A Better Man
5 Quinto Cap. — Posso-me Apaixonar Por Ti?!
I would call you up every saturday night
And we'd both stay out 'til the morning light
And we sang, "here we go again"
And though time goes by
I will always be
In a club with you
In nineteen seventy three
Singing "here we go again"
— James Blunt in 1973
Saturday, 10:37 a.m. Adam’s House, Arizona
Adam não teve tempo de correr as cortinas cinco dias antes, antes de reencontrar Montreal e as memórias já vagas que rapidamente ficaram claras e frescas na sua mente, não teve tempo para muita coisa, como lavar a loiça que ainda estava na pia e, muito provavelmente, dura.
As cortinas pareciam o menor dos problemas assim que desse conta da quantidade da loiça e da qualidade de sujidade, mas não era. As cortinas seriam a primeira coisa que daria conta, aqueles raios inúteis que faziam pelas dez horas da manhã.
Adam franziu a testa de olhos fechados devido ao incómodo. Queria dizer um palavrão profundamente feio que seria censurado, mesmo na vida real, e espreguiçar-se enquanto isso. O seu corpo estava quente, um calor humano, que tinha feito com que o seu braço tivesse ficado dormente.
Kimberly, era a sua Kimberly que ali estava. Estavam ambos vestidos, não seria capaz de se perdoar a si mesmo, se tivesse havido alguma coisa para além do beijo de ontem. Não queria ser o desgosto na vida de Kimberly. Previa-se numa memória distante e futura, onde depois daquele desgosto, ela encontraria o amor da sua vida e ele… ele acabaria como alcoólatra sozinho a vaguear por algures distante dela.
Nunca tinha chegado tão perto de Kimberly como no dia anterior e neste mesmo dia. Não queria acordá-la, ela podia ficar assustada e ir-se embora, uma vez mais… Não queria que ela fosse, queria que ela permanecesse futuramente e partilhasse a cama com ela.
− Bom dia? – Kimberly falou rouca e de olhos ainda fechados. Adam sentiu o seu coração tão acelerado como se tivesse corrido quarenta quilómetros em duas horas numa maratona. O que lhe diria?
− Bom dia. – Adam sorriu-lhe entre o nervosismo que já o fazia suar. A mão esquerda de Kimberly estava sobre o seu peito. Era estranho para ambos. – Como estás?
− Eu? Eu estou bem, já quanto a ti… duvido. – Kimberly encarou-o e riu-se. Em parte era verdade. A sua cabeça doía tanto como se tivesse dado uma cabeçada numa parede de cimento.
− Porque dizes isso? – Adam tentou rir, porque sabia que a sua cabeça iria explodir.
− Tive que te carregar, digamos, para casa. Quando chegamos, finalmente, ao teu luxuoso apartamento fiz-te um café e tu, bem… tu passaste um bocado mal. Acabaste por sujar um pouco da camisa branca enquanto vomitavas todo o álcool que tinhas bebido. – Kimberly queria rir, não o fez. – Tive de te tirar a camisa, pô-la a lavar, vestir-te e guiar-te para a tua própria cama. – Adam coçou os olhos com os dedos em sinal de vergonha. – E quando me ia embora, puxaste-me e disseste alguma coisa – Adam lembrava-se vagamente das palavras – alguma coisa como “Não te vou deixar ir outra vez.”.
− Não me lembro de metade das merdas que fiz. Apaguei completamente, ontem. – Adam colocou as costas da mão direita sobre a testa e encarou o teto. O olhar desiludido de Kimberly incendiou-o.
− A sério? Está bem… − Kimberly tinha percebido que certamente seria renegada se lhe falasse do dito cujo beijo.
Queria ir-se embora dali. Já devia saber que não havia amores entre melhores amigos desde sempre. Não aprendia que Adam nunca olharia para ela? Quem olharia? Adam Stalteri? Ele poderia ter a mulher que quisesse ao seu lado, por favor!
Adam puxou-a para perto, mais perto ainda. Afagou-lhe a mão esquerda no cabelo e a mão direita na mão dela que ainda estava sobre o seu peito. Queria que ela olhasse para ele da maneira que ele a olhava há anos.
Kimberly não debateu contra ele, seria insignificante. Deixou-se estar. Era o seu sonho de adolescente tê-lo como amor da sua vida. Queria que ele se interessasse por uma pobre vulgar.
− Eu lembro-me dos teus lábios. – Kimberly sorriu ao ver as suas esperanças quase realizadas. – Tudo em ti é maravilhoso. – Adam acariciou a bochecha esquerda dela.
Desta vez foi a vez de Kimberly avançar na direção dele e beijá-lo sem tirar a mão do seu peito. Foi bom repetir, foi bom repetir mesmo ainda com o sabor fraco de álcool e café. Separaram-se com selinhos. Kimberly deitou a sua cabeça no ombro dele e voltou a adormecer e a ser admirada por Adam.
