A Beutiful Lie
4 4 - Tom
Notas iniciais
Depois de tanta coisa errada, resolvi ir para casa. Hannah e Brandon saíram juntos, Chris tinha um encontro, e Alice saiu com Chuck. Eu não gostava dele nem um pouco. Também achei melhor ficar sozinho um pouco, mas havia se tornado impossível ficar sozinho.
Onde quer que eu fosse, aquelas malditas mensagens me seguiam. "Você não pode se livrar das suas mentiras", disse a última. Não entendia o que elas diziam, nem o porquê. Só queria que me deixassem em paz.
Andava tranquilo pela rua quando mais uma chegou. Retirei o celular relutante do bolso e li a mensagem.
"Você devia ir para casa, tenho uma surpresa para você"
Não tinha número, não tinha remetente, não tinha assinatura, era como lutar com o invisível. Eu já estava a ponto de explodir, mais uma mensagem dessa e eu sairia matando quem aparecesse na minha frente. Qual havia sido meu erro? Eu gostaria que alguém aparecesse e me dissesse, para que eu pudesse por um fim nisso. Uma semana havia se passado e eu já não aguentava mais essas mensagens.
Coloquei a mão no bolso esquerdo. Ele era fundo e havia alguns papéis picados, algumas moedas e... Deslizei o dedo e o retirei do bolso. O examinei de lado à lado. Ainda parecia tão certo, tão bom. Era a única coisa que ainda podia me ajudar, me acalmar. Eu só precisava de um fosforo, tudo voltaria ao normal.
Imediatamente minha mente voltou alguns meses; Alice estava gritando comigo novamente, enquanto a chuva molhava seus cabelos loiros. Seus olhos vermelhos, seu tom agressivo, a raiva e decepção no seu rosto, cada detalhe queria retirar minha vontade de viver. "Vá em frente", dizia ela, mostrando que eu não devia ir em frente. "Você quer se perder?! Você é cego, Tomas? Você já viu alguém que se deu bem fumando? Você vai acabar consigo mesmo. Escolha. Escolha o seu cigarro. Acabe com a sua vida.". Ela chorava. Muito. E aquilo me destroía. À partir daquele momento comecei a me arrepender de todas as vezes em que coloquei um cigarro na minha boca.
Deixei o cigarro cair no chão e continuei andando para casa. Nenhuma mensagem chegou enquanto eu estava à caminho. Felizmente.
Assim que entrei me joguei no sofá e liguei a TV. Comecei a passar de canal em canal, nada de bom. Estava cansado, havia tido um dia cheio. Talvez eu só precisasse dormir um pouco.
Subi as escadas cansado, e assim que cheguei na porta do quarto ouvi barulhos estranhos. Meu pai estava trabalhando. Gil estava na escola, minha mãe estava... era dia de compras, mas havia alguém em casa. Andei devagar, imaginando que podia ser a mesma pessoa que estava enviando as mensagens.
Meu estomago revirava enquanto me aproximava do quarto. Não eram mais sussurros, apenas gemidos. Empurrei a porta do quarto lentamente. Eles estavam abraçados, o corpo dele sobre o dela. Ele estava beijando minha mãe, mas não era meu pai.
Sai de casa sem dizer nada, não ousei voltar lá para olhar algo. Tudo aquilo já era demais para mim, não sabia se conseguia aguentar algo.
Não sabia como pensar, ou me sentir. Não iria chorar, claro. Ela era uma idiota, ele outro idiota, meu pai um idiota. Todos idiotas, inclusive eu.
Me sentei em uma calçada qualquer e me apoiei a um poste. Eu estava chorando, que ridículo. Ridículo era a palavra do momento, descrevia claramente como eu me sentia. Tinha nojo. Vergonha. Vergonha de mim mesmo. Me sentia sujo. Eu a odiava, ela não podia ter feito isso. Qual o motivo? Será que não éramos suficiente? Apoiei a cabeça no poste e fiquei olhando pro céu cinzento, sem vida.
Mais tarde passei em um bar e comprei um maço de cigarro, sem pensar em nada. Eu não me importava com mais nada. Me sentei em outra calçada, enquanto fumava. Eu me sentia bem de novo. Não, não sentia. Mas que se foda, ela faz as merdas dela, não vou pagar.
Me lembro de uma amiga que disse há muito tempo que eu devia ser mais egoísta. Não devia me importar muito com as coisas, quem sabe ela não estava certa? Fiquei andando sem rumo. Felizmente... não houve nenhum "felizmente" no dia.
Depois que o sol já havia se posto passei na casa do Brandon. Seus pais não estavam, então não tinha comida.
