva preocupar-se com isso, minha pequena, governantes de toda Campina e até mesmo das terras mais ao Norte estarão aqui esta noite, e poderá escolher qualquer um dentre eles. – e lhe sorriu um sorriso terno, enquanto sua mão macia e enrugada apertava com gentileza o braço da moça.


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Ao retornar para o aposento que lhe fora destinado, pediu que trouxessem Eldri, que julgou ser melhor companhia que qualquer outra pessoa, mas a pequena cadela foi trazida por dois homens de rosto muito semelhante e amado pela menina Redwyne.


Hobber trazia Eldri enrolada em um manto púrpura já bastante gasto, enquanto Horas carregava um baú de madeira de cedro com entalhes que representavam a Árvore e suas riquezas: as videiras que brotavam do solo íngreme e pedregoso, seus frutos das mais variadas cores, usados para produção dos vinhos mais famosos do mundo conhecido. A poderosa frota Redwyne ornamentava as laterais do objeto, como que para proteger seu conteúdo de piratas e ladrões do mar.

– Passou a maior parte da noite acordada, e mordia minhas mãos caso parasse de afagá-la. Está mimando demais este animalzinho – Hobber riu-se ao soltar gentilmente o pequeno tufo de pelos brancos no chão, antes de sentar-se ao lado da irmã na sacada do quarto. – E você, como passou a noite?

– As horas dormidas foram tranquilas... – ela respondeu enquanto recebia de Horas um beijo carinhoso sobre a fronte.

– Mas não foram muitas? – o herdeiro Redwyne concluiu.

– Não, nem mesmo sonhei esta noite. Estamos longe da Árvore, mas era como se pudesse sentir o mar invadindo a areia e a terra, batendo contra os rochedos e o ar salgado inebriante encher o quarto. E então tudo era engolido por uma onda gigante, e serenava-se sob o oceano azul-acinzentado.

– Está nervosa, Desmi, é só. Temos algo para você – Horas apressou-se em mudar o tema da conversa, acenando para que Hobber o acompanhasse. O gêmeo mais novo puxou o baú que trouxeram e ofereceu-o à irmã.

– Para que se lembre sempre das suas origens. Alcance o céu, mas mantenha suas raízes sempre profundas. – o cavaleiro de cabelos escuros disse, enquanto vestia-a com um delicado conjunto em ouro e turmalinas rubras. Brincos pendentes que tilintavam docemente quando a jovem mexia o rosto e um esplendoroso colar que caia por seu colo voluptuosamente. A cor avermelhada das pedras destacava a pele rósea de seus seios e maçãs do rosto, tornando custoso não olhá-la.

– Estonteante, Desmi... Como a heroína a quem deve seu nome! – Horas voltou-se para olhá-la de frente, parando ao lado do irmão. – Esta noite as estrelas invejarão seu brilho, minha irmã.

– E eu invejarei suas posições privilegiadas no firmamento, absolutas e alheias às nossas preocupações.

– Você é uma criança de verão, Desmi. — suspirou ele com pesar — Você não sabe nada, ainda não é capaz de perceber a importância dos acontecimentos que a rodeiam. — Ele o fitou com seus olhos claros, ululantes de pesar. — Mas, um dia, você entenderá. E quando esse dia chegar espero que possa nos perdoar se lhe entristecemos agora. Nós a amamos, irmãzinha...

Hobber tomou-a nos braços quando o irmão terminou de falar, e abraçou-a com força. Limitou-se a beijar o topo de sua cabeça e acariciar-lhe as costas, enquanto encarava o gêmeo com olhos de pesar, e este segurava uma das pequenas mãos da jovem noiva. Sabiam que após aquela noite, demorariam em unirem-se novamente os três irmãos. Mas quem quisesse levar a rosa para sua vida, teria de saber que com ela vão inúmeros espinhos.