Friday, 02:58 p.m. Arizona Police, Arizona
Tinha-se passado uma semana depois do primeiro e segundo beijo deles. O que se sucedeu depois do segundo beijo foi constrangedor para um não-casal de namorados.
“Depois de Kimberly adormecer, Adam ficou um longo tempo a admirar toda a extensão do corpo da morena. Não se lembrava de reparar muito no seu físico anteriormente.
Depois de se rever nos momentos da sua adolescência, acabou por adormecer novamente com Kimberly no seu ombro.
Dormiram por pouco tempo. Duas horas e meia foram o suficiente para ambos recuperarem dos últimos cinco dias, embora a noite passada tivesse sido parecida a arrancar-lhes a alma.
Kimberly acordou primeiro e ficou constrangida por sentir Adam atrás de si, agarrado ao seu corpo e de ter o peso dele junto a si. O coração disparou quase a saltar pela boca.
Adam começou a dar sinais que acordaria em breve quando apertou Kimberly contra si e por ter passado as suas mãos da barriga de Kimberly para as suas coxas.
− Kim? Desculpa, não sei o que se passa, mas… − Adam tinha despertado assim que tocou na pele quente dela. Kimberly libertou-se dos seus braços musculosos, diferentes daquilo que se lembrava, e sentou-se na cama atordoada ainda.
− Não tens culpa de nada, eu permiti que o fizesses. – Adam sentou-se na cama de costas para ela, pensando em alguma coisa oportuna e inteligente para a acalmar sem a assustar. ”
Kimberly sentiu-se constrangida, não sabia o que aconteceria depois de toda aquela onda de sentimentos terminar. O clima durante toda a semana tinha sido tenso. Tenso, tenso, tenso. Kennedy conseguiu tirar as suas próprias conclusões certeiras como mísseis, a pressão e cuidado para que Lucille não desse conta, falha total, de um caso amoroso entre colegas de trabalho. Já todos tinham dado conta.
Tinham-se beijado algumas vezes longe dos olhares dos colegas. Seriam bombardeados com perguntas se os vissem aos beijos num canto.
− Tu precisas de falar com ela! – Kennedy tentava convencer o melhor amigo a esclarecer tudo com Kimberly. – Imediatamente!
— Porquê? – Adam adiava as coisas para o amanhã como ninguém. Não tinha coragem para abordar Kimberly sobre o que se passava entre eles. Sentia-se fraco e com o coração aos pulos quando estava perto de Kimberly e quando as coisas ficavam mais intimas.
— Puta que pariu, Stalteri! Tu já pensaste sequer na possibilidade de ela pensar que se calhar aquilo só aconteceu pela bebedeira ou carência? – Kennedy repreendeu Adam pela sua covardia, enquanto Adam estava ainda encostado à fotocopiadora.
— Eu sei, tu tens razão. Mas, achas que é fácil? Nós crescemos quase como irmãos. – Adam tentava a todo o custo dissuadir Kennedy a outra ideia.
— Achas que me convences? Achas que a maneira como falavas dela, como a descrevias, melhor dizendo, como tu a olhas, como lhe falas, sorris e beijas achas que é um sentimento de irmãos? – Adam coçou a nuca e foi-se embora, fosse o que fosse, abordaria de alguma forma Kimberly.
Kennedy sorriu vitorioso e sussurrou baixinho para si mesmo “Eu sabia!”. Adam sabia onde ela estava, sabia sempre. Sentia-se muito bem com a sua presença, mas ultimamente estava tenso. Tenso como o clima entre eles. Se Kimberly se afastasse estrangularia Kennedy e nunca se desculparia a si mesmo.
— Obrigada, Kim! – Camila estava com Kimberly no seu cubículo, a mesma sorriu-lhe sabendo do que se tratava. Camila saberia decerto pela amizade que tinha com Kimberly. Adam segurou a porta para Camila que agradeceu.
— Posso? – Adam reparou nas curvas da garota diante de si, Kimberly envergava uma saia lápis preta. Perguntou-se o porquê de se torturar e a ela.
— Claro! Entra. – Kimberly deitou alguns papéis ao lixo e encarou Adam. Perguntou-se porque algum homem como ele a olharia, eram só ilusões da sua carência desesperada.
— O que se passa connosco? – Adam avançou e olhou-a no fundo dos seus olhos, onde estaria algures a sua resposta negativa aos seus sentimentos e a sua visão perfeita de alcoólatra no futuro.
— De facto, eu não sei. – Kimberly molhou os lábios, afastou o olhar e arfou pesadíssimo. Oh, como ele lhe queria acariciar a sua face. – É tudo, quase, novo. Não sei porque estamos neste empate e desempata. Sinto-me cansada, não quero afastar-me permanentemente do meu melhor amigo ou o que queres que sejas agora. – Kimberly chegou-se para perto dele e segurou-lhe nas mãos.
— Também gostaria de perceber. – Adam confessou-lhe retribuindo carícias nas palmas das mãos. – Podemos falar mais tarde? Hoje há uma feira popular, queres vir?
