A Borda
1 Prólogo
Notas iniciais
Eu nunca desejei morrer desse jeito, sozinha e caída no meio de uma floresta com um buraco na minha perna, além de ser devorada por algo tão inferior a mim. Como eu pude deixar que eles chegassem tão perto de mim assim? Talvez todos esses anos longe do serviço tenham me deixado enferrujada, talvez eu não sirva mais para isso. É... Talvez seja isso. Bom de qualquer forma, eu estou preparada para morrer, pelo menos eu espero que eu esteja. Minha morte se aproxima a cada passo que aquele maldito Raijuu dá em minha direção. O Raijuu é um animal muito parecido com um lobo azul, ele devia ter um metro de altura, seus caninos enormes pingavam a sangue – o meu sangue –. Seu corpo era envolvido por raios, fazendo o toque ser extremamente prejudicial à saúde. Ele lentamente se aproximava, sabendo que não tinha como eu escapar. Eu engatinhava para trás tentando me afastar dele, foi quando eu senti algo firme batendo de leve nas minhas costas. Parecia que eu tinha batido no tronco de uma arvore. É o fim, não tenho mais para onde ir. Comecei a pensar em tudo o que eu tinha feito na minha vida, todas as pessoas que eu matei, pensei se valeu a pena ter entrado nessa vida. Não havia motivo para me arrepender, eu sabia disso. O que está acontecendo agora são consequências dos meus atos, eu sabia das consequências quando entrei então não tenho o direito de me arrepender. Eu senti algo duro embaixo da minha perna direita, levei minha mão procurando até achar uma pedra. Eu via naquilo uma pequena esperança, por mais que ela fosse quase nula, eu tinha esperança que aquilo me daria mais tempo.
Segurando forte minhas esperanças, eu depositei o que restava de magia naquela pedra. Agora só tinha que esperar ele chegar perto o suficiente de mim. O que não demorou muito para acontecer. Logo eu estava cara a cara com o Raijuu, e posso dizer que ele parecia ainda mais assustador.
“Fim da linha!”
Sua voz era como o som de um raio cortando o céu, alto tão assustador que faria os homens mais corajosos se cagarem de medo.
“Não tem mais para onde fugir e nem se esconder bruxinha.”
Era aí que ele se enganava, logo mais atrás de mim havia um penhasco com um rio lá em baixo. Se eu pulasse, poderia me transformar em um peixe e fugir até um local seguro. Mas para isso, minha próxima ação tinha que funcionar. Ele estava abrindo a boca para dizer algo, mas em um movimento rápido acertei com a pedra em sua cabeça, a pedra começou a absorvê-lo para dentro dela, trancando-o por alguns instantes. Na mesma hora uma tempestade se formou, uma chuva forte começou a cair. Raios pareciam dançar no céu. Sem pensar duas vezes tentei me levantar, a dor em minha perna era excruciante, mas eu consegui ficar de pé. E além da dor de ficar em pé, tinha que suportar a da chuva batendo na minha perna.
A cada passo que eu dava, minha dor aumentava. Mancando muito e me apoiando nas arvores consegui avistar o penhasco logo à frente e se aproximando. Foi ai que eu vi um clarão na minha frente junto com um som de trovão ensurdecedor. Tapei meus olhos para protegê-los da claridade e quando olhei para frente novamente, lá estava o Raijuu, parado como uma mãe protegendo seus filhotes, rosnando. Ele faria de tudo para não me deixar passar. Então eu o levaria para baixo se fosse preciso. Comecei a andar em sua direção, eu só precisava chegar perto e pular em sua direção arrastando-o para o abismo. Um metro era o que restava para alcançar ele. Mas então, algo aconteceu. Eu ouvi um barulho alto atrás de mim seguido de uma pontada forte em minhas costas, como se algo tivesse me perfurado. Meu corpo ficou fraco, mas ainda sim continuava a dar passos em direção ao penhasco. Minha visão começou a apagar, com um ultimo esforço eu me virei para ver quem era antes de pisar em falso e cair. Eu o vi. Aqueles lindos olhos. Os olhos daquele que sempre esteve do meu lado, mesmo quando eu não merecia. Ele atirou em mim, não consegui ver com o que. Bom, pelo menos foi por suas mãos, isso me deu certa paz no coração. Tudo que eu conseguia ver agora era ele olhando minha queda do topo do penhasco.
Morta...
...Eu fui morta...
...Pelo meu próprio irmão...
...Meus olhos se fecharam pela ultima vez naquele mundo que um dia eu chamei de meu...
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