Passei direto pela porta e me joguei no sofá em que ele estava. Me lançou um olhar irritado e se jogou na poltrona.
— Você esta assistindo Lost... Sério isso? — Brandon franziu o cenho, enquanto eu tentava não rir. — Sério mesmo?
— Qual o problema? — ele estava mesmo confuso.
Sorri e comecei a mudar de canal. Brandon atirou uma revista, um livro, ou alguma coisa parecida em mim. O ignorei e continuei a trocar de canal.
— O que houve? — disse ele, folheando um livro que estava sobre o criado mudo.
— Nada — e ninguém disse mais nada. Esse era o legal de ficar na companhia de Brandon, ele sabe quando você não está legal e o que precisa. Ele não perguntou nada, na hora certa eu iria falar.
— E você e Hannah? — falei desligando a TV. Brandon me olhou, depois levantou e pegou o celular. Deu dois toques e depois me jogou com uma foto na tela. — O que é isso?
Examinei a foto. Meu Deus.
— Quem te mandou isso foi... — e não precisei de respostas, só pelo olhar dele já estava claro. Alguém estava brincando conosco. — O que ele ou ela quer?
Olhei a foto novamente. Brandon estava sobre Chris ao lado de uma árvore. Não pude não pensar na minha mãe e em como eu me sentia mal. Eu e Hannah estávamos do mesmo jeito, havíamos sido traídos.
— A verdade. Ele disse que depois que Hannah souber de tudo, isso acaba.
— Então você deve contar a verdade. — Me levantei pronto pra sair de lá. — Você não devia nem ter feito isso.
Brandon gritou algo como "espera" mas eu já tinha saído. Não conseguia ficar lá. Não conseguia ficar em lugar nenhum. Era um daqueles dias que você não quer existir, só que um pouco pior.
Continuei andando e andando, sem rumo. Eu estava chorando de novo, o que fazia tudo parecer mais ridículo. Acendi outro cigarro e continuei andando pelas ruas escuras e sem vida. Em algum trecho de algum lugar que eu já não sabia, pois já estava bêbado — cansado, parei em outro bar e comprei bebida, eu precisava esquecer tudo — ouvi uma risada familiar, era uma sorveteria, a preferida de Alice. Ela estava rindo com Chuck.
Virei a esquina contraria à ela. Fiquei aliviado por saber que pelo menos alguém estava feliz. Brandon, eu, Chris, todos estávamos sendo perseguidos por essa pessoa que nem o nome eu sabia.
Tentei manter meu ódio no ameaçador. Era melhor evitar pensar em como eu me sentia perante tudo o que estava acontecendo. Eu não estava aliviado por ver Alice ao lado de Chuck, estava bravo com meu melhor amigo e eu tinha nojo da minha própria mãe. Não conseguia imaginar o quão doloroso seria voltar pra casa um dia e olhar pra cara dela. Não podia nem pensar.
Logo cheguei à praia e me sentei de baixo de um coqueiro. Coloquei o maço de cigarro de um lado e a bebida do outro, e comecei a olhar o vai e vem das ondas.
Uma sombra se sentou ao meu lado e começou a me olhar.
— Alice — especulei. Ela respirou fundo até dizer:
— O que faz aqui?
— Nada — falei seco.
Alice parecia irritada, triste, decepcionada.
— O que aconteceu? — ela estava chorando. Resolvi não me virar para vê-la.
— Nada — respondi ainda seco. Eu não podia falar nada pra ela, nem mesmo beija-la — mesmo que fosse o que eu mais queria fazer —, ela não me perdoaria.
— E você vai desistir de novo? Vai entregar tudo? Tomas... — estava a ignorando. Ela chorava cada vez mais, o que não era justo, considerando que eu havia acabado de descobrir que minha mãe tem um amante, que minha vida estava uma merda. Ela estava rindo com o amigo dela há alguns minutos, enquanto eu era obrigado a ver tudo.
— Você não devia ter vindo aqui.
— Eu te amo, Tomas — então ela abraçou meu braço e começou a chorar. Odeio isso. Tentei não chorar novamente mas não consegui. Ela permaneceu do meu lado mais alguns segundos, então se levantou, deu um beijo na bochecha e saiu.
Eu estava sozinho de novo, por bem ou por mal. Não sabia o que isso significava, se comemorava, ou chorava. Provavelmente choraria, mas eu estava cansado demais até para isso. Deitei a cabeça na areia antes que eu explodisse.
Califórnia e suas praias perfeitas...
Por momento a minha única preocupação era que nenhum coco caísse na minha cabeça
Fale com o autor