— Claro. Acho que nos vai fazer bem. Espero por ti quando acabar o meu trabalho aqui. – Kimberly sorriu-lhe aproximando-se dele. Sentiu que era errado juntamente com a respiração dele. Esticou-se e beijou-o, sentiu que ele não esperava por aquilo, mesmo assim ele retribuiu.
Friday, 22:07 p.m. Arizona Police, Arizona
Adam estava à espera de Kimberly no corredor àquele que condicionava aos cubículos do Departamento de Criminalística Cibernética. Esperava que Kimberly não se demorasse muito, queria parar aquela tortura de anos que tinha virado um pesadelo doce no último dia.
Ouviu o som dos saltos altos de Kimberly ecoarem pelo corredor de azulejos azuis. Estava deslumbrante, magnífica.
— Estás maravilhosa, Kim… – Adam mordeu o lábio inferior fazendo Kimberly corar como um tomate e aumentar a sua ansiedade.
Adam vestiu o casaco e deu o braço a Kimberly que ainda hesitou. Saíram do edifício sem que os seus colegas próximos os vissem. Adam fez questão de a levar no seu carro, não tinha paciência para andar de lá até à feira popular.
Friday, 22:24 p.m. Arizona
O trânsito estava um caos. Sexta-feira era usualmente corrida, todos queriam voltar para as suas casas que ficavam em cidades distantes de Arizona, para não falar que também havia o ocorrido da feira popular.
Adam e Kimberly estavam impacientes. Não sabem como, mas quando deram conta estavam a relembrar de várias coisas que tinham acontecido durante a sua adolescência, sem nunca tocar no assunto-problema.
Quando saíram do trânsito, conseguiram encontrar milagrosamente um parque de estacionamento. Kimberly saiu do carro juntamente com Adam que lhe voltou a oferecer o braço.
Friday, 22:27 p.m. Popular Fair, Arizona
− Os meus pais costumavam trazer-me aqui todos os anos no verão. Era a cidade natal dos meus bisavôs maternos. – Adam sorriu genuinamente.
Kimberly admirava o local que parecia uma indireta para eles, tinha a barraca dos beijos, a barraca do casal com o beijo mais longo, barracas com venda de camisolas com frases de casais, enfim… Kimberly engoliu em seco.
− Aqui tens. – Adam passou-lhe um algodão doce embalado com uma decoração muito caprichada.
− Eu não te pedi nada, Adam. Vou ficar a dever-te uma. – Kimberly ficou surpreendida com o seu ato.
− Não te preocupes, não vou obter nenhum mandato de busca por menos de seis dólares. – Adam tirou um pouco de algodão da embalagem.
Kimberly e Adam não tinham energia nem interesse em carrinhos de choque ou carrosséis, preferiam ficar pelos jogos de tiro ao alvo e outros que pareciam jogos viciados.
− Aqui tem para oferecer à sua namorada, jovem. – Adam conseguiu ganhar um jogo de dardos. O dono da barraca do jogo, que aparentava ter à volta de cinquenta anos, passou para as mãos um elefante adorável de tamanho médio. Adam não corrigiu o “namorada”, não quis.
Saturday, 01:12 a.m. Popular Fair, Arizona
Ainda estavam imensas pessoas na feira popular por ser fim-de-semana. Kimberly puxou Adam para um lugar menos movimentado, um pouco fora da feira popular.
− Precisamos falar… − Adam encarou as suas mãos e molhou os lábios.
− Eu sei disso e tu também. O que se passa connosco? – Kimberly ajeitou-se no banco.
− É estranho, mas são as consequências. – Kimberly não percebeu o que ele queria dizer com “consequências”. Que consequências? – Kim, isto é torturante. Estou há sete anos apaixonado por ti, já não quero saber se a nossa amizade acabar. Só quero acabar com esta prisão de ter ver partir e de te ver voltar, e eu sou apenas o teu melhor amigo desde sempre. – Adam falou-lhe sério enquanto tentava encontrar um reconforto naquilo que dizia. Kimberly parecia espantada e apanhada de surpresa. Ele estava apaixonado por ela há sete anos!
− Tu não sabes o alívio que isso me proporciona. – Ela riu-se pelo stresse. Não sabia como lhe confessar aquilo que já estava ali há tempos infinitos. – Tu sempre foste um género de crush, mas tu tinhas as namoradas que quisesses quando querias. Tu mudaste-te para aqui e eu pensei que nunca mais nos cruzaríamos. Agora, agora tu és um homem adulto, diferente e de físico invejável. Jurava que nunca olharias para mim.
Adam sorriu-lhe e enxaguou a lágrima que correr pelo rosto dela, era a sua libertação. Ele iria namorar a sua melhor amiga da adolescência, aquela que sempre amou de verdade, aquela que lhe ensinou o que era o amor.
Adam e Kimberly avançaram ao mesmo tempo selando os seus lábios num beijo profundo, apaixonado e contente. Já não precisavam de imaginar futuros trágicos com as vidas separadas um do outro.
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